Trecho do Livro: A História de Edgar Sawtelle

Trecho do Livro: A História de Edgar Sawtelle | David Wroblewski
Livro A Historia de Edgar Sawtelle
Autor: David Wroblewski
Editora: Intrínseca
ISBN: 9788598078564

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Pusan, Coreia do Sul, 1952. Depois que escureceu a chuva começou a cair de novo, mas ele já tinha resolvido ir e, de qualquer modo, chovia havia semanas. Dispensou com um gesto os cules dos riquixás reunidos perto da doca, e dali da base naval, obedecendo às parcas orientações que lhe tinham dado, foi caminhando em meio à multidão da praça do mercado de Kweng Li, passou por comerciantes que vendiam galos em rústicos cestos de vime, cabeças de porcos e peixes de aspecto venenoso, eviscerados, de boca aberta nas barracas, passou por polvos cinzentos dentro de frascos de vidro, passou por velhas que apregoavam kimchee e bulgoki, até atravessar o rio Tong Gang na ponte das Aflições, último ponto que ele reconhecia.

No bairro boêmio, a água empoçada brilhava em verde e vermelho debaixo das faixas estendidas de telhado a telhado. Não havia outros militares nem policiais, e ele caminhou durante um longo tempo procurando uma placa que mostrava uma tartaruga e duas cobras. As ruas não tinham saída e ele não via a placa, nenhum dos quarteirões era quadrado e depois de algum tempo a chuva se transformou em uma névoa difusa e esparsa. Mas ele continuou andando, virou metodicamente duas vezes à direita, depois outras duas à esquerda, perseverante em sua busca mesmo depois de ter perdido o rumo muitas vezes. Passara da meia-noite quando desistiu. Estava refazendo seu caminho, seguindo uma rua que já havia atravessado duas vezes, quando finalmente viu a placa, pequena, amarela, fixada bem alto na esquina de um bar. Uma das cobras, virada para trás, mordia o rabo da tartaruga. Como Pak dissera.

A orientação era procurar uma viela em frente à placa, e ela também estava ali: estreita, úmida, semipavimentada, descendo na direção do porto, iluminada apenas pelas placas em frente e pelo refulgir das janelas alinhadas ao longo de seu comprimento. Afastou-se da rua, sua sombra projetada adiante. Devia haver uma porta com uma lanterna — uma lanterna vermelha. Um herbanário. Olhou o alto dos prédios, observou as nuvens iluminadas por baixo que deslizavam sobre os telhados. Pela janela de uma esquálida casa de banhos veio um grito de mulher, um riso de homem. A agulha desceu sobre um disco de vinil e a voz de Doris Day trinou no beco:

I’m wild again, beguiled again,
A simpering, whimpering child again.
Bewitched, bothered and bewildered am I.

À frente, a viela dobrava para a direita. Passando a curva, ele avistou uma lanterna, uma cabaça de vidro rubi com veios de arame negro, a chama dentro dela uma rosa que se abria e lambia a garganta do vidro, lançando fitas de sombra na porta. Sobre a entrada projetava-se um teto baixo de varanda. Pela única janela, pálida, ele só enxergou uma cortina de seda manchada de fumaça e bordada com figuras de animais atravessando um rio num barquinho. Ele então espiou a viela, o caminho por onde tinha vindo. Depois bateu de leve na porta e esperou, levantando a gola da japona e batendo os pés como se estivesse enregelado, embora o tempo não estivesse frio, apenas úmido.

A porta se abriu. Um velho saiu, vestido com calça de algodão cru e uma túnica simples, feita de algum tecido resistente que não chegava a ser estopa. Tinha o rosto marcado e escuro, os olhos engastados em dobras de pele como origami. Dentro da loja, fileiras e mais fileiras de raízes leitosas de ginseng penduradas por barbantes oscilavam como pêndulos, como se recém-acariciadas. O homem de japona olhou para ele.

— Pak disse que o senhor fala inglês.

— Pouco. Você fala devagar.

O velho fechou a porta ao passar. A névoa tinha virado chuva outra vez. Não ficou claro quando isso ocorreu, mas havia dias, semanas que a chuva caía, e o som da água correndo já fazia parte do mundo a tal ponto que ele nem o escutava mais. Estar seco era algo temporário; o mundo era um lugar que vertia água.

— Trouxe o remédio? — o velho perguntou. — Eu tenho dinheiro para pagar.

— Não vim atrás de dinheiro. Pak falou com o senhor, não falou?

O velho suspirou e sacudiu a cabeça, impaciente.

— Ele não devia falar disso. Me diga o que quer.

Às costas da figura de japona, um cachorro sem dono percorria o beco, mancando sobre três pernas e olhando os homens. O pelo molhado brilhava como o de uma foca.

— Digamos que temos ratos — disse o homem. — Difíceis.

— Sua Marinha capaz de matar uns ratos. Até capitão da barcaça mais fajuta faz isso todo dia. Usa arsênico.

— Não. Eu… nós… queremos um método. O que Pak descreveu. Alguma coisa que funcione na hora. Sem dor de estômago para o rato. Sem dor de cabeça. Os outros ratos devem achar que esse rato foi dormir e não acordou.

— Como se Deus levasse ele de uma hora para outra.

— Exatamente. Para os outros ratos não pensarem que o que aconteceu com aquele rato não foi natural.

O velho sacudiu a cabeça.

— Muita gente quer isso. Mas o que senhor pede, se existe, então quem tem isso atrás apenas de Deus.

— Como assim?

— Deus dá vida e morte, certo? Quem chama outro para Deus na hora tem metade poder desse.

— Não. Nós todos temos esse poder. Só o método é diferente.

— Quando método parece verdadeiro chamado de Deus, então é outra coisa — disse o herbanário. — Mais que método. Coisa assim deve ser brutal e óbvia. Por isso nós vive tudo junto, em paz.

O velho levantou a mão e apontou o beco atrás do visitante.

— Cachorro seu?

— Nunca vi.

O herbanário foi para dentro da loja, deixando a porta aberta. Depois do ginseng, havia um pilha emaranhada de chifres de veado debaixo de uma prateleira de frascos. Ele voltou com uma pequena tigela de cerâmica de sopa numa das mãos, e na outra uma caixa de bambu ainda menor. Colocou a tigela nas pedras do calçamento. De dentro da caixa, tirou um frasco de vidro, feito para perfume ou talvez tinta. O frasco era rústico e torto. A boca estava tampada e a borda irregular selada com cera. Dentro via-se um líquido transparente como água de chuva, mas grosso e oleoso. O herbanário soltou a cera com a unha e segurou a tampa entre o polegar e o indicador. De algum lugar tirou uma vareta fina e comprida cuja extremidade era cortada obliquamente e afiada como ponta de agulha. Mergulhou a vareta no frasco. Quando a retirou, uma quantidade minúscula do líquido havia penetrado na vareta e uma gota cintilava na ponta. O herbanário inclinou-se para o beco e deu um assobio agudo. Como não aconteceu nada, ele emitiu um ruído de beijo no ar, que fez o homem sentir um arrepio. O cachorro de três pernas veio mancando até eles debaixo da chuva, balançando o rabo, farejou a tigela e começou a lamber.

— Não é preciso — o homem falou.

— De que outro jeito vai saber o que leva? — perguntou o herbanário. Seu tom de voz não era gentil. Ele baixou a ponta afiada da vareta até cerca de um palmo da base do pescoço do cachorro claudicante e então fez um delicado movimento para baixo com o punho. A ponta da vareta baixou, penetrou no corpo do animal e subiu de novo. No começo, o animal pareceu não notar nada.

