Como Treinar o Seu Dragão

Trecho do Livro: Como Treinar o Seu Dragão
Como Treinar o Seu Dragao
Autora: Cressida Cowell
Editora: Intrínseca
ISBN: 9788598078717

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Os dragões existiam quando eu era menino.

Havia os grandes e austeros dragões celestes, que se aninhavam no alto dos rochedos como se fossem pássaros gigantescos e assustadores. Os dragões pequeninos, marrons, de cauda curta, que perseguiam ratos e camundongos em bandos bem organizados. Os Dragões do Mar, absurdamente imensos, vinte vezes maiores que uma baleia-azul, que matavam só por diversão.

Você precisará acreditar em minhas palavras, pois os dragões estão desaparecendo tão rapidamente que logo estarão extintos.

Ninguém sabe o que está acontecendo. Eles estão voltando aos mares de onde vieram, sem deixar um osso, uma garra, um indício qualquer para que os humanos do futuro possam recordar-se deles.

Então, para que essas criaturas excepcionais não sejam esquecidas, eu lhes contarei a verdadeira história de minha infância.

Eu não fui o tipo de garoto capaz de treinar um dragão apenas com um erguer de sobrancelhas. Eu não era um herói nato. Precisei me esforçar muito. Esta é a história de como me tornei herói do jeito mais difícil que existe.

1. PRIMEIRO, CAPTURE O SEU DRAGÃO

Há muito tempo, na selvagem e ventosa Ilha de Berk, um viking pequenino com nome comprido estava de pé na neve.

Soluço Spantosicus Strondus Terceiro, a Grande Esperança e o Herdeiro da Tribo dos Hooligans Cabeludos, sentia-se levemente enjoado desde que despertara pela manhã.

Dez garotos, incluindo Soluço, esperavam se tornar membros da Tribo após passarem no Programa de Iniciação em Dragões. Eles estavam de pé na pequena praia deserta, no lugar mais vazio da desolada ilha. Caía muita neve.

– PRESTEM ATENÇÃO! – gritou Bocão Bonarroto, o soldado encarregado de fazer a Iniciação. – Esta será nossa primeira operação militar, Soluço será o comandante do grupo.

– Ah, o So-luço, não – grunhiram Bafoca de Maluquício e a maioria dos garotos. – Não pode colocá-lo no comando, senhor, ele é um INÚTIL.

Soluço Spantosicus Strondus Terceiro, a Grande Esperança e o Herdeiro da Tribo dos Hooligans Cabeludos, limpou o nariz na manga da roupa, desanimado. Ele afundou um pouco mais na neve.

– QUALQUER UM seria melhor que Soluço – zombou Malvado Melequento. – Até mesmo Perna-de-peixe.

Perna-de-peixe tinha um estrabismo que o deixava quase cego e era alérgico a répteis.

– SILÊNCIO! – rugiu Bocão Bonarroto. – Quem mais abrir a boca vai comer moluscos no almoço nas próximas TRÊS SEMANAS!

O silêncio foi imediato. Moluscos parecem minhoca, ou meleca, e são bem menos saborosos que qualquer um dos dois.

– Soluço será o responsável, e isso é uma ordem! – gritou Bocão, que não sabia falar mais baixo. Ele era um gigante de dois metros com um brilho alucinado no olhar e uma barba que parecia fogos de artifício explodindo. Apesar do frio extremo, usava bermudas e um colete de couro de veado que deixava entrever sua pele vermelho-lagosta e seus enormes músculos. O viking trazia uma tocha flamejante na mão gigantesca.

– Soluço será o líder, embora ele seja, eu admito, completamente inútil, porque o garoto é o filho do CHEFE, e é assim que funciona entre nós, vikings. Onde vocês pensam que estão? Na REPÚBLICA ROMANA? De qualquer modo, esse, hoje, será o menor de seus problemas. Vocês estão aqui para provar sua capacidade de se tornarem Heróis Vikings. Essa é uma antiga tradição da Tribo dos Hooligans. Vocês precisam… – Bocão fez uma pausa, bem teatral. – PRIMEIRO, CAPTURAR O SEU DRAGÃO!

“Com mil moluscos!”, pensou Soluço.

– Nossos dragões são o que nos diferencia! – gritou Bocão. – Humanos treinam gaviões para caçar e cavalos para carregá-los. Apenas os HERÓIS VIKINGS se atrevem a domar as criaturas mais selvagens e perigosas da face da Terra.

Bocão cuspiu na neve com ar solene.

– O Teste de Iniciação em Captura de Dragões tem três etapas. A primeira, e mais perigosa, avalia sua coragem e habilidade de assalto. Se querem entrar na Tribo dos Hooligans, primeiro vocês precisam capturar os seus dragões. E é POR ISSO – prosseguiu Bocão, falando bem alto – que eu os trouxe ao cenário adequado. Vejam o Rochedo do Dragão Selvagem com os próprios olhos.

Os dez garotos viraram a cabeça para trás.

O rochedo se elevava diante deles, sombrio e sinistro. No verão, mal se podia vê-lo, pois dragões de todos os formatos e tamanhos se empoleiravam por ali, grunhindo, mordendo e produzindo uma cacofonia, com ruídos que se espalhavam por toda a região de Berk.

No inverno, porém, os dragões hibernavam e o rochedo caía no silêncio, com exceção de alguns roncos abafados e lúgubres. Soluço sentia nas sandálias as vibrações sob seus pés.

– Agora – disse Bocão –, vocês repararam naquelas quatro cavernas que ficam na metade do rochedo, agrupadas mais ou menos no formato de uma caveira?

Os meninos concordaram com um aceno de cabeça.

