Kristin Cast

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Trecho do Livro: Escolhida | PC Cast e Kristin Cast
Livro Escolhida
Autoras: PC Cast e Kristin Cast
Editora: Novo Século
ISBN: 9788576792857

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Obs: Escolhida é o terceiro volume da série Morada da Noite.

– Pois é, meu aniversário é sempre um “pé no saco” – eu disse à minha gata Nala. (Tá, na verdade eu sou mais a humana dela do que ela é minha gata. Sabe como são os gatos: eles não têm donos, têm empregados. Um fato que a maioria tenta ignorar.)

Enfim, continuei falando com a gata como se ela estivesse ligada em cada palavra que eu dizia. O que nem era o caso. – São dezessete anos de aniversários “pé no saco”, em todo 24 de dezembro. Já estou até acostumada. Nada demais. – Eu sabia que estava dizendo aquelas palavras só para convencer a mim mesma. Nala soltou um miau com aquela sua voz de gata velha resmungona e foi lamber suas partes íntimas, deixando claro que aquele assunto a entediava.

– Já sei o que vou fazer – continuei enquanto terminava de passar um pouquinho de delineador nos olhos. (E estou falando de um pouquinho, nada de ficar com cara de guaxinim, pois com certeza não fica bem para mim. Na verdade, para ninguém.) – Vou receber um monte de presentes bem-intencionados, que não são bem presentes de aniversário – são coisas com temas natalinos, porque as pessoas sempre tentam misturar meu aniversário com o Natal, e isso nunca dá certo.

– Mas vou sorrir e fingir que estou adorando meus presentes bobos de natalversário, já que as pessoas não conseguem entender que não se deve misturar Natal com aniversário. Ao menos não se elas quiserem agradar.

Nala espirrou.

– É exatamente assim que me sinto em relação a isso. Mas sejamos legais, porque quando eu digo alguma coisa, fica tudo pior. Eu acabo ganhando os benditos presentes, as pessoas ficam chateadas e dá tudo errado. – Nala não pareceu convencida, então concentrei minha atenção em minha reflexão. Por um segundo pensei que tivesse exagerado no delineador, mas olhei mais de perto e percebi que o que estava deixando meus olhos tão enormes e escuros não tinha nada a ver com algo tão comum quanto um delineador. Apesar de eu já ter sido Marcada há dois meses, a tatuagem de lua crescente cor de safira entre meus olhos e as elaboradas filigranas de passamanaria, tatuadas ao redor do meu rosto, ainda tinham a capacidade de me surpreender. Passei a ponta do dedo sobre uma das espirais azuis. Depois, quase sem pensar, baixei a gola (que já era grande) do meu suéter para expor o ombro esquerdo. Joguei meus longos cabelos para trás com um movimento rápido de cabeça e exibi os desenhos tatuados que começavam na base do pescoço e se espalhavam por todo o meu ombro, descendo pela coluna até chegar ao fim das costas. Como sempre, a visão das minhas tatuagens me causou um arrepio elétrico, que misturava deslumbre e medo.

– Você é diferente de todo mundo – murmurei para meu reflexo e limpei a garganta. Continuei a falar com uma voz excessivamente pomposa – e não há problema nenhum em ser assim. – A quem eu queria enganar, pensei. – Então tá – olhei para a parte de cima de minha cabeça e fiquei, em parte, surpresa por não estar visível. Tipo, eu com certeza sentia a nuvem negra gigantesca que vinha me acompanhando há um mês. – Caraca, fico até surpresa por não estar chovendo aqui dentro. Não seria uma maravilha para meu cabelo? – eu disse com sarcasmo para meu reflexo. Então suspirei e peguei o envelope que estava na minha mesa. Sobre o endereço do remetente lia-se FAMÍLIA HEFFER, impresso em dourado reluzente. – E por falar em coisas deprimentes… – murmurei.

Nala espirrou de novo.

– Você tem razão. Melhor acabar logo com isto – abri o envelope com relutância e retirei o cartão. – Ah, que inferno. É pior do que eu esperava – havia uma enorme cruz de madeira na parte da frente do cartão, e um papel enrolado à moda antiga no meio da cruz (com um prego sangrento preso a ela). Estava escrito FELIZ NATAL em letras vermelhas (representando o sangue, naturalmente). Logo abaixo vinha escrito com a letra da minha mãe: Espero que você esteja se lembrando de sua família neste momento abençoado do ano. Feliz aniversário, com amor, da mamãe e do papai.

– É a cara dela – eu disse a Nala e senti uma pontada no estômago.

– E ele não é meu pai – rasguei o cartão, joguei no cesto de lixo e fiquei olhando para os pedaços rasgados. – Quando meus pais não me ignoram, eles me insultam. Prefiro ser ignorada.

Dei um pulo ao ouvir a batida na porta.

– Zoey, está todo mundo querendo saber onde você está – foi fácil reconhecer a voz de Damien do outro lado da porta.

– Espere aí, estou quase pronta – gritei, procurando pensar em outra coisa, e então dei uma última olhada para meu reflexo no espelho. Concluí, sentindo um traço totalmente defensivo, que poderia deixar meu ombro exposto. – Minhas Marcas são diferentes de todas as outras. Bem que eu posso dar motivo para as pessoas ficarem me olhando, com cara de bobas, enquanto falam – murmurei.

Então soltei um suspiro. Não costumo ser tão irritadiça. Mas com meu aniversário “pé no saco”, meus pais “pé no saco”… Não. Eu não podia continuar mentindo para mim mesma.

