Trecho do Livro: O Inocente | John Grisham

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Trecho do Livro: O Inocente | John Grisham
Livro O Inocente
Autor: John Grisham
Editora: Rocco
ISBN: 8532521223

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As colinas ondulantes do sudeste de Oklahoma estendem-se de Norman até Arkansas e exibem poucas evidências dos vastos depósitos de petróleo que costumavam abrigar em seu subsolo. Algumas velhas torres de perfuração ainda pontilham os campos; as ativas ainda bombeiam uns poucos galões a cada movimento lento, o que leva alguém de passagem a especular se o esforço vale mesmo a pena. Muitas torres foram simplesmente abandonadas e permanecem imóveis nos campos, como lembretes corroídos dos dias de glória com seus poços abundantes, aventureiros dispostos a correr riscos e fortunas feitas da noite para o dia.

Há torres espalhadas pelas terras agrícolas em torno de Ada, uma cidade antiga, com 16 mil habitantes, uma universidade e o tribunal do condado. As torres estão ociosas porque o petróleo acabou. Agora ganha-se dinheiro em Ada por hora, nas fábricas, moinhos de ração e plantações de pecãs.

O centro de Ada é bastante movimentado. Não há prédios vazios ou fechados com tábuas na Main Street, a rua principal. Os comerciantes sobrevivem, embora grande parte de suas vendas tenha sido transferida para as lojas na periferia da cidade. Os cafés ficam lotados na hora do almoço.

O prédio do tribunal do condado de Pontotoc é velho e apertado, fervilhando com advogados e seus clientes. Há ao redor a miscelânea habitual de prédios públicos e escritórios de advocacia. A cadeia sem janelas, mais parecendo um abrigo antiaéreo, foi construída, por algum motivo remoto, no gramado na frente do tribunal. O flagelo da metanfetamina a mantém sempre lotada.

A rua principal acaba no campus da East Central University, que tem quatro mil alunos. Muitos não residem em seus dormitórios. A universidade bombeia vida na comunidade, com um suprimento renovado de jovens e um corpo docente que acrescenta alguma diversidade à região sudeste de Oklahoma.

Poucas coisas escapam à atenção do Ada Evening News, um vibrante jornal diário que cobre a região e se empenha ao máximo para competir com o Oklahoman, o maior jornal do estado. De um modo geral, apresenta na primeira página as notícias internacionais e nacionais, depois as estaduais e regionais, em seguida os itens importantes, como esportes nas escolas secundárias, política local, eventos comunitários e obituários.

Os habitantes de Ada e do condado de Pontotoc são uma mistura agradável de sulistas interioranos e de representantes típicos da independência do Oeste americano. O sotaque poderia ser do leste do Texas ou de Arkansas, com suas vogais alongadas. Território dos índios chickasaws, Oklahoma tem mais nativos americanos do que qualquer outro estado; e depois de 100 anos de miscigenação, muitos brancos têm sangue indígena. O estigma desaparece depressa; na verdade, há agora um orgulho por essa herança.

O chamado Cinturão da Bíblia passa por Ada. A cidade tem 50 igrejas de uma dúzia de denominações do cristianismo, todas muito ativas, não só aos domingos. Há uma igreja católica, outra episcopal, mas nenhuma sinagoga. Quase todas as pessoas são cristãs, ou alegam ser; pertencer a uma igreja é a atitude esperada. A posição social de uma pessoa é em geral determinada por sua filiação religiosa.

Com 16 mil habitantes, Ada é considerada grande para os padrões da região rural de Oklahoma, o que atrai fábricas e grandes redes de varejo. Os trabalhadores e compradores podem vir de carro de vários condados vizinhos. A cidade fica 130 quilômetros ao sul e a leste de Oklahoma City e a três horas de carro do norte de Dallas. Todo mundo conhece alguém que mora ou trabalha no Texas.

A maior fonte de orgulho local são os leilões de cavalos quarto-de-milha. Alguns dos melhores cavalos dessa raça são criados pelos rancheiros de Ada. E quando o Cougars, o time de futebol dos secundaristas, ganha um torneio estadual, a cidade se pavoneia por anos.

É um lugar hospitaleiro, com pessoas que gostam de conversar e não hesitam em falar com estranhos, sempre ansiosas por ajudar alguém em necessidade. As crianças brincam nos gramados sombreados na frente das casas. As portas permanecem abertas durante o dia. Os adolescentes circulam pela cidade à noite sem causarem maiores problemas.

Se não fosse por dois crimes que ganharam notoriedade no início dos anos 1980, Ada continuaria desconhecida pelo mundo. O que teria sido melhor para a boa gente do condado de Pontotoc.

Como se estabelecido por algum decreto municipal não-escrito, quase todos os bares e boates de Ada ficavam na periferia, banidos para as beiras da estrada, a fim de manter a ralé e suas mazelas longe das pessoas de bem. O Coachlight era uma dessas casas noturnas, um lugar cavernoso com má iluminação, cerveja barata, junkeboxes, uma banda nos fins de semana, uma pista de dança e um amplo estacionamento de cascalho onde picapes empoeiradas eram muito mais numerosas do que os sedãs. Seus freqüentadores regulares eram o que se poderia esperar: operários de fábrica querendo beber um pouco antes de voltar para casa, homens do campo em busca de diversão, jovens que gostavam da noite e o pessoal festeiro que vinha para ouvir música ao vivo. Vince Gill e Randy Travis tocaram ali no início de suas carreiras.

