1351 a.C. – Peret, Estação de Cultivo
Enquanto o sol se punha sobre Tebas, derramando seus últimos raios sobre os penhascos de calcário, nós caminhávamos numa longa procissão através da areia. Numa sinuosa linha que serpentava entre os montes, os vizires do Alto e do Baixo Egito vinham à frente, seguidos pelos sacerdotes de Amon, com milhares de pranteadores à retaguarda. A areia esfriava rapidamente nas sombras. Eu podia sentir os grãos entre os dedos em minhas sandálias e, quando o vento soprou sob minha túnica de linho fino, estremeci. Deixei a fila para ver o sarcófago, carregado num estrado por uma manada de bois para que o povo do Egito soubesse quão grandioso e próspero fora nosso príncipe herdeiro. Nefertiti ficará com inveja por ter perdido este evento. Contarei tudo a ela quando chegar em casa, pensei. Se ela for gentil comigo.
Os sacerdotes de cabeças raspadas caminhavam atrás de nossa família, pois éramos mais importantes que os representantes dos deuses. O incenso que balançavam em esferas douradas me fazia pensar em gigantescos percevejos, empestando o ar onde quer que fossem. Quando a procissão do funeral alcançou a entrada do vale, o chocalhar dos sistros cessou e os pranteadores silenciaram. Em cada colina, famílias se reuniam para ver o príncipe, e agora baixavam os olhos enquanto o sumo sacerdote de Amon executava a Abertura da Boca para devolver os sentidos a Tutmósis na Outra Vida. O sacerdote era mais jovem que os vizires do Egito, entretanto, homens como meu pai abriram caminho, submetendo-se a seu poder quando ele encostou um ankh dourado à boca da figura no sarcófago e anunciou:
— O falcão real alçou vôo ao paraíso. Amenófis, o Jovem, é elevado em seu lugar.
Um vento ecoou entre os montes, e pensei poder ouvir o farfalhar das asas do falcão enquanto o príncipe herdeiro era liberto de seu corpo e ascendia aos céus. Houve uma grande inquietação, e crianças espiavam atrás das pernas dos pais para ver o novo príncipe. Eu também espichei o pescoço.
— Onde ele está? — sussurrei. — Onde está Amenófis, o Jovem?
— No túmulo — respondeu meu pai. Sua cabeça raspada reluzia levemente sob o sol poente, e, nas sombras aprofundadas, seu rosto parecia mais aquilino.
— Mas ele não deseja ser visto pelo povo? — perguntei.
— Não, senit. — Era o termo dele para menininha. — Não antes que ele receba o que o irmão lhe prometeu.
Franzi a testa.
— E o que é?
Ele cerrou o maxilar.
— A co-regência — respondeu.
Quando a cerimônia terminou, soldados se espalharam para impedir que os plebeus nos seguissem para o interior do vale; era esperado que nossa pequena comitiva avançasse só. O grupo de bois arfava às nossas costas, puxando sua carga dourada através da areia. Ao redor, picos se erguiam contrastados pelo céu do poente.
— Vamos subir — avisou meu pai, e minha mãe empalideceu ligeiramente.
Éramos como gatos, ela e eu, temendo os lugares que não compreendíamos, vales onde faraós sonolentos espiavam de abrigos secretos. Nefertiti teria cruzado este vale sem hesitação, uma águia em seu destemor, assim como nosso pai.
Caminhávamos ao som fantasmagórico dos sistros, e eu via minhas sandálias douradas refletindo a luz agonizante. Quando galgávamos os montes, parei para contemplar a terra abaixo.
— Não pare — advertiu meu pai. — Continue a caminhar.
Avançamos para o alto, cruzando os montes enquanto os animais ofegavam em sua passagem sobre as pedras. Os sacerdotes agora iam à nossa frente, carregando tochas para iluminar nosso caminho enquanto andávamos. Em seguida, o sumo sacerdote hesitou, e eu me perguntei se ele teria perdido sua bravura na noite.
— Desatem o sarcófago e libertem os bois — comandou ele, e vi a entrada da tumba escavada na face do monte. As crianças agitavam as contas em suas cabeças, e as pulseiras das mulheres tilintaram em uníssono quando trocaram olhares entre si. Por fim, vi uma estreita escadaria que levava ao interior da terra, e compreendi o medo de minha mãe.
— Não gosto disso — ela sussurrou.
Os sacerdotes aliviaram os bois de suas cargas, levantando o sarcófago dourado sobre as costas. Meu pai apertou minha mão para me dar coragem, e seguimos nosso príncipe morto até sua câmara, abandonando o sol morrediço e adentrando a escuridão total.
Cuidadosamente, para que não escorregássemos nas pedras, descemos para as úmidas entranhas da terra, permanecendo junto aos sacerdotes e suas tochas de juncos. Dentro da tumba, a luz desenhava sombras em cenas pintadas dos 20 anos de Tutmósis no Egito: mulheres dançando, nobres prósperos em caçadas, a rainha Tiye servindo lótus regado em mel e vinho a seu primogênito. Agarrei o pulso de minha mãe em busca de conforto e, visto que ela nada disse, percebi que estava oferecendo preces silenciosas a Amon.