– Queria que Stevie Rae estivesse aqui – sussurrei.

E era isso que estava me afastando dos meus amigos (inclusive dos meus namorados – dos dois) durante o último mês, e, ao mesmo tempo, o que estava me tornando uma nuvem de chuva enorme, pesada e desagradável. Eu sentia falta da minha melhor amiga e colega de quarto, que todos viram morrer no mês passado, mas que eu sabia que havia se transformado em uma criatura noturna morta-viva. Por mais melodramático e trash que isso possa parecer. A verdade era que agora, quando Stevie Rae deveria estar para lá e para cá envolvida com os detalhes desta minha droga de aniversário, ela estava na verdade escondida em algum túnel velho nos subterrâneos de Tulsa, conspirando com outras criaturas mortas-vivas nojentas, maldosas e fedorentas como o diabo.

– Ahn, Z? Está tudo bem aí dentro? – Damien chamou de novo, interrompendo meu blá-blá-blá mental.

Peguei Nala, que não parava de resmungar, dei as costas ao tenebroso cartão de natalversário e corri para abrir a porta, quase trombando com Damien, que estava com cara de superpreocupado.

– Desculpe… desculpe… – murmurei.

Ele seguiu ao meu lado, me olhando de canto de olho de vez em quando.

– Nunca ouvi falar sobre uma pessoa que ficasse tão desanimada com o próprio aniversário quanto você – Damien disse.

Nala estava se contorcendo em meu colo e eu a soltei no chão, dando de ombros, tentando forçar um sorriso indiferente. – Estou só praticando para quando eu for uma velha decrépita, tipo com uns trinta anos, e precisar mentir a idade.

Damien parou para olhar para mim. – Ah, tááááá – ele falou, esticando a palavra. – Todos nós sabemos que vampiros de trinta anos mal aparentam ter vinte e são sempre lindos. Na verdade, vampiros de cento e trinta anos ainda parecem ter vinte e poucos anos e continuam lindos. Esse seu papo de idade é pura besteira. O que está realmente acontecendo com você?

Enquanto eu hesitava, tentando imaginar o que deveria dizer a Damien e o que não deveria, ele levantou uma das sobrancelhas cuidadosamente delineadas e disse, com sua melhor voz de professor de escola:

– Você sabe como somos sensíveis às emoções, então é melhor desistir e me dizer a verdade.

Eu soltei outro suspiro.

– Vocês gays são assustadoramente intuitivos.

– Somos assim: homos – os poucos, os orgulhosos, os hipersensíveis.

– Homo não é um termo depreciativo?

– Não se for usado por um homo. Mas você está tentando me enrolar, não está funcionando – ele chegou a pôr a mão na cintura e bater o pé.

Sorri para ele, mas sabia que a expressão não combinava com meus olhos. Com uma intensidade que me surpreendeu, eu de repente senti uma vontade desesperada de dizer a verdade a Damien.

– Estou com saudade de Stevie Rae – desabafei antes que pudesse segurar a língua.

Ele não hesitou.

– Eu sei – e ficou com os olhos imediatamente molhados.

E foi isto. Parecia que um dique havia se rompido dentro de mim, e as palavras saíram desembestadas.

– Ela tinha de estar aqui! Ela estaria correndo que nem uma louca para fazer a decoração de aniversário e provavelmente fazendo um bolo sozinha.

– Um bolo terrível – Damien disse fungando um pouquinho.

– É, mas seria uma das receitas favoritas da mamãe – eu disse, imitando o carregado sotaque de Oklahoma de Stevie Rae, o que me fez sorrir entre as lágrimas. Pensei em como era esquisito compartilhar com Damien minha insatisfação e poder justificá-la, e então meu sorriso alcançou meus olhos.

– E as gêmeas e eu ficaríamos irritados por ela insistir que todos nós usássemos aqueles chapeuzinhos pontudos de aniversário, com aqueles prendedores de elástico que pinicam sob o queixo – ele teve um arrepio de horror nem tão fingido assim. – Deus do céu, aquilo é tão pouco atraente.

Eu ri e senti um pouco da tensão em meu peito começando a se dissolver.

– Tem algo em Stevie Rae que me faz sentir bem – não percebi que estava usando o tempo presente, até que Damien parou de sorrir.

– É, ela era demais – ele disse com ênfase extra no era enquanto olhava para mim como se estivesse preocupado com minha sanidade mental. Se ao menos ele soubesse da verdade. Se eu pudesse contar. Mas não podia. Se eu fizesse isso, Stevie Rae ou eu, ou ambas, acabaríamos mortas. E, desta vez, para valer.

Então, ao invés de falar, agarrei o braço de meu amigo evidentemente preocupado, e o fiz descer a escada comigo em direção à sala de estar do dormitório das garotas, onde meus amigos me esperavam (com seus presentes “pé no saco”).

– Vamos. Estou sentindo necessidade de abrir presentes – eu menti, cheia de entusiasmo.

– Mal posso esperar para você abrir o meu! – Damien disse efusivamente. – Levei uma eternidade para comprar!

Eu sorri e balancei a cabeça apropriadamente enquanto Damien continuava a falar sem parar sobre sua busca pelo presente perfeito. Pena que aquilo não me ajudava a encarar o que realmente estava me incomodando.

