Trecho do Livro: Ecos | Danielle Steel

Autora: Danielle Steel
Editora: Record
ISBN: 9788501074898
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Em uma calma tarde de verão, Beata Wittgenstein passeava com seus pais às margens do lago Genebra. O sol estava quente, e o ar, parado, e ela seguia atrás, perdida nos seus pensamentos, ouvindo a tremenda algazarra dos passarinhos e insetos. Beata e a irmã menor, Brigitte, tinham ido passar o verão com a mãe em Genebra. Beata acabara de completar 20 anos, e sua irmã era três anos mais moça. A Primeira Guerra Mundial tinha começado 13 meses atrás, no verão anterior, e naquele ano seu pai quis que elas saíssem da Alemanha na época das férias. Era final de agosto de 1915, e ele só conseguiu passar um mês com elas lá. Os irmãos de Beata estavam no exército e tiraram uma semana de licença para ficar com a família. Horst, de 23 anos, era tenente no quartel-general de Munique. Ulm era capitão do 105o Regimento de Infantaria, parte da 13a Divisão do Quarto Exército. Completou 27 anos na semana que passou com a família em Genebra.
Foi quase um milagre conseguirem juntar a família. A guerra parecia devorar todos os rapazes alemães, e Beata e a mãe viviam preocupadas com Horst e Ulm. O pai dizia que a guerra acabaria em breve, mas não era o que Beata ouvia quando ele conversava com os filhos. Os homens tinham muito mais consciência dos tempos difíceis à sua frente que as mulheres. Sua mãe nunca falava de guerra com ela, e Brigitte reclamava de não haver quase nenhum rapaz bonito com quem flertar. Desde criança, ela só falava em casamento. Apaixonara-se recentemente por um dos colegas de Horst, e Beata desconfiava que sua linda irmã ficaria noiva no próximo inverno.
Beata não tinha essas intenções. Sempre fora sossegada, estudiosa e muito séria, e interessava-se muito mais pelos estudos que por rapazes e casamento. Seu pai sempre dizia que ela era uma filha perfeita. Os dois desentenderam-se uma única vez, quando ela insistira em cursar a universidade, como seus irmãos, o que o pai considerara uma bobagem. Embora ele também fosse sério e culto, não achava necessário a mulher ter formação universitária. Em pouco tempo ela se casaria e teria de cuidar do marido e dos filhos. E absolutamente não permitiu que ela continuasse os estudos.
Os irmãos de Beata e seus amigos eram cheios de vida, e a irmã era bonitinha e namoradeira. Beata sempre se sentira diferente deles, vivia à parte, calada e apaixonada pelos estudos. Em um mundo perfeito, teria adorado ser professora, mas quando dizia isso, seus irmãos riam. Brigitte dizia que só moças pobres eram professoras ou governantas, e seus irmãos acrescentavam que só as feias pensavam nisso. Gostavam de implicar com ela, pois Beata não era pobre nem feia. Seu pai era dono de um dos bancos mais importantes de Colônia, onde morava com a família em uma linda casa no bairro de Fitzengraben. Monika, sua mãe, era conhecida na cidade por sua beleza, roupas elegantes e jóias. Como Beata, ela era uma mulher sossegada. Casara-se com Jacob Wittgenstein aos 17 anos de idade e era feliz com ele havia 28 anos.
O casamento fora arranjado pelas respectivas famílias, e dera certo. Na época, com a união dos dois deu-se a fusão de duas grandes fortunas, e Jacob aumentou a deles consideravelmente a partir daí. Dirigia o banco com mão de ferro, e só faltava prever os negócios bancários. Assegurou não só o futuro deles, como também o dos seus herdeiros. Tudo com os Wittgensteins era sólido. O único elemento imprevisível na vida agora era o que afligia a todos naqueles dias. A guerra preocupava muito, especialmente a Monika, com dois filhos no exército. O tempo que passaram na Suíça foi um descanso confortador para os pais e para os filhos.
Em geral, eles passavam o verão na Alemanha, na praia, mas naquele ano Jacob quis tirar todos do país durante os meses de julho e agosto. Pedira a um dos generais em comando, que conhecia bastante bem, o enorme favor de conceder uma licença especial para seus dois filhos poderem juntar-se à família. O general providenciara tudo em surdina. Os Wittgensteins eram uma raridade, uma família judia detentora de grande riqueza e de enorme poder. Beata tinha consciência disso, mas não ligava muito para a importância da família. Estava mais interessada nos seus estudos. Brigitte às vezes reclamava das restrições a que tinha de submeter-se devido à ortodoxia deles, mas Beata, com seu modo tranquilo, era profundamente religiosa, o que agradava ao seu pai. Quando rapaz, ele chocara a própria família ao dizer que queria ser rabino. O pai tentara convencê-lo do contrário, e no tempo apropriado ele começara a trabalhar no banco da família, com o pai, os irmãos, os tios e o avô. A família era altamente tradicional, e, embora respeitasse muito a vida dos rabinos, o pai de Jacob não queria que seu filho se sacrificasse assim. Então Jacob, filho obediente que era, fora trabalhar no banco e casara-se logo depois com uma mulher cinco anos mais moça. Agora estava com 50 anos.
