Humor

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A Webcam Quebrou

Webcam 1
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Putz… a webcam quebrou.

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Vou ter que enviá-la para o conserto.

Webcam 2

Fonte: Mr. Baby Man

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Trecho do Livro: Slam | Nick Hornby
Livro Slam
Autor: Nick Hornby
Editora: Rocco
ISBN: 9788532523280

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As coisas estavam indo bastante bem. Na verdade, eu diria que uma onda de paradas maneiras vinha rolando há uns seis meses.

Por exemplo: mamãe se livrou do Steve, o namorado escr_to dela.

Por exemplo: a minha professora de desenho me puxou de lado depois da aula e perguntou se eu já tinha pensado em fazer faculdade de arte.

Por exemplo: faz pouco tempo, aprendi duas novas manobras de skate, depois de passar meses fazendo papel de idiota em público. Acho que nem todos vocês são skatistas, por isso vou explicar logo uma coisa para evitar qualquer conclusão ridícula: skate = skatismo. Mas a gente praticamente não usa essa palavra, por isso essa será a única vez em que irei usá-la em toda essa história, até porque, skatismo sempre me lembra um monte de gente certinha sentada ao redor de uma fogueira, no meio do mato, o que é uma das coisas mais caídas da face da terra.

Além disso, eu tinha conhecido a Alicia.

Eu ia dizer que talvez fosse bom vocês saberem algo a meu respeito antes que eu começasse a falar sobre minha mãe, Alicia, e tudo mais. Se vocês soubessem algo a meu respeito, talvez até ligassem para algumas dessas paradas. Se leram o que eu acabei de escrever, porém, vocês já descobriram bastante coisa, ou pelo menos podem ter sacado uma parte. Para começar, podem ter sacado que minha mãe e meu pai não moram juntos. A menos que pensem que meu pai seja do tipo que não liga se a mulher arruma namorados. Mas ele não é. Vocês também podem ter sacado que eu ando de skate. Que a minha melhor matéria na escola é arte e desenho. A menos que pensem que eu sou do tipo que vive sendo puxado de lado e incentivado a ir para a faculdade pelos professores de todas as matérias. Sabem como é?

– Não, Sam! Esqueça arte! Faça física!

– Esqueça a física! Seria uma tragédia para a raça humana se você largasse o francês!

E então todos começam a se esmurrar.

Só que esse tipo de coisa não acontece comigo na vida real. Posso jurar a vocês que nunca provoquei uma briga entre dois professores.

E não é preciso ser Sherlock Holmes ou seja lá o que for para descobrir que Alicia era uma garota importante para mim. Mas fico feliz por existirem coisas que vocês não sabem e não podem sacar. São coisas esquisitas. Que eu saiba, são coisas que em toda a história do mundo só aconteceram comigo. Se vocês conseguissem sacar tudo a partir daquele pequeno primeiro parágrafo, eu começaria a me preocupar. Talvez eu não fosse uma pessoa incrivelmente complicada e interessante, ha, ha…

Essa época em que as coisas estavam indo bem foi há dois anos. Eu tinha quinze, quase dezesseis anos. E não quero me lamentar, nem que vocês tenham pena de mim, mas essa sensação de que minha vida era legal foi uma novidade para mim. Eu nunca havia sentido isso, e na verdade jamais senti depois. Não estou dizendo que eu era infeliz. É que antes sempre havia algo errado, em algum lugar… alguma preocupação. (E como vocês verão, houve bastante motivo para preocupação depois, mas ainda vamos chegar lá.) Por exemplo: meus pais estavam se divorciando, e viviam brigando. Ou então já haviam se divorciado, mas mesmo assim ainda brigavam, porque eles continuaram a brigar muito tempo depois de se divorciar. Ou eu não ia bem em matemática… detesto matemática. Ou queria sair com alguém que não queria sair comigo…

Tudo isso meio que tinha clareado de repente, sem que na verdade eu notasse… como acontece com o tempo às vezes. E naquele verão parecia que a gente tinha mais dinheiro. Minha mãe estava trabalhando, e meu pai não vivia tão irritado com ela, o que significa que ele estava nos dando o que deveria dar o tempo todo. Portanto, sabem como é… isso ajudava.