Era um lugar popular e movimentado que empregava muitos bartenders, leões-de-chácara e garçonetes, gente que precisava de um bico. Uma das garçonetes era Debbie Carter, uma garota local de 21 anos, que se formara na Ada High School poucos anos antes e aproveitava sua vida de solteira. Debbie tinha dois outros empregos, que também não eram fixos, e ainda ganhava algum dinheiro como babysitter. Tinha seu carro e morava sozinha num apartamento de três cômodos em cima de uma garagem na Eighth Street, perto da universidade. Era bonita, cabelos escuros, esguia, atlética, bastante popular entre os homens e muito independente.

A mãe, Peggy Stillwell, preocupava-se pelo fato de a filha passar tempo demais no Coachlight e em outras casas noturnas. Não criara a filha para levar esse tipo de vida; na verdade, Debbie fora criada na igreja. Depois de concluir o ensino médio, no entanto, passara a freqüentar festas e voltar para casa de madrugada. Peggy protestava e as duas brigavam de vez em quando por causa do novo estilo de vida. Debbie decidiu ter sua independência. Arrumou um apartamento e saiu de casa, mas continuou muito ligada à mãe.

Na noite de 7 de dezembro de 1982, Debbie trabalhava no Coachlight, servindo bebidas e atenta ao relógio. Era uma noite de pouco movimento e ela perguntou ao seu chefe se podia deixar o serviço para ficar com alguns amigos. Ele concordou. Debbie foi sentar à mesa em que estavam Gina Vietta, uma amiga de ensino médio, e outras pessoas. Outro amigo da escola, Glen Gore, aproximou-se e convidou-a para dançar. Debbie aceitou. Mas parou subitamente, no meio da música, furiosa, e deixou Gore sozinho na pista de dança. Mais tarde, no banheiro, ela disse que se sentiria mais segura se uma das amigas passasse a noite em seu apartamento. Mas não explicou o que a preocupava.

O Coachlight fechou cedo, por volta da meia-noite e meia. Gina Vietta convidou vários do grupo a tomarem outro drinque em seu apartamento. A maioria aceitou. Debbie, no entanto, disse que se sentia cansada e com fome, preferia ir para casa. Eles partiram, sem qualquer pressa.

Várias pessoas viram Debbie conversando no estacionamento com Glen Gore, enquanto o Coachlight fechava. Tommy Glover conhecia Debbie muito bem, porque trabalhava com ela numa vidraria local. Também conhecia Gore. Ao embarcar em sua picape para ir embora, viu Debbie abrir a porta do lado do motorista de seu carro. Gore surgiu do nada. Conversaram por alguns segundos, até que Debbie empurrou-o.

Mike e Terri Carpenter trabalhavam no Coachlight, ele como segurança, ela como garçonete. Passaram pelo carro de Debbie ao saírem. Ela estava sentada ao volante, conversando com Glen Gore, que estava de pé ao lado da porta. Os Carpenter acenaram em despedida e seguiram para seu carro. Um mês antes, Debbie dissera a Mike que tinha medo de Gore por causa de seu temperamento estourado.

Toni Ramsey trabalhava no Coachlight como engraxate. A indústria do petróleo ainda era próspera em Oklahoma no ano de 1982 e se usava muitas botas caras na área de Ada. Alguém tinha de engraxá-las, e Toni ganhava um dinheiro muito necessário com esse trabalho. Ela também conhecia Gore. Ao sair naquela noite, ela avistou Debbie sentada ao volante de seu carro. Gore estava no lado do passageiro, fora do carro, agachado junto da porta aberta. Conversavam aparentemente de maneira civilizada. A impressão era de que não havia nada errado.

Gore, que não tinha carro, viera para o Coachlight de carona com um conhecido, Ron West. Chegaram ali por volta das onze e meia da noite. West pediu cerveja e se sentou para relaxar, enquanto Gore dava uma volta. Parecia conhecer todo mundo. Quando anunciaram que o bar iria fechar, West foi perguntar a Gore se ainda queria uma carona. Gore respondeu que sim. West saiu para o estacionamento e ficou esperando. Poucos minutos depois, Gore apareceu, apressado, e entrou no carro.

Os dois estavam com fome. Foram para um café no centro, chamado Waffler, onde pediram um lanche rápido. West pagou, assim como também pagara as cervejas no Coachlight. Ele começara a noite no Harold’s, outra casa noturna, onde fora procurar alguns colegas de trabalho. Em vez disso, topara com Gore, que trabalhava ali ocasionalmente como barman e discjockey. Os dois mal se conheciam. Mas quando Gore pediu uma carona até o Coachlight, West não pôde negar.

