Trecho do Livro: Amor e Cheiro (Ishq and Mushq) | Priya Basil

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Trecho do Livro: Amor e Cheiro (Ishq and Mushq) | Priya Basil
Livro Amor e Cheiro
Autora: Priya Basil
Editora: Nova Fronteira
ISBN: 9788520920824

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— Coma uma, Dharji — Sarna encorajou Karam, enquanto chupava sua terceira manga.

Ele notou que ela lhe oferecia as mangas sem de fato dar-lhe uma, mas não se importou. Estava quase saciado só de vê-la comer. Ela rasgou a casca da manga com os dentes e os dedos e chupou sofregamente a polpa macia e doce da fruta. O som que ela fazia ao comer lembrava o roçar entre os corpos ao fazerem amor. Seus lábios brilhavam com o suco âmbar, reluziam como o nascer do sol. Mais suco respingou-lhe na mão e se acumulou nos nós dos dedos, formando piscinas de líquido amarelo-quartzo. Ela engoliu a fruta, saboreando-a.

— Eu amo essa parte.

Ela movimentou o caroço da manga para dentro e para fora de sua boca. Quando se certificou de que não havia mais nada para comer ali, jogou o caroço no chão, ao lado dos outros dois que brilhavam, brancos e peludos. Depois, sorrindo para Karam, apanhou outra manga.

— Coma uma, Dharji. — E apontou para a caixa de fruta com a cabeça.

— Você vai acabar doente — repreendeu-a Karam. — Deveria parar agora.

Se ela parasse, talvez ele conseguisse interromper as fantasias que o estavam deixando louco de desejo. O jeito de Sarna comer o levara a imaginar um apetite sensual que ele jamais vira nela quando faziam amor. Até então, o s_xo tinha sido um ato discreto e corrido: momentos nos quais eles se tateavam desajeitadamente, vestidos, em silêncio e no escuro, enquanto o resto da casa dormia. Karam nunca vira desejo nos olhos de Sarna, nunca vira seus lábios molhados de desejo, nunca a vira lamber o âmago dele até virar um caroço brilhante.

Sarna ignorou Karam e continuou a comer. Das coisas que pusera na boca até então, manga era a que mais a satisfazia. Até onde se lembrava, todos os anos, de junho a agosto, ela se empanturrava da ambrosia dourada do tamanho da palma de uma mão. E todos os anos sua mãe tentava de tudo para conter o consumo insaciável de Sarna. Primeiro tentou amedrontá-la com relação à fruta dando conselhos sobre a saúde. “Você vai ferver por dentro e explodir! Você sabe a quantidade de gharmee que a manga produz? Elas vão queimar você por dentro e vão dar espinhas e menstruação forte. E aí, quem vai querer você?” Como este alerta não deu resultado, Bibiji passou a comprar menos frutas. Mas, mesmo assim, Sarna dava um jeito de se empossar da maior parte de toda a manga que entrava na casa. Subornava as irmãs para que lhe dessem sua porção, ou entrava sorrateiramente na cozinha e fazia um banquete de mangas no meio da noite. Finalmente Bibiji declarou a moratória completa da manga.

— Nenhuma fruta dessa vai entrar nesta casa até que você aprenda a se controlar.

Bibiji se agarrou firmemente à sua própria interpretação ignorante da teoria ayuvérdica sobre as comidas “quentes” e “frias”. Ela sempre monitorara cuidadosamente a quantidade de comida “quente”, como ovos, nozes, uvas, frutas secas e pimenta na dieta de suas filhas. Acreditava que esses alimentos, se não fossem saboreados com estrita moderação, podiam provocar um impacto desagradável na saúde do corpo feminino. Ela acreditava que essas comidas aceleravam a maturidade, porém estava mais seriamente convencida de que faziam emergir instintos amorosos e encorajavam os comportamentos imorais. Com qualquer uma das suas outras três filhas, Bibiji teria sido mais tolerante com as súplicas por manga — mas Sarna era a mais bonita do grupo, e também a mais independente e de língua mais afiada. Sempre houvera atritos entre ela e Bibiji — desde que Sarna, ainda bebê, se recusara a tomar o leite da mãe. Bibiji quase conseguira dar um jeito de manter a garota cheia de desejos sob controle, mas com as paixões provocadas por alimentos correndo pelo sangue dela, não havia como prever até onde iria a sua falta de controle. Bibiji baniu, então, as mangas.