Para contar esta história direito, sem tentar esconder coisa alguma, há algo que preciso confessar, porque é importante. É o seguinte: sei que parece idiotice, e geralmente não faço esse estilo. É sério. Quer dizer, eu não acredito em… sabem como é… fantasmas, reencarnação ou outras paradas esquisitas como essas. Mas isso foi simplesmente uma coisa que começou a acontecer, e… Tanto faz. Vou contar logo, e podem pensar o que quiserem.
Eu converso com Tony Hawk, e Tony Hawk me responde.

É bem provável que alguns de vocês, as mesmas pessoas que eram capazes de pensar que eu perdia meu tempo sentado ao redor de uma fogueira no meio do mato, jamais ouviram falar de Tony Hawk. Vou contar quem ele é, mas sou obrigado a dizer que vocês já deveriam saber. Não conhecer Tony Hawk é como não conhecer Robbie Williams, ou talvez até Tony Blair. Se a gente pensar bem, é pior do que isso. Porque existem montes de políticos, montes de cantores e centenas de programas de televisão. Provavelmente George Bush é até mais famoso do que Tony Blair. E Britney Spears ou Kylie são tão famosas quanto Robbie Williams. Mas só existe um skatista, na verdade, e ele se chama Tony Hawk. Está bem, não existe só um. Mas ele é sem dúvida O Cara. Ele é o J. K. Rowling dos skatistas, o Big Mac, o iPod, o X-box. Só quem não liga a mínima para skate pode ter uma desculpa aceitável para não conhecer TH.

Quando eu comecei no skate, minha mãe comprou um pôster do Tony Hawk pela Internet. Foi o presente mais legal que ganhei na vida, e nem foi o mais caro. Pendurei logo o pôster na parede do meu quarto, e simplesmente criei o hábito de contar coisas para o Tony. No começo, eu só falava com ele sobre skate. Contava os problemas que tinha, ou as manobras que inventava. Quando consegui dar meu primeiro rock’n’roll fui quase correndo até o quarto contar, porque sabia que aquilo significaria muito mais para um retrato de Tony Hawk do que para uma mãe da vida real. Não estou sacaneando a minha mãe, mas ela é totalmente sem noção. Quando eu falava de coisas assim, ela tentava parecer entusiasmada, mas seu olhar ficava completamente perdido.

– Ah, que maravilha – repetia ela. Mas se eu perguntasse o que era um rock’n’roll, ela não conseguiria me dizer. Portanto, o que adiantava?

Já Tony sabia. Talvez minha mãe houvesse comprado o pôster por isso. Para que eu tivesse outra pessoa com quem conversar.

As respostas começaram a vir logo depois que eu li o livro dele, Hawk – Profissão: skatista. Eu meio que já sabia como Tony falava, e também algumas coisas que ele dizia. Para ser sincero, meio que já sabia todas as coisas que ele dizia quando conversava comigo, porque tudo saía do livro dele. Eu já tinha lido aquilo quarenta ou cinqüenta vezes quando começamos a conversar, e depois disso li mais algumas. Na minha opinião é o melhor livro já escrito, e não só para quem é skatista. Todo mundo deveria ler, porque mesmo quem não gosta de skate consegue aprender alguma coisa. Tony Hawk já esteve por cima, por baixo, e no meio das coisas, tal como qualquer político, músico ou astro de novela. Em todo caso, como eu tinha lido aquilo quarenta ou cinqüenta vezes, já havia decorado quase tudo. Por exemplo: quando eu falei dos rock’n’rolls, ele disse: “Não é uma manobra muito difícil. Mas dá uma boa base para você aprender a se equilibrar e controlar seu shape na rampa. Mandou bem, cara!”

A frase “Mandou bem, cara!” foi a verdadeira conversa, se é que vocês me entendem. Era a parte nova, que eu inventei. Mas as outras eram palavras que ele usou antes, mais ou menos. Tá legal, não era mais ou menos. Eram exatamente as mesmas. De certa forma, eu até gostaria de não conhecer o livro tão bem, porque então poderia ter eliminado a frase “Não é uma manobra muito difícil”. Não precisava ouvir isso depois de passar seis meses tentando acertar a parada. Preferiria que ele só dissesse: “Ei! Essa manobra dá uma boa base para você aprender a se equilibrar e controlar seu shape na rampa!
Mas seria desonesto eliminar “Não é uma manobra muito difícil”. Quem pensa em Tony Hawk falando sobre rock’n’rolls ouve a voz dele dizendo: “Não é uma manobra muito difícil.”
Eu pelo menos ouço. É só isso. Ninguém pode reescrever a história ou eliminar certos trechos porque é mais conveniente.