— Eu disse que não era preciso. Pelo amor de Deus.

O herbanário não respondeu. Não havia nada a fazer senão aguardar e olhar a chuva caindo, caindo quase invisível, a não ser quando o vento a dobrava sobre si mesma.

Quando o cachorro ficou imóvel, o herbanário recolocou a tampa no frasco e apertou bem. Só então o homem notou a fitinha verde em torno do gargalo do frasco e, na fita, uma linha de letras hangul pretas. O homem não sabia ler hangul, mas isso não tinha importância. Ele sabia o que significavam.

O herbanário depositou o frasco na caixa de bambu. Depois atirou a vareta no beco e deu um chute na tigela de sopa. Ela se estilhaçou no calçamento e a chuva começou a lavar seu conteúdo.

— Nessa ninguém não deve comê. Perigo pequeno, mas ainda perigo. Melhor quebrá que guardá, senhor entende?

— Entendo.

— Hoje de noite eu lava mão com lixívia. Isso senhor entende?

O homem balançou a cabeça. Tirou um frasco do bolso.

— Penicilina — disse. — Não é cura. Não é nada garantido.

O herbanário pegou o frasco do homem. Levantou contra a luz cor de sangue da lanterna e chacoalhou o conteúdo.

— Tão pequeno — disse.

— Um comprimido a cada quatro horas. Seu neto precisa tomar todos, mesmo que melhore antes de acabar. Entendeu? Todos.

O velho assentiu.

— Sem garantia.

— Vai funcioná. Não acredita tanto no acaso. Acho que nós aqui troca vida por outra vida.

O herbanário estendeu a caixa de bambu. Um tremor senil agitava sua mão, ou talvez ele estivesse nervoso. Fora bem firme com a vareta.

O homem guardou a caixa de bambu no bolso da japona. Não se deu o trabalho de se despedir, apenas virou e seguiu pelo beco, passou pela casa de banho onde a voz de Doris Day ainda vazava na noite. Por hábito, enfiou a mão no bolso do casaco e, embora soubesse que não devia, deixou as pontas dos dedos tatearem as bordas da caixa de bambu.

Quando chegou à rua, interrompeu-se e piscou diante da luz forte dos letreiros coloridos dos bares, depois olhou para trás uma última vez. Lá longe, o velho herbanário estava na chuva, um vulto curvado arrastando os pés na mistura de pedra e terra do beco semipavimentado. Ele pegara o cachorro pelas patas traseiras e o estava arrastando para longe. Para onde, o homem não sabia.

—–

No ano de 1919, o avô de Edgar, que nascera com uma dose extra de excentricidade, comprou a terra deles e todas as edificações que nela havia de um desconhecido, um homem chamado Schultz, que, por sua vez, tinha abandonado uma equipe de lenhadores meia década antes, ao ver as correntes de um trenó inteiramente carregado de madeira se soltarem. Vinte toneladas de troncos de bordo rolando sepultaram um homem no lugar onde Schultz estivera um minuto antes. Enquanto ajudava a remover os troncos para retirar os restos do infeliz, Schultz se lembrou de um lindo pedaço de terra que tinha visto a noroeste de Mellen. Na manhã em que assinou os papéis, montado em um de seus cavalos seguiu pela estrada de lenhadores até sua nova propriedade, escolheu um ponto numa clareira ao sopé de uma encosta e, ao anoitecer, um estábulo feito de troncos pronto para uso existia naquela terra. No dia seguinte, pegou o outro cavalo, encheu a carroça a ele atrelada com suprimentos e os três voltaram a sua rústica morada, Schultz a pé, rédeas na mão, e os cavalos arreados atrás, puxando a carroça e ouvindo o rangido do eixo ressecado. Durante os primeiros meses, ele e os cavalos dormiram lado a lado no abrigo de troncos, e muitas vezes, em sonhos, Schultz ouvia o estalo das correntes daquele trenó de troncos de bordo se rompendo.

Fez o melhor que pôde para ganhar a vida ali com a fazenda de gado leiteiro. Nos cinco anos em que trabalhou a terra, limpou um campo de uns doze hectares e drenou outro, e usou a madeira das árvores que cortou para construir uma privada, um celeiro e uma casa, nessa ordem. Para não precisar sair ao ar livre para puxar água, cavou seu poço no buraco que viria a ser o alicerce de sua casa. Ajudou a construir celeiros de Tannery Town até Park Falls, de forma que pudesse contar com muita gente para ajudar quando chegasse sua vez.

E noite e dia removia tocos de árvores. Nesse primeiro ano, revolveu e capinou o campo ao sul uma dúzia de vezes, até os próprios cavalos parecerem cansados daquilo. Amontoou pedras nos limites do campo em longas pilhas irregulares e queimou troncos em fogueiras que eram avistadas em Popcorn Corners — a cidade mais próxima, se é que se podia chamar aquilo de cidade — e até em Mellen. Conseguiu construir um pequeno silo de pedra e concreto mais alto do que o celeiro, mas jamais conseguiu cobri-lo. Juntou leite, óleo de linhaça, ferrugem e sangue e usou a mistura para pintar de vermelho o celeiro e a privada. No campo ao sul plantou feno e no oeste, milho, porque o campo a oeste era úmido e o milho cresceria mais depressa. Durante seu último verão na fazenda chegou a contratar dois homens da cidade. Mas quando o outono surgiu no horizonte, alguma coisa aconteceu — ninguém sabe exatamente o quê —, e ele fez uma magra colheita prematura, leiloou o gado e os instrumentos agrícolas e mudou-se, tudo no espaço de algumas semanas.

Na época, John Sawtelle viajava pelo norte sem nenhuma ideia nem intenção de comprar uma fazenda. Na verdade, ele havia posto seu equipamento de pesca no Kissel e dissera a Mary, sua mulher, que ia entregar um filhote de cachorro a um homem que conhecera em sua última viagem. O que era verdade mesmo. O que ele não mencionou foi que levava uma coleira extra no bolso.

Naquela primavera, a cachorra deles, Violet, que era boa, mas selvagem de coração, cavou um buraco por baixo da cerca quando estava no cio e percorreu as ruas pensando em romance. E eles acabaram, depois, correndo pelo quintal atrás de uma ninhada de sete. Ele podia ter dado todos os filhotes para estranhos, e desconfiava que teria de fazer isso, mas o negócio é que gostava de ter aqueles filhotes por ali. Gostava de um jeito primevo, obsessivo. Violet fora sua primeira cachorra, e os filhotes eram os primeiros filhotes com que havia passado seu tempo: eles latiam, mascavam os cadarços de seu sapato e olhavam para ele bem nos olhos. À noite, ele se via ouvindo discos, sentado na grama atrás da casa, ensinando aos filhotes truques que eles logo esqueciam, enquanto ele e Mary conversavam. Eram recém-casados, ou quase. Ficavam horas e horas sentados juntos e era o melhor período da vida dele até então. Naquelas noites, sentia-se em contato com alguma coisa antiga e importante que não sabia como chamar.

Mas não gostava da ideia de um estranho tratando mal um dos filhotes de Vi. O melhor seria conseguir colocá-los todos no bairro, para poder manter contato e acompanhar seu crescimento, mesmo que a distância. Sem dúvida, haveria meia dúzia de meninos morando por ali que queria um cachorro. As pessoas podiam achar estranho, mas não iam ligar se ele pedisse para ver os filhotes de vez em quando.