Mas quando era a estação das frutas, Sarna ficava como uma mulher possessa. Como as abelhas que correm para o mel, ela também tinha que obter a sua cota de mangas. A beleza de Sarna tornava-as facilmente acessíveis. Os empregados arriscavam-se ao castigo da patroa por um lampejo do sorriso que a filha lhes dava em troca de uma manga. Às vezes, Sarna saía sorrateiramente da casa e ia rondar as barracas de fruta, onde todos os vendedores ofereciam manga de graça para ela só pelo prazer de vê-la se refestelar na fruta. De vez em quando, Bibiji percebia o cheiro doce no hálito da filha, ou a mancha da polpa amarela sob as suas unhas, e a repreendia de novo, com indignação:

— Você vai fazer a vergonha cair sobre nós! Nenhum autocontrole, nenhum autocontrole. Com esse vício por manga e esse fetiche de pôr pimenta em tudo o que come, só Deus sabe o que está acontecendo dentro de você. Daqui a pouco, em vez de sangue, você vai ter suco de manga correndo nas veias, e aí — hai Ruba — só espero não estar viva para ver o que você vai aprontar.

Sarna, no entanto, continuou a comer mangas. Quando ela cometeu o seu erro e a vergonha caiu sobre a família, Bibiji tinha ao menos uma explicação possível para aquilo.

— Essa garota é vikriti — decretou ela, usando a antiga palavra em sânscrito que significa “desviada da natureza”. — Ela ficou quente demais. Hai Vaheguru! Que Deus proteja as mocinhas do fervor que há nessas frutas.

Então Bibiji decidiu que todas as filhas iriam beber apenas água gelada até o dia de seus casamentos. À Sarna foi imposta uma dieta de um mês inteiro de água gelada e legumes crus, na esperança de que isso apagasse as chamas do seu espírito fogoso. Mas a água não pode amenizar a natureza de uma pessoa e nem apagar um erro.

Karam esticou o dedo para retirar uma gota de suco de manga que pendia frágil do rosto de Sarna. Ele imprensou a gota contra a pele dela e subiu o dedo, traçando uma linha reta cruzando seus lábios, passando pelo nariz e chegando à linha do cabelo, depois desceu de volta. A simetria esbelta do rosto dela o comoveu.

Sarna balançou a cabeça para deslocar o dedo dele.

— Mmm-mmm, Ji, eu estou comendo.

Ji, pensou Karam. Agora eu sou Ji. Ele se emocionou com aquela abreviação. Era o apelido de namorados mais doce que ele já ouvira. A cada sílaba que Sarna retirava de seu nome, o amor deles quebrava as barreiras da tradição. Sardharji, Dharji, Ji. A cada abreviação carinhosa, Sarna aprofundava a intimidade deles. Karam emocionou-se por ela ter encontrado e ousado lançar mão daquela expressão vocal para o amor. Ele não conseguia pensar em nenhuma palavra apropriada. E, mesmo que conseguisse pensar em alguma, não saberia como dizê-la.

Às vezes tentava repetir o nome de Sarna com centenas de entonações diferentes, cada uma delas fazendo soar uma nota diferente de amor. Mas geralmente preferia usar as mãos. Com as mãos grandes e enérgicas e com os dedos fortes de unhas limpas e aparadas, ele traçava suas menores curvas. Corria o dedo pela sobrancelha de Sarna, sobre o arco suave do nariz ou em torno da sinuosa e delicada cartilagem da orelha. E, por meio desses toques, ele dizia:

— Você é a minha perfeição.

Quando viu Sarna, Karam percebeu pela primeira vez o sentido da palavra “beleza”. Ele recordava esse momento como uma pontada afiada no fundo da garganta que fez com que sua respiração parasse em algum lugar do peito e a cabeça ficasse tonta. As outras pessoas presentes testemunharam esse momento e pensaram que Karam estivesse engasgando. Ele cuspira gotas de laranja do doce de ludoo que a mãe de Sarna acabara de empurrar para ele. A borrifada voara bem na direção de Sarna, como uma chuva de confetes.

