Trecho do Livro: Maratona | Alan Lloyd

Autor: Alan Lloyd
Editora: Ediouro
ISBN: 8500014873
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Um dia, quando aquele gigante tristonho, magnífico, buliçoso e incorrigível chamado civilização ocidental ainda estava em plena infância — um bebê no ensolarado berço da península Balcânica —, um grande imperador do Oriente enviou seus guerreiros para reivindicá-lo e batizá-lo no estilo de seu regime: o despotismo.
Foi então que os homens da civilização-criança, mais especificamente os homens de Atenas, sua jóia mais cintilante, tomaram da espada e das armaduras e, despedindo-se de suas mulheres, marcharam para enfrentar os invasores onde o azul do mar Egeu tocava o solo da antiga Grécia. Angustiadas, muitas mulheres colheram flores e as levaram para o umbral de suas casas, onde se mantinha vigilante o guardião Hermes, de cabeça cinzelada, cujo pên_s de pedra, ereto, vaticinava sorte e fertilidade. Ali, adornando a imagem sagrada com guirlandas de anêmonas e outras flores, as mulheres de Atenas fizeram preces pelo regresso seguro dos maridos, filhos e amantes.
Porque Atenas era pequena e por serem numerosos os guerreiros do déspota, a primeira coisa de que os homens precisavam, depois da bênção de seus deuses, era de reforços. Isto criou um problema: como viviam em exíguas cidades-estado, isolados de seus vizinhos por mares e montanhas, os gregos eram obrigados a cobrir longas distâncias em busca da ajuda mútua.
Conseqüentemente, quando os cidadãos de Atenas souberam que o exército do imperador estava a caminho, despacharam para o oeste um corredor de longa distância, com destino ao istmo de Corinto, e dali para o sul através das escarpadas montanhas do Peloponeso, para solicitar ajuda aos cidadãos de Esparta, a cerca de 240 quilômetros de distância. O nome do corredor era Filípedes ou, conforme sustentam alguns, Fidípedes; nestas páginas adotaremos o primeiro nome.
Passados dois mil e quinhentos anos seria absurdo pretender um conhecimento íntimo de Filípedes e seus contemporâneos. Sem dúvida, o que para o leitor moderno confere novidade aos gregos do passado é seu caráter remoto. Dentre todos os povos, são eles o povo que por seu amor à verdade sem adornos mais desprezaria qualquer simulação de intimidade, tão fartamente vertida sobre tantos outros famosos da história. O que pode ser dito sobre Filípedes, não só com apoio na evidência legada pela história que vai se desenrolar, mas pelo conhecido fato de que os gregos produziram bons atletas com a mesma presteza com que produziram mentes notáveis, é que ele deve ter sido um homem de vigor excepcional. Os atenienses poderiam ter enviado a Esparta um mensageiro a cavalo. O fato de terem escolhido, em vez disso, um corredor, diz alguma coisa sobre os rigores do terreno, e mais ainda sobre a fé que depositavam no desempenho humano.
A arte helênica, arte dos gregos antigos ou helenos, mostra-se abundante nos temas de proeza atlética. Para imaginar Filípedes, vale a pena contemplar uma vívida ilustração sobrevivente de uma corrida da abertura dos Jogos Pan-Atenienses, festival desportivo realizado na cidade a cada quatro anos. É um retrato dinâmico de homens a correr. Delgados, estreitos de cintura e esplendidamente musculados, alguns usando barbas bem aparadas, os competidores são atletas de físico soberbo. Filípedes, como um expoente do dolikós, ou corrida de longa distância, poderia perfeitamente ter adquirido renome nesses jogos ou nos Jogos Olímpicos, realizados nas margens do Alfeu, no Peloponeso ocidental.
Agora, enquanto a crise acometia Atenas, o corredor deslocava-se rumo ao oeste na marcha constante e relaxada do especialista em distância, dosando o ritmo para os exaustivos quilômetros que lhe restavam até Esparta.
As notícias levadas por Filípedes eram ameaçadoras para a maioria dos gregos. Determinada a subjugar Atenas, a frota de Dario, imperador da Pérsia, fundeara no litoral leste. Ninguém subestimava o imperador — senhor do Oriente, como proclamava seu povo, o rei dos reis, cujo domínio se exercia “sobre os confins desta terra e seus súditos de muitas línguas”.