A família toda achara ótima ideia passar o verão na Suíça naquele ano. Os Wittgensteins tinham muitos conhecidos lá, e Jacob e Monika eram convidados para várias festas com os filhos. Jacob conhecia todos os banqueiros suíços, e esteve em Lausanne e Zurique visitando amigos. Sempre que possível, os dois levavam as meninas. Quando Horst e Ulm chegaram, passaram grande parte do tempo com eles. Ulm iria para o front quando voltasse, e Horst ficaria baseado no quartel-general de Munique, que achava muito divertido. Apesar da educação rígida que tivera, Horst era uma espécie de playboy. Ele e Brigitte entendiam-se muito melhor entre si do que com Beata.
Quando Ulm viu que Beata andava vagarosamente pelo lago e tinha ficado para trás, retardou o passo para esperá-la. Ele sempre a protegia, talvez por ser sete anos mais velho que ela. Beata sabia que ele respeitava sua natureza meiga e sua forma amorosa de ser.
— Em que está pensando, Bea? Está muito séria, sozinha aí. Por que não vem mais para perto da gente?
A mãe e a irmã já estavam bem longe, conversando sobre moda e sobre os homens que Brigitte achara bonitos nas festas da semana anterior. Os homens da família só falavam de assuntos que os interessavam — que naqueles dias resumia-se na guerra e na vida bancária. Quando a guerra terminasse, Ulm voltaria a trabalhar no banco, onde já tinha estado durante quatro anos. Seu pai dissera que Horst teria de parar de brincar e tornar-se um homem sério para juntar-se a eles. Horst prometera fazer parte do grupo tão logo a guerra terminasse. Tinha apenas 22 anos quando a guerra fora declarada, no ano anterior, e assegurara ao pai que, quando a paz voltasse, estaria pronto. Jacob andara falando recentemente que já era hora de Ulm se casar. Ele esperava que seus filhos, ou qualquer um do seu círculo íntimo, lhe obedecessem. E esperava isso também da sua esposa, que nunca o desapontara. Nem os filhos, exceto Horst, que vivia adiando os planos de trabalho quando entrara para o exército. A última coisa que passava pela cabeça de Horst no momento era se casar. Na verdade, a única pessoa interessada em casamento era Brigitte. Beata ainda não encontrara um homem que a impressionasse muito. Embora achasse muitos dos filhos de amigos dos seus pais bonitos, os mais moços pareciam bobocas, e os mais velhos a amedrontavam um pouco, e em geral pareciam sombrios demais. Ela não tinha pressa de se casar. Dizia que, quando chegasse o momento, queria encontrar um homem bem culto, não necessariamente um banqueiro. Fizera esse comentário com a mãe e a irmã várias vezes, mas não sabia como explicar isso ao pai. Brigitte achava a ideia um tédio. O amigo bonitão de Horst por quem se encantara era tão frívolo quanto ela, e vinha de uma família de banqueiros igualmente importante. Jacob pretendia conhecer o pai do rapaz em setembro para falar sobre o assunto, mas Brigitte não sabia disso. Até então não aparecera nenhum pretendente para Beata, nem ela realmente estava interessada. Ela raramente falava com alguém nas festas. Acompanhava os pais, obedientemente, vestindo as roupas escolhidas pela mãe, era sempre gentil com os amigos deles, mas ficava imensamente aliviada quando chegava a hora de voltar para casa. Ao contrário de Brigitte, que tinha de ser arrastada das festas, reclamando que era cedo demais para sair e que sua família era desanimada e chata. Horst concordava completamente com ela, sempre. Beata e Ulm eram os sérios.
— Você se divertiu em Genebra? — perguntou Ulm a Beata. Ele era o único que se esforçava para conversar com a irmã e saber em que ela estava pensando. Horst e Brigitte só pensavam em se divertir, não tinham tempo para os assuntos eruditos com a irmã.