Karam sempre fora suscetível à beleza, mas via esse impulso como um gosto pela ordem. Era fascinado pela precisão. Adorava a matemática e tirava proveito da própria habilidade, extraindo enorme satisfação da precisão que ela podia invocar na sua mente em meio à incerteza que o cercava. Na casa apinhada em que cresceu, em Nairóbi, Karam superava situações difíceis subindo escadas de números na sua cabeça. À noite, em seu quarto coletivo, quando os murmúrios e os roncos dos irmãos o perturbavam, ele se recolhia ao ábaco que era a sua mente e caía no sono ao som da cantiga dos tiquetaques dos números. Quando Baoji, seu pai, apanhava a vassoura para puni-lo por algum erro, Karam começava a contar. Cada golpe na perna Karam transformava em uma conta, e construía uma equação contra a dor, de modo que, com a primeira pancada, ele pensava: “1/2 =”, e quando a segunda pancada vinha, ele usava a resposta para formular outro cálculo: “0,5 x 94 =”. No terceiro golpe, ele continuava figurando — “47²” —, e assim a conta prosseguia — “2.209 x 1.010 =” —, os números iam se multiplicando na proporção da dor e ao mesmo tempo a bloqueavam — “2.231.090 x 100 =” —, os zeros se acumulando em sua cabeça de modo a nunca saltarem num “Ai!” da sua boca.

Desse amor pelos números, se seguiu que, para Karam, o prazer estético estava na regularidade, numa tarefa bem-feita. Na chegada ou na partida de alguém exatamente na hora combinada. Na eficiência elegante do salai, longo e metálico como uma agulha de tricô, prendendo qualquer cabelo rebelde sob um turbante. Quando, pela visão de Sarna, ele sentiu o mesmo prazer intensificado, Karam entendeu que era o seu sentido de beleza que o comovia. Em Sarna, ele descobriu seu lado mais sensual. Olhou à sua volta e viu com novos olhos a curva dos galhos de uma árvore, a ventania sinuosa das nuvens, o arco na envergadura da asa de um pássaro. Viu que mesmo a menor folha de grama se inclina em direção ao sol. Ele se deu conta de que a severidade impregnara de modo não natural a sua vida: entrara em seus pensamentos, seus hábitos, até mesmo em seu sono. Ele dormira esticado e imóvel durante a maior parte da vida, o resultado inevitável de dividir uma cama com tantos irmãos. Agora, ao dormir, enroscava-se em posição fetal, ou, como uma lua nova, em forma de gancho, em volta de Sarna. Isso também era beleza.

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Querido sardharji,

Você partiu há apenas algumas semanas, mas já sinto como se fossem meses. Por que não manda notícias? Você disse que escreveria todas as semanas. Eu só sei que você provavelmente está bem porque Baoji esteve com Harnaam Singh no gurudwara, e o filho dele, que acabou de voltar de Londres, disse que viu você lá no templo.

Ontem eu fiz feijão com curry e suas berinjelas defumadas favoritas. Comi um prato a mais em seu nome e pensei em você a cada garfada. O que você está comendo aí? Está conseguindo encontrar vegetais indianos nas lojas? Como é a comida inglesa? Eles usam curry? Não deixe de comer bem — você acabou de se recuperar.

Não está fácil por aqui. Sukhi voltou de viagem, então eu tive que me mudar do quarto de Persini e ir para a cozinha com as gêmeas. Estamos novamente no velho colchão de solteiro, nós três. Tente só imaginar isso. O único jeito de cabermos as três no colchão é – Jugpyari dormindo aos meus pés, e Phoolwati, acima da minha cabeça. É desconfortável demais. Quando não consigo dormir, escrevo cartas para você na minha mente. Depois escrevo também suas respostas para mim, que são sempre cheias de amor, prometendo que você vai voltar logo e que tudo vai melhorar.

As gêmeas estão crescendo tão rápido! Você vai ficar surpreso quando as vir novamente.

Phoolwati pode ser a mais velha, mas é muito mais frágil do que Jugpyari. Semana passada elas tomaram vacinas e Pyari não fez um único ruído, enquanto Phool chorou antes, durante e por horas depois. Ela é muito sensível, estou falando sério — realmente delicada, como a flor que empresta seu nome a ela. Me preocupo com ela. Tudo parece fazê-la chorar: um pouquinho de frio, algum barulho, qualquer coisa a faz cair no pranto. Então começam também os gritos de Biji. “Mãe inútil, crianças inúteis”, reclama ela. É claro que quando a Rupi de Persini chora, Biji não diz nada. Isso me dá tanta raiva. Tenho vontade de gritar às vezes, mas não tem ninguém aqui para quem eu possa sequer sussurrar meus problemas.

Continuo dizendo a mim mesma que é só por um ano e que depois tudo será diferente — foi essa a sua promessa quando você partiu. Eu vivo por essa promessa. Ela me mantém ativa. Mas estaria melhor se soubesse que você está bem. Por favor, escreva.