Abaixo de nós, o ar úmido tornava-se carregado e o cheiro da tumba era de terra revolvida. Imagens apareciam e desapareciam sob a luz das tochas: mulheres e homens risonhos pintados de amarelo, crianças pondo botões de lótus a flutuar no rio Nilo. Contudo, o mais apavorante era o deus do submundo com seu rosto azul, segurando a foice e o mangual do Egito.
— Osíris — sussurrei, mas ninguém ouviu.
Continuamos a marcha para o interior das mais secretas câmaras da terra. Logo adentramos um aposento em forma de cúpula, e perdi o fôlego. Era o lugar onde todos os tesouros terrenos do príncipe estavam reunidos: barcaças pintadas, carruagens de ouro, sandálias debruadas com pele de leopardo. Atravessamos o aposento para penetrar na câmara mortuária mais interna, e meu pai se inclinou junto a mim e sussurrou:
— Lembre-se do que eu lhe disse.
Dentro da câmara vazia, o faraó e sua rainha estavam lado a lado. À luz das tochas, era impossível ver qualquer coisa além de suas silhuetas sombrias e do longo sarcófago do falecido príncipe. Estendi meus braços em reverência e minha tia me cumprimentou solenemente em silêncio, recordando meu rosto de suas raras visitas à nossa família em Akhmim. Meu pai jamais trouxera a mim ou Nefertiti para Tebas. Ele nos mantinha à distância do palácio, das intrigas e das ostentações da corte. Agora, sob a trêmula luz da tumba, vi que a rainha não mudara nos seis anos desde que eu a vira pela última vez. Ainda era pequena e pálida. Seus olhos claros me estudavam quando estendi os braços, e eu me perguntava o que ela estaria pensando de minha pele escura e altura incomum. Eu me reergui, e o sumo sacerdote de Amon abriu o Livro dos Mortos, sua voz entoando as palavras dos mortais expirantes aos deuses.
— Que minha alma venha a mim de onde quer que se encontre. Vinde à minha alma, ó Guardiães dos Céus. Que minha alma possa ver meu corpo, que repouse em meu corpo mumificado, que jamais será destruído ou perecerá…
Busquei uma visão de Amenófis, o Jovem, em torno da câmara. Ele estava de costas para o sarcófago e para os vasos canópicos que conduziriam os órgãos de Tutmósis à Outra Vida. Era mais alto que eu, belo apesar de seu cabelo claro e cacheado, e eu especulava se poderíamos esperar dele grandes feitos, uma vez que sempre fora seu irmão o destinado a reinar. Ele caminhou em direção à estátua da deusa Mut, e lembrei que Tutmósis sempre apreciara os gatos durante a vida. Em sua companhia, iria sua adorada Ta-Miw, encasulada em um pequenino sarcófago de ouro. Toquei levemente o braço de minha mãe, e ela se voltou para mim.
— Eles a mataram? — murmurei, e minha mãe seguiu meu olhar para o pequeno caixão ao lado do príncipe.
Ela balançou a cabeça em negativa e, enquanto os sacerdotes recomeçavam a tocar os sistros, replicou:
— Dizem que ela parou de se alimentar assim que o príncipe herdeiro faleceu.
O sumo sacerdote começou a entoar o Cântico para a Alma, um lamento a Osíris e ao deus-chacal Anúbis. Ele então fechou o Livro dos Mortos e anunciou:
— A bênção aos órgãos.
A rainha Tiye deu um passo à frente. Ela ajoelhou na terra, beijando cada um dos vasos canópicos. O faraó fez o mesmo em seguida, e vi quando se voltou bruscamente, procurando o filho mais novo na escuridão.
— Venha — ordenou ele.
Seu filho não se moveu.
— Venha já! — ele gritou, e sua voz foi amplificada uma centena de vezes na câmara.
Ninguém respirava. Olhei para meu pai, e ele balançava a cabeça severamente.
— Por que devo curvar-me a ele em reverência? — retorquiu Amenófis. — Tutmósis teria dado o Egito aos sacerdotes de Amon, como todo rei que o precedeu.
Cobri minha boca e, por um momento, pensei que o Ancião cruzaria a câmara mortuária para matá-lo. Mas Amenófis era seu único filho vivo, o único herdeiro legítimo do trono do Egito, e, como qualquer príncipe herdeiro de 17 anos em nossa história, o povo esperava vê-lo entronizado como co-regente. O Ancião seria faraó do Alto Egito e Tebas, e Amenófis governaria o Baixo Egito e Mênfis. Se este filho também morresse, a linhagem do Ancião seria aniquilada. A rainha caminhou rapidamente para onde se encontrava seu filho mais novo.
— Abençoe os órgãos de seu irmão — ordenou.
— Por quê?
— Porque ele é um príncipe do Egito.
— Pois eu também sou! — Amenófis respondeu furiosamente.
A rainha Tiye estreitou os olhos.
— Seu irmão serviu a este reino unindo-se ao exército do Egito. Ele foi um sumo sacerdote de Amon, devotado aos deuses.
Amenófis riu.
— Então a senhora lhe tem mais amor porque ele podia massacrar o que abençoava?
A rainha Tiye bufou furiosamente.
— Aproxime-se de seu pai. Suplique-lhe que faça de você um soldado. Então veremos que tipo de faraó você haverá de se tornar.
Amenófis se virou, ajoelhando bruscamente diante do faraó em meio ao funeral do irmão.