Depois de algum tempo, eu comecei a conversar com Tony Hawk sobre outras coisas… a escola, mamãe, Alicia, o que fosse. Descobri que ele também tinha algo a dizer sobre tudo isso. As palavras ainda vinham do livro, mas o livro é sobre a vida dele, e não só sobre o skate. Portanto, ele não fala só sobre sacktaps e shoveits.

Por exemplo: quando eu contava que tinha perdido a paciência com a mamãe sem motivo, ele dizia que eu era ridículo. Não entendo como meus pais não me amarraram com fita gomada, enfiaram uma meia na minha boca e me jogaram num canto qualquer.

E quando eu falava de alguma briga grande na escola, ele respondia: “Eu não me metia em encrenca, porque era feliz com a Cindy.”

Cindy era a namorada dele na época. Para dizer a verdade, nem tudo que Tony Hawk dizia era útil, mas isso não era culpa dele. Se o livro não contivesse algo perfeitamente adequado, eu precisava encaixar algumas frases da melhor maneira possível. E o mais espantoso era que as idéias sempre faziam sentido depois de encaixadas, se você pensasse bem a respeito do que ele havia dito.

Por falar nisso, de agora em diante Tony Hawk será TH, como ele é chamado por mim. A maioria das pessoas chama Tony de Homem-Pássaro, por causa do sobrenome Hawk, que quer dizer falcão, e tudo mais, mas isso me parece meio americano demais. Além disso os meus conhecidos parecem ovelhinhas, e acham que Thierry Henry é o único esportista com as iniciais TH. Mas ele não é, e eu gosto de sacan_ar o pessoal. Sinto que as letras TH pertencem a um código pessoal secreto.

Só estou mencionando as conversas com TH aqui, porém, porque me lembro de ter contado a ele que as coisas estavam indo bem. Fazia sol, e eu havia passado a maior parte do dia em Grind City, que, como vocês talvez saibam, é uma pista de skate que fica a uma curta distância de ônibus da minha casa. Quer dizer, provavelmente vocês não sabem que o lugar fica a uma curta distância de ônibus da minha casa, porque não sabem onde eu moro, mas se forem descolados ou conhecerem alguém descolado talvez já tenham ouvido falar dessa pista de skate. Em todo caso, Alicia e eu fomos ao cinema naquela noite. Talvez fosse a terceira ou quarta vez que saíamos, e eu estava muito a fim dela. Quando cheguei em casa, minha mãe estava vendo um DVD com Paula, uma amiga dela. Mamãe me pareceu feliz, mas talvez isso fosse só imaginação minha. Talvez eu estivesse feliz, porque ela estava vendo um DVD com Paula e não com Steve, o namorado.

– Como foi o filme? – perguntou mamãe.

– É, foi bom.

– Vocês viram alguma parte? – A Paula riu.

Eu simplesmente fui para o meu quarto, porque não queria esse tipo de conversa com ela. Sentei na cama, olhei para TH, e disse:

– As coisas até que não andam mal.

– A vida é boa – ele concordou. – Nós nos mudamos para uma casa nova e maior numa lagoa, perto da praia. O mais importante é que a casa tinha um portão.

Como eu disse, nem tudo que TH fala é certeiro, mas não é culpa dele. É que o livro não é suficientemente longo. Eu gostaria que houvesse um milhão de páginas ali, porque a) provavelmente eu ainda não teria terminado de ler, e b) ele teria algo a me dizer sobre tudo.

Eu falei do meu dia em Grind City e das manobras que vinha treinando. Depois entrei em lances que normalmente esqueço nas minhas conversas com TH. Falei um pouco de Alicia. Contei como andava a vida da mamãe, e disse que Paula estava sentada onde Steve costumava ficar. TH não tinha muito a dizer sobre isso, mas por algum motivo achei que ele parecia interessado.