— Muito — respondeu Beata, sorrindo timidamente. Apesar de Ulm ser seu irmão, ela não se cansava de admirar sua beleza e bondade. Ele era gentil, e igual ao seu pai. Alto, louro e atlético, como Jacob na sua juventude. Tinha olhos azuis e feições que confundiam os outros, pois não parecia judeu. É claro que todos sabiam que eles eram judeus, e no mundo social de Colônia a família era aceita até nos ambientes mais aristocráticos. Vários dos Hohenlohes, Thurn e Thaxis eram amigos de infância do seu pai. Os Wittgensteins eram tão sólidos e respeitados, que todas as portas se abriam para eles. Mas Jacob deixara bem claro para os filhos que, quando chegasse o momento de se casarem, teriam de escolher parceiros judeus. Isso não dava margem a discussão, e os filhos nem pensariam em questionar. Eles eram aceitos por quem eram e pelo que eram, e havia muitos rapazes e moças interessantes entre as amizades do casal Wittgenstein para os filhos escolherem. Quando chegasse a hora de se casarem, teriam de escolher um deles.
Ulm não se parecia nada com Beata. Seus irmãos e irmã tinham puxado ao pai, eram altos e louros, de olhos azuis e feições finas. Beata Wittgenstein parecia-se com a mãe, em total contraste com os outros. Era pequena, com ar frágil, morena clara, de cabelo escuro brilhante e pele de porcelana. O único traço em comum com os outros eram os enormes olhos azuis, embora os seus fossem mais escuros que os dos irmãos e de Brigitte. Os olhos da mãe eram castanho-escuros, mas, com exceção dessa diferença, Beata era a imagem de Monika, o que encantava seu pai. Ele continuava tão apaixonado pela mulher depois de quase 29 anos de vida em comum, que, ao ver o sorriso de Beata, lembrava-se dela nos primeiros anos do casamento, e essa semelhança sempre o comovia. Por isso, tinha uma queda especial por Beata, e Brigitte frequentemente se queixava de que ela era a favorita do pai. Ele a deixava fazer o que quisesse. Mas o que ela queria eram coisas simples. Os planos de Brigitte eram consideravelmente mais altos que os da irmã. Beata contentava-se em ficar em casa, lendo ou estudando, o que, aliás, preferia. A única vez em que o pai se aborrecera de verdade com ela fora quando a vira lendo uma versão da Bíblia do Rei James.
— O que é isso? — perguntou, com ar sério, ao ver o que ela estava lendo. Beata tinha 16 anos na época, era fascinada pelo Rei James e já tinha lido muito do Velho Testamento antes.
— É interessante, papai. As histórias são maravilhosas, e muitas coisas aí são exatamente como aquelas em que acreditamos. — Ela preferia o Novo ao Antigo Testamento. O pai não achou graça alguma e lhe tirou o livro.
Não queria sua filha lendo uma Bíblia Cristã, e dissera a Monika que ficasse de olho nas leituras dela. Na verdade, Beata lia tudo que lhe caía nas mãos, inclusive Aristóteles e Platão. Era uma leitora voraz e grande entusiasta da filosofia grega. Mesmo seu pai tinha de admitir que, se ela fosse homem, seria uma erudita extraordinária. O que ele queria para ela e para Ulm agora, e também para os outros dois um pouco mais tarde, era que eles se casassem. Estava começando a temer que Beata se tornasse uma solteirona muito séria, caso esperasse muito mais tempo. Ele tinha algumas ideias que queria explorar, a respeito de possíveis pretendentes naquele inverno, mas a guerra atrapalhara tudo. Muitos homens estavam servindo no exército, e muitos rapazes que eles conheciam tinham sido mortos no ano anterior. A incerteza do futuro era profundamente perturbadora.
Jacob achava que Beata se daria bem com um homem mais velho. Queria um homem maduro para ela, um homem que apreciasse seu intelecto e compartilhasse seus interesses. E talvez para Brigitte também, um homem que a controlasse com firmeza. Embora amasse todos os seus filhos, tinha grande orgulho da filha mais velha. Considerava-se um homem com grande sabedoria e compaixão. Era o tipo de pessoa a quem ninguém hesitava em recorrer. Beata tinha grande amor e respeito pelo pai, e também pela mãe, mas admitia para os outros que sua mãe era mais fácil de lidar, era um pouco menos atemorizante que o pai. O pai era tão sério quanto ela, e muitas vezes desaprovava as frivolidades da filha mais moça.
— Eu gostaria que você não tivesse de voltar para a guerra — disse Beata num tom triste, no meio da conversa com Ulm durante a caminhada. Os outros tinham voltado, e agora ela e Ulm estavam muito adiante deles.
— Eu também detesto ter de voltar, mas acho que a guerra vai terminar em breve — disse, com um sorriso confiante. Não acreditava nisso, mas era o tipo de coisa que se dizia para as mulheres. Ou pelo menos que ele dizia. — Devo entrar de licença de novo no Natal. — Ela assentiu, mas achou que o Natal estava ainda muito longe, seria terrível se alguma coisa lhe acontecesse. Ela adorava aquele irmão, mas nunca lhe dissera isso. Gostava de Horst também, mas este parecia um irmão mais moço meio bobinho, não um irmão mais velho. Gostava de implicar com ela, e sempre a fazia rir. Mas o que ela e Ulm compartilhavam era diferente. Os dois continuaram a conversar animadamente até chegarem ao hotel, e naquela noite todos foram jantar pela última vez juntos, antes que os rapazes voltassem no dia seguinte. Como sempre, Horst divertiu-os sem cessar com imitações de todos que conheciam, e histórias escabrosas sobre seus amigos.
