Trecho do Livro: Sepulcro | Kate Mosse


Trecho do Livro: Sepulcro | Kate Mosse
Livro Sepulcro
Autora: Kate Mosse
Editora: Suma de Letras (Objetiva)
ISBN: 9788560280421

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Paris, Quarta-Feira, 16 de Setembro de 1891. Léonie Vernier encontrava-se na escadaria do Palais Garnier, segurando com força sua bolsinha chatelaine e batendo o pé, impaciente.

Onde está ele?

O crepúsculo envolvia a Place de l’Opéra numa sedosa luz azul.

Léonie franziu a testa. Aquilo era mesmo irritante. Fazia quase uma hora que esperava o irmão no local combinado, sob o olhar brônzeo e impassível das estátuas que adornavam o telhado do teatro lírico. Havia suportado olhares impertinentes. Observara fiacres irem e virem, seges particulares com a capota levantada, veículos do transporte público, expostos às intempéries, carruagens de quatro rodas e cabriolés, todos desembarcando seus passageiros. Um mar de cartolas de seda preta e belos vestidos de gala saídos dos salões de exposição da Maison Léoty e da Charles Worth. Era uma plateia elegante de noite de estreia, um público sofisticado que estava ali para ver e ser visto.

E nada de Anatole.

Em certo momento, pensou tê-lo avistado. Um cavalheiro com o porte e as proporções de seu irmão, alto e espadaúdo, com o mesmo andar cadenciado. Ao longe, Léonie chegou até a imaginar seus brilhantes olhos castanhos e o fino bigode preto, e ergueu a mão num aceno. Mas o homem virou-se e ela percebeu que não era seu irmão.

Voltou os olhos para a Avenue de l’Opéra, que se estendia em diagonal até o Palais du Louvre — um remanescente de uma monarquia frágil, dos momentos em que um nervoso rei francês buscava uma rota segura e direta para sua diversão noturna. Os lampiões piscavam à luz crepuscular e quadrados de luz aconchegante derramavam-se das janelas iluminadas dos cafés e dos bares. Os jatos de gás cuspiam e estalavam.

À sua volta, o ar estava repleto dos sons de uma cidade ao pôr do sol, quando o dia dava lugar à noite. No lusco-fusco, entre chien et loup. O tilintar de arreios e rodas nas ruas movimentadas. O canto de pássaros distantes no Boulevard des Capucines. Os gritos estridentes de vendedores ambulantes e estribeiros, os tons mais suaves das moças que vendiam flores artificiais na escadaria do teatro, os guinchos agudos dos garotos que, por um vintém, engraxavam e poliam os sapatos dos cavalheiros.

Outro ônibus puxado por cavalos passou entre Léonie e a magnífica fachada do Palais Garnier, a caminho do Boulevard Haussmann, com o condutor assobiando no andar superior enquanto perfurava os bilhetes. Um velho soldado, ostentando no peito uma medalha obtida por combates em Tonquin, passou aos tropeços, cantando, embriagado, uma canção militar. Léonie viu até um palhaço de rosto pintado de branco sob o capuz de dominó preto, a roupa coberta por lantejoulas douradas.

Como é que ele pôde me deixar esperando?

Começou um dobre de sinos chamando para as vésperas, e seu tom plangente ecoou pelas pedras do calçamento. Seriam de Saint-Gervais ou de outra igreja próxima?

Léonie encolheu de leve os ombros, os olhos num lampejo de frustração, depois euforia.

Não podia retardar-se mais. Se quisesse ouvir o Lohengrin de monsieur Wagner, teria que segurar a coragem com as duas mãos e entrar sozinha.

Conseguiria?

Mesmo sem um acompanhante, por sorte estava com seu ingresso.

Mas será que se atreveria?

Pensou no assunto. Era a estreia parisiense. Por que deveria privar-se dessa experiência, em função da impontualidade de Anatole?

Dentro do teatro lírico, os lustres de cristal reluziam magnificamente. Tudo era luz e elegância, uma ocasião que não se podia perder.

Léonie tomou sua decisão. Subiu correndo a escadaria, cruzou as portas de vidro e se juntou à multidão.