Isso parece loucura? Provavelmente parece, mas eu não ligo. É sério. Quem não conversa com alguém dentro da cabeça? Quem não conversa com Deus, com um bicho de estimação, com um ente querido que morreu, ou talvez apenas consigo mesmo? TH… ele não era eu. Mas era quem eu queria ser, o que faz dele a melhor versão de mim mesmo. Não pode ser uma coisa ruim ter a melhor versão de você mesmo parada ali na parede do quarto, te olhando. Faz você sentir que não pode falhar consigo mesmo.

Em todo caso, só estou dizendo que houve uma época… talvez tenha sido um dia, talvez alguns dias, eu já não me lembro… em que tudo parecia estar dando certo. E, obviamente, era hora de ir fazer uma c_gada geral.

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Os Espiões – Luis Fernando Verissimo
Luis Fernando Verissimo
Autor: Luis Fernando Verissimo
Editora: Alfaguara (Objetiva)
ISBN: 9788560281992

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Formei-me em Letras e na bebida busco esquecer. Mas só bebo nos fins de semana. De segunda a sexta trabalho numa editora, onde uma das minhas funções é examinar os originais que chegam pelo correio, entram pelas janelas, caem do teto, brotam do chão ou são atirados na minha mesa pelo Marcito, dono da editora, com a frase: “Vê se isso presta.” A enxurrada de autores querendo ser publicados começou depois que um livrinho nosso chamado Astrologia e amor — um guia sideral para namorados fez tanto sucesso que permitiu ao Marcito comprar duas motos novas para sua coleção. De repente nos descobriram, e os originais não param mais de chegar. Eu os examino e decido seu futuro. Nas segundas-feiras estou sempre de ressaca e os originais que chegam vão direto das minhas mãos trêmulas para o lixo. E nas segundas-feiras minhas cartas de rejeição são ferozes. Recomendo ao autor que não apenas nunca mais nos mande originais como nunca mais escreva uma linha, uma palavra, um recibo. Se Guerra e paz caísse na minha mesa numa segunda-feira eu mandaria seu autor plantar cebolas. Cervantes? Desista, hombre. Flaubert? Proust? Não me façam rir. Graham Greene? Tente farmácia. Nem Le Carré escaparia. Certa vez recomendei a uma mulher chamada Corina que se ocupasse de afazeres domésticos e poupasse o mundo da sua óbvia demência, a de pensar que era poeta. Um dia ela entrou na minha sala brandindo o livro rejeitado que publicara por outra editora e o atirou na minha cabeça. Quando me perguntam a origem da pequena cicatriz que tenho sobre o olho esquerdo, respondo: “Poesia.”

Corina já publicou vários livros de poemas e pensamentos com grande sucesso. Sempre me manda o convite para seus lançamentos e sessões de autógrafos. Soube que sua última obra é uma compilação de toda a sua poesia e prosa, com quatrocentas páginas. Capa dura. Vivo aterrorizado com a ideia de que ainda levarei esse tijolaço na cabeça.

Outra ameaça vinha do Fulvio Edmar, autor do Astrologia e amor, que nunca recebeu os direitos autorais pela sua obra. Ele pagou pela primeira edição e achava que deveria receber os direitos integrais de todas as edições depois que o livro estourou. O Marcito não concordava. E eu é que tinha que responder às cobranças cada vez mais desaforadas de Fulvio Edmar. Há anos trocávamos insultos por cartas. Nunca nos encontráramos. Ele já descrevera com detalhes como faria para que meus testículos substituíssem minhas amídalas, quando isto acontecesse. Eu já o avisara que carregava sempre uma soqueira no bolso.