West tinha um casamento feliz, com duas filhas pequenas, e não costumava ficar em bares até tarde da noite. Queria ir para casa, mas sentia-se preso a Gore, que se tornava mais dispendioso a cada hora que passava. Quando deixaram o café, West perguntou ao carona para onde queria ir. Para a casa de sua mãe, respondeu Gore, na Oak Street, alguns quarteirões para o norte. West conhecia bem a cidade e seguiu para a rua indicada. Mas antes de chegarem à Oak Street, Gore mudou de idéia de repente. Depois de circular com West por várias horas, Gore queria conversar. Fazia frio e a temperatura continuava a cair, com um vento forte soprando. Uma frente fria se aproximava.

Pararam perto da igreja batista da Oak Avenue, não muito longe do lugar em que Gore dissera que a mãe morava. Ele saltou, agradeceu por tudo e começou a se afastar, seguindo para oeste.

A igreja batista de Oak Avenue ficava a cerca de um quilômetro e meio do apartamento de Debbie Carter.

A mãe de Gore, na verdade, morava do outro lado da cidade, bem longe da igreja.

Por volta de duas e meia da madrugada, Gina Vietta estava em seu apartamento, com alguns amigos, quando recebeu dois telefonemas estranhos, ambos de Debbie Carter. No primeiro, Debbie pediu a Gina que fosse buscá-la de carro porque alguém, uma visita desagradável, estava em seu apartamento. Gina perguntou quem era. A conversa foi interrompida por vozes abafadas e os sons de uma luta pela posse do telefone. Gina ficou preocupada, com toda a razão. Achou o pedido muito esquisito. Afinal, Debbie tinha seu carro, um Oldsmobile 1975, e podia ir para qualquer lugar sem ter de pedir ajuda. Quando Gina se preparava para deixar seu apartamento às pressas, o telefone tornou a tocar. Era Debbie, dizendo que mudara de idéia, que tudo estava bem, que ela não precisava se incomodar. Gina perguntou de novo quem era a visita, mas Debbie mudou de assunto, sem dar o nome. Pediu a Gina que ligasse pela manhã, para acordá-la, pois não queria chegar atrasada ao trabalho. Era um pedido estranho, que Debbie nunca fizera antes.

Gina pensou em ir até lá de qualquer maneira, mas logo mudou de idéia. Tinha convidados em seu apartamento. Era muito tarde. Debbie Carter podia cuidar de si mesma; e se tinha um homem em seu apartamento, Gina não queria se intrometer. Gina foi deitar. Esqueceu de ligar para Debbie poucas horas depois.

Por volta de 11 horas da manhã de 8 de dezembro, Donna Johnson apareceu no apartamento de Debbie para visitá-la. As duas haviam sido grandes amigas na escola, antes de Donna mudar-se para Shawnee, a uma hora de distância. Viera passar o dia em Ada com os pais e queria rever as antigas amigas. Ao subir a estreita escada externa para o apartamento de Debbie em cima da garagem, ela precisou tomar cuidado, pois descobriu que pisava em cacos de vidro. A pequena janela na porta fora quebrada. Por alguma razão, seu primeiro pensamento foi o de que Debbie trancara a porta com as chaves lá dentro e tivera de quebrar o vidro para entrar. Donna bateu na porta. Não houve resposta. Ouviu um rádio ligado no apartamento. Ao virar a maçaneta, constatou que a porta não estava trancada. Assim que entrou, compreendeu que havia alguma coisa errada.

A pequena sala estava um caos: as almofadas do sofá jogadas no chão, roupas espalhadas por toda parte. Alguém escrevera na parede à direita, com algum líquido avermelhado: “Jim Smith, o próximo a morrer.”

Donna gritou o nome de Debbie. Não houve resposta. Já estivera no apartamento antes, por isso seguiu direto para o quarto, ainda chamando a amiga. A cama fora arrastada para um lado, as cobertas, arrancadas. Ela viu um pé e depois, no outro lado da cama, o corpo de Debbie, estendida no chão, de barriga para baixo, ensangüentada, com alguma coisa escrita nas costas.

Donna ficou imóvel, paralisada pelo horror, incapaz de se aproximar. Limitou-se a olhar para a amiga, na expectativa de perceber sua respiração. Talvez fosse apenas um sonho, pensou.

Ela recuou e foi para a cozinha. Ali, numa pequena mesa branca, Donna viu mais palavras escritas, deixadas pelo assassino. O homem ainda podia estar ali, ocorreu-lhe de repente. Então ela saiu correndo do apartamento e voltou para o carro. Dirigiu acelerado pela rua até uma loja de conveniência, onde ligou para a mãe de Debbie de um telefone público.

Peggy Stillwell ouviu a notícia, mas não pôde acreditar. A filha caída no chão de seu quarto, ensangüentada, sem se mexer. Ela fez Donna repetir o que acabara de dizer, depois saiu correndo para seu carro. A bateria estava descarregada. Atordoada pelo medo, ela tornou a entrar. Ligou para Charlie Carter, o pai de Debbie e seu ex-marido. O divórcio, poucos anos antes, não fora amigável e os dois quase nunca se falavam.