Então ele e um amigo foram até Chequamegon, uma viagem longa, mas que valia a pena pela pesca. Além disso, a Liga Anti-Saloon ainda não havia chegado às florestas do norte e provavelmente não o faria, o que constituía uma razão a mais para admirar a área. Pararam no The Hollow, em Mellen, e pediram uma cerveja. Enquanto conversavam, um homem entrou, seguido por um cachorro, um cachorro grande, cinzento e branco, com manchas marrons, uma mistura de husky com pastor, ou algo assim, um animal de peito largo, de porte nobre e andar garboso, alegre. Todo mundo no bar parecia conhecer o cachorro, que trotou por ali saudando os frequentadores.

— Que belo animal — John Sawtelle comentou, observando enquanto ele se relacionava com o grupo em troca de amendoins e carne-seca. Ele ofereceu uma cerveja ao dono do cachorro pelo prazer de uma apresentação.

— Chama-se Captain — disse o homem, gesticulando ao atendente para pegar a bebida. Com a cerveja na mão, deu um assobio breve e o cachorro veio trotando. — Captain, cumprimente o moço.

Captain olhou. Levantou uma pata para cumprimentar.

A primeira coisa que impressionou o avô de Edgar foi que se tratava de um animal grande. A segunda era menos tangível: algo nos olhos dele, no jeito como o cachorro se relacionava através do olhar. E ao apertar a pata de Captain, John Sawtelle foi tocado por uma ideia. Uma visão. Passara tanto tempo com os filhotes ultimamente que imaginou o próprio Captain como um filhote. Então pensou em Vi, que era o melhor animal que conhecera até então, e em Captain e Vi combinados num só cachorro, um filhote, o que era uma ideia maluca, porque já tinha cachorros demais. Largou a pata de Captain e o cachorro foi embora trotando. Virou-se para o bar e tentou tirar da cabeça aquela visão perguntando onde podia encontrar peixes muskie. Não estavam mordendo no lago Clam. E havia muitos lagos pequenos por ali.

Na manhã seguinte, voltaram à cidade para tomar o café da manhã. A lanchonete ficava em frente à Prefeitura de Mellen, um grande prédio quadrado com uma cúpula esquisita que dava para a rua. Diante dele havia uma fonte de água potável com uma bacia à altura de uma pessoa, outra mais baixa para cavalos e um prato menor, junto ao chão, cujo propósito não era claro de imediato. Estavam prestes a entrar na lanchonete quando um cachorro virou a esquina e passou trotando por eles muito à vontade. Era Captain. Andava de um jeito estranhamente leve para um cachorro de constituição tão sólida, levantando e baixando as patas como se estivessem suspensas por cordões invisíveis e apenas patinassem para se orientar. O avô de Edgar parou na porta da lanchonete e ficou olhando. Ao chegar à fonte diante da Prefeitura, o cachorro virou e bebeu na tigela que ficava junto ao chão.

— Vamos — chamou o amigo. — Estou morrendo de fome.

Do beco ao lado da Prefeitura saiu uma cachorra, com meia dúzia de filhotes enfileirados atrás. Ela e Captain realizaram uma complexa dança, farejando traseiros, empurrando focinhos e bufando, enquanto os filhotes bambeavam entre as patas dos dois. Captain curvou-se para os pequenos, enfiou o focinho debaixo da barriga deles e rolou os filhotes, um a um. Depois, saiu correndo pela rua, virou-se e latiu. Os filhotes foram tropeçando atrás dele. Minutos depois, trouxe-os de volta à fonte, girando em círculos, com os mais novos perseguindo-o, enquanto a mãe ficava esticada no gramado, a observar, ofegante.

Uma mulher de avental saiu da lanchonete, espremeu-se entre os dois homens e olhou.

— É o Captain e a senhora dele — disse. — Há uma semana se encontram aqui toda manhã. Desde que os filhotes da Violet começaram a andar.

— Filhotes de quem? — perguntou o avô de Edgar.

— Ora, da Violet. — A mulher olhou para ele como se fosse um idiota. — A cachorra mãe. Aquela ali.

— Eu tenho uma cachorra chamada Violet — ele disse. — E neste momento ela está com uma cria exatamente dessa idade lá em casa.

— Nossa, que coisa — disse a mulher, sem o menor sinal de interesse.

— Quer dizer, não é uma grande coincidência? Eu encontrar uma cachorra com o mesmo nome da minha e uma ninhada da mesma idade?

— Não sei. Pode ser que isso aconteça o tempo todo.

— Tem uma outra coincidência que acontece toda manhã — interrompeu o amigo dele. — Eu acordo, fico com fome e tomo café da manhã. Incrível.

— Vá então você — disse John Sawtelle. — Eu não estou mesmo com tanta fome. — E, dizendo isso, atravessou a rua e foi até a Prefeitura.

Quando finalmente sentou-se para comer, a garçonete apareceu junto à mesa com o café.

— Se está tão interessado naqueles filhotes, pode ser que Billy venda um para o senhor — disse ela. — Vai ser difícil ele conseguir dar, tem tanto cachorro por aqui.

— Quem é Billy?

Ela se virou e apontou para o balcão. Lá, num dos banquinhos, estava sentado o dono de Captain, tomando uma xícara de café e lendo o Sentinel. O avô de Edgar convidou o homem para comerem juntos. Quando estavam sentados, perguntou a Billy se os cachorrinhos eram mesmo dele.

— Alguns — Billy respondeu. — O Cappy aprontou com a velha Violet. Tenho de encontrar lugar para metade da ninhada. Mas acho mesmo é que vou ficar com eles. Cap é louco por eles e desde que o meu Scout fugiu, no verão passado, estou com um cachorro só. Ele se sente solitário.

O avô de Edgar falou da sua ninhada e de Vi, aumentando as qualidades delas, e ofereceu trocar um filhote por outro. Disse a Billy que ele podia escolher o que quisesse na ninhada de Vi e, além disso, podia escolher qual filhote de Captain queria dar, embora ele preferisse um macho, se para Billy não fizesse diferença. Depois pensou um minuto e refez o pedido: ficaria com o filhote mais esperto que Billy estivesse disposto a dar, não importando se fosse macho ou fêmea.

— A ideia não é reduzir o número de cachorros na sua casa? — seu amigo perguntou.

— Eu disse que ia encontrar uma casa para os filhotes. Não é exatamente a mesma coisa.

— Acho que Mary não vai concordar, não. É o que eu acho.

Billy tomou seu café e sugeriu que, mesmo interessado, tinha restrições em praticamente atravessar o Wisconsin inteiro só para pegar um filhote de cachorro. A mesa deles ficava perto da grande janela da frente e por ela John Sawtelle podia ver Captain e os filhotes rolando no gramado. Ficou olhando um pouco, depois se virou para Billy e prometeu que pegaria o melhor da ninhada de Vi e traria para ele: macho ou fêmea, à escolha de Billy. E se Billy não gostasse, não fariam troca nenhuma, e tudo bem.

E foi assim que John Sawtelle se viu indo para Mellen em setembro com um cachorrinho dentro de uma caixa e uma vara de pescar no banco de trás, assobiando “Shine on, Harvest Moon”. Já tinha decidido chamar o filhotinho novo de Gus, se o nome combinasse.