Ainda falando sobre sua busca ao presente, Damien me conduziu ao salão principal do dormitório. Acenei para os montes de garotas agrupadas ao redor das tevês de tela plana, enquanto nos dirigíamos à salinha ao lado, que servia de biblioteca e sala de informática. Damien abriu a porta e meus amigos irromperam em um coro totalmente desafinado de “parabéns pra você”. Ouvi Nala resmungar e, pelo canto do olho, eu a vi saindo pela porta, em direção à entrada. Covarde, eu pensei, apesar de estar com vontade de fugir com ela. Quando a canção acabou (graças a Deus), minha gangue veio toda para cima de mim.

– Parabéns! – as gêmeas disseram juntas. Tá, elas não são gêmeas genéticas. Erin Bates é uma garota muito branca de Tulsa, e Shaunee Cole é uma linda mulata descendente de jamaicanos que cresceu em Connecticut, mas as duas são tão bizarramente parecidas que a cor da pele e a região de onde vieram não faziam a menor diferença. São gêmeas espirituais, o que é bem mais forte que a mera biologia.

– Feliz aniversário, Z. – disse uma voz profunda e muito, muito sexy que eu conhecia tão bem. Saí do abraço de sanduíche das gêmeas e fui para os braços do meu namorado, Erik. Bem, tecnicamente, Erik era um dos meus dois namorados. O outro era Heath, um adolescente humano que namorei antes de ser Marcada, e com o qual eu não devia ter mais nada, não fosse pelo fato de eu ter sugado seu sangue, meio que acidentalmente, e com isso ter provocado uma nova ligação entre nós. Estávamos carimbados, então, ele era meu outro namorado à revelia. É, é confuso. Sim, Erik fica louco com isto. Sim, eu suponho que ele vai me dar o fora qualquer dia desses por causa disso.

– Obrigada – murmurei, levantando os olhos para ele e me deixando aprisionar por aqueles olhos incríveis. Erik é alto e sensual, com cabelos escuros de Super-Homem e olhos incrivelmente azuis. Relaxei em seus braços, um gesto que não me permiti nos últimos meses, e temporariamente me aqueci no seu cheiro bom e na sensação de segurança que me vinha quando estava perto dele. Ele me olhou nos olhos e, como nos filmes, por um segundo todo mundo desapareceu e só havíamos nós dois ali. Ao perceber que eu não saía de seus braços, sorriu lentamente esboçando uma leve surpresa, o que provocou uma dorzinha em meu coração. Eu estava pegando pesado com ele e não sabia direito por quê. Por impulso, fiquei na ponta dos pés e o beijei, para grande alegria dos meus amigos.

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Trecho do Livro: Traída | PC Cast e Kristin Cast
Livro Traida
Autoras: PC Cast e Kristin Cast
Editora: Novo Século
ISBN: 9788576792505

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Obs: Traída é o segundo volume da série House of Night (série Morada da Noite), continuação do livro Marcada (leia o primeiro capítulo).

– Garota nova na área. Dá só uma olhada – Shaunee disse ao se sentar à mesa que sempre reivindicamos como nossa em todas as refeições escolares servidas no salão de jantar (tradução: lanchonete de escola de primeira classe).

– Tragédia total, gêmea, total – a voz de Erin fez eco à de Shaunee. Ela e Shaunee tinham uma espécie de vínculo psíquico que as fazia bizarramente semelhantes, razão pela qual foram apelidadas de “as gêmeas”, apesar de Shaunee ser uma americana de origem jamaicana cor de café-com-leite oriunda de Connecticut e Erin ser uma loura de olhos azuis vinda de Oklahoma.

– Felizmente ela é companheira de quarto de Sarah Freebird – Damien apontou com a cabeça a garota baixinha de cabelos pretíssimos que estava mostrando a sala de jantar à novata de aparência perdida; com seu olhar incisivo e “fashionista” ele analisou as duas garotas e seus trajes – dos sapatos aos brincos – em uma rápida olhadela. – Está na cara que seu senso de moda é melhor do que o de Sarah, apesar do estresse de ser Marcada e mudar de escola. Quem sabe ela não consegue ajudar Sarah a perder a propensão a escolher calçados feiosos.

– Damien – Shaunee disse –, você está outra vez enchendo meu…

–… saco com esse seu vocabulário interminável – Erin completou a frase para ela.

Damien fungou, parecendo ofendido e superior e mais gay do que costumava parecer.

– Se seu vocabulário não tivesse propensão tão abismal, você não teria de ficar carregando um dicionário para lá e para cá para poder me acompanhar.

As gêmeas olharam feio para ele e sugaram o ar para começar um novo ataque que, felizmente, foi interrompido por minha companheira de quarto. Com seu pesado sotaque de Oklahoma, Stevie Rae deu as definições como se estivesse dando dicas em uma competição de ortografia:

– Propensão: intensa preferência, geralmente inata. Abismal: absolutamente horrível. Pronto. Agora dá para pararem de brigar e se comportarem? Vocês sabem que está quase no horário de visita dos pais e não devíamos ficar agindo como retardados quando nossos velhos derem as caras.

– Ah, bobagem – eu disse. – Eu me esqueci totalmente do horário de visitas.

Damien resmungou e jogou a cabeça sobre a mesa, batendo com ela não tão delicadamente assim.

– Eu também me esqueci completamente – os quatro lançaram olhares solidários a ele. Para os pais de Damien não havia problema em ele ser Marcado, ou em sua mudança para a Morada da Noite ou no fato de ele estar começando a passar pela Transformação, mesmo correndo o risco de não sobreviver a ela. O problema para eles era ele ser gay.

Ao menos para os pais de Damien não havia problema em tudo que se referia a ele. Por sua vez, minha mãe e seu atual marido – meu “padrastotário” John Heffer – odiavam absolutamente tudo em mim.