Ninguém atendeu na casa de Charlie Carter. Peggy ligou para Carol Edwards, uma amiga que morava perto do apartamento de Debbie, do outro lado da rua. Disse que havia alguma coisa errada e pediu a Carol para verificar o que acontecera com Debbie. Peggy esperou e esperou. Finalmente ligou de novo para Charlie, que agora atendeu.

Carol Edwards atravessou correndo a rua até o apartamento, notou os cacos de vidro na escada externa, a porta da frente aberta. Entrou e viu o corpo.

Charlie Carter era um pedreiro musculoso, que de vez em quando trabalhava como segurança no Coachlight. Pegou sua picape e correu para o apartamento da filha. Durante o percurso, pensou nas possibilidades mais horríveis que podiam passar pela cabeça de um pai. A cena no apartamento era pior do que tudo que imaginara.

Quando viu o corpo, chamou o nome da filha, duas vezes. Ajoelhou-se ao lado, ergueu o ombro de Debbie, gentilmente, para ver o rosto. Ela tinha uma toalhinha ensangüentada enfiada na boca. Ele tinha certeza de que a filha estava morta, mas esperou mesmo assim, na esperança de ver algum sinal de vida. Como não houvesse nenhum, ele se ergueu lentamente e olhou ao redor. A cama fora afastada da parede, as cobertas arrancadas, o quarto estava todo em desordem. Era evidente que ocorrera uma luta ali. Charlie foi até a sala, viu as palavras escritas na parede. Foi até a cozinha. Era uma cena de crime agora. Charlie enfiou as mãos nos bolsos e deixou o apartamento.

Donna Johnson e Carol Edwards estavam no patamar da escada, junto da porta da frente, chorando e esperando. Ouviram Charlie despedir-se da filha, dizer como lamentava o que lhe acontecera. Ao passar pela porta, cambaleando, ele também chorava.

– Devo chamar uma ambulância? – perguntou Donna.

– Não – respondeu Charlie. – A ambulância não vai mais adiantar. Chame a polícia.

Os dois paramédicos chegaram primeiro. Subiram a escada correndo e entraram no apartamento. Segundos depois, um deles saiu para o patamar, vomitando.

Quando o detetive Dennis Smith chegou ao apartamento, a rua já estava bastante movimentada, com vários guardas, paramédicos, curiosos e até mesmo dois promotores locais. Quando confirmou que era um caso de homicídio, ele tratou de isolar a área, impedindo o acesso dos vizinhos.

Capitão e policial veterano com 17 anos de serviços no departamento de polícia local, Smith sabia o que fazer. Mandou que todos deixassem o apartamento, onde só ficaram ele e outro detetive. Determinou que alguns guardas circulassem pela vizinhança, batendo em portas, à procura de testemunhas. Smith sentia-se revoltado e tinha de fazer um esforço para controlar suas emoções. Conhecia Debbie; sua filha e a irmã mais moça de Debbie eram amigas. Conhecia Charlie Carter e Peggy Stillwell. Não podia acreditar que era a filha deles que estava morta no chão de seu próprio quarto. Depois que a cena do crime foi isolada, ele começou a examinar o apartamento.

Os cacos no patamar e nos degraus vinham de um vidro quebrado na porta da frente. Os cacos haviam caído nos dois lados da porta. Na sala, havia um sofá à esquerda, com as almofadas espalhadas ao redor. Na frente do sofá, ele encontrou uma camisola de flanela nova, com a etiqueta da Wal-Mart ainda presa. Examinou a mensagem na parede do outro lado da sala e percebeu no mesmo instante que fora escrita com esmalte de unha: “Jim Smith, o próximo a morrer.”

Ele conhecia Jim Smith.

Na cozinha, numa mesa quadrada pequena, encontrou outra mensagem, aparentemente escrita com ketchup: “Não procurem a genti, ou sinão.” No chão, ao lado da mesa, havia uma jeans e um par de botas. Descobriria em breve que Debbie usara-as na noite anterior, no Coachlight.

Foi para o quarto, onde a cama bloqueava parcialmente a porta. As janelas estavam abertas, as cortinas puxadas para trás. Fazia bastante frio ali. Uma luta intensa precedera a morte; havia roupas, lençóis, cobertas e bichos de pelúcia espalhados por toda parte. Nada parecia estar em seu lugar. Quando se ajoelhou ao lado do corpo de Debbie, o detetive Smith encontrou a terceira mensagem deixada pelo assassino. Em suas costas, com o que parecia ser ketchup seco, escreveram “Duke Gram”.

Ele conhecia Duke Graham.

Por baixo do corpo, havia um fio elétrico e um cinto estilo country, com uma enorme fivela prateada, o nome “Debbie” gravado no centro.

Enquanto Mike Kieswetter, também da polícia de Ada, fotografava a cena do crime, Smith começou a recolher as evidências. Encontrou cabelos no corpo, no chão, na cama, nos bichos de pelúcia. Metódico, pegou cada fio e pôs numa folha de papel dobrada, registrando onde fora encontrado.