Billy e Captain gostaram do filhote de Vi imediatamente. Os dois homens foram para o quintal de Billy para discutir as qualidades de cada filhote da ninhada de Captain. Depois de algum tempo um deles se aproximou com o andar bamboleante, e isso resolveu as coisas. John Sawtelle colocou a coleira sobressalente no filhote e passaram a tarde na margem do lago, pescando. Gus comeu pedaços de perca assadas no espeto e os dois dormiram diante de uma fogueira, a coleira amarrada no cinto com um pedaço de barbante.

No dia seguinte, antes de partir para casa, o avô de Edgar pensou em andar um pouco por ali. A região era uma mistura interessante: os trechos desmatados eram feios como o pecado, mas os trechos bonitos eram especialmente bonitos. Como as cachoeiras. E alguns campos de plantio a oeste. E, acima de tudo, a floresta montanhosa ao norte da cidade. Além disso, não havia muita coisa de que ele gostasse mais do que dirigir o Kissel por aquelas estradinhas.

No final da manhã, dirigia por uma estrada de terra muito esburacada. Os galhos das árvores se entrelaçavam no alto. À esquerda e à direita, moitas cerradas encobriam tudo que ficasse quinze metros floresta adentro. Quando a estrada finalmente desembocou numa clareira, ele foi brindado com a visão da cordilheira Penokee estendendo-se para oeste e uma floresta cor de esmeralda espraiando-se compacta em direção ao norte, aparentemente até a margem de granito do lago Superior. Ao sopé da montanha havia uma casinha branca e um gigantesco celeiro vermelho. Uma casa de ordenha estava erguida próximo à frente do celeiro. Atrás, um silo de pedra sem cobertura. Junto à estrada, uma placa escrita toscamente dizia: “À venda.”

Ele pegou o esburacado caminho de entrada. Estacionou, desceu e espiou pelas janelas da sala. Não havia ninguém em casa. Caminhou pelos campos com Gus no colo e quando voltou deixou-se cair no estribo do Kissel, olhando as nuvens de outono deslizarem no alto.

John Sawtelle era um grande leitor e missivista. Gostava, sobretudo, de jornais de cidades distantes. Recentemente, havia encontrado um artigo sobre um homem chamado Gregor Mendel (um monge tchecoslovaco, coisa esquisita), que fizera experiências interessantes com ervilhas. Para começar, ele havia demonstrado que conseguia prever como seriam as mudas das plantas: a cor das flores etc. Passaram a chamar de mendelismo esse estudo científico da hereditariedade. O artigo tratava das estupendas consequências para a criação de gado. O avô de Edgar ficara tão fascinado que tinha ido à biblioteca e retirara um livro sobre Mendel, que leu do início ao fim. O que aprendeu vinha-lhe à cabeça ocasionalmente. Lembrou da visão (se é que se podia chamar assim) que tinha lhe vindo ao segurar a pata de Captain no The Hollow. Era um daqueles raros dias em que tudo na vida da pessoa parece estar ligado. Tinha vinte e cinco anos, mas ao longo do ano anterior seu cabelo ficara grisalho, cor de aço. A mesma coisa acontecera com seu avô, embora seu pai estivesse beirando os setenta com uma juba preta como azeviche. Isso não havia acontecido com nenhum de seus irmãos mais velhos, embora um deles fosse mais careca que um ovo. Nessa época, quando John Sawtelle olhava no espelho, sentia-se um pouco como uma ervilha mendeliana.

Ficou sentado ao sol observando Gus, patas largas e desajeitadas, prender no chão um louva-a-deus, abocanhar o inseto, depois sacudir a cabeça com nojo e lamber os beiços. Começara a se esfregar no que sobrara do louva-a-deus com a lateral do pescoço, quando notou de repente que o avô de Edgar o estava observando, calcanhares na estrada de terra, dedos dos pés apontados para o céu. O filhote deu um pinote fingindo surpresa, como se nunca tivesse visto aquele homem antes. Avançou tropeçando e rolou no chão ao se aproximar.

John Sawtelle pensou que era um lugarzinho adorável. Explicar Gus para a mulher era a menor de suas preocupações.

Na verdade, não demorou muito para acabar a confusão. Quando queria, o avô de Edgar conseguia irradiar um entusiasmo encantador, uma das razões por que Mary se sentiu atraída por ele. Conseguia contar uma boa história de como as coisas seriam. Além disso, estavam morando na casa dos pais dela fazia mais de um ano e ela queria tanto quanto o marido ir embora para um lugar que fosse deles. Fecharam a compra da terra por correio e telegrama.

O menino Edgar viria a saber disso porque seus pais guardavam os documentos mais importantes em uma caixa de munição nos fundos do armário do quarto do casal. A caixa era de um cinza bélico, com um grande fecho do lado, e de metal, portanto à prova de ratos. Quando eles não estavam por perto, Edgar tirava a caixa escondido e investigava o conteúdo. As certidões de nascimento deles estavam ali, com a certidão de casamento, a escritura e a história da propriedade da terra. Mas o telegrama era o que mais o interessava: uma folha de papel grossa, amarelada, com o logotipo da Western Union no alto, a mensagem composta de apenas seis palavras, coladas em tiras: oferta aceita procure adamski ref. documentos. Adamski era o advogado do sr. Schultz; a assinatura dele aparecia em diversos papéis da caixa. A cola que prendia as palavras ao telegrama havia ressecado ao longo dos anos, e cada vez que Edgar o pegava mais uma palavra se soltava. A primeira a sair tinha sido documentos, depois ref., depois procure. Edgar acabou não pegando mais o telegrama, temendo que quando aceita caísse em seu colo o direito de sua família à terra fosse anulado. Ele não sabia o que fazer com as palavras que se soltaram. Parecia errado jogá-las fora, então as deixou dentro da caixa de munição, na esperança de que ninguém fosse notar.

O pouco que sabiam de Schultz vinha do fato de viverem nas construções que ele fizera. Por exemplo, como os Sawtelles realizaram muitas reformas, sabiam que Schultz trabalhava sem nível nem esquadro e que ele não conhecia a velha regra de carpintaria dos múltiplos de três, quatro e cinco para fazer ângulos retos. Sabiam que só cortava madeira uma vez e, se ela ficava muita curta, dava um jeito com cunhas ou pregos a mais, e se ficava muito comprida, encaixava em ângulo. Sabiam que era sovina porque preenchera as paredes do porão com pedras para economizar no custo do cimento, e toda primavera a água vertia das rachaduras até o porão ficar inundado à altura do tornozelo. E foi assim, disse o pai de Edgar, que descobriram que Schultz nunca havia cimentado um porão.

Descobriram também que Schultz admirava a economia (tinha de admirar para viver na floresta), porque a casa que construiu era uma versão em miniatura do celeiro, com todas as suas dimensões divididas por três. Para ver a semelhança, o melhor era ficar no campo ao sul, perto do bosque de bétulas com a cruz branca pequena na base. Com um pouco de imaginação e descontando as mudanças feitas pelos Sawtelles (a ampliação da cozinha, um quarto extra, uma varanda nos fundos que corria ao longo do lado oeste), dava para notar que a casa tinha o mesmo telhado íngreme de duas águas, que escoava tão bem a neve no inverno, e que na casa as janelas se abriam exatamente no mesmo ponto em que ficavam as portas de abrir em cima e embaixo na extremidade do celeiro. Até mesmo o topo do telhado se projetava sobre o caminho como um toldo de palha, bonito mas inútil. As construções eram atarracadas, simpáticas, simples, como uma vaca e seu bezerro deitados num pasto. Edgar gostava de ficar olhando o pátio; era essa a vista que Schultz devia apreciar todo dia quando trabalhava no campo catando pedras, arrancando tocos de árvores, juntando seu rebanho para a noite.