Mesmo as minhas cartas de rejeição mais violentas, minhas diatribes de segunda-feira, terminam com um P.S. amável. Instrução do Marcito. Se a pessoa estiver disposta a pagar pela edição do seu livro, a editora terá enorme prazer em rever sua avaliação etc. etc. Conheci o Marcito na escola. Os dois com quinze perebentos anos. Ele sabia que as minhas redações eram as melhores da turma e me convidou para escrever histórias de sacanagem, que reunia num caderno grampeado, intitulado O punhet_iro, e alugava para quem quisesse levá-lo para casa, com a condição de devolver no dia seguinte sem manchas. Depois da escola passamos anos sem nos ver, até que descobri que ele começara uma editora e fui procurá-lo. Eu tinha escrito um romance e queria publicá-lo. Não, não era de sacanagem. Demos boas risadas lembrando os tempos de O punh_teiro, mas o Marcito disse que, a não ser que eu pagasse pela edição, não tinha como publicar meu romance, uma história de espionagem sobre um fictício programa nuclear brasileiro abortado pelos americanos. A editora estava recém começando. Ele era sócio de um tio, fabricante de adubo, cujo único interesse na editora era a publicação de um almanaque mensal distribuído entre seus clientes no interior do estado. Mas Marcito me fazia uma proposta. Tinha planos para criar uma editora de verdade. Precisava de alguém que o ajudasse. Se eu fosse trabalhar com ele, eventualmente publicaria meu romance. Não podia prometer um grande salário, mas… Me lembrei que ele não dividia comigo o dinheiro do aluguel de O punhet_iro. Ia certamente me explorar de novo. Mas a ideia de trabalhar numa editora me seduzia. Afinal, eu me formara em Letras e na época era funcionário de uma loja de vídeos. Estava com trinta anos. Tinha recém me casado com a Julinha. O João (a Julinha não aceitou que ele se chamasse Le Carré) estava para nascer. Topei. Isso foi há doze anos. Minha primeira tarefa na editora foi copiar um texto sobre camaleões de uma enciclopédia, para incluir no almanaque. Escolha profética: o camaleão é um bicho que se adapta a qualquer circunstância e desaparece contra o fundo. Desde então é isso que eu faço. Leio originais. Escrevo cartas. Redijo quase todo o almanaque para ajudar a vender adubo. Me lamento e bebo. E, lentamente, desapareço contra o fundo. Meu romance continua inédito.

A editora cresceu. Descobri que o Marcito não era só um filho de pai rico cretino como eu sempre imaginara. Tinha um gosto, que eu jamais suspeitaria num colecionador de motos, pelo Simenon. Depois do sucesso de Astrologia e amor, começamos a publicar mais livros, na maioria pagos pelo autor. Alguns até vendem, se tivermos sorte ou a família do autor for grande. Vez que outra eu recomendo a publicação de um original que chega à minha mesa. Principalmente se o examino numa sexta-feira, quando estou cheio de boa vontade com a humanidade e suas pretensões literárias, pois sei que o dia acabará na mesa do bar do Espanhol, onde começa o meu porre semanal. Meus três dias de consciência embotada pela cachaça e a cerveja em que me livro de mim mesmo e de mi p_ta vida. Meu companheiro mais frequente na mesa do Espanhol é o Joel Dubin, que vai na editora duas vezes por semana, quartas e sextas, para fazer a revisão do almanaque ou de provas de eventuais livros em preparação e cujos olhos azuis, dizem, alvoroçam as meninas no cursinho pré-vestibular onde dá aulas de português, apesar da sua baixa estatura. Ele jura que nunca comeu nenhuma aluna, embora prometa loucas noites de amor às que passarem no vestibular. Sei pouco sobre a vida s_xual real do Dubin, fora a certeza de que é melhor do que a minha. As cadeiras do bar do Espanhol têm uma vida s_xual melhor do que a minha. Dubin costuma se enternecer por namoradas impossíveis. Certa vez estava quase brigando com uma quando ela perguntou a um garçom se não tinham frisante sem bolinha. Decidiu que não poderia deixá-la solta no mundo, e quase se casaram. Faz poemas, maus poemas. Se apresenta como “Joel Dubin, poeta menor”. Tem um poema que repete sempre para namoradas em potencial, algo sobre ser uma hipotenusa em riste atrás de um triângulo que a acomode, e que chama de “cantada geométrica”. As que entendem o poema ou sorriem só para agradá-lo ele descarta porque não quer nada com intelectuais. Prefere as que gritam “O quê?!”.