Removeu com todo o cuidado, etiquetou e guardou em sacos de plástico os lençóis, fronhas, cobertas, o fio elétrico e o cinto, uma calcinha rasgada largada no chão do banheiro, alguns bichos de pelúcia, um maço de cigarros Marlboro, uma lata vazia de 7-Up, um recipiente de plástico de xampu, guimbas de cigarro, um copo da cozinha, o telefone e alguns cabelos encontrados debaixo do corpo. Enrolado num lençol, perto de Debbie, havia um vidro de ketchup Del Monte. Também foi devidamente embalado e etiquetado, para ser examinado pelo laboratório de criminalística do estado. A tampa havia desaparecido, mas seria encontrada mais tarde pelo médico-legista.

Quando terminou de recolher as evidências, o detetive Smith passou a verificar as impressões digitais. Passou o pó nos dois lados da porta da frente, nas esquadrias das janelas, em todas as superfícies de madeira do quarto, na mesa da cozinha, nos cacos de vidro maiores, no telefone, nas áreas de remate em torno das portas e janelas, até mesmo no carro de Debbie, estacionado lá fora.

Gary Rogers era um agente do OSBI, o Bureau de Investigação do Estado de Oklahoma, que vivia em Ada. Quando chegou ao apartamento, por volta de meio-dia e meia, recebeu um relato de tudo por Dennis Smith. Os dois eram amigos e haviam trabalhado juntos em muitos casos de homicídio.

No quarto, Rogers notou o que parecia ser uma pequena mancha de sangue na parede do lado sul, pouco acima do rodapé, próximo de uma tomada. Mais tarde, depois que o corpo foi removido, ele pediu ao guarda Rick Carson para cortar um pedaço de 25 centímetros quadrados do revestimento de gesso da parede, a fim de preservar aquela marca de sangue.

Dennis Smith e Gary Rogers suspeitaram inicialmente que havia mais de um assassino. O caos na cena do crime, a ausência de marcas de cordas nos tornozelos e pulsos de Debbie, o traumatismo craniano, a toalhinha enfiada na boca, as equimoses nos flancos e braços, o uso provável do fio e do cinto… tudo parecia violência demais para um único assassino. Debbie não era pequena. Tinha 1,73m de altura e pesava 59 quilos. Era vigorosa e com certeza teria lutado bravamente para salvar sua vida.

O Dr. Larry Cartmell, o legista local, chegou para um exame preliminar. Sua opinião inicial foi de que a causa da morte fora estrangulamento. Autorizou a remoção do corpo, a ser feita por Tom Criswell, proprietário da agência funerária local. Foi levado num carro fúnebre para o necrotério de Oklahoma City, onde chegou às 18h25, sendo guardado numa unidade refrigerada.

O detetive Smith e o agente Rogers foram para a delegacia de Ada. Passaram algum tempo com a família de Debbie Carter. Ao mesmo tempo que tentavam confortá-los, também anotavam nomes. Amigos, namorados, colegas de trabalho, inimizades, ex-patrões, qualquer um que conhecesse Debbie e pudesse saber alguma coisa sobre sua morte. À medida que a relação aumentava, Smith e Rogers começaram a contatar os homens da lista. O pedido era simples: Por favor, compareça à delegacia para tirarmos suas impressões digitais e recolhermos amostras de saliva e de fios de cabelo da cabeça e pubianos.

Ninguém recusou. Mike Carpenter, o segurança do Coachlight que vira Debbie no estacionamento com Glen Gore, por volta de meia-noite e meia, foi um dos primeiros a atender ao pedido dos policiais. Tommy Glover, outra testemunha do encontro de Debbie com Gore, também não hesitou em se apresentar.

Por volta das sete e meia da noite de 8 de dezembro, Glen Gore apareceu no Harold’s Club para mais um dia de trabalho como DJ e barman. A casa estava quase vazia. Quando ele perguntou por quê, alguém lhe falou sobre o assassinato. Muitos clientes e até alguns empregados do Harold’s haviam ido à delegacia para responder a algumas perguntas e tirar as impressões digitais.

Gore também compareceu à delegacia. Foi interrogado por Gary Rogers e o policial D. W. Barrett. Disse que conhecia Debbie desde os tempos de colégio e que a vira no Coachlight na noite anterior.

O relatório policial do depoimento de Gore dizia o seguinte:

Glen Gore trabalha no Harold’s como discjockey. Susie Johnson informou-o sobre Debbie no Harold’s Club por volta de sete e meia da noite de 8-12-82. Glen foi colega de escola de Debbie. Viu-a na segunda-feira, 6 de dezembro, no Harold’s Club. Viu-a também no Coachlight em 7-12-82. Conversaram sobre a pintura do carro de Debbie. Nunca comentou com Glen que tivesse problemas com alguém. Glen foi para o Coachlight por volta de dez e meia da noite, com Ron West. Saiu com Ron por volta de uma e quinze da madrugada. Glen nunca esteve no apartamento de Debbie.

O relatório foi feito por D. W. Barrett, com o testemunho de Gary Rogers, e arquivado com dezenas de outros.