Os três homens foram embora no dia seguinte, e as três mulheres passaram mais três semanas de férias em Genebra. Jacob queria que elas ficassem o maior tempo possível na Suíça, mas Brigitte começou a entediar-se. Beata e a mãe estavam muito contentes de passar mais uns dias ali. Brigitte e a mãe foram fazer compras numa tarde, e Beata disse que ficaria no hotel, porque estava com dor de cabeça. Não era verdade, mas ela se cansava de fazer compras. Brigitte sempre experimentava tudo nas lojas, e encomendava vestidos, chapéus e sapatos. Impressionada com seu bom gosto e senso apurado da moda, a mãe sempre cedia aos seus desejos. Depois de revirarem os departamentos de roupas, sapatos e chapéus e as lojas especializadas em luvas sofisticadas, iam correr as joalherias. Beata sabia que elas só chegariam em casa para o jantar, e aproveitou o sol do jardim para ler um pouco sem ninguém à volta.
Depois do almoço, foi até o lago fazer sua caminhada diária, como sempre fazia. Estava um pouco mais fresco que no dia anterior; ela usava um vestido branco de seda, chapéu para se proteger do sol, e um xale azul-claro da cor dos seus olhos cobrindo-lhe os ombros. Falava consigo mesma enquanto caminhava. A maioria dos hóspedes do hotel estava almoçando ou tinha ido à cidade, ela estava sozinha, de cabeça baixa, pensando nos irmãos. De repente ouviu um ruído vindo de trás e surpreendeu-se ao ver um rapaz alto tentar passar por ela, sorrindo. O rapaz seguia na mesma direção, e Beata abriu-lhe caminho tão depressa que tropeçou e torceu o tornozelo. Sentiu uma fisgada no pé, mas achou que não era nada sério, e ele aparou-a rapidamente para que ela não caísse.
— Desculpe, não tinha intenção de assustá-la e muito menos de fazê-la cair — disse, com um ar preocupado, e Beata notou que ele era uma beleza de rapaz. Alto, louro, de olhos da cor dos seus, braços longos e fortes e ombros atléticos. Ele segurou o seu braço com força enquanto falava. Ela percebeu que seu chapéu tinha virado de lado, e ao tentar ajeitá-lo olhou-o de esguelha. O rapaz parecia pouco mais velho que Ulm. Usava um blazer azul-escuro, gravata listrada clássica e um lindo chapéu de palha que lhe dava um ar jovial.
— Obrigada, eu estou bem. Foi culpa minha. Não o ouvi passar a tempo para abrir caminho.
— Só me viu quando eu quase a derrubei. Foi uma manobra deplorável da minha parte. Você está bem mesmo? E como está seu tornozelo? — disse, num tom carinhoso e solidário.
— Estou bem. Você me segurou antes que eu caísse. — Ele falara em francês, e ela respondera na mesma língua. Tinha aprendido francês na escola e vinha aprimorando seus estudos desde então. Seu pai insistira que ela estudasse inglês também, e achava que devia aprender italiano e espanhol. Beata estudou essas duas línguas, mas não falava nenhuma com perfeição. Seu inglês era passável, mas o francês era fluente.
— Não quer se sentar um instante? — perguntou ele, mostrando um banco ali perto, de onde se avistava bem o lago. Relutou em largar seu braço, como que receando que ela caísse, e Beata sorriu.
— Estou bem mesmo. — Mas a ideia de sentar-se ao lado dele por uns minutos foi tentadora. Não era o tipo de coisa que ela fazia normalmente, na verdade nunca tinha feito, mas aquele rapaz era tão agradável e gentil e parecia sentir-se tão responsável pelo quase-acidente, que teve pena dele. Não seria nada de mais sentar-se e conversar um instante, e depois continuar a andar. Não tinha pressa de voltar para o hotel, pois sabia que a mãe e a irmã demorariam a chegar. Deixou que ele a ajudasse a andar até o banco e se sentasse ao seu lado, mantendo uma distância respeitosa entre os dois.
— Acha que está realmente bem? — Ele olhou para o tornozelo dela à mostra por baixo da saia e ficou aliviado de ver que não parecia inchado.
— Garanto que estou — respondeu ela, sorrindo.