Soaram as sinetas de advertência. Apenas dois minutos até o pano subir.

Num farfalhar de anáguas e meias de seda, Léonie cruzou em disparada a vastidão marmórea do Grand Foyer, atraindo uma medida igual de aprovação e admiração. Aos 17 anos, estava à beira de se tornar uma grande beldade, não mais uma criança, mas ainda retendo lampejos da menina que fora. Tinha a sorte de ser dotada dos traços refinados e da coloração nostálgica que eram tidos em alta conta por monsieur Moreau e seus amigos pré-rafaelitas.

Mas sua aparência enganava. Léonie era mais decidida do que obediente, mais atrevida que pudica — uma jovem de paixões contemporâneas, não uma recatada donzela medieval. Aliás, Anatole costumava brincar dizendo que, embora ela parecesse o perfeito retrato de La Damoiselle Élue, de Rossetti, na verdade era sua imagem especular. Seu duplo, que era e não era ela. Dos quatro elementos, Léonie era o fogo, não a água, a terra, ou o ar.

Agora, suas faces de alabastro haviam-se enrubescido. Mechas grossas do cabelo cor de cobre tinham-se soltado das travessas e caído sobre seus ombros. Seus deslumbrantes olhos verdes, emoldurados por longos cílios castanho-avermelhados, faiscavam de raiva e ousadia.

Ele deu sua palavra que não se atrasaria.

Segurando a bolsinha numa das mãos, como se fosse um escudo, e levantando a saia do vestido de cetim verde com a outra, cruzou às pressas os pisos de mármore, sem prestar atenção aos olhares de reprovação de matronas e viúvas. As imitações de pérolas e as contas prateadas da barra do vestido iam batendo nas lajotas marmóreas, enquanto ela passava às pressas pelas colunas de mármore rosado, pelas estátuas douradas e pelos frisos, em direção à imponente Grande Escadaria. Confinada no espartilho, sua respiração ficou entrecortada, enquanto o coração batia como um metrônomo acelerado.

Mesmo assim, Léonie não afrouxou o passo. Mais adiante, viu funcionários do teatro já em vias de fechar as portas da Grande Salle. Com um último rasgo de energia, impeliu-se para a entrada.

— Voilà — disse, entregando o ingresso ao porteiro. — Mon frère va arriver…

O homem afastou-se para o lado e a deixou passar.

Depois das ruidosas e reverberantes cavernas de mármore do Grand Foyer, o auditório pareceu particularmente silencioso, repleto de murmúrios abafados, cumprimentos, indagações sobre a saúde e a família, tudo parcialmente tragado pelos tapetes felpudos e por fileira após fileira de assentos forrados de veludo vermelho.

As conhecidas escapadas de sopros e metais, escalas, arpejos e fragmentos da ópera, cada vez mais altos, brotaram do poço da orquestra como rastros de brumas outonais.

Consegui.

Léonie se recompôs e alisou o vestido. Recém-comprado, entregue naquela tarde pela loja La Samaritaine, ainda estava meio duro, por falta de uso. Ela puxou as longas luvas verdes até acima dos cotovelos, para que não mais de uma tira de pele desnuda ficasse visível, e desceu por entre as poltronas em direção ao palco.

Os lugares eram na primeira fila, dois dos melhores do teatro, cortesia do amigo compositor de Anatole e vizinho de ambos, Achille Debussy. Ao passar, Léonie viu, à esquerda e à direita, fileiras de cartolas pretas, arranjos de plumas para a cabeça e um abanar de leques reluzentes. Rostos de um vermelho e púrpura coléricos, matronas muito empoadas de rígidas cabeleiras brancas. Léonie retribuiu todos os olhares com um sorriso cordial e uma leve inclinação da cabeça.

Há uma intensidade estranha no ar.

Seu olhar aguçou-se. Quanto mais avançava pelo Grande Salle, mais ficava claro que havia algo errado — uma certa vigilância nos rostos, algo fervilhando logo abaixo da superfície, uma expectativa de distúrbios futuros.

Sentiu um leve arrepio na nuca. A plateia estava em guarda, como podia perceber nos olhares esquivos e nas expressões desconfiadas em quase todos os rostos.