Sarna.

1º de agosto de 1951

Querido sardharji,

Ainda nenhuma notícia sua. Por quê? Estou tão preocupada. Agora que você não está aqui, seus irmãos se revezam checando a caixa de correio. Eu queria que eles fizessem isso todos os dias, mas parece que ninguém se importa com o correio tanto quanto eu. Todos os dias eu espero, mas ainda não chegou nenhuma carta sua. Aquela Persini kamini, encarnação do diabo, acha isso muito engraçado. “Não se preocupe”, disse ela. “Bhraji deve estar ocupado vendo as atrações turísticas. Cidade nova, né? Trufulgur Square, Buckinghum Place…”. “Ele não está lá de férias”, eu lhe disse. “Ele está lá para estudar para poder arrumar um emprego — um emprego bom, não como o do marido de certas pessoas.” “Ao menos o meu está botando carne na mesa”, disse ela.

É verdade, Sukhi tem trazido quase todas as semanas cervos e aves de suas caçadas. Tem vendido também os chifres dos pobres animais para os brancos, os muzungus. Então está entrando dinheiro. Mas isso não impede Biji de fazer comentários sobre você ainda não ter mandado dinheiro algum. Você está trabalhando? Por favor, mande alguma coisa para que a sua família pare de agir como se eu fosse um fardo para eles.

Eu tento compensar tudo com a minha comida. Há duas semanas, preparei uma galinha-da-guiné ao curry, que Sukhi trouxe para casa, e ficou pra lá de boa. Biji disse que estava gostosa porque Sukhi a caçara. Por que as balas da espingarda dele têm sabor especial? Foi o que eu quis perguntar.

Essa semana eu acho que estão todos cansados da minha comida. Biji disse:

“O que está acontecendo com você? Não consegue preparar nem um prato simples agora? Estava tão seco, tão seco que ao final da refeição a minha boca ficou rachada como um deserto.” O que eu podia dizer? Como é que eu podia dizer a ela que talvez minhas esperanças estivessem secando e eu me sentisse como um deserto por dentro? Onde está você? Por que não escreve?

Não passa um dia sem que eu receba uma crítica de Biji. Tudo o que eu faço está errado. E as gêmeas estão no caminho errado também, porque são minhas. Biji nunca demonstra qualquer afeto por elas. Só fala nelas para reclamar. Para Rubi, ela só vive cantando e rezando, é claro.

Biji adora quando sou humilhada. Outro dia ela sorriu pela primeira vez em séculos porque Balvinder e Guru estavam caçoando das gêmeas. Mandeep estava lá também, mas não disse nada. “Eles deveriam ter dado a elas os nomes Leite e Achocolatado”, dizia Balvinder, “porque uma é da cor do leite e a outra do chocolate.” É claro que o grande baba Guru tinha que tentar ganhar dele na competição de quem é o mais engraçadinho, então sugeriu os nomes Kalajamun e Rasgullah, bolinho preto e bolinho branco, para as gêmeas. É isso que os seus irmãos estão aprontando, inventando nomes multicoloridos, inspirados em doces, para suas filhas. Persini deu uma boa risadinha com os comentários deles. Não sei como ela pode rir — a filha dela, Rupi, certamente não é nenhuma rainha da beleza.

O que mais posso contar a você? Este é o estado lastimável das coisas. Você precisa voltar. Por favor. Esqueça o curso, deve haver outro jeito de encontrar um emprego melhor e uma vida melhor. Nós podemos encontrá-los juntos. Por favor, volte. Nós precisamos de você. Eu preciso de você.

Sarna.

26 de setembro de 1951

Querido Sardharji,

Estou começando a entrar em desespero. Se ao menos você me escrevesse. Não se importa mais conosco? Nós não somos nada para você? Você vai voltar algum dia? Essas perguntas me perturbam todas as noites. Eu não consigo dormir.

O que vai ser de nós? Moramos nessa casa, mas estamos desamparadas. Não consigo nem mais me distrair imaginando cartas suas, porque não sei o que pensar.

O que você diria depois de tantos meses de silêncio? Você parece um desconhecido agora. Quando você foi fazer esse curso de refrigeração, eu não sabia que você ia nos dar um gelo e nos deixar de fora da sua vida.