O império persa era a potência avassaladora daquele mundo antigo. Seus integrantes alcançavam desde o Bósforo até o Punjab, do Egito à Geórgia no Cáucaso, englobando e ultrapassando a maior parte do território que os mapas atuais denominam Oriente Médio. Através dessas vastas extensões, Dario podia convocar ferozes montanheses do Afeganistão e da Hircânia, a “Terra do Lobo” da antiga Pérsia; cavaleiros selvagens das estepes de Kurassan, ao norte do Kush indiano; arqueiros negros da Etiópia; espadachins imperiais de suas casernas em Pasárgada e Persépolis; guerreiros de variadas descrições vindos das terras dos grandes rios do império, o Indo, o Oxus, o Nilo, o Eufrates e o Tigre. Ao lado do colosso persa, os estados gregos eram liliputianos.
A bem da verdade, Dario não era um monstro. Em matéria de déspotas, não era dos piores. Homem de certa honorabilidade e escrúpulos, um construtor, mais que um destruidor, ele só massacrava os que insistissem em contrariá-lo. Afinal de contas, um dos fatos incômodos da vida de um déspota bem-intencionado é que ele perderá seu poderio se permitir que o contrariem.
Para as populações submetidas a seu domínio expansionista, a vida provavelmente era melhor, no conjunto, que fora de sua área de domínio, onde a maioria dos povos ainda vivia em primitiva insegurança. Contudo, a vida sob Dario significava a obediência aos caprichos do imperador ou daqueles a quem ele concedia autoridade em seu nome. Não havia discussão. Não havia políticas, no sentido em que ela é hoje compreendida, da mesma forma como não havia políticas sob Ramsés ou Nabucodonosor. Não havia questões públicas no império, só as questões privadas do soberano e sua privilegiada classe dominante. Não havia consultas à população, nem sequer a uma parcela substancial da mesma. O governo restringia-se a uma questão dos desejos e poderes do soberano.
A situação, em si, ofendia a poucos sob o governo de Dario, pois o conceito de liberdades pessoais somente veio a se disseminar em épocas posteriores, e a população do império não poderia sentir falta daquilo que não conhecia. Contudo, a situação afrontava os gregos, mesmo que não a todos, pois nenhuma sociedade é uniforme em suas opiniões e interesses; porém, na altura do século V a.C. afrontava a uma quantidade suficiente para causar irritação na faixa ocidental do império. Os gregos estavam afrontados porque, embora geograficamente dispersos e divididos, eles compartilhavam alguns atributos notadamente persistentes, e não menos importantes, uma voraz predileção pela pesquisa, o debate e a descoberta. Gostavam de investigar os fatos da vida. Gostavam de se aventurar, não só exteriormente, no sentido que levou seus mercadores para os confins mais extremos do Mediterrâneo, mas também interiormente, no sentido de serem psicólogos, exploradores de suas próprias mentes. E uma de suas descobertas, para muitos a mais atraente, por combinar filosofia com vantagens práticas — e os gregos eram, acima de tudo, realistas —, coincidia de ser a política.
Na altura em que Dario se estabeleceu como governante absoluto do império, os gregos haviam reconhecido, e começado a se preparar, para o fato de que o interesse público ou comum tinha um papel a desempenhar no governo. Isso poderia ter causado pequeno impacto em suas vidas, e que dirá no mundo como um todo, se eles tivessem sido descuidados na aplicação de suas teorias e fossem dotados de grandes idéias mas de pouco talento para as artes pelas quais deveriam ser postas em prática. Mas este não era o caso dos gregos, que, ao contrário, faziam excepcionalmente bem a maioria das coisas. Eles tinham a expectativa de padrões altos. Ao comprarem panelas para suas cozinhas, esperavam comprar boas panelas. Sem dúvida, muitas vezes se decepcionavam. Mas quando um povo está sempre esperando o máximo, os padrões médios são em geral muito bons.