— Eu ia passar por você sem incomodar. Devia ter dito alguma coisa ou avisado que ia passar. Mas me sentia a quilômetros dali, pensando nessa guerra maldita, nessa coisa horrível. — Pareceu perturbado ao dizer isso, e recostou-se no banco. Beata nunca tinha conhecido ninguém como ele. Parecia um belo príncipe saído de um conto de fadas, e especialmente amistoso. Sua atitude não era pretensiosa. Lembrava um dos amigos de Ulm, só que mais bonito.
— Então você não é suíço? — perguntou ela, interessada.
— Sou francês — respondeu ele com naturalidade, e ela franziu a testa e ficou calada. — É horrível isso? Na verdade, o pai da minha mãe era suíço. Por isso estou aqui. Ele morreu há duas semanas e tive de vir para tomar as providências necessárias com meu irmão e meus pais. Recebi uma licença para viajar. — Sua conversa era muito fluente e aberta, sem grandes presunções nem intimidades impróprias. Parecia muito bem-nascido e aristocrático, e muito gentil.
— Não é nada horrível — respondeu ela, com sinceridade, olhando diretamente para ele. — Eu sou alemã. — Tinha esperado que ele desse um pulo no banco e dissesse que detestava os alemães. Afinal de contas, eram inimigos de guerra, e ela não imaginava qual seria sua reação.
— Você espera que eu a culpe pela guerra? — perguntou ele gentilmente, fitando-a. Achou-a muito jovem e bonita. Pareceu-lhe ainda mais linda à medida que falava com ela, e comoveu-se com sua expressão reservada. Era um tipo diferente de mulher, e de repente ele ficou contente com a confusão que causara. — Foi você quem fez isso? Você é culpada por essa guerra horrível? Devo ter raiva de você? — disse ele, brincando, e os dois acabaram rindo.
— Espero que não me culpe. Você está no exército? — perguntou, pois ele tinha dito que estava de licença.
— Na cavalaria. Estudei em Saumur, uma academia equestre. — Beata sabia que era para lá que iam todos os aristocratas que se tornavam oficiais de cavalaria, uma unidade de grande prestígio.
— Deve ser interessante. — Ela adorava cavalos e montava muito quando criança. Gostava de montar junto com os irmãos, especialmente Ulm. Horst galopava demais e deixava seus cavalos frenéticos, e os dela por tabela. — Meus irmãos também estão no exército.
Ele olhou pensativamente para aqueles olhos azuis, mais escuros que os seus. E para o cabelo muito escuro sobre uma pele claríssima. Ela parecia uma pintura sentada ali no banco.
— Não seria bom se os problemas entre as nações pudessem ser solucionados com simplicidade, com duas pessoas sentadas em um banco numa tarde de verão em frente a um lago? Várias situações poderiam ser expostas até se chegar a um acordo, sem que tantos jovens tivessem de morrer nos campos de batalha. — Estas palavras fizeram-na franzir a testa de novo, pensando em como seus irmãos estavam vulneráveis.
— Seria bom. Meu irmão mais velho acha que a guerra vai acabar logo.
— Eu gostaria de concordar com isso. Acho que depois que, pegamos em armas, não as largamos com facilidade. A meu ver, essa guerra pode levar anos.
— Espero que esteja errado — disse ela, com calma.
— Eu também. — Ele estava meio sem jeito de novo. — Desculpe minha grosseria. Meu nome é Antoine de Vallerand. — Levantou-se, fez uma pequena reverência e sentou-se novamente. Beata sorriu.
— Eu sou Beata Wittgenstein — disse ela por sua vez.
— Como pode falar francês tão bem? Seu francês é quase perfeito, sem nenhum sotaque. Na verdade, a pronúncia é de parisiense. — Nem lhe passou pela cabeça que ela fosse alemã. Estava fascinado, e não lhe ocorreu, mesmo ao ouvir seu nome, que ela fosse judia. Ao contrário da maioria das pessoas da sua classe e do seu círculo, isso não o afetava. Nunca tinha pensado nesse tipo de coisa. O que via à sua frente era uma mulher bonita e inteligente.
— Aprendi francês na escola — disse ela, sorrindo.
— Não acredito, e se for verdade, você é muito mais inteligente que eu. Aprendi inglês na escola, ou é o que eles dizem, e não sei uma só palavra. E meu alemão é absolutamente terrível. Não tenho o seu dom para línguas. A maioria dos franceses não tem. Falamos francês e nada mais. Achamos que o mundo inteiro vai aprender francês para poder falar conosco, e felizmente você aprendeu. Fala inglês também? — perguntou, achando que a resposta seria positiva. Embora não se conhecessem, e ele pudesse ver que Beata era tímida, ela parecia extremamente brilhante e muito à vontade. A própria Beata ficou surpresa de sentir-se tão à vontade, tão segura na sua companhia, embora ele fosse estrangeiro.
— Falo, mas não tão bem quanto francês.