Dubin e eu temos longas discussões, na editora e na mesa do bar, sobre literatura e gramática, e discordamos radicalmente quanto à colocação de vírgulas. Dubin é um oficialista, diz que há leis para o uso da vírgula que devem ser respeitadas. Eu sou relativista: acho que vírgulas são como confeitos num bolo, a serem espalhadas com parcimônia nos lugares onde fiquem bem e não atrapalhem a degustação. Não é raro eu re-revisar uma revisão do Dubin e cortar as vírgulas que ele acrescentou ou acrescentar esparsas vírgulas minhas, em desafio às regras, onde acho que cabem. No bar, nossas conversas começam com a vírgula e depois se expandem, abrangendo a condição humana e o Universo. Ficam mais vitriólicas e estridentes à medida que nos embebedamos, até o Espanhol vir pedir para baixarmos a bola. Difamamos todos os escritores da cidade, com rancor crescente. Até hoje não sei se o Dubin me acompanha até o fundo nos meus mergulhos semanais na inconsciência. Não sei como chego em casa nas sextas-feiras. Talvez seja carregado por ele, que não bebeu tanto. Nunca perguntei. No fim das tardes de sábado nos encontramos outra vez na mesma mesa do bar do Espanhol e retomamos a mesma bebedeira e a mesma conversa insana. É uma maneira de dramatizar nossa própria mediocridade sem saída, uma forma de flagelação mútua pela banalidade. Dubin chama nossas discussões intermináveis de pavanas para mortos-vivos. Uma vez ficamos quase uma hora gritando um para o outro, a respeito de não me lembro que dúvida gramatical:

— Ênclise!

— Próclise!

— Ênclise!

— Próclise!

— Ênclise!

— Próclise!

Até o Espanhol fazer sinal, de trás do balcão, para baixarmos a bola.

Também não sei como chego em casa nas madrugadas de domingo. Passo os domingos dormindo. A Julinha e o João vão almoçar na casa da irmã dela. Ficamos só eu e o cachorro, o Black. A doce Julinha com quem me casei porque estava grávida desapareceu dentro de uma mulher gorda e amarga do mesmo nome e nunca mais foi vista. Aos domingos ela só deixa comida para o cachorro. Se eu quiser comer, preciso negociar com o Black. Ela não fala mais comigo. O João está com doze anos e também não fala mais comigo. Só quem fala comigo é o Black. Pelo menos seu olhar parece dizer “Eu entendo, eu entendo”. No fim das tardes de domingo vou de novo encontrar o Dubin no bar do Espanhol. Que não é espanhol. Chama-se Miguel e começou a ser chamado de “Dom Miguel” pelo professor Fortuna, e depois “Espanhol”. O professor Fortuna também não é professor. Frequenta o bar mas não se senta conosco. Diz que não gosta de se misturar, referindo-se não a nós mas à humanidade em geral. Explica que chama o Espanhol de Espanhol porque ele lhe lembra Miguel de Unamuno, que conheceu pessoalmente. Pelo que sabemos, Unamuno nunca esteve em Porto Alegre e o professor nunca saiu daqui. Às vezes desconfiamos que ele nunca saiu do bar do Espanhol. E, mesmo, as idades não combinariam, embora o professor seja bem mais velho do que eu e o Dubin. “Um blefe”, é o que ele diz de Unamuno. Suspeitamos que o professor não leu nenhum dos autores sobre os quais tem opiniões definitivas. Costuma dizer:

— O homem é Nietzsche. O resto é lixo.

— E Heidegger, professor?

Ele esfrega a cara com as duas mãos, invariável prelúdio para uma das suas sentenças categóricas.

— Enganador.

Marx?

— Já deu o que tinha que dar.

Camus?

— Vead0.

O professor Fortuna tem sempre a barba por fazer e veste um sobretudo cor de rato molhado, seja qual for a estação do ano. Não é um homem feio, mas é tão difícil acreditar nas peripécias s_xuais que conta (“Aprendi na Índia”) quanto acreditar que lê grego no original, como também afirma. Diz que qualquer dia me entregará para publicação o livro que está escrevendo há anos, uma resposta à Crítica da razão pura com o título provisório de Anti-Kant. Não sabemos quase nada da sua vida mas temos certeza de que o livro não existe e que ele nunca leu Kant. Ou Nietzsche. Dubin e eu frequentemente o envolvemos em nossas discussões, mesmo quando a sua mesa está longe da nossa e temos que gritar para que nos ouça.