– Meus velhos não vêm. Eles vieram mês passado. Este mês estão ocupados demais.

– Gêmea, provamos mais uma vez que somos gêmeas – Erin disse. – Meus velhos me mandaram um e-mail. Eles também não vêm, por causa de alguma viagem para o Alaska que eles resolveram fazer no Dia de Ação de Graças com minha tia Alane e meu tio Liar Lloyd. Sei lá – ela deu de ombros, aparentemente tão pouco incomodada quanto Shaunee pela ausência dos pais.

– Ei, Damien, quem sabe sua mãe e seu pai também deixam de vir – Stevie Rae disse com um breve sorriso.

Ele suspirou.

– Eles virão. É o mês em que faço aniversário. Eles vão trazer presentes.

– Não parece tão ruim assim – eu disse. – Você falou que anda precisando de um bloco novo.

– Eles não vão me dar um bloco novo – ele disse. – No ano passado eu pedi um cavalete. Eles me deram um equipamento de camping e uma assinatura da Sports Illustrated.

– Eeeca! – Shaunee e Erin disseram juntas enquanto Stevie Rae e eu torcemos nossos narizes e fizemos ruídos de solidariedade.

Claramente querendo mudar de assunto, Damien virou-se para mim.

– Esta será a primeira visita de seus pais. O que você está esperando?

– Pesadelo – eu suspirei. – Pesadelo total, absoluto e completo.

– Zoey? Pensei em trazer minha nova companheira de quarto para apresentar a você. Diana, esta é Zoey Redbird, líder das Filhas das Trevas.

Feliz por não ter mais que falar sobre meus horrendos problemas de família, eu levantei os olhos sorrindo ao ouvir a voz nervosa e hesitante de Sarah.

– Nossa, é verdade mesmo! – a novata deixou escapar antes mesmo que eu pudesse dizer “oi”. Como de costume, ela estava olhando para minha testa e corando como um tomate. – Quer dizer, ahn… desculpe. Não tive intenção de ser rude nem nada… – ela foi baixando a voz, aparentemente arrasada.

– Tudo bem. Sim, é verdade. Minha Marca está completa e aumentada – mantive meu sorriso no lugar, tentando fazer com que ela se sentisse melhor, apesar de realmente odiar me sentir a atração principal de um circo de horrores. Outra vez. Felizmente, Stevie Rae entrou na conversa antes que o olhar fixo de Diana e meu silêncio ficassem mais constrangedores.

– É, Z. arrumou essa tatuagem do rosto ao pescoço, toda entrelaçada em espiral, quando salvou o ex-namorado de uns fantasmas-vampiros pavorosos – Stevie Rae disse animadamente.

– Foi o que Sarah me contou – Diana disse, hesitante. – Mas soou tão inacreditável que eu, bem…

– Você não acreditou? – Damien disse, ajudando.

– É. Desculpe – ela repetiu, mexendo os dedos de modo inquieto.

– Ei, não se preocupe com isso – eu forcei um sorriso bastante autêntico. – Às vezes eu mesma acho tudo aquilo bem bizarro, e eu estava lá.

– E botando para quebrar – Stevie Rae disse.

Eu lancei-lhe meu olhar “você-não-está-me-ajudando-em-nada”, o qual ela ignorou. Sim, um dia eu podia virar a Grande Sacerdotisa dos meus amigos, mas não seria exatamente a chefe.

– Obrigada – ela disse com genuína simpatia.

– Bem, é melhor irmos agora para que eu possa mostrar a Diana onde será sua quinta aula do dia – Sarah disse, e então me constrangeu completamente ao ficar toda séria e formal e me saudar antes de sair com o tradicional sinal vampírico de respeito: punho fechado sobre o coração e cabeça inclinada para frente.

– Eu odeio demais quando fazem isso – eu murmurei, beliscando minha salada.

– Eu acho legal – Stevie Rae disse.

– Você merece que lhe demonstrem respeito – Damien disse com sua voz professoral. – Você é a única terceira-formanda que conseguiu tornar-se líder das Filhas das Trevas e a única novata ou vampira da história que demonstrou afinidade pelos cinco elementos.

– Encare os fatos, Z. – Shaunee disse enquanto abocanhava sua salada e gesticulava com o garfo.

– Você é especial – Erin completou para ela (como de costume).

Uma terceira-formanda é como na Morada da Noite chamam os calouros. Portanto um quarto-formando é um aluno do segundo ano etc. E, sim, eu sou a única terceira-formanda a se tornar líder das Filhas das Trevas. Que sorte a minha.

– Falando nas Filhas das Trevas – Shaunee disse. – Você já decidiu quais serão os novos requisitos para se tornar membro do grupo?

Contive a vontade de berrar “não, ainda não acredito que sou responsável por este troço!” e apenas fiz que não com a cabeça e concluí – no que esperava ser um golpe de mestre – pressionar-lhes um pouco.

– Não, eu não sei quais serão os novos requisitos. Na verdade, eu estava esperando que vocês me ajudassem. E então, têm alguma ideia?

Como eu suspeitei, todos os quatro ficaram quietos. Eu abri a boca para agradecer-lhes por seu silêncio, mas a voz imponente de nossa Grande Sacerdotisa soou pelo interfone da escola. Por um segundo eu fiquei feliz pela interrupção, até que me dei conta do que ela estava dizendo e meu estômago começou a dar um nó.

– Alunos e professores, por favor, dirijam-se à recepção. Está na hora da visita mensal dos pais.