Inúmeras perguntas não podiam ser respondidas apenas pelos fatos. Havia um cachorro para pastorear as vacas? Teria sido o primeiro cachorro a considerar aquele lugar como sua casa, e Edgar gostaria de ter sabido seu nome. O que Schultz fazia à noite sem rádio nem televisão? Será que ensinou o cachorro a apagar as velas? Será que temperava com pólvora os ovos do café da manhã, como faziam os viajantes? Criava galinhas e patos? Passava as noites sentado com uma arma no colo para atirar nas raposas? No meio do inverno, será que saía correndo a berrar pela trilha rústica até a cidade, bêbado, entediado e enlouquecido pelo interminável acorde de gaita que o vento tocava no caixilho da janela? Era demais esperar uma fotografia de Schultz, mas o menino, mesmo internamente, o imaginava saindo da floresta como se o tempo não tivesse passado, pronto para tentar plantar mais uma vez: um homem compacto, solene, com um bigode de guidão de bicicleta, sobrancelhas grossas e tristes olhos castanhos. Seu passo seria gingado, por tantas horas passadas montado a cavalo, e haveria nele certo encanto. Quando parasse para pensar em alguma coisa, colocaria as mãos nos quadris, mexeria na terra com o calcanhar e assobiaria.

Mais vestígios de Schultz: ao abrir uma parede para substituir uma janela apodrecida, encontraram numa tábua anotações de Schultz feitas a lápis:

64 ½ + 8 ½ = 73

Em outra viga, uma lista rabiscada:

toicinho
farinha
piche 5 galões
fósforo
café
1 kg pregos

Edgar ficou aturdido ao encontrar palavras dentro das paredes de sua casa, rabiscadas por um homem que ninguém nunca tinha visto. Ficava com vontade de abrir cada parede, de ver o que podia estar escrito na calha do telhado, debaixo dos degraus, acima das portas. Com o tempo, usando apenas a imaginação, Edgar construiu uma imagem de Schultz tão detalhada que não precisava nem semicerrar os olhos para invocá-la. O mais importante foi que entendeu por que Schultz abandonou tão misteriosamente a fazenda: ele sentiu solidão. Depois do quarto inverno, Schultz não suportou mais, sozinho com os cavalos e as vacas, sem ninguém para conversar, sem ninguém para ver o que ele tinha feito nem ouvir o que tinha acontecido: absolutamente ninguém para presenciar sua vida. Na época de Schultz, assim como na de Edgar, não havia vizinhos à vista. As noites deviam ser assustadoras.

E então Schultz foi embora, talvez para o sul, até Milwaukee, ou para oeste, até St. Paul, esperando encontrar uma mulher que voltasse com ele, ajudasse a limpar o resto da terra, começasse com ele uma família. Alguma coisa, porém, o manteve longe. Talvez a noiva não gostasse da vida na fazenda. Talvez alguém tivesse adoecido. Impossível saber isso, no entanto Edgar tinha certeza de que Schultz lamentara aceitar a oferta de seu avô. E essa, imaginava, era a verdadeira razão por que as palavras se descolavam do telegrama.

Claro que não havia motivo para se preocupar, e Edgar sabia disso, sim. Tudo aquilo acontecera quarenta anos antes de ele nascer. O avô e a avó tinham se mudado para a fazenda sem incidentes, e na época de Edgar aquela já era a morada dos Sawtelles havia mais tempo que qualquer pessoa poderia lembrar. John Sawtelle conseguiu trabalho na madeireira de compensados na cidade e alugou os campos que Schultz havia limpado. Sempre que encontrava um cachorro que admirava, fazia questão de descer e olhar nos olhos dele. Às vezes, entrava em acordo com o dono. Ele transformou o gigantesco celeiro em um canil, e ali o avô de Edgar aprimorou seu talento para criar cachorros — cachorros tão diferentes dos pastores, cães de caça, perdigueiros e de tração usados por ele como ponto de partida, que se tornaram conhecidos simplesmente como cães sawtelle.

E John e Mary Sawtelle criaram dois meninos tão diferentes um do outro como o dia e a noite. Um filho permaneceu na terra quando o avô de Edgar, depois de ficar viúvo, voltou para a cidade, e o outro filho foi embora para sempre, todos pensavam.

O que ficou era o pai de Edgar, Gar Sawtelle.

Seus pais se casaram tarde. Gar tinha mais de trinta anos, Trudy, poucos anos menos, e a história do encontro dos dois mudava dependendo de quem Edgar interrogava ou quem estava ouvindo.

— Foi amor à primeira vista — a mãe dizia em voz alta. — Ele não tirava os olhos de mim. Era muito embaraçoso mesmo. Casei com ele porque tive pena.

— Não acredite! — o pai gritava da outra sala. — Ela andava atrás de mim como uma louca! Se atirava aos meus pés toda vez que podia. Os médicos disseram que ela podia fazer uma bobagem se eu não concordasse em ficar com ela.

Sobre esse assunto, Edgar nunca conseguiu ouvir a mesma história duas vezes. Uma vez, os dois tinham se conhecido num baile em Park Falls. Outra vez, ela havia parado para ajudá-lo a trocar um pneu furado da caminhonete.

Não, por favor, Edgar insistira.

A verdade era que os dois haviam se correspondido durante anos. Conheceram-se num consultório médico, os dois pintalgados de sarampo. Conheceram-se numa loja de departamentos no Natal, brigando pelo último brinquedo de uma prateleira. Conheceram-se quando Gar estava entregando um cachorro em Wausau. Os dois estavam sempre disputando um com o outro, transformando a história em alguma aventura fantástica na qual escapavam do perigo, fugiam para o esconderijo de Dillinger nas florestas do norte. Edgar sabia que a mãe havia crescido do outro lado da fronteira de Minnesota com o lago Superior, passado de uma família adotiva para outra, mas apenas isso. Não tinha irmãs nem irmãos, e ninguém do lado dela da família vinha visitá-los. De vez em quando, chegavam cartas endereçadas a ela, mas Trudy não tinha pressa em abri-las.

Na parede da sala havia uma foto dos pais de Edgar tirada no dia em que o juiz de Ashland os casara — Gar de terno cinzento, Trudy com vestido branco curto, até os joelhos. Seguravam um buquê de flores entre eles e ambos tinham expressões tão solenes que Edgar quase não os reconhecia. Seu pai pedira ao doutor Papineau, o veterinário, que cuidasse dos cachorros enquanto ele e Trudy passavam a lua de mel no condado de Door. Edgar tinha visto instantâneos tirados na câmera Brownie de seu pai: os dois sentados num píer com o lago Michigan ao fundo. Isso era toda a prova que havia: a certidão de casamento na caixa de munição, umas poucas fotos com as bordas onduladas.

Quando voltaram, Trudy começou a participar do trabalho no canil. Gar concentrou-se no cruzamento, na criação e na colocação, enquanto Trudy se encarregava do treinamento, atividade em que, independentemente de como eles houvessem se conhecido, ela brilhava. O pai de Edgar admitia sem constrangimentos suas limitações como treinador. Era bonzinho, sempre disposto a deixar os cachorros cumprirem uma ordem sem exatidão. Os cachorros que ele treinava nunca aprendiam a diferença entre um senta, um deita e um fica; eles achavam que tinham de ficar mais ou menos onde estavam, mas às vezes escorregavam para o chão, ou davam alguns passos e depois sentavam, ou sentavam quando deviam ficar deitados, ou sentavam quando tinham de ficar em pé imóveis. O pai de Edgar estava sempre mais interessado no que os cachorros preferiam fazer, predileção que herdara de seu pai.