— Eu serei um guerreiro como meu irmão — jurou ele. A barra de seu manto branco arrastou-se na terra, e os vizires balançaram as cabeças. — Juntos, o senhor e eu podemos erguer Aton acima de Amon — prometeu. — Podemos governar da maneira que seu pai um dia visionou.
O faraó se apoiava em sua bengala, como se ela pudesse sustentar sua vida em declínio.
— Foi um erro criá-lo em Mênfis — declarou o rei. — Deveria ter sido criado como seu irmão. Aqui. Em Tebas.
Amenófis se ergueu subitamente e seus ombros se retesaram.
— O senhor tem apenas a mim, pai. — Ele ofereceu a mão ao faraó que conquistara uma dúzia de países. — Tome a minha mão. Posso não ser um guerreiro, mas construirei um reino que viverá pela eternidade.
Quando ficou claro que o faraó não aceitaria a mão de Amenófis, meu pai se adiantou para salvar o príncipe da vergonha.
— Que seu irmão possa ser sepultado — ele sugeriu, discretamente.
O olhar que Amenófis lançou ao pai teria feito gelar o sangue de Anúbis.
—–
Somente quando retornávamos em barcaças nas águas do Nilo, com as ondas para afogar nossas vozes, alguém ousou falar.
— Ele é instável — declarou meu pai em nosso retorno a Akhmim. — Por três gerações, nossa família entregou esposas aos faraós do Egito. Mas não darei uma filha minha àquele homem.
Estreitei o manto de lã em torno de meus ombros. Não era de mim que ele falava. Era de minha irmã, Nefertiti.
— Se Amenófis tornar-se co-regente ao lado do pai, precisará de uma primeira-dama — disse minha mãe. — Será Nefertiti ou Kia. E se for Kia…
Deixou que as palavras morressem, mas todos sabíamos o que ela tivera a intenção de dizer. Se fosse Kia, então o vizir Panahesi teria o controle do Egito. Para ele, seria fácil e lógico fazer da filha rainha: Kia já era casada com Amenófis e já trazia seu filho no ventre havia três meses. Mas se ela se tornasse primeira-dama, nossa família se curvaria à família de Panahesi, e isto era impensável.
Meu pai se acomodou na almofada, meditando enquanto os servos remavam para o norte.
— Nefertiti foi informada de que será uma esposa real — minha mãe acrescentou. — Você mesmo lhe disse.
— Quando Tutmósis estava vivo! Quando havia estabilidade e parecia que o Egito seria governado por… — Meu pai fechou os olhos.
Avistei a lua que se erguia acima da barcaça e, quando já havia passado tempo suficiente, achei que era seguro perguntar:
— Pai, o que é Aton?
Ele abriu os olhos.
— O Sol — respondeu ele, fitando minha mãe. Houve uma troca de pensamentos entre os dois, mas nenhuma palavra.
— Mas Amon-Rá é o deus do sol.
— E Aton é o próprio sol — disse ele.
Eu não compreendia.
— Mas por que Amenófis quer construir templos para um deus-sol de quem ninguém jamais ouviu falar?
— Porque, se ele construir templos para Aton, não haverá mais necessidade de sacerdotes de Amon.
Fiquei atônita.
— Ele quer se livrar dos sacerdotes?
— Sim — meu pai balançou a cabeça. — E violar todas as leis de Maat.
Prendi a respiração. Ninguém desobedecia à deusa da verdade.
— Mas por quê?
— Porque o príncipe herdeiro é fraco — explicou meu pai. — Porque ele é fraco e superficial, e você deve aprender a reconhecer os homens que temem os demais no poder, Mutnodjmet.
Minha mãe o encarou severamente. O que meu pai acabara de dizer era traição, mas não havia ninguém para ouvi-lo em meio às batidas dos remos.
—–
Nefertiti estava à nossa espera. Ela se recuperava de uma febre, mas estava sentada no jardim, reclinada junto ao lago de lótus, com a luz da lua refletindo-se em seus braços esguios. Ela se pôs de pé assim que nos viu, e senti uma espécie de triunfo por ter visto o funeral do príncipe e por ela ter estado indisposta demais para comparecer. Entretanto, a culpa afastou este sentimento quando vi o anseio em seu rosto.
— Bem, como foi?
Eu planejava obrigá-la a extrair de mim a informação, mas não era capaz de ser tão cruel quanto ela conseguia ser.
— Absolutamente magnífico — disse entusiasmada — E o sarcófago…
— O que você está fazendo fora da cama? — minha mãe a repreendeu.
Ela não era mãe de Nefertiti. Era apenas minha. A mãe de Nefertiti faleceu quando a filha tinha 2 anos; sua mãe tinha sido princesa de Mitani e primeira esposa de meu pai. Foi quem escolheu o nome de Nefertiti, que significa A Bela Chegou. E, embora fôssemos parentes, não havia como comparar-nos: Nefertiti era pequena e tinha pele cor de bronze, cabelos negros, olhos escuros e um rosto que se podia abarcar com a palma da mão, ao passo que eu sou escura, com um rosto estreito que jamais se destacaria numa multidão. Em meu nascimento, minha mãe não me deu um nome associado à beleza. Chamou-me Mutnodjmet, que significa Doce Filha da Deusa Mut.