— Você está estudando? — Ela parecia mais moça que ele, e era. Antoine tinha 32 anos, era 12 anos mais velho.
— Não mais. Já terminei — respondeu ela, encabulada. — Mas leio muito. Gostaria de ir para a universidade, porém meu pai não deixa.
— Por que não? — perguntou ele, com um sorriso. — Deve querer que você se case e tenha filhos. Acha que não precisa estudar mais. Estou certo?
— Completamente — disse, também sorrindo.
— E você não quer se casar? — Ele se parecia cada vez mais com Ulm. Beata tinha a impressão de que eram velhos amigos, e ele sentia-se igualmente à vontade com ela. Ela conseguia ser franca com ele, o que raramente lhe acontecia. Era extremamente tímida com homens.
— Só quero me casar quando me apaixonar por alguém — disse, com simplicidade, e ele fez que sim.
— Isso faz sentido. Seus pais concordam com essa ideia?
— Não tenho certeza. O casamento deles foi arranjado, e eles acham um bom sistema. Querem que meus irmãos se casem também.
— Que idade seus irmãos têm?
— Um tem 23, e o outro, 27. O mais velho é bem sério, o outro só pensa em se divertir e é agitado demais — falou, com um sorriso prudente.
— Mais ou menos como meu irmão e eu.
— Que idade ele tem?
— É cinco anos mais moço. Tem 27, como seu irmão mais velho, e eu sou um homem idoso de 32. Já perderam a esperança comigo. — Até aquele momento, ele também tinha perdido.
— E você é qual deles?
— Qual deles? — perguntou, sem entender por um instante o que ela dizia. — Ah, sim, ele é o agitado, eu sou o chato. — Só então percebeu o que tinha dito e consertou. — Desculpe, não quis dizer que seu irmão mais velho é chato. Deve ser só sério. Eu sempre fui responsável, meu irmão não é. Está sempre ocupado se distraindo e não pensa em responsabilidade. Talvez ele esteja certo. Eu sou muito mais quieto que ele.
— E não é casado? — perguntou ela, interessada. Era um encontro muito sui generis. Os dois faziam-se perguntas que nunca ousariam fazer em um salão de dança, em uma sala de visita ou em um jantar. Ali, sentados no banco à beira do lago, parecia perfeitamente apropriado perguntarem o que quisessem. Beata estava curiosa. Ele parecia encantador e decente, além de ser extremamente bonito. Tudo indicava que fosse o irmão jovial e que estivesse mentindo, mas ela acabou acreditando em tudo que ele dissera e achou que ele acreditara nela também.
— Não sou casado — respondeu ele, com ar matreiro. — Por duas vezes pensei em me casar, mas senti que não era o que eu queria, apesar da grande pressão da minha família. O filho mais velho, essas coisas. Não quero cometer um erro e me casar com uma mulher que não sirva para mim. Prefiro ficar sozinho, e é como estou.
— Concordo com você — disse ela, com determinação. Às vezes, ela lhe parecia uma criança; outras vezes suas ideias eram muito bem definidas, sobre casamento e sobre cursar uma universidade.
— O que você estudaria se tivesse permissão dos seus pais de estudar e ir para a universidade? — perguntou ele, interessado, com um ar sonhador.
— Filosofia. Os gregos antigos, creio. Talvez religião ou filosofia da religião. Eu li a Bíblia do começo ao fim. — Ele ficou impressionado. Ela era obviamente uma moça brilhante, além de bonita, e com uma conversa muito agradável.
— E o que achou? Não posso dizer que tenha lido a Bíblia, a não ser alguns trechos, quase sempre em casamentos e enterros. Passo a maior parte do tempo com cavalos e ajudando meu pai a cuidar da nossa propriedade. Tenho um romance eterno com a terra. — Era difícil transmitir a ela o que a terra e os cavalos significavam para ele. Estava no seu sangue.
— Acho que muitos homens são assim — disse Beata. — Onde é a propriedade da sua família? — Estava gostando de conversar com ele e não queria que a conversa terminasse.
— Em Dordogne. Região de criação de cavalos. Fica perto de Périgord, de Bordeaux, se isso lhe diz alguma coisa. — Seus olhos iluminaram-se quando ele falou do lugar, e ela viu quanto isso significava para ele.
— Eu nunca estive em Dordogne, mas deve ser bonito, a julgar pelo modo como você fala.
— É mesmo. E onde você mora na Alemanha?
— Em Colônia.
— Já estive lá. Gosto muito da Baviera também. E já passei bons momentos em Berlim.