Trudy mudou tudo isso. Como treinadora, era inflexível e precisa, movendo-se com a mesma economia seca de gestos que Edgar notava em professores e enfermeiras. E seus reflexos eram singulares: era capaz de corrigir um cão na guia tão depressa que dava vontade de rir. As mãos dela voavam e voltavam à sua cintura como um relâmpago e a coleira do cachorro se apertava com um clique discreto e se afrouxava outra vez, tão rápido que parecia um truque de prestidigitação. O cachorro ficava com uma expressão surpresa, sem fazer ideia do que havia puxado a guia. No inverno, usavam a frente do cavernoso depósito de feno para o treinamento, fardos de palha arrumados como barreiras, trabalhando os cachorros em um mundo fechado, limitado pela palha seca sob as patas e a viga rústica do alto, as nodosas pranchas do teto como uma cúpula escura marcada pelos pregos das telhas de madeira, os buraquinhos de luz do dia e os esteios cruzados a meia altura, toda a metade dos fundos ocupada por pilhas de dez, onze, doze fardos de palha amarela. Mesmo assim, o espaço livre ainda era enorme. Ao trabalhar ali com os cachorros, Trudy exibia todo seu carisma e domínio. Edgar a vira atravessar o celeiro num salto, agarrar a coleira de um cachorro que se recusava a se deitar e levá-lo ao chão com um movimento acrobático, em forma de arco. O próprio cachorro ficara impressionado: saltara, correra e lambera o rosto dela, como se ela tivesse realizado um milagre a seu favor.

Embora os pais de Edgar fossem sempre alegremente evasivos sobre a maneira como se conheceram, outras perguntas eles respondiam de imediato. Às vezes, embarcavam em histórias do próprio Edgar, de seu nascimento, de como ficaram preocupados com sua voz, como ele e Almondine brincavam juntos antes mesmo de ele deixar o berço. Como Edgar trabalhava ao lado dos dois todos os dias no canil, tratando, escolhendo nomes e manejando os cachorros que aguardavam sua vez no treinamento, tinha muitas chances de fazer perguntas por sinais e de esperar e ouvir. Nos momentos mais tranquilos, falavam até das coisas tristes que haviam acontecido. A mais triste de todas era a história daquela cruz debaixo das bétulas no campo ao sul.

Eles queriam um bebê. Era o outono de 1954 e estavam casados havia três anos. Transformaram um dos quartos do andar de cima num quarto de bebê e trouxeram uma cadeira de balanço, um berço com um móbile e uma cômoda, tudo pintado de branco. Mudaram também o próprio quarto para o andar de cima, do outro lado do corredor. Nessa primavera, Trudy ficou grávida. Depois de três meses, sofreu um aborto. Quando o inverno chegou, ela estava grávida de novo, e de novo perdeu, aos três meses. Foram a um médico em Marshfield, que perguntou o que eles comiam, que remédios tomavam, quanto fumavam e bebiam. O médico fez exames do sangue da mãe e declarou que ela era perfeitamente saudável. Algumas mulheres tinham essa tendência, disse o médico. Esperem um ano. E falou para ela não cometer excessos.

No final de 1957, a mãe engravidou pela terceira vez. Esperou até ter certeza, depois mais um pouco, para só então dar a notícia, no dia de Natal. Ela calculava que o bebê chegaria em julho.

Levando em conta o alerta do médico, eles mudaram a rotina do canil. A mãe de Edgar ainda cuidava dos filhotes mais novos, mas quando chegava a hora de trabalhar com os de um ano, voluntariosos e fortes o suficiente para desequilibrá-la, era o pai que ia para o celeiro. Não era fácil para nenhum dos dois. De repente, Trudy estava treinando cachorros usando Gar, e ele fazendo as vezes de uma guia era péssimo. Ela sentava num fardo e gritava: Vai! Vai!, frustrada cada vez em que ele não acertava uma correção, o que era muito frequente. Depois de algum tempo, os cachorros viravam as orelhas para Trudy mesmo quando Gar era quem levava a guia. Aprenderam a trabalhar com três cachorros de cada vez, dois parados ao lado da mãe de Edgar enquanto o pai estalava a guia com um terceiro e o conduzia pela sequência de obstáculos, os pega, os fica, e o trabalho de fixação. Sem nada para fazer, a mãe começou pequenos exercícios de morder e prender, para ensinar os cachorros a ter uma mordida suave. Em dias assim, ela saía do celeiro tão cansada como se tivesse trabalhado sozinha. O pai ficava para trás, realizando as tarefas noturnas. Aquele inverno foi especialmente frio e às vezes levava mais tempo recolher tudo do que atravessar do canil para a varanda dos fundos.

À noite, arrumavam a cozinha. Ela lavava, ele enxugava. Às vezes, ele jogava a toalha no ombro e a enlaçava com os braços, apertando as mãos em sua barriga e imaginando se iria sentir o bebê.

— Pegue — ela dizia, estendendo um prato fumegante. — Pare de enrolar. — Mas no reflexo na janela gelada acima da pia ele via que ela estava sorrindo. Uma noite, em fevereiro, Gar sentiu um movimento na barriga debaixo de sua mão. Um chamado de um outro mundo. Nessa noite, eles escolheram um nome de menino e um de menina, os dois fazendo as contas de cabeça e pensando que tinham ultrapassado a marca dos três meses, sem ousar dizer isso em voz alta.

Em abril, cortinas cinzentas de chuva varreram o campo. A neve escureceu e dissolveu ao longo de um único dia e um vapor de cheiro de plantas encheu o ar. Por toda parte, ouvia-se o barulho da água pingando das folhas. Numa noite, o pai dele acordou e encontrou os lençóis enrolados e a cama molhada, onde sua mãe estivera deitada. À luz do abajur, uma mancha carmesim nos lençóis.

Encontrou-a no banheiro, encolhida dentro da banheira de pés. Tinha nos braços um bebê menino perfeitamente formado, a pele parecendo cera azul. O que acontecera, acontecera depressa, com pouca dor, e embora ela se sacudisse como se estivesse chorando, estava em silêncio. O único som era o de sua pele úmida colada à louça branca. O pai de Edgar ajoelhou-se ao lado da banheira e tentou abraçá-la, mas ela estremeceu e o empurrou, então ele se sentou à distância de um braço e esperou que o choro dela parasse ou começasse para valer. Em vez disso, ela estendeu a mão e abriu as torneiras com os dedos na água até sentir que estava bastante quente. Lavou o bebê, sentada dentro da banheira. A mancha vermelha da camisola começou a tingir a água. Pediu que Gar pegasse um lençol no quarto do bebê, embrulhou a forma imóvel e passou para ele. Quando ele se virou para sair ela pôs a mão em seu ombro, e ele então esperou, olhando quando achava que devia olhar e desviando os olhos em outros momentos, e o que ele viu foi ela voltando a si, partícula por partícula, até que finalmente virou para ele com um olhar que queria dizer que tinha sobrevivido.