— Nefertiti deveria estar na cama — disse meu pai. — Ela não se sente bem. — E, embora fosse minha irmã quem merecesse censura, era a mim que ele falava.
— Eu ficarei bem — prometeu Nefertiti. — Está vendo, já estou melhor. — Ela sorriu para ele, e me voltei para ver a reação de meu pai. Como sempre, ele lhe dirigia um olhar amoroso.
— Ainda assim — minha mãe interrompeu —, esteve com febre e voltará para a cama.
Deixamos que nos conduzissem para dentro e, quando nos deitamos em nossas esteiras de vime, Nefertiti rolou em minha direção, o perfil recortado à luz da lua.
— Então, como foi?
— Assustador — admiti. — O túmulo era imenso. E escuro.
— E as pessoas? Quantas pessoas havia?
— Oh, centenas. Talvez até milhares.
Ela suspirou. Tinha perdido uma chance de ser vista.
— E o novo príncipe herdeiro?
Hesitei.
— Ele…
Minha irmã se sentou em seu catre, balançando a cabeça para me incitar a prosseguir.
— Ele é estranho — sussurrei.
Os olhos negros de Nefertiti cintilavam ao luar.
— Em que sentido?
— Ele é obcecado por Aton.
— Pelo quê?
— Por uma imagem do sol — expliquei. — Como alguém pode adorar uma imagem do sol e não Amon-Rá, que o controla?
Ela se calou.
— Isso é tudo?
— Também é alto.
— Bem, ele não pode ser muito mais alto que você.
Ignorei a crítica.
— Ele é muito mais alto. Dois palmos mais alto que nosso pai.
Ela envolveu os braços nos joelhos e replicou:
— Isto será interessante, então.
Franzi a testa.
— O quê?
Ela não explicou.
— O que será interessante? — repeti.
— O casamento — ela disse em voz baixa, deitando-se novamente e puxando as cobertas de linho sobre o peito. — Com uma coroação tão próxima, Amenófis precisará escolher uma primeira-dama, e por que não eu?
Por que não ela? Nefertiti era bela, educada, filha de uma princesa de Mitani. Senti uma aguda punhalada de inveja, mas também de medo. Jamais passei tempo algum sem Nefertiti.
— É claro, você virá comigo — ela disse, bocejando. — Até que tenha idade para se casar, você será minha primeira-dama.
— Minha mãe não permitirá que eu vá sozinha para o palácio.
— Você não estará sozinha. Ela também se mudará.
— Para o palácio?! — exclamei.
— Mutni, quando se é primeira-dama, a família vai conosco. Nosso pai é o maior vizir da terra. Nossa tia é a rainha. Quem ousaria negar?
—–
No meio da noite, uma longa sombra estendeu-se do lado de fora de nosso quarto, e logo uma serva entrou, segurando um lampião a óleo sobre a cabeça de Nefertiti. Acordei com a claridade e vi o rosto de minha irmã sob a luz dourada, perfeito mesmo durante o sono.
— Minha ama? — nossa serva chamou, mas Nefertiti não se moveu. — Senhora? — ela falou mais alto. Olhou para mim, e eu sacudi Nefertiti para acordá-la. — Minha ama, o vizir Ay deseja falar-lhe.
Eu me sentei rapidamente.
— Há algo errado?
Mas Nefertiti não disse uma palavra. Vestiu seu manto, tirou um lampião da parede e abrigou com a mão a chama trêmula.
— O que está acontecendo? — perguntei, mas ela não respondeu.
A porta produziu apenas um breve som ao se fechar às suas costas. Esperei acordada pelo retorno de minha irmã, e, quando chegou, a lua já era um disco amarelo no alto do céu.
— Onde esteve? — ergui-me em meu catre.
— O pai queria falar comigo.
— A sós? — desafiei. — E à noite?
— E em que outro momento os servos mexeriqueiros estão dormindo?
Compreendi de imediato.
— Ele não quer que você se case com Amenófis — adivinhei.
Nefertiti encolheu os ombros, se fazendo de ingênua.
— Não tenho medo de Kia.
— É com o vizir Panahesi que ele se preocupa.
— Eu quero ser primeira-dama, Mutnodjmet. Quero ser rainha do Egito, como minha avó foi rainha de Mitani.
Nefertiti se sentou em seu catre e ficamos em silêncio, iluminadas apenas pela chama do lampião que ela trouxe para o quarto.
— E o que nosso pai disse?
Ela deu de ombros novamente.
— Ele contou o que aconteceu no túmulo?
— Então o príncipe se recusou a beijar os vasos — ela disse desdenhosamente. — Que importância tem isso, se por fim estarei sentada no trono de Hórus? Amenófis será faraó do Egito — acrescentou ela, como se encerrasse a questão. — E nosso pai já deu sua aprovação.
— Ele disse sim? — arranquei as cobertas de linho. — Mas ele não pode ter concordado. Ele disse que o príncipe é instável. Nosso pai jurou que jamais entregaria uma filha àquele homem!
— Mas ele mudou de idéia. — Sob a bruxuleante luz das velas, eu a vi deitando-se e puxando as cobertas. — Pode me trazer um pouco de suco da cozinha? — pediu.
— Estamos no meio da noite — retorqui, minha voz rija em desaprovação.