Gore mudaria sua história posteriormente. Alegaria que vira um homem chamado Ron Williamson assediar Debbie no Coachlight, na noite de 7 de dezembro. Essa nova versão não seria confirmada por ninguém. Muitos dos presentes conheciam Ron Williamson, que se destacava por beber muito e falar demais. Ninguém se lembrava de tê-lo visto no Coachlight; ao contrário, a maioria dos interrogados declarou enfaticamente que ele não aparecera por lá naquela noite. Quando Ron Williamson estava num bar, todos tomavam conhecimento de sua presença.

Por mais estranho que possa parecer, em meio à coleta geral de impressões digitais e de amostras de saliva e cabelos, naquele dia 8 de dezembro, Gore conseguiu escapulir. Ou ele se esquivou ou foi ignorado, ou simplesmente negligenciado. Qualquer que tenha sido o motivo, não tiraram suas impressões digitais nem recolheram amostras de saliva e dos cabelos.

Mais de três anos e meio transcorreriam antes que a polícia de Ada finalmente recolhesse amostras de Gore, a última pessoa que foi vista com Debbie Carter antes dela ser assassinada.

Às três horas da tarde seguinte, 9 de dezembro, o Dr. Fred Jordan, médico-legista e patologista forense, efetuou a autópsia. Estavam presentes o agente Gary Rogers e Jerry Peters, também do OSBI.

O Dr. Jordan, veterano de milhares de autópsias, observou primeiro que era o corpo de uma mulher jovem, branca. A rigidez cadavérica era completa, o que significava que estava morta há pelo menos 24 horas. Em seu peito, escrita com o que parecia ser esmalte de unha vermelho, destacava-se a palavra “morra”. Outra substância vermelha, provavelmente ketchup, fora espalhada pelo corpo. Nas costas, apareciam as palavras “Duke Gram” escritas com ketchup.

Havia várias equimoses pequenas nos braços, peito e rosto. Ele notou pequenos cortes nos lábios. Enfiada até o fundo da garganta e projetando-se pela boca, havia uma toalhinha esverdeada, encharcada de sangue, que ele removeu com cuidado. Havia esfoladuras e escoriações em volta do pescoço, formando um semicírculo. A v_gina estava machucada. O reto, bastante dilatado. Ao examiná-lo, o Dr. Jordan encontrou e removeu uma tampinha de garrafa, do tipo de atarraxar.

O exame interno não revelou nada inesperado: falência dos pulmões, coração dilatado, pequenas contusões no couro cabeludo, mas sem lesões cerebrais.

Todos os ferimentos haviam sido infligidos enquanto ela ainda estava viva.

Não havia indicação de que ela fora amarrada nos pulsos ou tornozelos. Uma série de pequenos machucados nos antebraços eram provavelmente ferimentos causados durante a tentativa de se defender. O conteúdo de álcool no sangue por ocasião da morte era baixo, 0,04. Exames microscópicos revelariam mais tarde a presença de esp_rma na v_gina e no ân_s, mas não na boca.

Para preservar as evidências, o Dr. Jordan cortou as unhas de Debbie, raspou amostras do ketchup e do esmalte de unha. Também cortou uma porção dos cabelos de sua cabeça.

A causa da morte era asfixia, provocada pela combinação da toalhinha enfiada na boca e de estrangulamento com o fio elétrico ou o cinto.

Assim que o Dr. Jordan concluiu a autópsia, Jerry Peters fotografou o corpo e tirou as impressões digitais e palmares.

Peggy Stillwell estava transtornada, a ponto de não conseguir pensar direito nem tomar decisões. Não se importava com quem planejava o funeral nem o que era decidido, porque não tinha a menor intenção de comparecer. Não era capaz de comer ou tomar banho. Não podia aceitar o fato de que a filha morrera. Uma irmã, Glenna Lucas, ficou com ela. Pouco a pouco, assumiu o controle da situação. Os serviços fúnebres foram organizados e Peggy foi comunicada de que todos esperavam sua presença.

No sábado, 11 de dezembro, foi realizado o funeral de Debbie na capela da Agência Funerária Criswell. Glenna deu banho em Peggy e a vestiu, levou-a de carro para o funeral e segurou sua mão durante toda a provação.

Na região rural de Oklahoma, quase todos os funerais são realizados com o caixão aberto, colocado logo abaixo do púlpito, para que a pessoa falecida fique à vista dos presentes. Não há razões claras para isso ou estão esquecidas, mas o efeito é acrescentar uma camada de agonia a quem já está sofrendo.

Com o caixão aberto, ficou evidente para todos que Debbie fora agredida. O rosto tinha várias equimoses e inchações. Uma blusa rendada de gola alta escondia os ferimentos do estrangulamento. Ela foi sepultada com sua jeans predileta e de botas, com um cinto de caubói de fivelão. Tinha no dedo o anel de diamantes em forma de ferradura que a mãe já havia comprado para o Natal.

O reverendo Rick Summers conduziu o serviço, com a capela lotada. Depois, com a neve caindo suavemente, Debbie foi enterrada no Cemitério Rosedale. Deixava o pai, a mãe, duas irmãs, dois dos quatro avós e dois sobrinhos. Pertencia a uma pequena igreja batista, onde fora batizada aos seis anos de idade.