Mas, secretamente, a um alto preço. Embora a infância de filha adotiva a tivesse deixado calejada para perdas familiares, a necessidade de manter a família unida sempre foi parte de sua natureza. Explicar o que aconteceu depois por qualquer acontecimento particular seria negar a predisposição ou o poder do universo a modelar. Em sua mente, o lugar onde o bebê já vivera e respirara (de qualquer forma, as esperanças e os sonhos que criaram o bebê para ela) não iriam simplesmente desaparecer porque o bebê tinha morrido. Ela não podia deixar o lugar vazio nem trancá-lo para sempre e virar para o outro lado como se nunca tivesse existido. E então restou uma minúscula e escura semente negra, um vazio em que uma pessoa poderia mergulhar para sempre. Esse era o custo, e só Trudy sabia disso, ainda que não soubesse o que significava ou o que viria significar.

Ela ficou na sala com o bebê enquanto Gar levava Almondine para a oficina. De ponta a ponta do corredor os cães estavam em seus cercados. Ele acendeu a luz e tentou esboçar um plano num pedaço de papel, mas suas mãos tremiam e as dimensões não saíam direito. Cortou-se com o serrote, raspou a pele em cima dos nós de dois dedos e fez um curativo com o kit do celeiro, em vez de voltar a casa. Trabalhou até o meio da manhã para fazer o caixão e a cruz. Não pintou nada porque, com aquele tempo úmido, levaria dias para a tinta secar. Carregando uma pá, atravessou o campo ao sul até o pequeno bosque de bétulas, de cujas cascas brotava uma gosma branca brilhosa, e ali cavou um túmulo.

Na casa, forrou o caixão com dois cobertores e depositou o bebê enfaixado ali dentro. Só então pensou em lacrar o caixão. Olhou para Trudy.

— Tenho de pregar a tampa — disse. — Vou levar para o celeiro.

— Não — disse ela. — Faça isso aqui.

Ele foi até o celeiro, pegou um martelo e oito pregos, e ao longo de todo o caminho de volta a casa foi remoendo o que estava para fazer. Colocaram o caixão no meio da sala. Ajoelhou-se na frente dele. Estava parecido com um caixote, notou, porém fizera o melhor possível. Bateu um prego em cada canto e ia colocar um no centro de cada lado, mas de repente não conseguiu. Desculpou-se pela violência daquilo. Recostou a cabeça na madeira áspera do caixão. Trudy passou a mão em suas costas, sem dizer uma palavra.

Ele levantou o caixão e o levou até o bosque de bétulas, baixou-o à cova e jogou terra por cima. Almondine, apenas um filhote na época, ficou a seu lado na chuva. Gar usou a pá para fazer um buraco em forma de meia-lua no gramado, e com o lado plano do martelo pregou a cruz no chão. Quando levantou o rosto, Trudy estava inconsciente em cima do feno verde recém-brotado.

Ela acordou quando aceleravam pelo asfalto ao norte de Mellen. Do lado de fora da janela da caminhonete o vento açoitava a chuva, criando formas incompletas que tremiam e giravam nas valas. Fechou os olhos, não conseguia olhar sem ficar tonta. Passou a noite no hospital de Ashland, e quando voltaram para casa, na tarde do dia seguinte, a chuva ainda caía, as formas ainda dançavam.

Acontece que o limite dos fundos da propriedade deles corria exatamente ao longo do córrego que ia para o sul por dentro da floresta de Chequamegon. Durante a maior parte do ano, o córrego tinha apenas entre sessenta e noventa centímetros de largura, tão raso que era possível pegar uma pedra do fundo sem molhar o pulso. Quando Schultz levantou a cerca de arame farpado, ele colocou os mourões bem no centro da corrente.

Às vezes, Edgar e seu pai iam até lá no inverno, quando apenas a ponta superior dos mourões aparecia nas nevascas e a água fazia sons gotejantes, como bolinhas de gude se chocando, porque, embora o córrego não fosse largo nem rápido o bastante para dissolver a neve que o encobria ele tampouco congelava. Uma vez, Almondine inclinou a cabeça para o som, fixou de onde vinha, depois mergulhou as patas da frente na neve e na água gelada. Quando Edgar riu, embora sua risada fosse silenciosa, ela baixou as orelhas. Levantou uma pata, depois da outra, para que ele as enxugasse com o chapéu e as luvas, e voltaram para casa, mãos e patas igualmente pinicando.

Durante algumas semanas de cada primavera o córrego se transformava em um rio preguiçoso e barrento, que corria pelo solo da floresta com três metros de largura para cada lado dos mourões da cerca. Qualquer coisa podia passar flutuando durante a temporada da cheia — latas de sopa, cartões de beisebol, lápis —, cuja origem era um mistério, uma vez que não havia nada rio acima, apenas floresta. Os gravetos e os pedaços de madeira apodrecida que Edgar jogava na corrente densa oscilavam e flutuavam em direção ao Mississippi, ele esperava, enquanto seu pai, recostado a uma árvore, observava a linha de mourões.

Uma vez, viram uma lontra flutuando de barriga para cima na enchente, as patas na direção da correnteza, alisando a pelagem do peito, uma espécie de animal-canoa independente. Ao passar, a lontra percebeu que estava sendo observada e levantou a cabeça. Olhos redondos, negros e untuosos. Trocaram olhares enquanto ela era arrastada pelas águas.

Ao voltar do hospital, Trudy passou dias de cama, observando o desenho das gotas de chuva na janela. Gar fazia a comida e levava para ela. Ela só falava o suficiente para tranquilizá-lo, depois voltava a olhar a janela. Depois de três dias a chuva parou, mas nuvens cinzentas encobriam a terra. Nenhum sol nem lua aparecera desde o natimorto. À noite, Gar a enlaçava num abraço e sussurrava para ela até adormecer de exaustão e desapontamento.

Então, uma manhã, Trudy saiu da cama e desceu, lavou-se e sentou para tomar o café da manhã na cozinha. Estava pálida, mas não inteiramente introvertida. O tempo havia esquentado, e depois do desjejum Gar a convenceu a se sentar numa grande poltrona bem estofada que levou para a varanda. Trouxe para ela um cobertor e um café. Ela pediu, com a maior delicadeza que pôde, que ele a deixasse em paz, que estava bem, que queria ficar sozinha. Então ele amarrou Almondine na varanda e foi para o canil.

Terminadas as tarefas da manhã, levou um pincel e uma lata de tinta branca até as bétulas. Quando terminou de pintar a cruz, usou as mãos para revirar a terra onde havia pingado tinta. Até as lentas pinceladas na madeira tudo tinha corrido bem, mas o toque da terra o encheu de tristeza. Não queria que Trudy o visse daquele jeito. Em vez de voltar para o canil, foi acompanhando a cerca ao sul, pela floresta. Longos dias de chuva haviam expandido o córrego a ponto de ele alcançar a segunda fileira de arame farpado. Encontrou uma árvore onde reclinar-se e, distraído, contou os redemoinhos que se formavam atrás dos mourões da cerca. A visão daquilo deu-lhe alguma serenidade, embora não soubesse por quê. Depois de certo tempo, enxergou o que tomou por um amontoado de folhas girando, marrom contra a água marrom. Depois, com um pequeno abalo, viu que não eram folhas, mas um animal lutando, engasgado. Deslizou para um redemoinho, afundou na água e, quando voltou à tona outra vez, ele ouviu um grito tênue, mas inconfundível.