— Mas estou doente — ela recordou. — Tenho febre.
Eu hesitava.
— Por favor, Mutni. Por favor.
Eu buscaria, mas só porque ela tinha febre.
—–
Na manhã seguinte, os tutores terminaram as lições logo cedo. Não havia qualquer sinal de doença em Nefertiti.
— Mas não devemos sobrecarregá-la — disse meu pai.
Minha mãe discordava.
— Estas são todas as lições que ela receberá se se casar logo. Nefertiti deve aprender tudo que puder.
Minha mãe, que não fora criada entre a nobreza, como a primeira esposa de meu pai, conhecia a importância da educação, pois precisou lutar para recebê-la quando era a jovem filha de um simples sacerdote de aldeia. Mas meu pai fez que não entendia tanta preocupação.
— O que mais ela tem para aprender? Nefertiti domina todos os idiomas e é mais versada em escrita que os escribas do palácio.
— Ela não conhece as ervas medicinais como Mutni — minha mãe destacou.
Ergui o queixo, mas meu pai apenas replicou:
— Este é o dom de Mutnodjmet. Nefertiti tem outras habilidades.
Todos olhávamos para minha irmã, o centro das atenções em sua curta túnica branca, os pés balançando sobre o lago de lótus. Ranofer, filho de um médico local, trouxera-lhe flores, um arranjo de lírios brancos amarrado com retrós. Ele deveria ser meu tutor, ensinando-me os segredos da medicina e das ervas, mas passava mais tempo admirando minha irmã.
— Nefertiti fascina as pessoas — disse meu pai orgulhosamente —, e àqueles a quem não fascina, excede facilmente em inteligência. Que necessidade tem ela de ervas e de medicina, quando quer ser uma líder do povo?
Minha mãe franziu as sobrancelhas.
— Se a rainha aprovar.
— A rainha é minha irmã — disse meu pai simplesmente. — Aprovará Nefertiti como primeira-dama.
Mas eu pude perceber a preocupação nos olhos dele. Um príncipe herdeiro que profanara a câmara mortuária do irmão, um homem que não controlava suas emoções? Que espécie de faraó seria? Que tipo de marido?
Ele se pôs de pé e fitou Nefertiti, até que ela percebeu que os três a observávamos. Ela me chamou com o dedo, e eu me aproximei da beira do lago onde minha irmã e meu tutor estavam aos risos.
— Boa tarde, Mutnodjmet. — Ranofer, deitado, sorriu para mim, e por um momento esqueci o que eu tinha para falar.
— Hoje fiz experimentos com aloé — disse eu finalmente. — Curei as queimaduras de nosso servo.
— Mesmo? — Ranofer revitalizou-se. — E o que mais?
— Misturei com lavanda e os inchaços diminuíram.
Ele sorriu mais abertamente.
— Está ultrapassando até as minhas lições, minha ama.
Eu sorri, orgulhosa de minha destreza.
— Da próxima vez, quero tentar…
— Falar sobre algo interessante? — Nefertiti suspirou e se recostou novamente à luz do sol. — Diga, o que nosso pai estava falando agora mesmo?
— Agora mesmo? — Sou uma péssima mentirosa.
— Sim. Enquanto estavam ali me espiando.
Enrubesci.
— Ele falava de seu futuro.
Ela se sentou, as pontas de seu cabelo negro tocando-lhe o queixo.
— E?
Pausei, sem saber se deveria contar o resto. Ela esperava.
— E que a rainha deve estar vindo para cá — respondi finalmente.
Imediatamente, o sorriso de Ranofer desapareceu.
— Mas, se ela vier — a voz dele se elevava —, Nefertiti terá que deixar Akhmim.
Minha irmã olhou por cima da cabeça de Ranofer, fechando o rosto para mim.
— Não se preocupe — prometeu-lhe suavemente. — Isto não dará em nada.
Houve um momento de silêncio entre eles, e então Ranofer pegou sua mão e ambos se levantaram.
— Aonde vão? — exclamei, mas Nefertiti não respondeu, e então me dirigi a meu tutor. — E quanto à nossa aula?
— Mais tarde. — Ele sorria, mas era apenas para minha irmã que ele realmente tinha olhos.
—–
Notícias chegaram de que a rainha faria uma visita a nosso palácio em Akhmim. Era por isso que Nefertiti estivera rezando secretamente em nosso santuário de família, depondo vasos com nosso melhor vinho com mel aos pés de Amon e prometendo as mais variadas insanidades se ele ao menos enviasse a rainha à nossa cidade. Agora que Amon parecia ter concedido sua graça, Nefertiti estava insuportável em seu entusiasmo. Enquanto minha irmã se aprontava, minha mãe corria pela casa, dando ordens tanto aos escravos quanto aos servos.
— Mutni, assegure que as toalhas estejam limpas. Nefertiti, os jarros, por favor. Verifique se os servos os lavaram. Todos eles.