Eu nem sei por que ainda me dou o trabalho de escrever — você dá alguma importância ao que conto? O último passatempo predileto de Biji é implicar com a minha aparência o dia inteiro. Tenho medo de fazer qualquer coisa porque sei que ela vai encontrar algo para criticar. Quase todos os dias ela me faz trocar qualquer que seja a roupa que eu tenha vestido de manhã. Segundo ela, as cores são muito brilhantes, o kameez está muito apertado ou o tecido faz um ruído muito alto quando eu me movimento. Mesmo que eu esteja usando o meu chuni, ela me ordena: “Cubra a cabeça.” E se minha cabeça está coberta, ela não está coberta da maneira correta, e eu tenho que ajustar o chuni para satisfazê-la. Se acontece de o chuni cair enquanto estou trabalhando, ela resmunga: “sem-vergonha.” Dar conta de cozinhar, limpar, cuidar das gêmeas e ainda ter que manter meu chuni no lugar o tempo todo está além do que eu posso fazer. Estou pronta para desistir. Estou avisando a você: do jeito que está não posso continuar. Sua mãe quer me deixar louca.

Talvez você me encontre assim mesmo, quando chegar. Louca e com uma única serventia: ser internada num hospício.

Sarna.

4 de outubro de 1951

Sardharji,

Então você tem escrito! Como foi que eu não vi isso antes? Estava tão aborrecida que fiquei cega para o óbvio. Aquela Persini kamini andava escondendo as suas cartas. Eu descobri porque Mandeep me perguntou o que você contava na carta. A kamini então interrompeu bem alto: “Ele não disse nada durante meses. O que vai dizer agora?” Eu perguntei “Que carta? Tem alguma carta?” Mandeep olhou para mim e depois para a kamini e disse: “Tinha uma carta na caixa de correio essa manhã. Eu dei para Persini porque você estava com as gêmeas. Eu disse a ela que entregasse a você.” A kamini fingiu inocência e exclamou, “Hai! Eu esqueci completamente, esqueci completamente. Vou pegar agora.” Eu a segui até o quarto dela, onde tirou a carta de um gaveta. “Você está com as outras cartas dele, não está?”, disse eu. É claro que ela negou, mas não olhava nos meus olhos. Ela deve ter feito Guru e Sukhi entregarem as cartas que eles apanhavam na caixa de correio para ela. Fiquei tão zangada que comecei a gritar: “Kamini! Kamini!” Tentei abrir as outras gavetas, mas ela não me deixava. Mandeep entrou no quarto e tentou nos separar. Depois Biji também apareceu. Eu disse a Biji que Persini estava escondendo cartas. Biji perguntou a ela se era verdade, mas é claro que ela disse que não. Biji olhou para mim e disse: “Não é verdade”. Eu simplesmente saí do quarto, fui para a cozinha e chorei. Aquela Persini vai ter o que merece — eu vou fazer de tudo para isso.

Sua carta não diz nada sobre quando você vai voltar. Você não leu nenhuma das minhas? Cheguei a pensar que Mandeep não estava enviando as minhas cartas como me prometera, mas quando perguntei a ele, ficou bastante ofendido. “Bhanji”, disse ele, “nós não somos todos iguais.” Mas como vou saber? Em quem eu posso confiar? Estou sendo obrigada a contar com pessoas que não gostam de mim. Agora eu acho que nem você gosta. Que carta foi essa que você escreveu? O papel está cheio de palavras, mas elas não dizem nada. A única coisa que eu posso dizer com certeza é que o tempo está ficando frio aí. Muito bom, Ji. Você sabe como está frio aqui? Frio como a pedra em que meu coração está se transformando. Mais frio do que a sua Londres, isso com certeza. Tão frio que você talvez nem agüente quando voltar.

Eu não sei por que continuo dizendo “quando você voltar”. Você não vai voltar, vai? Sou uma boba de ficar implorando. Mas a quem mais eu posso pedir? Quem mais eu tenho? Você é tudo para mim. Você me trouxe para cá, para longe do meu país e da minha família, e agora me abandonou. Não posso continuar desse jeito, morando numa casa cheia e me sentindo sempre sozinha. Só as gêmeas me fazem resistir. Por mim, não tenho nenhuma vontade de viver.

Estou pedindo a você uma última vez. Por favor, volte. Por favor, vamos encontrar outra solução juntos. Faço o que você quiser. Por favor, não ignore esse pedido.

Sarna.

18 de outubro de 1951

TRAGÉDIA GÊMEAS. VOLTE IMEDIATAMENTE. SARNA.

Veja também:

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