O crime abalou a cidade, muito embora já tivesse uma longa história de violência e homicídios, cujas vítimas eram em geral vaqueiros e andarilhos, pessoas que provavelmente acabariam matando alguém se não tivessem recebido uma bala antes. Mas o brutal estupro e assassinato de uma jovem era assustador. A cidade vibrava de fofocas, especulações e medo. Janelas e portas passaram a ser trancadas à noite. Foi imposto um toque de recolher rigoroso para adolescentes. As jovens mães mantinham-se próximas dos filhos pequenos que brincavam na frente das casas.

E nos bares e boates quase que não se falava de outra coisa. Como Debbie servia bebidas, muitos dos freqüentadores habituais a conheciam. Ela tivera a sua cota de namorados, e a polícia interrogou-os nos dias subseqüentes ao assassinato. Nomes foram indicados, mais amigos, mais conhecidos, mais namorados. Dezenas de interrogatórios produziram mais nomes, mas nenhum suspeito real. Debbie era muito popular, apreciada e sociável. Era difícil acreditar que alguém pudesse querer lhe fazer algum mal.

A polícia fez uma lista de 23 pessoas que estavam no Coachlight na noite de 7 de dezembro e interrogou a maioria. Ninguém se lembrava de ter visto Ron Williamson, embora quase todos o conhecessem.

Informações, histórias e recordações de personagens estranhos chegaram à polícia. Uma jovem chamada Angelia Nail procurou Dennis Smith para falar de um encontro com Glen Gore. Ela e Debbie Carter haviam sido grandes amigas. Debbie ficara convencida de que Gore roubara os limpadores de pára-brisa de seu carro. O que se tornara uma longa disputa. Ela conhecia Gore desde os tempos de colégio e tinha medo dele. Cerca de uma semana antes do crime, Angelia levara Debbie até a casa em que Gore vivia para uma confrontação. Debbie desaparecera dentro da casa para conversar com Gore. Ao voltar para o carro, estava furiosa e ainda mais convencida de que fora mesmo ele quem roubara os limpadores de pára-brisa. Foram até a delegacia e conversaram com um guarda, mas a ocorrência não foi registrada.

Duke Graham e Jim Smith eram bem conhecidos da polícia de Ada. Graham e a esposa, Johnnie, tinham um nightclub, um lugar bastante sossegado, onde não toleravam confusões. As altercações eram raras, mas houve uma muito feia com Jim Smith, arruaceiro e criminoso de pequenos delitos. Smith tomara um porre e causara problemas, mas se recusara a ir embora. Duke pegara uma espingarda e o expulsara. Houve troca de ameaças e por alguns dias a situação permanecera tensa. Smith era do tipo que podia voltar com uma espingarda e começar a atirar.

Glen Gore era um freqüentador habitual do Duke’s, até que começou a flertar com Johnnie. Quando ficou agressivo demais, ela o repeliu. Duke interferiu e Gore foi proibido de entrar na casa.

Quem matou Debbie Carter tentou, de forma inepta, atribuir o crime a Duke Graham e assustar Jim Smith. Na ocasião, Smith cumpria uma pena na penitenciária estadual. Duke Graham procurou a polícia e apresentou um álibi incontestável.

A família de Debbie foi informada de que o apartamento alugado precisava ser desocupado. A mãe ainda estava atordoada. A tia, Glenna Lucas, ofereceu-se para a desagradável tarefa.

Um policial destrancou a porta e Glenna entrou, hesitante. Nada fora removido desde o crime, e sua primeira reação foi de raiva. Era evidente que ocorrera uma briga ali. A sobrinha lutara desesperadamente para salvar sua vida. Como alguém podia infligir tanta violência a uma moça tão meiga e bonita?

O apartamento estava frio, com um cheiro repulsivo que ela não foi capaz de identificar. As palavras “Jim Smith, o próximo a morrer” ainda estavam na parede. Glenna ficou olhando aturdida para a mensagem garatujada pelo assassino. Levou tempo, pensou ela. O homem passou bastante tempo no apartamento. A sobrinha morreu depois de muito sofrimento. No quarto, o colchão fora encostado numa parede e tudo estava fora do lugar. No closet, não havia um único vestido ou blusa ainda no cabide. Por que o assassino se dera ao trabalho de tirar todas as roupas dos cabides?

A pequena cozinha estava desarrumada, mas não apresentava sinais de luta. A última refeição de Debbie foi de batatas congeladas, e as sobras estavam intactas num prato de papel, com ketchup. Havia um saleiro ao lado do prato, que estava na mesinha branca que Debbie usava para fazer suas refeições. Outra mensagem mal escrita se destacava perto do prato: “Não procurem a genti, ou sinão.” Glenna sabia que o assassino usara ketchup para escrever algumas de suas mensagens. Ficou impressionada com a grafia errada.

Glenna tentou bloquear os pensamentos terríveis e começou a empacotar as coisas de Debbie. Levou duas horas para arrumar roupas, louça, talheres, toalhas e outros itens. A colcha ensangüentada não fora levada pela polícia. Ainda havia sangue no chão.