Ora, que inferno.

– Stevie Rae! Stevie Rae! Ai meu Deus, que saudade de você!

– Mamãe! – Stevie Rae gritou e correu para os braços de uma mulher muito parecida com ela, só que vinte quilos mais gorda e vinte e tantos anos mais velha.

Damien e eu ficamos sem graça, parados na recepção, o que estava começando a atrair olhares constrangidos dos pais humanos, alguns irmãos humanos, um bando de alunos novatos, além de vários professores vampiros.

– Bem, lá vêm meus pais – Damien disse com um suspiro. – Melhor terminar logo com isso. Até mais.

– Até mais – eu murmurei e observei enquanto ele se aproximava de dois sujeitos completamente comuns que traziam um presente embrulhado. Sua mãe lhe deu um breve abraço e o pai apertou-lhe a mão com exuberante masculinidade. Damien parecia pálido e estressado.

Eu abri caminho em direção à longa mesa forrada com uma toalha de linho e que se estendia por uma parede inteira. Estava cheia de queijos caros e pratos com carne, sobremesas, café, chá e vinho. Fazia um mês que eu estava na Morada da Noite e, para mim, ainda era um pouquinho chocante ver o vinho ser servido tão prontamente. Parte da razão para tal era simples: a escola era modelada de acordo com as Moradas da Noite europeias. Ao que parece, na Europa o vinho é como o chá ou Coca-Cola aqui, ou seja, nada demais. A outra parte é um fato genético: vampiros não ficam bêbados – os novatos mal conseguiam ficar altos (ao menos com álcool; sangue, infelizmente, era outra história). Então aqui o vinho literalmente não era nada demais, apesar de que eu achava que seria interessante conferir como os pais de Oklahoma reagiram ao ver bebida alcoólica sendo servida na escola.

– Mamãe! Você precisa conhecer minha nova colega de quarto. Lembra que falei sobre ela? Esta é Zoey Redbird. Zoey, esta é minha mãe.

– Olá, senhora Johnson. Que bom conhecê-la – eu disse educadamente.

– Ah, Zoey! É bom demais conhecê-la! E, ai meu Deus! Sua Marca é linda mesmo como Stevie Rae disse – ela me surpreendeu com um suave abraço maternal e sussurrou: – Fico feliz de você tomar conta de minha Stevie Rae. Fico preocupada com ela.

Eu acariciei-lhe as costas e sussurrei:

– Não é nada, senhora Johnson. Stevie Rae é minha melhor amiga – e apesar de ser totalmente irreal, eu subitamente desejei que minha mãe me abraçasse e se preocupasse comigo como a senhora Johnson se preocupava com a filha.

– Mamãe, a senhora trouxe biscoitos de chocolate para mim? – Stevie Rae perguntou.

– Sim, meu bem, trouxe, mas só agora me dei conta que esqueci no carro – a mãe de Stevie Rae falava com o mesmo sotaque cantado de Oklahoma que a filha tinha. – Por que você não vai lá fora comigo e me ajuda a trazê-los? Trouxe um pouquinho a mais para seus amigos desta vez – ela deu um sorriso amável para mim. – Você é mais do que bem-vinda se quiser vir conosco, Zoey.

– Zoey.

Eu ouvi minha voz sair como um eco gelado da calorosa simpatia da senhora Johnson e olhei por sobre o ombro dela e vi que minha mãe e John estavam na recepção e vinham em minha direção. Por que diabos ela não podia ter vindo sozinha e deixar que a coisa fosse apenas entre eu e ela para variar um pouco? Mas eu sabia a resposta para isso. Ele jamais permitiria. E o fato de ele não permitir significava que ela não o faria. Ponto final. Fim de papo. Desde que se casou com John Heffer, minha mãe parou de se preocupar com dinheiro. Ela morava em uma casa gigantesca em um subúrbio tranquilo. Era voluntária da Associação de Pais e Professores. Ela era bastante ativa na igreja. Mas durante os últimos três anos de seu casamento “perfeito”, ela se perdeu completamente.

– Desculpe, senhora Johnson. Preciso ver meus pais agora, é melhor que eu vá.

– Ah, meu bem, eu adoraria conhecer sua mãe e seu pai – e assim, como se estivéssemos em qualquer escola de ensino médio, a senhora Johnson virou-se, sorridente, para conhecer meus pais.

Stevie Rae olhou para mim e eu olhei para ela. Desculpe, eu murmurei sem som para ela. Tipo, eu não tinha certeza absoluta se algo de ruim poderia acontecer, mas ao ver meu “padrastotário” se aproximando de nós como se fosse algum general liderando uma marcha de morte, eu percebi que a tendência era uma cena de pesadelo daquelas.

Então meu coração subiu de volta do estômago e tudo ficou subitamente muito, muito melhor quando a pessoa que eu mais adoro no mundo deu a volta em John e abriu os braços para mim.

– Vovó!

Ela me envolveu em seus braços e com o doce cheiro de lavanda que sempre a acompanhava, como se ela estivesse carregando um galho de lavanda para toda parte que ia.

– Ah, Passarinha! – ela me abraçou forte. – Que saudade de você, u-we-tsi a-ge-hu-tsa.

Eu sorri entre lágrimas, adorando ouvir o som familiar da palavra “filha” em Cherokee – que para mim representava segurança, amor e aceitação incondicional. Coisas que eu não sentira em minha casa nos últimos três anos; coisas que, antes de vir para a Morada da Noite, só encontrava na fazenda de minha avó.