Quando chegou à cerca, a água do córrego batia em seus joelhos, mais quente do que ele esperava, porém o que mais o surpreendeu foi a força da correnteza. Foi forçado a agarrar-se a um mourão para se equilibrar. Quando a coisa passou perto dele, estendeu o braço, recolheu-a da água e levantou-a no ar para olhar bem. Depois, aninhou-a no casaco, mantendo sua mão lá dentro para aquecer a coisa, e atravessou a floresta numa linha reta, direto para o campo atrás da casa.

Sentada na varanda, Trudy viu Gar surgir da floresta. Quando ele atravessou um grupo de faias jovens, pareceu tremeluzir entre os troncos como um fantasma, a mão aninhada ao peito. De início, Trudy achou que ele tivesse se machucado, mas como não tinha forças para ir a seu encontro, esperou e observou.

Na varanda, ele se ajoelhou e estendeu a coisa para ela ver. Sabia que ainda estava viva porque ao longo de todo o caminho pelo campo viera mordendo fraquinho seus dedos. O que ele segurava era algum tipo de filhote, de lobo talvez, embora ninguém visse lobos por ali havia anos. Estava molhado, tremendo, da cor de um punhado de folhas e quase do tamanho da mão dele. O filhote havia se reanimado o suficiente para estar com medo. Arqueou as costas, uivou, bufou e fincou as patas traseiras nas mãos calejadas de Gar. Almondine pressionou o focinho no braço de Gar, louca para ver a coisa, mas Trudy com firmeza a fez se deitar, pegou o filhote, segurou um minuto para examinar, depois apertou-o contra o pescoço.

— Quieto agora — disse. — Quieto. — E ofereceu o dedo mínimo para ele chupar.

O filhote era macho, tinha talvez três semanas, embora pouco soubessem de lobos e só pudessem avaliar sua idade como se fosse um cachorro. Gar tentou explicar o que tinha acontecido, mas antes que pudesse terminar o filhote começou a ter convulsões. Levaram-no para dentro, secaram com uma toalha e ali ele ficou, olhando para os dois. Fizeram uma cama com uma caixa de papelão e a colocaram no chão, perto do registro da caldeira. Almondine passou o focinho por cima da beira da caixa. Ela não tinha nem um ano, ainda era desajeitada e muitas vezes boba. Eles temeram que ela pudesse pisar no filhote ou pressioná-lo com o focinho, deixando-o apavorado; então, depois de um momento, puseram a caixa sobre a mesa da cozinha.

Trudy tentou leite diluído, mas o filhotinho tomou uma gota e empurrou o bico da mamadeira com as patas dianteiras, não muito maiores que os polegares dela. Trudy tentou leite de vaca, depois água com mel, deixando as gotas pingarem da ponta dos dedos. Encontrou um avental com um grande bolso na frente e levava o filhotinho assim, achando que ele podia ficar na vertical, olhando em torno, mas ele só ficava deitado de costas, olhando muito sério para ela. Aquilo a fazia sorrir. Quando ela passava um dedo no pelo de sua barriga, ele se retorcia para não perder de vista os olhos dela.

Ao jantar, discutiram o que fazer. Já tinham visto mães rejeitarem seus bebês na sala de cria mesmo quando parecia não haver nada errado. Às vezes, Gar disse, funcionava colocar órfãos com outra mãe que estivesse amamentando. Assim que essas palavras foram pronunciadas, os dois deixaram os pratos na mesa e levaram o filhotinho para o canil. Uma das mães rosnou ao sentir o cheiro do filhotinho. Outra o empurrou e, com o focinho, jogou palha sobre seu corpo. O filhotinho reagiu ficando absolutamente imóvel. Não adiantava nada ficar zangada, mas mesmo assim Trudy ficou. Marchou para casa, o filhote nas mãos. Amassou um pedacinho de queijo entre os dedos até ficar morno e macio. Ofereceu uma lasca de rosbife de seu prato. O filhotinho não aceitou nada disso.

Perto da meia-noite, exaustos, levaram o enjeitado para cima e o acomodaram no berço com um pires de leite diluído. Almondine enfiou o nariz entre as barras e cheirou. O filhotinho engatinhou em direção ao barulho, fechou os olhos e ficou com as pernas traseiras esticadas, patas para cima, enquanto os sininhos do móbile tocavam.

Trudy acordou durante a noite e encontrou Almondine andando de um lado para outro no quarto. O filhotinho estava caído no berço, olhos vidrados, sem força para levantar a cabeça. Ela empurrou a cadeira de balanço para perto da janela e pôs o filhotinho no colo. As nuvens tinham se afastado e, à luz da meia-lua, o pelo do filhote tinha as pontas prateadas. Almondine deslizou o focinho pela coxa de Trudy. Ficou farejando o cheiro do filhotinho um longo tempo, depois se deitou, e a sombra da cadeira de balanço passava por ela, para a frente e para trás.

Na hora final do filhotinho, Trudy sussurrou para ele sobre a semente negra dentro dela, como se ele pudesse de alguma forma entender. Esfregou os pelos de seu peito quando ele voltou os olhos para ela, e no escuro fizeram uma barganha: um deles iria embora e o outro ficaria.

Quando Gar acordou, sabia onde encontrar Trudy. Dessa vez foi ele quem chorou. Enterraram o filhotinho debaixo das bétulas, perto do túmulo do bebê, os dois sem nome, mas o túmulo mais novo sem marca também, e agora, em vez da chuva, o sol brilhava com a pequena consolação que podia fornecer. Quando terminaram, os pais de Edgar voltaram ao canil e começaram a trabalhar, o trabalho deles, o trabalho que não acabava nunca, porque os cachorros estavam com fome, e uma das mães estava doente, e os filhotinhos tinham de ser amamentados à mão, e os de um ano, bagunceiros e teimosos, precisavam desesperadamente de treinamento.

Edgar não soube dessa história toda de uma vez. Ele a montou pedaço por pedaço, fazendo uma pergunta com sinais e encaixando mais um pedaço. Às vezes, eles diziam que não queriam falar a respeito naquele momento, ou mudavam de assunto, tentando talvez protegê-lo do fato de não haver final feliz para algumas histórias. No entanto, também não queriam mentir para ele.

Chegou um dia (um dia terrível) em que a história estava quase completamente contada, e sua mãe resolveu revelar tudo, tudo mesmo, do começo ao fim, repetindo até aqueles trechos que ele já sabia, deixando de fora apenas o que ela própria havia esquecido. Edgar ficou incomodado com a aparente injustiça, mas não reagiu, temendo que ela pudesse abrandar a verdade se lhe fizesse outras perguntas. Até então, ele achava que entendia alguma coisa sobre aqueles acontecimentos, sobre o mundo em geral: que haveria um certo equilíbrio na história, que de alguma forma devia haver uma compensação pelo bebê. Quando sua mãe contou que o filhotinho morreu naquela primeira noite, ele pensou ter ouvido errado e a fez repetir. Depois, chegou a pensar que talvez tivesse havido uma certa compensação, embora cruel, embora tivesse durado apenas um dia.

Sua mãe engravidou de novo, e dessa vez levou o bebê até o final da gravidez. Era ele esse bebê, nascido no dia 13 de maio de 1958, às seis da manhã. Chamaram-no de Edgar em homenagem ao pai de seu pai. E embora a gravidez tivesse sido tranquila, surgiu uma complicação no momento em que ele tomou o primeiro fôlego para chorar.

Ele ficou cinco dias no hospital, antes de ser finalmente levado para casa.

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