— Qual é sua posição sobre a vírgula, professor?

E ele:

— Sou contra!

Tese do professor: vírgula qualquer um põe onde quiser. O verdadeiro teste para um escritor é o ponto e vírgula, que, segundo ele, até hoje ninguém soube como usar. Salvo, talvez, o Henry James, que ele obviamente também nunca leu. Um debate reincidente entre nós é se livros policiais e de espionagem podem ser boa literatura. Eu digo que sim, o Dubin não tem certeza e o professor não tem dúvida: é lixo. Ele reage às minhas evidências em contrário com sons de desprezo. Graham Greene? Bó! Rubem Fonseca? Blech! Raymond Chandler? Acht! Uma vez perguntei se ele tinha comprado um certo livro do John le Carré.

— Pra quê? Já tenho papel higiênico em casa.

Só não me levantei para bater nele porque não conseguiria. Era sábado e eu já estava a meio caminho do fundo.

Por que estou contando tudo isto? Tome como um pedido de misericórdia ou um pedido de castigo. Um atenuante para o que virá, ou um agravante. Minha defesa ou minha condenação. Era isso que eu era quando chegou o primeiro envelope branco. Era isso que nós éramos. Mortos-vivos barulhentos mas inocentes. Juro, inocentes. Ou tome como apenas uma descrição do cenário contra o qual eu desaparecia, como um camaleão, quando a história começou. Primeiro capítulo, primeira cena, dois pontos: um pântano sulfuroso, um lago de lamúrias, onde certo dia pousou um envelope branco como um pássaro perdido.

Agora está tudo terminado, o que estava nas estrelas para acontecer, aconteceu, e não somos mais inocentes. Ou pelo menos aqueles inocentes. Nada pode ser feito, nada pode ser desfeito, ficou só a história para contar e a culpa para metabolizar. Nos amaldiçoem, por favor. Sejam caridosos e nos amaldiçoem.

O primeiro envelope branco chegou na editora pelo correio numa terça-feira. Eu ainda estava com restos da ressaca de segunda, por pouco não o joguei na cesta de papéis sem sequer abri-lo. Mas a letra com que fora endereçado, por alguma razão, me deteve. Algo de suplicante naquelas letras maiúsculas feitas por uma mão trêmula, que poderia ser de uma criança, me fez abrir o envelope. Dentro havia um maço de quatro folhas entre capas transparentes, presas por uma espiral. Na primeira folha, apenas um título, “Ariadne”, feito com caneta esferográfica, com uma florzinha em cima do “i”. Até o fim, a única coisa que eu realmente nunca entendi nesta história foi a florzinha em vez do ponto do “i”. Se tivesse entendido a florzinha, a história não teria acontecido e todos estaríamos salvos. Entre a primeira e a segunda folha, um bilhete dobrado. Alguém que assinava “Uma amiga” dizendo que a autora daquelas folhas não sabia que elas tinham sido xerocadas e mandadas para a editora. Eram as primeiras páginas de um diário, ou de uma autobiografia, ou de um romance em forma de confissão. A “amiga” pedia que o texto fosse examinado “com carinho”. Se sua publicação nos interessasse, mandaria o resto do livro quando ficasse pronto. Um “sim” da editora ajudaria a convencer a autora a terminar o que começara naquelas poucas páginas. “Por favor, digam sim!”, terminava o bilhete.

Li as primeiras linhas do texto manuscrito.

“Meu pai conheceu um pintor na Europa que era obcecado por Ariadne. Devo o meu nome à obsessão de alguém que nunca vi. Às vezes penso que toda a minha vida foi regida pelas obsessões dos outros. Ao menos a obsessão que me matará será só minha pois nada é tão autoindulgente e solitário quanto o suicídio. Mas não agora, não agora.”