– Também senti saudades de você, vovó. Estou tão feliz que tenha vindo!

– A senhora deve ser a avó de Zoey – a senhora Johnson disse quando nos soltamos dos braços uma da outra. – É muito bom conhecê-la. A sua garota é admirável.

Vovó sorriu calorosamente e começou a responder, mas John interrompeu, como sempre com aquela sua voz de “eu-sou-tão-superior”.

– Bem, na verdade a senhora estaria elogiando nossa garota admirável.

Minha mãe, a perfeita esposa submissa, finalmente falou.

– Sim, somos pais de Zoey. Eu sou Linda Heffer. Este é meu marido, John, e minha mãe, Sylvia Red… – então, no meio de suas apresentações tão educadas, ela se deu ao trabalho de olhar para mim e sua voz pareceu estrangulada. Eu fiz meu rosto sorrir, mas o senti quente e duro, como se eu tivesse aplicado gesso nele e sentado sob o sol de verão e ele fosse se quebrar em pedacinhos se eu não tivesse cuidado.

– Oi, mãe.

– Pelo amor de Deus, o que você fez àquela Marca? – Minha mãe disse a palavra Marca como se falasse uma palavra como “câncer”.

– Ela salvou a vida de um jovem e estabeleceu conexão com seu dom, concedido pela Deusa, de afinidade com os elementos. Em retorno a deusa Nyx a tocou com várias Marcas incomuns para uma novata – Neferet disse com sua voz melodiosa enquanto adentrava nosso embaraçoso grupinho de mão estendida para meu “padrastotário”. Neferet era como a maioria dos vampiros adultos, de uma perfeição estonteante. Ela era alta, tinha longas ondas de cabelos castanho-avermelhados escuros e brilhantes e olhos amendoados de um tom incomum de verde musgo. Ela se movimentava com uma graça e uma segurança que eram claramente não-humanas, e sua pele era tão espetacular que parecia que haviam acendido uma luz dentro dela. Hoje ela estava usando um elegante conjunto azul-real com brincos de prata em espiral (representando o caminho da Deusa; não que a maioria dos pais soubesse disso). Na blusa havia uma imagem prateada da Deusa com as mãos para cima sobre o peito esquerdo, como todas as professoras. Seu sorriso era deslumbrante. – Senhor Heffer, eu sou Neferet, Grande Sacerdotisa da Morada da Noite, apesar de que deve ser mais fácil se o senhor me encarar como encararia qualquer professora do ensino médio. Obrigada por vir à noite de visitas para pais.

Pude notar que ele pegou a mão dela automaticamente. Eu tinha certeza que ele teria recusado se ela não o tivesse pegado de surpresa. Ele apertou a mão dela rapidamente e virou-se para minha mãe.

– Senhora Heffer, é um prazer conhecer a mãe de Zoey. Estamos muito felizes por ela ter entrado para a Morada da Noite.

– Bem, ahn, obrigada! – minha mãe disse, claramente desarmada pelo charme e beleza de Neferet.

Quando Neferet cumprimentou minha avó, deu um sorriso mais largo e foi além da mera educação. Percebi que elas deram um aperto de mão à moda vampírica tradicional, uma segurando o pulso da outra.

– Sylvia Redbird, é sempre um prazer vê-la.

– Neferet, meu coração também se alegra em vê-la, e obrigada por honrar seu juramento de cuidar de minha neta.

– É um juramento fácil de cumprir. Zoey é uma menina muito especial – agora o sorriso de Neferet me incluiu em sua ternura. Então ela se voltou para Stevie Rae e sua mãe: – E esta é a companheira de quarto de Zoey, Stevie Rae Johnson, e sua mãe. Ouvi falar que as duas são praticamente inseparáveis e que até a gata de Zoey é chegada a Stevie Rae.

– É verdade, sim. Ela até sentou no meu colo quando estávamos assistindo tevê ontem à noite – Stevie Rae disse, dando risada. – E Nala não gosta de ninguém, só de Zoey.

– Gata? Não me lembro de ninguém ter dado permissão a Zoey de arrumar uma gata – John disse, me deixando com vontade de vomitar. Como se alguém, com exceção de vovó, tivesse se dado ao trabalho de falar comigo por um mês inteiro!

– O senhor não entendeu, senhor Heffer; na Morada da Noite os gatos vivem soltos. Eles escolhem os próprios donos, e não o contrário, como é comum. Zoey não precisava de permissão quando Nala a escolheu – Neferet disse tranquilamente. John bufou, e para meu alívio percebi que todo mundo ignorou. Cara, que babaca ele é.

– Posso lhes oferecer um lanche? – Neferet mostrou a mesa com um gesto gracioso.

– Céus! Isto me faz lembrar os biscoitos que deixei no carro. Stevie Rae e eu estávamos indo pegá-los. Foi muito bom conhecer a todos – Stevie Rae e sua mãe me deram um rápido abraço, acenaram para os demais e escaparam, deixando-me lá, apesar de eu desejar estar em qualquer outro lugar.

Fiquei perto de minha avó, entrelaçando os dedos aos dela enquanto caminhávamos em direção à mesa de lanches, pensando em como seria muito mais fácil se só ela tivesse vindo me visitar. Dei uma olhada para minha mãe. Parecia que uma careta fora pintada em seu rosto. Ela estava olhando para os outros garotos e garotas ao redor e mal olhava em minha direção. Por que vir? Eu quis gritar para ela. Por que demonstrar que se importa comigo, que sente minha falta, e depois deixar claro que não?