Glenna não planejava limpar o apartamento. Queria apenas recolher os pertences de Debbie e sair dali o mais depressa possível. Mas era estranho deixar as palavras escritas pelo assassino com o esmalte de unha de Debbie. E não era muito certo deixar as manchas de sangue no chão para outra pessoa limpar.

Ela pensou em esfregar tudo, cada centímetro do apartamento, remover todo e qualquer vestígio do crime. Mas Glenna já vira o suficiente. Chegara mais perto da morte do que gostaria.

A detenção dos suspeitos habituais continuou nos dias subseqüentes ao assassinato. Um total de 21 homens deu suas impressões digitais e amostras de cabelos e saliva. No dia 16 de dezembro, o detetive Smith e o agente Rogers seguiram de carro para o laboratório de criminalística em Oklahoma City. Entregaram as evidências encontradas no local do crime, junto com as amostras recolhidas de 17 homens.

O pedaço do revestimento da parede com a mancha de sangue era a pista mais promissora. Se o sangue fora deixado na parede durante a luta e o assassinato, e se não fosse de Debbie Carter, então a polícia teria uma pista concreta para levá-la ao assassino. O agente Jerry Peters examinou a impressão palmar no pedaço de gesso e comparou com as impressões que tirara de Debbie durante a autópsia. Sua primeira suspeita foi de que a impressão não era de Debbie Carter, mas queria rever sua análise.

No dia 4 de janeiro de 1983, Dennis Smith apresentou mais impressões digitais. No mesmo dia, as amostras de cabelos de Debbie Carter e outras da cena do crime foram entregues a Susan Land, uma perita em cabelos do OSBI. Duas horas depois, mais amostras da cena do crime chegaram à sua mesa. Todas as amostras foram catalogadas, acrescentadas a outras, postas numa longa fila para serem um dia examinadas e analisadas por Land, que tinha excesso de trabalho e lutava contra o acúmulo de casos. Como a maioria dos laboratórios de criminalística, o de Oklahoma tinha deficiência de recursos e de pessoal, ao mesmo tempo que era submetido a uma tremenda pressão para esclarecer os crimes.

Enquanto esperavam pelos resultados dos exames no OSBI, Smith e Rogers seguiram em frente, procurando pistas. O crime ainda era a notícia mais comentada na cidade e as pessoas queriam que fosse logo esclarecido. Mas depois de conversar com todos os bartenders, seguranças, namorados e freqüentadores da noite, a investigação entrava num beco sem saída. Não havia qualquer suspeito evidente, nenhuma pista óbvia.

No dia 7 de março de 1983, Gary Rogers interrogou Robert Gene Deatherage, um morador local. Deatherage acabara de cumprir uma pena curta na cadeia do condado de Pontotoc por dirigir embriagado. Partilhara uma cela com Ron Williamson, também preso por dirigir embriagado. Todos na cadeia falavam sobre o assassinato de Debbie Carter e havia muitas teorias escalafobéticas sobre o que acontecera, e todo mundo alegava ter uma informação sigilosa. Os companheiros de cela conversaram a respeito em várias ocasiões, e Deatherage achava que o assunto incomodava Williamson. Discutiram algumas vezes e até trocaram socos. Williamson acabou sendo transferido para outra cela. Deatherage desenvolvera uma opinião vaga de que Ron estava envolvido no crime de alguma forma. Sugeriu a Gary Rogers que a polícia devia se concentrar em Williamson como suspeito.

Era a primeira vez que o nome de Ron Williamson foi mencionado na investigação.

Dois dias depois, a polícia interrogou Noel Clement, um dos primeiros homens a oferecer voluntariamente impressões digitais e amostras dos cabelos. Clement contou que Ron Williamson estivera há pouco tempo em seu apartamento, supostamente à procura de alguém. Williamson entrara sem bater, pegara um violão numa cadeira e começara a falar sobre o assassinato de Debbie Carter. Durante a conversa, Williamson tinha dito que achava que estavam atrás dele porque vira carros da polícia em sua vizinhança na manhã seguinte ao crime. Comentara que tivera problemas em Tulsa e queria evitar outros em Ada.

Era inevitável que a polícia acabasse chegando a Ron Williamson. Na verdade, foi estranho que demorassem três meses para interrogá-lo. Uns poucos, inclusive Rick Carson, haviam crescido junto com ele. A maioria dos policiais ainda se lembrava de Ron do tempo em que ele jogava beisebol no ensino médio. Em 1983, ele ainda era o novo jogador mais cotado que a cidade já produzira. Ao ser contratado pelo Oakland A’s, em 1971, muitos acreditavam, inclusive o próprio Williamson, que ele poderia se tornar o próximo Mickey Mantle, o maior astro do beisebol nascido no estado.

Mas o beisebol há muito que pertencia ao passado. Agora, a polícia conhecia-o como um violonista desempregado que morava com a mãe, bebia demais e se comportava de uma maneira estranha. Tinha dois processos por dirigir embriagado, uma detenção por perturbar a ordem pública e uma péssima reputação trazida de Tulsa.

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