Nossos servos tiravam o pó das tapeçarias franjadas que pendiam das paredes, enquanto minha mãe organizava nossas melhores cadeiras estofadas em círculo na Câmara de Audiências, primeiro aposento em que a rainha adentraria. A rainha Tiye era irmã de meu pai; era uma mulher severa e não aprovaria desleixo na casa. O piso da cozinha foi esfregado até brilhar, embora a rainha não fosse sequer se aproximar dali, e o lago de lótus foi povoado com carpas vermelhas. Até Nefertiti teve algum trabalho, realmente inspecionando os vasos em vez de fingir que o fazia. Em seis dias, Amenófis, o Jovem, seria coroado em Karnak e nomeado co-regente ao lado de seu pai. Mesmo eu sabia o que esta visita significava. Havia seis anos que a rainha não fazia o trajeto a Akhmim. A única razão desta visita seria um casamento.
— Mutni, ajude sua irmã a se vestir — disse minha mãe.
Em nosso quarto, Nefertiti estava plantada diante do espelho. Ela afastava os cabelos negros do rosto, imaginando-se com a coroa do Egito.
— É isto — ela murmurava. — Serei a rainha mais grandiosa que o Egito já viu.
Eu desdenhei.
— Nenhuma rainha jamais será maior que nossa tia.
Nefertiti virou-se.
— Houve Hatshepsut. E nossa tia não usa a coroa dupla.
— Somente um faraó pode usá-la.
— Pois bem, enquanto ela comanda o exército e se reúne com líderes estrangeiros, o que ganha? Nada. Quem colhe a glória é o marido. Quando eu for rainha, será meu nome o que viverá para a eternidade.
Eu sabia muito bem que não valia a pena argumentar com Nefertiti quando ela estava assim. Misturei o cajal e entreguei-lhe num frasco, e observei enquanto ela o aplicava. Contornou os olhos e escureceu as sobrancelhas, e a pintura fazia com que parecesse mais velha que seus 15 anos.
— Você realmente acredita que será primeira-dama? — perguntei.
— Quem mais nossa tia gostaria de ver dando à luz um herdeiro? Uma plebéia — ela torceu o nariz — ou sua sobrinha?
Eu não era descendente de monarcas, mas não era de mim que ela desdenhava. Era da filha de Panahesi, Kia, cuja mãe era apenas descendente da nobreza, ao passo que Nefertiti era neta de uma rainha.
— Pode buscar meu vestido de linho e o cinturão de ouro? — pediu.
Estreitei os olhos.
— Só porque está prestes a se casar, não significa que virei sua escrava.
Ela sorriu largamente.
— Por favor, Mutni. Sabe que não posso fazer isso sem você. — Ela contemplava o espelho enquanto eu revirava seus baús, procurando pela túnica que ela usava apenas em festejos. Saquei seu cinto de ouro, e ela protestou: — É aquele de ônix, e não o de turquesas.
— Você não tem servas para fazer isso? — retruquei.
Ela me ignorou e estendeu a mão para pegar o cinto. Pessoalmente, eu preferia o de turquesas. Houve uma batida na porta, e então a serva de minha mãe apareceu, o rosto iluminado de entusiasmo.
— Sua mãe pede que se apressem! — a menina exclamou. — A caravana foi avistada.
Nefertiti encarou-me.
— Pense só, Mutni. Você será irmã da rainha do Egito!
— Se a rainha gostar de você — disse eu secamente.
— É claro que ela gostará de mim. — Nefertiti contemplou seu próprio reflexo no espelho, os pequenos ombros cor de mel e o lindo cabelo negro. — Serei encantadora e doce, e, quando nos mudarmos para o palácio, pense só em todas as coisas que poderemos fazer!
— Já fazemos o suficiente aqui — protestei. — Que há de errado com Akhmim?
Ela pegou a escova e deu acabamento ao penteado.
— Não quer conhecer Karnak e Mênfis e pertencer ao palácio?
— Nosso pai pertence ao palácio. E diz que o deixa esgotado tanta conversa sobre política.
— Bem, é a opinião dele. Nosso pai pode ir ao palácio todos os dias. O que nós temos para fazer aqui? — reclamou ela. — Nada, exceto esperar que um príncipe morra para que possamos sair e ver o mundo.
Eu engoli em seco.
— Nefertiti!
Ela riu alegremente. Logo minha mãe apareceu à porta, arfando. Ela usava suas melhores jóias, e novos e pesados braceletes que eu nunca tinha visto antes.
— Está pronta?
Nefertiti se pôs de pé. Sua túnica era fabulosa, e senti uma onda de pura inveja pela forma como o material se ajustava em torno de seus quadris e realçava a estreiteza de sua cintura.
— Espere. — Minha mãe ergueu a mão no ar. — Precisamos de um colar. Mutni, vá buscar o colar de ouro.
Eu engasguei.
— O seu colar?
— É claro. Agora, apresse-se! O guarda a guiará à tesouraria.
Eu estava pasma por minha mãe permitir que Nefertiti usasse o colar que meu pai lhe dera no dia de seu casamento. Eu tinha subestimado quão importante era a visita de minha tia para minha mãe; para todos nós. Corri à tesouraria nos fundos da casa, e o guardião me recebeu com um sorriso. Eu era um palmo mais alta que ele. Enrubesci.
— Minha mãe quer o colar para minha irmã.
— O colar de ouro?
— Que outro colar existe?
Ele jogou a cabeça para trás.
— Bem… Deve ser para algo importante. Ouvi dizer que a rainha chega hoje.
Coloquei as mãos nos quadris para que ele percebesse que eu estava esperando.