– Vinho, Sylvia? Senhor e senhora Heffer? – Neferet ofereceu.

– Sim, obrigada, tinto, por favor – vovó disse.

Os lábios tensos de John evidenciaram seu descontentamento.

– Não. Nós não bebemos.

Fiz um esforço sobre-humano para não revirar os olhos. Desde quando ele não bebia? Eu seria capaz de apostar os cinquenta dólares que me restavam na poupança que ele tinha meia dúzia de cervejas na geladeira agora mesmo. E minha mãe costumava beber vinho tinto como minha avó. Cheguei a ver que ela lançou um olhar de despeito para minha avó quando ela provou do saboroso vinho que Neferet lhe servira. Mas não, eles não bebiam. Ao menos não em público. Hipócritas.

– Então, como estava dizendo, o desenvolvimento da Marca de Zoey foi por ela ter feito algo especial? – vovó apertou minha mão. – Ela me disse que foi feita líder das Filhas das Trevas, mas não me disse exatamente como foi que aconteceu.

Eu senti que fiquei tensa outra vez. Eu realmente não queria lidar com a cena que viria se minha mãe e John descobrissem que o que acontecera de verdade fora que a ex-líder das Filhas das Trevas havia projetado um círculo na noite de Halloween (conhecida na Morada da Noite como Samhain, a noite em que o véu entre o nosso mundo e o mundo dos espíritos fica mais tênue), conjurado uns espíritos vampíricos bem pavorosos e depois perdeu o controle deles quando Heath, meu ex-namorado humano, deu de cara com a cena quando estava à minha procura. De modo que eu não queria jamais mencionar o que só umas poucas pessoas sabiam – que Heath estava à minha procura porque eu provei de seu sangue e ele estava ficando cada vez mais obcecado por mim, o que acontece facilmente quando humanos se envolvem com vamps – mesmo sendo vamps novatos, aliás. Então Aphrodite, que era então líder das Filhas das Trevas, perdeu totalmente o controle dos fantasmas e eles iam devorar Heath. Literalmente. Pior ainda; eles estavam agindo como se quisessem dar umas mordidas no resto de nós, também, incluindo o Erik Night, o jovem vamp que tenho a felicidade de dizer que não é meu ex-namorado, mas com quem venho ficando de um mês para cá, de modo que ele é meu quase-namorado. Enfim, eu tinha de fazer alguma coisa, então, com a ajuda de Stevie Rae, Damien e as gêmeas, eu projetei meu próprio círculo, conectando-me ao poder dos cinco elementos: ar, fogo, água, terra e espírito. Valendo-me de minha afinidade com os elementos, eu consegui banir os fantasmas de volta para o lugar onde viviam, fosse lá qual fosse (ou será que eles “desviviam”?). Quando eles foram embora eu estava com essas tatuagens novas, uma delicada coleção de espirais em forma de renda cor de safira me emoldurando o rosto – algo que nunca se ouviu falar de acontecer com uma novata – e combinando com Marcas entremeadas com os símbolos totalmente lindos em meu ombro, que pareciam runas, o que vampiro novato nenhum jamais teve. Então, Aphrodite foi exposta como a péssima líder que era, o que levou Neferet a exonerá-la do cargo e me colocar em seu lugar. Consequentemente, também estou treinando para ser a Grande Sacerdotisa de Nyx, a Deusa vampira que é a personificação da Noite.

Nada disto soaria muito bem para minha mãe e John, que eram ultrarreligiosos e ultracríticos.

– Bem, houve um pequeno acidente. Zoey pensou rápido e teve a bravura de não deixar que ninguém saísse ferido, e ao mesmo tempo ela se conectou com uma afinidade especial que lhe foi concedida de canalizar a energia dos cinco elementos – Neferet sorriu orgulhosamente e eu senti uma onda de felicidade por ter sua aprovação. – A tatuagem é simplesmente um sinal externo do favorecimento da Deusa.

– O que a senhora está dizendo é blasfêmia – John falou com uma voz tensa e forçada, mas que ao mesmo tempo conseguia soar cheia de condescendência e raiva. – A senhora está colocando a alma imortal dela em perigo.

Neferet voltou seus olhos cor de musgo para ele. Não parecia estar com raiva. Na verdade, parecia estar se divertindo.

– O senhor deve ser um dos Veteranos do Povo de Fé.

Ele inflou o peito de pombo.

– Bem, sim, sou, sim.

– Então vamos chegar logo a um entendimento, senhor Heffer. Eu não pensaria em entrar em sua casa, ou em sua igreja, para depreciar suas crenças, apesar de eu discordar profundamente delas. Mas também eu não espero que o senhor tenha as mesmas crenças que eu. Na verdade, eu jamais pensaria em sequer tentar lhe atrair para minhas crenças, apesar de ter um profundo e permanente compromisso para com minha Deusa. De modo que apenas insisto que o senhor me retribua com a mesma cortesia que já lhe outorguei. Quando estiver em minha casa, respeite minhas crenças.

Os olhos de John se transformaram em pequenas lâminas afiadas e percebi que ele trincou o maxilar e o soltou.

– Seu modo de vida é pecaminoso e errado – ele disse incisivamente.

– Isto de acordo com um homem que admite adorar um Deus que vilifica o prazer, relega as mulheres ao papel de meras serviçais e procriadoras, apesar de elas serem a espinha dorsal de sua igreja, e que busca controlar seus fiéis através de culpa e medo – Neferet riu baixinho, mas o som não transmitia graça nenhuma e o aviso implícito em sua voz me arrepiou os pelos dos antebraços. – Cuidado com a maneira com que julga os outros; talvez o senhor devesse primeiro limpar a própria casa.