Não seja ridícula.

Veio-lhe a vaga lembrança de um artigo de jornal lido por Anatole em voz alta, à mesa do jantar, a respeito de protestos contra a apresentação de obras de artistas prussianos em Paris. Mas esse era o Palais Garnier, não um beco escondido em Clichy ou Montmartre.

O que poderia acontecer na Ópera?

Léonie passou pela floresta de joelhos e vestidos de sua fileira e, com uma sensação de alívio, acomodou-se na poltrona. Levou algum tempo para se ajeitar e olhou para os vizinhos. À esquerda estavam uma matrona cheia de joias e seu marido idoso, cujos olhos lacrimosos quase desapareciam sob as grossas sobrancelhas brancas. As mãos salpicadas de manchas, uma em cima da outra, descansavam sobre uma bengala de cabo de prata, circundada logo abaixo por um anel com uma inscrição. À direita, com a poltrona vazia de Anatole criando entre eles uma barreira que lembrava um valão, sentavam-se quatro homens de meia-idade, mal-encarados e barbudos, de expressão carregada e mãos apoiadas em bengalas de buxo sem maior distinção. Havia algo de inquietante em seu jeito de se manterem sentados em silêncio, olhando para a frente, com um ar de intensa concentração no rosto.

Ocorreu a Léonie que era estranho todos usarem luvas de couro, que deviam ser incomodamente quentes. Depois, um deles virou a cabeça e a encarou. Ela enrubesceu e, fixando os olhos adiante, pôs-se a admirar as magníficas cortinas em trompe l’oeil, que pendiam em dobras carmesim e douradas desde o alto do arco do proscênio até o piso de madeira do palco.

Será que não é um atraso? E se houver acontecido alguma coisa ruim com ele?

Abanou a cabeça ante essa ideia nova e indesejada.

Tirou o leque da bolsa e o abriu com um estalo. Por mais que quisesse inventar desculpas para o irmão, o mais provável era que fosse uma questão de impontualidade.

Como tem acontecido muitas vezes, ultimamente.

De fato, desde o infausto acontecimento no Cemitério de Montmartre, Anatole vinha-se mostrando ainda menos confiável. Léonie franziu a testa ao se dar conta, mais uma vez, de como essa lembrança tornava a lhe invadir a mente. Era obsedante a recordação daquele dia, que ela revivia ininterruptamente.

Em março, tivera a esperança de que tudo aquilo houvesse acabado, mas o comportamento do irmão havia continuado imprevisível. Muitas vezes, ele desaparecia por dias a fio, voltava à noite em horários estranhos, evitava muitos dos amigos e conhecidos e se atirava no trabalho.

Mas hoje ele me prometeu que não se atrasaria.

O chef d’orchestre subiu no tablado e dispersou essas reflexões. Uma salva de palmas encheu o auditório expectante como uma saraivada de tiros, violenta, súbita e intensa. Léonie bateu palmas com vigor e entusiasmo, mais ainda por conta da ansiedade. O quarteto de senhores a seu lado não se mexeu. Suas mãos continuaram imóveis, pousadas nas bengalas baratas e feias. Léonie olhou-os de relance, julgando-os indelicados e broncos e perguntando a si mesma por que se davam o trabalho de comparecer, se estavam decididos a não apreciar a música. E desejou, embora fosse irritante reconhecer tal nervosismo, não estar sentada tão perto deles.

O maestro fez uma profunda mesura e se voltou para o palco.

Os aplausos cessaram e o Grande Salle silenciou. O regente bateu com a batuta na estante. No auditório, os jatos azulados das lâmpadas a gás estalaram e oscilaram, depois diminuíram. O clima ficou carregado de promessas. Todos os olhares fixaram-se no maestro. Os músicos da orquestra empertigaram o tronco e levantaram seus arcos, ou aproximaram os instrumentos aos lábios.

O maestro ergueu a batuta. Léonie prendeu a respiração quando os acordes iniciais do Lohengrin de monsieur Wagner encheram os vastos espaços do Palais Garnier.

A poltrona a seu lado continuou vazia.

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