“Obsessão” estava escrito errado mas isso não me fez atirar as folhas na cesta como fazia com os originais da Corina, que escrevia “luzedia”. Continuei a ler. “Ariadne” tinha 25 anos. Não se suicidaria em seguida porque “preciso ir me fechando aos poucos como alguém que fecha a casa antes de viajar. Janela por janela, peça por peça. Primeiro o coração”. Só com o coração fechado ela poderia se vingar do que tinham feito com ela e com alguém que chamava de “o Amante Secreto”. Se vingar dos que tinham destruído tudo, “nosso passado, o salão da velha casa com as velas acesas no chão, o canto do jardim em ruínas em que ele disse que se a Lua sorrisse seria parecida comigo e eu gritei ‘Está me chamando de cara de Lua?!’ e ele me beijou na boca pela primeira vez”. Só sem o coração para detê-la se vingaria, como eles mereciam, do que tinham feito com seu pai também, “coitadinho tão distraído que até agora não deve saber que está morto”. Nas quatro folhas manuscritas não se ficava sabendo quem eram os “eles”, de quem Ariadne se vingaria antes de se suicidar. Ou como seriam, a vingança e o suicídio. As quatro folhas terminavam com a autora evocando “a casa do ipê-amarelo” onde, presumi, estavam o salão com as velas no chão e o jardim em ruínas em que ela e o Amante Secreto se encontravam.

Fiquei fascinado com o texto. Não pelo seu valor literário — aquela Lua sorridente era um pouco demais para meu estômago, que ainda se recuperava do fim de semana. Não sei explicar o encantamento, o que significa que não sei explicar esta história. Era mais um deslumbramento, no sentido original de uma luz desfazendo sombras. Uma súbita invasão do escuro em que eu vivia. Ariadne invadira o meu cérebro junto com a luz que emanava do seu texto. Num instante eu a imaginei inteira, e tão intensamente que o sentimento seguinte foi um absurdo ciúme instantâneo do “Amante Secreto”! Ou talvez o que me atraísse fosse a tragédia iminente no texto, minha identificação com uma cossuicida em formação. Ou então a quase completa ausência de vírgulas.

Olhei atrás do envelope. O endereço da remetente era uma caixa postal na cidade de Frondosa.

A secretária do Marcito se chama Bela. É uma italianona alta e loira com bochechas rosadas. Trabalhamos na mesma sala. Sempre que chega na editora o Dubin canta “Bela Bela Giovanela” e ela revira os olhos e suspira, exausta do efeito que tem sobre homens bobos. Aos convites do pequeno Dubin para irem tomar café colonial na serra (“Meu sonho é possuí-la entre sete tipos diferentes de geleia”, diz ele) ela sugere que ele a procure quando crescer. A bela Bela tem um namorado maior do que ela mas não sabemos o que acontece quando o Marcito a chama para a sua sala e fecha a porta. Seja o que for que fazem lá dentro, fazem em silêncio.

Estávamos só ela e eu na editora na tarde em que chegou o envelope branco e perguntei se ela sabia onde ficava Frondosa.

— Frondosa, Frondosa… Lá na minha zona não é.

A bela Bela vivera no interior de uma zona de colonização italiana até os quinze anos. Dubin diz que tem fantasias erót_cas com a bela Bela andando entre porcos com seus pés nus. Sonha com a batata das suas pernas enlameadas. Diz que seu fetiche é panturrilha de camponesas adolescentes. Pergunta à bela Bela se o padre da paróquia a botava no colo e acariciava a batata das suas pernas e quer saber detalhes. A bela Bela não acha graça.

— O Túlio deve saber onde fica isso — disse a bela Bela, apontando para o envelope branco.

Túlio é um representante da fábrica de adubos do tio do Marcito. Viaja por todo o interior do estado. É ele quem distribui o almanaque entre os clientes da fábrica. Certamente saberia tudo sobre Frondosa.

— Ele vem amanhã — lembrou a bela Bela, antes de voltar para a sua Contigo.

Ariadne. Florzinha em cima do “i”. Um nome fictício? O pai, fictício ou não, escolhera o nome. Como era mesmo o mito de Ariadne? Filha de Minos, rei de Creta. Apaixonada por Teseu, a quem dera um novelo de linha para ajudá-lo a sair do labirinto depois de matar o Minotauro. Ariadne ficara segurando a ponta da linha para o amante, na entrada do labirinto. Agora havia uma Ariadne, fictícia ou não, na ponta de uma linha num lugar chamado Frondosa. A outra ponta da linha estava ali na minha frente. Um fiapo de linha. Nada. Apenas o número de uma caixa postal num lugar desconhecido, atrás de um envelope branco. Apenas um começo.

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