— Muito bem, muito bem. — Ele desceu à câmara no subsolo e reapareceu com a jóia de minha mãe, que um dia seria minha herança. — Então sua irmã deve estar para se casar — ele disse.
Eu estendi a mão.
— O colar.
— Ela será uma bela rainha.
— É o que todos dizem.
Ele sorriu como se adivinhasse meus pensamentos sobre o assunto, velhote enxerido, e então ergueu o colar e eu o arrebatei. Corri de volta a meu quarto e estendi a jóia como se fosse uma conquista. Nefertiti encarou minha mãe.
— Tem certeza? — Ela contemplou o ouro, e seus olhos refletiam-lhe a luminosidade.
Minha mãe assentiu. Ela fechou a peça em torno do pescoço de minha irmã, e nós duas demos um passo atrás. O ouro começava na altura da garganta e tinha forma de lótus, derramando-se entre seus seios em gotas de vários comprimentos. Eu estava contente por ela ser dois anos mais velha que eu. Se eu tivesse de ser a primeira a casar, nenhum homem teria me escolhido no lugar dela.
— Agora estamos prontas — minha mãe disse. Ela liderou o caminho para a Câmara de Audiências, onde a rainha esperava. Podíamos ouvi-la conversando com meu pai em sua voz baixa, áspera e repleta de autoridade.
— Entrem quando forem chamadas — minha mãe disse rapidamente. — Há presentes sobre a mesa, de nosso tesouro. Tragam as oferendas quando entrarem. A maior delas deve ser carregada por Nefertiti.
Ela então desapareceu na câmara, e ficamos de pé no corredor azulejado, esperando por nossa convocação.
Nefertiti marchava de um lado para o outro.
— Por que ela deixaria de me escolher para um casamento com o filho? Sou filha de seu irmão, e nosso pai ocupa a maior posição do país.
— É claro que ela escolherá você.
— Mas para primeira-dama? Não aceitarei nada inferior a isso, Mutni. Não serei uma esposa menor, atirada num palácio que o faraó visita somente a cada duas estações. Prefiro casar-me com o filho de um vizir.
— Ela desejará que seja você.
— É claro, mas na verdade cabe a Amenófis. — Ela parou de girar, e percebi que estava falando consigo mesma. — No fim, a escolha cabe a ele. Amenófis será aquele que me dará um filho, e não ela.
Eu me retraí por sua grosseria.
— Mas, se não encantar a mãe, eu jamais conseguirei chegar a ele.
— Você se sairá bem.
Ela olhou para mim, como se notasse pela primeira vez que eu estava ali.
— Mesmo?
— Sim. — Sentei-me na cadeira de ébano de meu pai e atraí um dos gatos da casa em minha direção. — Mas como sabe que terá amor por ele? — perguntei.
Nefertiti fitou-me severamente.
— Sei porque ele está prestes a se tornar faraó do Egito — respondeu ela. — E eu estou cansada de Akhmim.
Pensei em Ranofer com seu belo sorriso e me perguntei se Nefertiti estaria farta dele também. Logo o servo de minha mãe atravessou as portas da Câmara de Audiências e o gato desapareceu.
— Devemos entrar? — perguntou Nefertiti, ansiosa.
— Sim, minha ama.
Nefertiti fitou-me. Suas bochechas estavam rosadas.
— Entre atrás de mim, Mutni. Ela deve me ver primeiro e cair de amores.
Adentramos a Câmara de Audiências com os presentes de nosso tesouro, e a sala parecia maior que em minha lembrança. Os pântanos pintados nas paredes e as lajotas do chão, azuis como o Nilo, pareciam mais reluzentes. Os servos tinham feito um bom trabalho, limpando até mesmo a mancha na tapeçaria que pendia acima da cabeça de minha mãe. A rainha parecia a mesma que estivera no túmulo. Um rosto austero circundado por uma grande peruca núbia. Se Nefertiti um dia fosse rainha, usaria uma peruca idêntica. Nós nos aproximamos da tribuna, onde a rainha estava instalada numa grande almofada de plumas na cadeira de nossa casa com os maiores braços. Um gato preto descansava em seu colo. Ela pousava a mão no dorso do animal, e seu colar era de lápis-lazúli e ouro.
O arauto da rainha deu um passo à frente e moveu o braço num gesto abrangente.
— Vossa Majestade, aqui está sua sobrinha, a senhora Nefertiti.
Minha irmã ofereceu seu presente e um servo pegou a ânfora banhada a ouro. Minha tia tocou um assento vazio à sua esquerda, indicando que Nefertiti deveria sentar-se junto dela. Enquanto Nefertiti subia à tribuna, os olhos de minha tia não se desviavam de seu rosto. Nefertiti era tão bela que até as rainhas a admiravam.
— Vossa Majestade, sua sobrinha, a senhora Mutnodjmet.
Dei um passo à frente, e minha tia piscou em surpresa. Ela olhou para o estojo de turquesas que ofereci e sorriu, um indício de que, na presença de Nefertiti, esquecera-se de mim.
— Você ficou alta — ela comentou.
— Sim, mas não tão graciosa quanto Nefertiti, Majestade.
Minha mãe balançou a cabeça em aprovação. Eu dirigira a conversação para o motivo que trouxera a rainha a Akhmim, e todos fitamos minha irmã, que tentava não enrubescer.