— É em Berlim que meu irmão Horst quer morar. Mas não pode, é claro. Vai ter de trabalhar com meu pai depois da guerra, o que não lhe agrada nada. Mas não tem escolha. Meu avô, meu pai, os irmãos dele e meu irmão Ulm trabalham no banco da família. Suponho que não seja muito divertido, mas todos parecem gostar bem do que fazem. Deve ser interessante. — Ele sorriu, achando que ela tinha ideias brilhantes e interesse pelo mundo. Tinha certeza, ao ouvi-la falar, de que se ela tivesse cursado uma universidade ou trabalhado no banco teria se saído muito bem. Ainda estava impressionado com o fato de ela ter lido a Bíblia toda quando menina.
— O que você gosta de fazer? — perguntou ele.
— Adoro ler e aprender coisas. Gostaria de ser escritora um dia, mas é claro que também não vou poder fazer isso. — Nenhum marido toleraria que ela fizesse algo assim, seu dever seria cuidar do marido e dos filhos.
— Talvez venha a ser um dia. Creio que vai depender do homem com quem se casar. Você não tem irmãs, só irmãos?
— Tenho uma irmã menor, Brigitte, de 17 anos. Ela gosta de ir a festas, de dançar e de se arrumar bem, está louca para se casar. Sempre diz que eu sou uma chata. — Falou isso com um sorriso malicioso, e ele teve vontade de abraçá-la, apesar de não terem sido apresentados de forma apropriada. Sentiu-se de repente muito contente de quase tê-la derrubado no chão. Achou que tinha tirado a sorte grande, e teve a impressão de que Beata pensava assim também.
— Meu irmão também acha que eu sou um chato. Mas você não é chata mesmo, Beata. Gosto muito da sua conversa.
— E eu da sua — disse ela, sorrindo timidamente, refletindo que era hora de voltar para o hotel. Os dois estavam sentados ali havia um bom tempo. Mais do que seria de esperar. Ficaram um instante em silêncio, admirando o lago, depois ele voltou a falar.
— Você gostaria que eu a acompanhasse até o hotel? Sua família pode estar preocupada.
— Minha mãe levou Brigitte para fazer compras. Acho que só vão chegar para o jantar, mas talvez seja hora de voltar — disse, num tom responsável, mesmo sem querer ir embora.
Os dois se levantaram com relutância, e ele perguntou como estava seu tornozelo. Ficou contente de saber que não estava incomodando, e ofereceu o braço para acompanhá-la devagar até o hotel. Beata enfiou a mão no braço dele e foram conversando sobre uma variedade de coisas. Ambos detestavam festas, mas gostavam de dançar. Ele ficou feliz ao saber que ela apreciava cavalos e tinha participado de caçadas. Os dois gostavam de barcos e eram apaixonados pelo mar. Ela disse que nunca sentira enjoo, por mais difícil que fosse acreditar. Mas confessou que tinha medo de cachorro desde que fora mordida quando era criança. E ambos adoravam a Itália, mas ele disse que gostava muito da Alemanha também, o que não podia admitir abertamente no momento. A guerra e o fato de seus respectivos países serem inimigos não lhes pareciam importantes. Antoine sentiu pena quando se aproximaram do hotel. Não queria deixá-la, embora tivesse feito planos de jantar com a família. Queria ficar mais horas com ela, e hesitou em ir embora. Os dois entreolharam-se.
— Gostaria de tomar um chá comigo? — sugeriu. Os olhos dela brilharam de alegria.
— Seria ótimo, obrigada. — Ele levou-a para o terraço, onde serviam chá e pequenos sanduíches. Mulheres elegantes conversavam animadamente, e casais de aspecto próspero falavam baixinho em francês, alemão, italiano e inglês.
Tomaram um chá completo, e finalmente, sem poder segurá-la ali por mais tempo, Antoine acompanhou-a até o saguão e observou-a. Beata lhe parecia pequena e frágil, mas, depois de conversarem durante horas, mostrou que era forte e capaz de defender suas ideias. Tinha opiniões firmes sobre várias coisas, quase todas em consonância com as dele. E as opiniões divergentes o divertiam. Ela não era nada chata, na realidade era incrivelmente interessante e lindíssima. Sabia que teria de vê-la de novo.
— Acha que sua mãe permitiria que você almoçasse comigo amanhã? — Estava esperançoso, com vontade de tocá-la, mas não teve coragem. Gostaria mais ainda de tocar no seu rosto. Sua pele era especial.
— Não tenho certeza — disse Beata, honestamente. Seria difícil explicar como tinham se conhecido e contar que ficaram conversando durante longo tempo sozinhos. Mas não acontecera nada de inconveniente, Antoine era extremamente educado e muito bem-nascido. Ninguém poderia lhe fazer objeções, a não ser o fato de ele ser francês, o que era obviamente inconveniente no momento. Mas agora estavam na Suíça, afinal de contas. Seria diferente se estivessem na Alemanha. Só porque os dois países eram inimigos, isso não queria dizer que ele não fosse boa pessoa. Mas Beata não estava certa se sua mãe entenderia isso, na verdade achava que não. Os irmãos dela estavam engajados em uma guerra contra a França e podiam ser mortos a qualquer momento. Seus pais eram muito patriotas e de cabeça pouco aberta, como Beata sabia muito bem e Antoine temia. Ela sabia também que, se ele se mostrasse interessado, sua família não o aceitaria por ele não ser judeu. Mas preocupar-se com isso parecia prematuro.