John ficou com o rosto vermelho, sugou o ar e abriu a boca para falar o que eu sabia que seria um sermão daqueles sobre como suas crenças eram corretas e como todas as demais eram erradas, mas antes que ele pudesse responder, Neferet o interrompeu. Ela não levantou a voz, mas soou subitamente cheia do poder de uma Grande Sacerdotisa e eu tremi de medo, apesar de sua ira não estar se voltando contra mim.

– O senhor tem duas escolhas. Pode visitar a Morada da Noite como convidado, o que significa que irá respeitar nosso modo de ser e guardar seu descontentamento e suas críticas para si mesmo. Ou então pode ir embora e não retornar. Nunca mais. Decida agora – eu senti as últimas duas palavras na pele e tive de me esforçar para não me encolher de medo. Percebi que minha mãe estava olhando para Neferet com olhos arregalados e vidrados e com o rosto branco como leite. O rosto de John ficou da cor oposta. Seus olhos estavam apertados e as bochechas coradas de um tom de vermelho nada agradável.

– Linda – ele disse entre dentes. – Vamos embora – então ele olhou para mim com tanto nojo e ódio que eu literalmente recuei. Tipo, eu sabia que ele não gostava de mim, mas até aquele momento eu não sabia até que ponto. – Este lugar é o que você merece. Sua mãe e eu não vamos mais voltar. Você está sozinha agora – ele deu meia-volta e começou a andar em direção à porta. Minha mãe hesitou, e por um segundo eu achei que ela fosse dizer algo de bom, como talvez pedir desculpas por ele, ou que estava com saudades de mim, ou que eu não me preocupasse porque ela voltaria a despeito do que ele dissesse.

– Zoey, não acredito no que você foi se meter desta vez – ela balançou a cabeça e, como sempre, seguiu John e saiu do recinto.

– Ah, meu bem, eu sinto muito – vovó estava lá, instantaneamente me abraçando e me confortando com sua voz sussurrante. – Eu voltarei, minha Passarinha. E estou muito orgulhosa de você! – ela me segurou pelos ombros e sorriu entre lágrimas. – Nossos ancestrais cherokees também estão orgulhosos de você, posso sentir isso. Você foi tocada pela Deusa e tem a lealdade dos bons amigos – ela olhou para Neferet rapidamente e disse – e sábios professores. Um dia você deve até aprender a perdoar sua mãe. Até este dia chegar, lembre-se que você é minha filha do coração, u-we-tsi a-ge-hu-tsa – ela me beijou. – Também tenho de ir. Vim dirigindo seu carrinho e vou deixá-lo aqui, de modo que preciso pegar carona com eles para voltar. – Ela me deu as chaves de meu fusca vintage. – Mas lembre-se sempre que eu amo você, Zoey Passarinha.

– Eu também te amo, vó – eu disse, e retribuí o beijo, abraçando-a com força e respirando fundo como se eu pudesse prendê-la em meus pulmões e exalá-la lentamente ao sentir saudade ao longo do mês seguinte.

– Tchau, meu bem. Quando puder, me ligue – ela me beijou outra vez e então partiu.

Eu a observei ir embora e não me dei conta que estava chorando até sentir as lágrimas pingarem no meu pescoço. Eu havia até esquecido que Neferet ainda estava ao meu lado, de modo que me surpreendi um pouquinho quando ela me passou um lenço.

– Sinto muito por isto, Zoey – ela disse calmamente.

– Pois eu, não – assuei o nariz e sequei o rosto antes de olhar para ela. – Obrigada por enfrentá-lo.

– Não foi minha intenção mandar sua mãe embora também.

– Você não mandou. Ela optou por acompanhá-lo. É o que ela vem fazendo há três anos – senti o calor das lágrimas que ameaçavam surgir e falei rápido, afastando-as. – Ela era diferente. Sei que é idiotice, mas eu ainda fico esperando que ela volte a ser o que era antes. Mas nunca acontece. É como se ele tivesse matado minha mãe e colocado uma estranha em seu corpo.

Neferet envolveu-me com seu braço.

– Gostei do que sua avó disse, que um dia talvez você consiga perdoar sua mãe.

Olhei pela porta através da qual passaram os três.

– Este dia está muito longe.

Neferet apertou meu ombro de modo solidário. Levantei os olhos para ela, muito feliz por ela estar comigo, e desejei – pela zilionésima vez – que ela fosse minha mãe. Então me lembrei do que ela me dissera quase um mês atrás, que sua mãe morrera quando ela era bem pequena e que seu pai abusava dela tanto física quanto mentalmente, até que ela foi salva ao ser Marcada.

– Você chegou a perdoar seu pai? – eu perguntei, hesitante.

Neferet baixou os olhos para mim e piscou várias vezes, como se estivesse lentamente voltando a uma memória que a levara para muito, muito longe. – Não. Jamais o perdoei, mas agora, quando penso nele, é como se me lembrasse de alguma vida passada. As coisas que ele fez comigo, ele as fez quando eu era uma criança humana, não uma vampira e Grande Sacerdotisa. E como Grande Sacerdotisa e vampira, ele, como a maioria dos humanos, não representa nada.

Suas palavras soaram fortes e decididas, mas ao olhar no fundo de seus lindos olhos verdes, percebi uma partícula de algo antigo e doloroso e que certamente não fora esquecido, e me perguntei até que ponto ela estava sendo honesta consigo mesma…

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