— Ela é belíssima, Ay. Herança da mãe, mais que sua, creio eu.
Meu pai riu.
— E talentosa. Ela canta e dança.
— Mas é inteligente?
— É claro. E tem força. — Ele baixou a voz significativamente. — Ela será capaz de guiar as paixões dele, e de controlá-lo.
Minha tia olhou novamente para Nefertiti, especulando se seria verdade.
— Mas ela terá de ser primeira-dama, caso venha a se casar com ele — acrescentou meu pai. — Ela então desviará o interesse dele por Aton de volta a Amon e a políticas menos perigosas.
A rainha voltou-se diretamente para minha irmã.
— O que diz de tudo isto? — ela perguntou.
— Farei o que me for ordenado, Majestade. Divertirei o príncipe e lhe darei filhos. E serei uma serva obediente de Amon. — Os olhos dela encontraram os meus, e eu baixei a cabeça para evitar um sorriso.
— De Amon — a rainha repetiu, pensativa. — Se ao menos meu filho tivesse tal bom senso.
— Dentre minhas duas filhas, ela tem a personalidade mais forte — disse meu pai. — Se há alguém capaz de influenciá-lo, este alguém é Nefertiti.
— E Kia é fraca — a rainha admitiu. — Ela não é capaz de cumprir esta tarefa. Amenófis desejava fazer dela a primeira-dama, mas eu não permitirei.
Meu pai prometeu: — Uma vez que ele pousar os olhos em Nefertiti, esquecerá Kia.
— O pai de Kia é um vizir — minha tia disse em advertência. — Ficará descontente se eu escolher sua filha e não a dele.
Meu pai deu de ombros.
— Isto deveria ser esperado. Somos da família.
Houve um momento de hesitação, e por fim a rainha se pôs de pé.
— Pois bem, a questão está encerrada.
Pude ouvir o suspiro de prazer de Nefertiti. Tudo acabou tão rápido quanto começou. A rainha desceu da tribuna, uma figura diminuta, porém indomável, e o gato a seguiu na extremidade de uma coleira dourada.
— Espero que ela esteja à altura de sua promessa, Ay. O futuro do Egito está em jogo — advertiu de forma sombria.
—–
Por três dias, servos corriam de aposento em aposento, embalando linhos, roupas e jóias de pouco valor em cestos. Havia baús abertos e parcialmente vazios em todos os cantos, com vasos de alabastro, vidro e cerâmica esperando para serem embrulhados e guardados. Meu pai supervisionava a ação com visível prazer. O casamento de Nefertiti significava que todas passaríamos a viver com ele no palácio Malkata em Tebas, e assim ele nos veria com mais freqüência.
— Mutni, acabe com esta inércia — minha mãe censurou. — Encontre algo para fazer.
— Nefertiti está parada — resmunguei. Minha irmã estava do outro lado da sala, experimentando roupas e admirando jóias de vidro.
— Nefertiti — minha mãe disparou —, haverá tempo suficiente para posar diante do espelho em Malkata.
Nefertiti suspirou dramaticamente, e então pegou uma braçada de túnicas e atirou-as num cesto. Minha mãe balançou a cabeça e minha irmã saiu para supervisionar a arrumação de seus 17 baús. Podíamos ouvi-la no pátio, dizendo a um servo que tomasse cuidado, que seus cestos valiam mais que o pagamento que nós lhe dávamos. Fitei minha mãe, que suspirou. Ainda não parecia verdade que minha irmã seria rainha.
Isto transformaria tudo.
Deixaríamos Akhmim para trás. Conservaríamos o palacete, mas quem poderia saber se tornaríamos a vê-lo um dia?
— Acha que nunca mais voltaremos? — perguntei.
Minha mãe ficou tensa. Vi quando ela contemplou os lagos em que eu e minha irmã tínhamos brincado quando crianças, e em seguida desviou o olhar para nosso santuário familiar a Amon.
— Espero que retornemos — respondeu ela. — Fomos uma família aqui. É a nossa casa.
— Mas agora Tebas será nossa casa.
Ela suspirou profundamente.
— Sim. É o que seu pai deseja. E sua irmã.
— E é o seu desejo? — perguntei em voz baixa.
Ela voltou os olhos para o aposento que compartilhava com meu pai. Minha mãe sentia muita falta do marido quando ele estava fora. Agora, ficaria mais perto dele.
— Quero estar com meu marido — admitiu ela — e quero oportunidades para minhas filhas. — Ambas olhamos para Nefertiti dando ordens aos servos no pátio. — Ela será monarca do Egito — disse minha mãe, um tanto assombrada. — Nossa Nefertiti, com apenas 15 anos.
— E eu?
Minha mãe sorriu, unindo as linhas de expressão em seu rosto.
— E você será irmã da primeira-dama do faraó. Não é pouca coisa.
— Mas com quem me casarei?
— Você só tem 13 anos! — ela exclamou, e uma sombra cruzou seu rosto. Eu era a única filha que a deusa Tawaret lhe dera. Uma vez que me casasse, ela não teria mais nenhuma. Imediatamente me arrependi por ter dito aquilo.
— Talvez eu não me case — acrescentei rapidamente. — Talvez eu me torne uma sacerdotisa.
Ela concordou, mas pude ver que ela estava pensando no tempo em que se veria completamente só.