Trecho do Livro: Como Teodora Minha Avó | Marilene Dias

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Trecho do Livro: Como Teodora Minha Avó | Marilene Dias

Livro Como Teodora Minha Avo

Autora: Marilene Dias
Editora: Scortecci
ISBN: 9788536613086
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Coisas da vida profissional

Trabalhei há muitos anos como Analista de Organização e Métodos. A principal atividade deste profissional era racionalizar o processo de trabalho de outra pessoa, ou seja, ver como ela executava uma tarefa e encontrar uma forma de realizá-la de forma mais rápida, melhor e com menos esforço (tudo para que a empresa ganhasse mais com a presença daquele ser humano, é claro). Organizávamos as empresas, definíamos os cargos, escrevíamos manuais de procedimentos, etapa por etapa de uma atividade. Por exemplo: pegue uma folha de papel, levante-a rapidamente, coloque-a sobre sua mesa, pegue a caneta, escreva o seu nome, e assim por diante. Em resumo: foram muitos anos atormentando o sossego dos outros. Mas eu gostava do meu trabalho. Gostava sim.

Pertenci a uma equipe numa grande empresa na Secretaria de Finanças da Prefeitura de São Paulo. Algumas coisas muito engraçadas aconteceram por lá. Logo na minha primeira semana eu deveria me apresentar a um Diretor de um departamento importante e estabelecer uma relação de trabalho com ele. Fui várias vezes procurar por ele e a resposta da secretária dele era para que eu aguardasse sentada que ele me chamaria. Não sei exatamente por que, mas tomei chás de cadeiras intermináveis. Ficava lá sentadinha, olhando para a cara da secretária, para o teto, para o chão e, o pior, para as outras pessoas que chegavam e entravam na sala do homem rapidamente, imediatamente até. Ufa, que paciência. O pior era que ao retornar para o meu local de trabalho, meu chefe não se conformava com o fato de eu não ter conseguido ser recebida pela criatura.

Bem, eu tinha que conseguir e mais um dia fui eu para a tortura, mas desta vez defini que iria conseguir falar com o Diretor. A mesma cena se repetiu.

- Bom dia, o Dr. vai recebê-la. Aguarde.

Sentei-me e começou a longa espera. Mas, graças a Deus, secretárias fazem xixi e diretores tomam café. A secretária saiu para ir ao banheiro e a senhora do cafezinho chegou, como sempre, com a bandeja de café. Quando ela chegou, olhei para ela e instantaneamente pedi para ela me dar a bandeja que eu fazia questão de surpreender meu velho amigo, entrando na sala dele com o cafezinho quentinho para ele. Disse para ela que ele iria adorar a surpresa. Acho que fui convincente. Ela achou graça e me passou a bandeja. Respirei, dei uma batidinha na porta e o famoso dá licença acompanhou minha entrada na famosa sala do diretor.

-Bom dia Dr. P… eu sou a Mari da equipe de projetos e vim tomar um cafezinho com o senhor.

A cara de espanto do homem foi proporcional a sensação do risco que corri. Poderia dar tudo certo, como poderia ser uma catástrofe a tal ponto de eu ficar desempregada.

Pus o café nas xícaras e quando olhei para a cara dele havia um sorriso, uma risada. Ele achou graça da minha atitude, tomamos o café juntos, começamos uma ótima amizade e trabalhamos bons anos juntos.

Numa outra ocasião, o meu chefe me chamou na sala dele ao final do expediente e me deu uma ordem:

- Mari, vá ainda hoje ao novo prédio que poderá ser alugado pela Prefeitura. Neste local serão armazenados os arquivos dos documentos de todos os imóveis de São Paulo. Toneladas de arquivos. Você deve examinar o prédio e definir se os arquivos podem ocupar o primeiro andar ou se devem ser colocados no térreo por causa do peso. O departamento de engenharia levaria muito tempo para ir ao prédio fazer a análise e eu teria que dar um parecer definitivo no dia seguinte, logo cedo. O Secretário das Finanças ficaria aguardando para decidir se alugaria o prédio ou não.

Sai da sala incrédula. Por que eu? Fui para o tal prédio. Olhei para as pilastras. Dei uma batidinha nelas. Ocas elas não eram, mas como saber se elas agüentariam as toneladas de arquivos que viriam para lá. Fui para casa e não conseguia parar de pensar nesta tal avaliação. Teria que dar uma resposta no dia seguinte cedo. Virava de um lado para o outro na cama. Pensei, pensei e de repente decidi: se eu disser que os arquivos podem ser colocados no primeiro andar e um dia o peso deles provocar um grave problema de desabamento teríamos um problemão, mas se eu recomendasse o térreo o problema estaria resolvido. No térreo eles jamais despencariam. Relaxei e dormi.

Logo cedo, meu chefe me chamou e comuniquei meu parecer com firmeza e tranqüilidade:

- O primeiro andar não comporta o peso dos arquivos. O correto é colocá-los no térreo.

Em resumo, até hoje eles estão lá, no térreo da Brigadeiro Tobias, 391.

E eu estou aqui contando esta experiência da minha vida profissional.

Um Conselho Prático:

Não dar palpite na vida alheia é sábio. Por quê? Se o uso do seu palpite der certo, foi idéia da pessoa, mas se algo der errado: a culpa é sua.

Melhor ficar calado.

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