— Talvez sua mãe e sua irmã gostassem de almoçar conosco, o que você acha? — perguntou ele, esperançoso, sem intenção de desistir. A guerra lhe parecia um obstáculo pequeno a essa altura. Beata era maravilhosa e mágica demais para ele perdê-la.
— Vou perguntar — disse Beata calmamente. Ia fazer mais que isso, estava disposta a lutar como um tigre para vê-lo de novo, e achava que teria mesmo de lutar. Sabia que, aos olhos da sua mãe, ele teria dois pontos negativos: a nacionalidade e a religião.
— Seria melhor eu telefonar para sua mãe e convidá-la? — perguntou, preocupado.
— Não, deixe comigo — respondeu ela, sacudindo a cabeça. Os dois tornaram-se de repente aliados em uma conspiração tácita: a continuação de uma amizade ou o que fosse aquilo. Beata não achava que estivessem flertando, só queria que fossem amigos. Não ousava esperar nada mais.
— Posso telefonar para você mais tarde? — perguntou ele, nervoso, e ela deu o número do quarto que dividia com Brigitte.
— Nós vamos jantar no hotel hoje à noite.
— E nós também — disse ele, surpreso. — Talvez nos vejamos, e eu tenha oportunidade de me apresentar à sua mãe e sua irmã. — Depois pareceu preocupado. — Como vamos dizer que nos encontramos? — O encontro tinha sido fortuito, mas não inteiramente decoroso. E a conversa longa fora no mínimo inusitada. Beata riu da pergunta.
— Vou simplesmente dizer que você me jogou no chão e depois me levantou.
— Tenho certeza de que ela vai ficar impressionada. Vai dizer que eu a joguei na lama ou no lago e você teve de se limpar depois do tombo? — Beata riu como uma criança das sugestões, e Antoine sentiu-se feliz como não se sentira por anos. — Você é uma bobinha. Pode pelo menos dizer que eu a aparei para você não cair, mesmo eu tendo sido o causador de tudo ao passar depressa pelo caminho. — Mas não se lamentava mais sobre isso. Aquele acidente mínimo viera a calhar. — E bem podia dizer à sua mãe que eu me apresentei de forma adequada.
— Talvez eu diga. — Por um instante Beata ficou realmente preocupada, um tanto sem jeito com o que ia sugerir. — Seria terrível dizer que você é suíço?
Ele hesitou, depois assentiu. Via que sua nacionalidade era um problema para ela, ou poderia ser para sua mãe. Na verdade, o problema muito maior seria o fato de ele ser um francês nobre e não um judeu, mas Beata nunca lhe diria isso. Planejava dizer à mãe que eles eram só amigos, talvez assim ela não se importasse muito. Qual o mal de fazer amizade com um cristão? Muitos amigos deles eram cristãos. Usaria esse argumento, caso a mãe não permitisse que ela almoçasse com Antoine.
— Eu sou um quarto suíço, afinal de contas. Só tenho de lembrar de não contar os números na frente da sua mãe, não falar soixante-dix, como os franceses, em vez de septante, como os suíços. Isso me trairia. Tudo bem, não me importo se for mais fácil para você dizer que sou suíço. É uma pena que a nacionalidade seja tão importante para nós nos dias de hoje. — A verdade é que sua própria família ficaria horrorizada de ele fazer amizade com uma moça alemã, e, pior ainda, de estar totalmente encantado por ela. Não havia espaço naquela época para amor entre alemães e franceses. Mas ele não via por que os dois deviam pagar um preço por essa animosidade. — Não se preocupe, vai dar tudo certo — disse com carinho quando ela o olhou com seus enormes olhos azuis. — Vai acabar tudo bem, Beata. Garanto. De uma forma ou de outra, vamos nos ver amanhã. — Antoine não deixaria que nada se interpusesse entre eles, e ela sentiu-se completamente protegida. Embora fossem quase estranhos, ela sabia que já confiava nele. Uma coisa incrível e maravilhosa tinha acontecido naquela tarde. — Eu telefono para você hoje à noite — disse baixinho quando ela entrou no elevador e virou-se para sorrir, antes que o ascensorista fechasse as portas. Antoine continuou ali, e ela subiu, sabendo que em uma única tarde sua vida inteira tinha mudado. E Antoine sorriu para si mesmo ao sair do hotel.
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