Admitamos que um povo assim pode ser cansativo para aqueles que desejam, com igual direito, contentar-se com algo apenas satisfatório. No final, é questão de gosto individual decidir se consideramos as aspirações e inovações da sociedade ocidental ocasionadoras de uma vida mais rica do que, digamos, os ritmos menos exigentes de alguma tribo ainda primitiva das selvas. Não se pode negar que o desejo de excelência seja um pré-requisito do chamado progresso, e os detentores de semelhante ímpeto conseguem nos atrair a atenção e o entusiasmo mais prontamente que os detentores de padrões frouxos.
As criações da Grécia antiga se mostraram incrivelmente duráveis. Dezenas de séculos depois de extinta a sociedade helênica, os estudantes ainda fazem uso regular de um livro-texto escrito por um geômetra grego, um discurso científico de um gramático grego e um tratado ético de um médico grego — tudo isso no mais instável dos campos de estudo, o científico. Em outros setores da atividade intelectual, os frutos do empenho grego parecem virtualmente imperecíveis. Por alguma razão que desafia explicações, os povos dessas pequenas comunidades dos Bálcãs e do Egeu, com antecedentes tão parecidos aos dos “bárbaros” que eles adoravam desprezar, foram estimulados a tamanha intensidade por certos conceitos — verdade, beleza, liberdade, excelência — que obtiveram uma concentração de conquistas sem par na história.
E pensar que num único século, uma cidade grega, nem um pouco maior que um município rural dos tempos modernos, foi a morada de tantos gênios quantos poucas nações podem se orgulhar de ter, em toda a sua existência. Ésquilo, o fundador do drama; o filósofo Anaxágoras; Aristófanes, o grande dramaturgo cômico; o teatrólogo Eurípides; Heródoto, “o pai da história”; Hipócrates, “o pai da medicina”; o orador Isócrates; Fídias, um dos mais destacados escultores do mundo; Píndaro, o poeta lírico; Platão, preeminente filósofo ocidental; Protágoras, filósofo e gramático; o sublime poeta trágico Sófocles; e o historiador Tucídides. Todos eles, e mais alguns, foram figuras conhecidas das ruas atenienses do século V a.C., o século de Maratona.
O pensamento grego, assimilado e divulgado pelos romanos, negligenciado na Idade Média e novamente aclamado na Renascença, deveria levar a sociedade ocidental à vanguarda das questões mundiais, retornando depois para libertar o próprio Oriente do despotismo e da estagnação. Mas tudo isso ainda estava muito adiante. No início do século V a.C. os gregos estavam só cutucando o flanco de seu grande vizinho oriental.
Aconteceu de Atenas, não menos oportunista que muitos candidatos brilhantes, ter enviado ajuda para a colônia rebelde da Jônia, uma antiga província das costas do mar Egeu na Ásia Menor — situada entre o golfo de Esmirna e o golfo de Kerme — que estava lutando para se tornar independente do império persa. Foi essa brusca impertinência, como a viu Dario, que lhe atraiu a atenção para Atenas e desencadeou sua vingança.
A armada persa aportou no continente junto à aldeia de Maratona, a 35 quilômetros de distância da cidade. O exército imperial tinha duas rotas possíveis para seu objetivo: poderia cruzar os morros que se estendiam ao sul, desde o monte Parnaso ao monte Himeto, e esquadrinhando a cidade a partir de Maratona, ou poderia contornar o Himeto rumo ao sul, ao lado do golfo Sarônico.
Com as colinas atrás de si, a cidade vizinha — mágica para os persas, que nada tinham que se lhe comparasse — estaria aos pés dos invasores, vulnerável como um ninho de passarinho na planície gentilmente ondulada da Ática.
Vindo do oeste, Filípedes podia olhar para trás no caminho que percorrera e avistar a mesma cena. Ali, singelamente assinalada pela coroa de Licabeto, estavam os templos e estátuas, o mercado e o local da assembléia, a colina das Ninfas como uma colméia, as fontes, os terraços, as academias, as quadras de arte e entretenimento, a indelével Acrópole. Ela era o ninho de onde o espírito grego tinha alçado vôo nas asas da liberdade.
Mas todo o espírito do mundo, por si só, não poderia deter o exército persa, uma legião de assombroso tamanho e reputação, que marchara invicto pelo território asiático. Seriam necessários homens denodados e bem armados para salvar Atenas do déspota, mas nove mil homens foram o total da força que ela conseguiu arregimentar dentre seus cidadãos livres capacitados.
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