– Dentro da caverna que seria o olho direito da caveira está a creche dos dragõezinhos, onde, NESTE EXATO MOMENTO, três mil filhotes de dragão estão hibernando, em suas últimas semanas de inverno.

– OOOOOOOH! – murmuram os meninos, animados.

Soluço engoliu em seco. Ele sabia muito mais sobre dragões que qualquer outra pessoa ali. Desde pequeno era fascinado por essas criaturas. Passara horas observando-as, escondido. (Os observadores de dragões eram considerados nerds, por isso mantinham suas atividades em segredo.) E tudo o que Soluço aprendera sobre dragões lhe dizia que entrar em uma caverna com três mil deles seria loucura.

Mas ninguém parecia muito preocupado com isso.

– Em poucos minutos vou querer que vocês escolham uma dessas cestas e comecem a escalar o rochedo – comandou Bocão. – Depois que tiverem passado pela entrada da caverna, ninguém os ajudará. Sou grande demais para me espremer pelos túneis que levam à creche de dragões. Vocês entrarão na caverna SILENCIOSAMENTE. E isso também se aplica a você, Espinha-de-porco, a menos que queira ser a primeira refeição primaveril de três mil dragões famintos. HÁ! HÁ! HÁ! HÁ!

Bocão riu muito de sua própria piada, depois continuou:

– Dragões desse porte normalmente são inofensivos aos seres humanos, mas em grande número podem agir como piranhas. Não sobraria nada de ninguém, nem mesmo de um gordinho como você, Espinha-de-porco. Só restariam uma pilha de ossos e seu capacete. HÁ! HÁ! HÁ! HÁ! Então… Vocês caminharão SILENCIOSAMENTE pela caverna e cada garoto vai roubar UM dragão adormecido. Ergam o dragão da rocha CUIDADOSAMENTE e coloquem o bicho dentro de sua cesta. Alguma dúvida até aqui?

Ninguém disse nada.

– Se por acaso alguém despertar o dragão, e é preciso ser ABSURDAMENTE IDIOTA para fazer isso, corram a toda a velocidade para a entrada da caverna. Os dragões não gostam de frio, e a neve provavelmente os impedirá de seguir seus rastros.

“Provavelmente?”, pensou Soluço. “Ah, claro, isso é animador.”

– Sugiro que dediquem algum tempo a escolher o seu dragão. É importante apanhar um bicho que seja do tamanho certo. Ele vai pescar e caçar veados para vocês. Vão escolher o dragão que os conduzirá à batalha futuramente, quando vocês forem mais velhos e tiverem se tornado Guerreiros da Tribo. Além disso, vocês querem um animal impressionante, então, grosseiramente, a regra é: peguem o maior dragão que couber na cesta. Não demorem MUITO tempo lá dentro…

“Demorar???”, pensou Soluço. “Dentro de uma caverna com três mil DRAGÕES adormecidos?”

– Não preciso lhes dizer – prosseguiu Bocão, animado – que se for para voltar sem dragão nem vale a pena chegar até aqui. Todos os que FALHAREM nesse teste serão imediatamente exilados. A Tribo dos Hooligans Cabeludos não aceita FRACASSADOS. Só os mais fortes permanecem.

Com tristeza, Soluço fitou o horizonte. Só viu neve e mar. O exílio também não lhe parecia nem um pouquinho promissor.

– CERTO! – disse Bocão depressa. – Cada um pegue uma cesta para enfiar o seu dragão e vamos em frente.

Os garotos correram para apanhar as cestas, conversando felizes e animados.

– Vou pegar um dragão do tipo Pesadelo Monstruoso com garras extralongas, porque eles são muito assustadores – gabou-se Melequento.

– Ah, cale a boca, Melequento, você não pode fazer isso – disse Punho Rápido. – Só Soluço pode ter um dragão Pesadelo Monstruoso, você precisa ser o filho do Chefe para isso.

O pai de Soluço era Stoico, o Imenso – o temível Chefe da Tribo dos Hooligans Cabeludos.

– SO-LUÇO? – disse Melequento, com ironia. – Se ele for tão inútil quanto é no jogo de Batebolada, será uma sorte se conseguir um Dragão Comum.

O Dragão Comum era uma fera obediente, mas sem charme algum.

– CALEM A BOCA E ENTREM NA FILA, SEUS MISERÁVEIS! – gritou Bocão.

Os garotos se atropelaram para chegar a seus lugares, as cestas nas costas, e prestaram atenção. Bocão percorreu a forma e acendeu com as poderosas chamas que carregava as tochas que cada menino erguia diante de si.

– DAQUI A MEIA HORA VOCÊS SERÃO GUERREIROS VIKINGS, COM UM FIEL RÉPTIL A SEU LADO… OU ESTARÃO TOMANDO CHÁ COM O DEUS ODIN EM VALHALA, O CAMPO DOS GUERREIROS MORTOS, COM O TRASEIRO MARCADO POR DENTES DE DRAGÃO! – gritou Bocão com seu horrível entusiasmo.

Bocão continuou berrando:

– MORTE OU GLÓRIA!

– MORTE OU GLÓRIA! – gritaram de volta fanaticamente oito garotos.

“Morte…”, pensaram Soluço e Perna-de-peixe, com tristeza.

Bocão fez uma pausa dramática, levando a corneta de chifre aos lábios.

“Acho que este é o pior momento da minha vida ATÉ AGORA”, pensou Soluço, enquanto esperava pelo toque da corneta. “E se eles começarem a gritar ainda mais alto vamos acordar os dragões antes mesmo de começarmos a capturá-los.”

Bocão tocou a corneta: FOOOMMM!!!

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