Literatura Estrangeira

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Trecho do Livro: Guia Médico da Gravidez – Passo a Passo
Guia Medico da Gravidez
Autor: Dr. Gerard DiLeo
Editora: M. Books
ISBN: 9788589384865

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Com o advento da ultra-sonografia e de testes muito precisos de urina e de sangue, o diagnóstico de gravidez deixou de ser preocupação para o médico de hoje, auxiliado pelo laboratório. Mas há certo fascínio na história do diagnóstico de gravidez, antes desses recursos modernos passarem a ser usados comumente. Os médicos costumavam receber um treinamento diferente – usavam critérios e habilidades diagnósticas que hoje parecem obsoletos.

Os livros médicos antigos, incorporando encontros e desencontros dos processos fisiológicos, eram tão bem escritos que dificilmente consigo jogar algum deles fora. Folheá-los é uma viagem de volta pelas maravilhas da arte do diagnóstico. Hoje, você tem imagens de seu bebê pela ultra-sonografia e seu médico consegue ter valores mínimos crescentes de hCG, o hormônio da gravidez, praticamente antes de sua menstruação atrasar. Em tempos menos sofisticados, muitas mulheres não podiam ter o diagnóstico de sua “condição delicada” até meados da gravidez. Nunca deveríamos ansiar por um retorno àqueles dias, mas é divertido ver o diagnóstico pelos olhos da medicina dos velhos tempos, da mesma forma que uma criança fica maravilhada ao descobrir as coisas mais simples, consideradas normais hoje em dia. A gravidez é e sempre foi uma experiência bonita e, embora a ciência da obstetrícia tenha contribuído para uma gravidez melhor, a arte da medicina perdeu um pouco de sua beleza. Mas, se um Rembrandt guardado no sótão continua lindo, mesmo que não haja ninguém lá para apreciá-lo, o mesmo acontece com os sinais e sintomas que eram notados no passado.

De volta aos “velhos tempos”, por volta de 1960 (século passado, lembra-se?), o diagnóstico “antigo” era agrupado em três classificações:

Sinais de Presunção de Gravidez: Essa categoria inclui principalmente aspectos que você mesma nota, como o atraso da menstruação, mama dolorida, náusea, freqüência urinária e fadiga.

Sinais de Probabilidade de Gravidez: Essas são as mudanças que seu médico notará, como o tamanho aumentado e o amolecimento de seu útero e a movimentação fetal.

Sinais Positivos de Gravidez: Essas são as indicações “certas”, como batimentos cardíacos fetais, movimentação fetal e imagens de ultra-sonografia.

Evidentemente, as modernas técnicas diagnósticas tornaram obsoleto o uso de muitos dos sinais e sintomas presuntivos e prováveis para diagnosticar a gravidez, colocando-os na Era do Obscurantismo.

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A Data do Nascimento: Divirta-se com a Matemática

A data do nascimento é referida como a data estimada de confinamento. Trata-se de uma volta aos dias em que uma mulher era confinada em casa e ficava em repouso durante o período após o nascimento, até se recuperar totalmente. Um termo também empregado era “ficar de resguardo”, que significava a mesma coisa.

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DICA RÁPIDA: O calendário gregoriano e o calendário do obstetra não coincidem. O calendário do obstetra usa meses de quatro semanas completas — meses lunares —, enquanto o calendário gregoriano usa meses de 30, 31 e mesmo de 28 e 29 dias.

As 40 semanas de gravidez fazem parte dos nove meses, de acordo com esse calendário.
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Quando sua menstruação está atrasada, aquela menstruação que não vem, já se passaram duas semanas da data de concepção. De acordo com a maneira usual de calcular a gravidez, considera-se que você esteja com quatro semanas de gestação. Pelo menos nós, obstetras, chamamos de quatro semanas porque contamos a partir da última menstruação regular. Mas, uma vez que nenhuma mulher está grávida antes da concepção, isso gera confusão em toda gravidez, até explicarmos de que modo contamos a idade gestacional.

A gestação humana normal (o período de tempo que leva para um bebê crescer no útero) é de cerca de 280 dias. Dividida em meses de quatro semanas completas, isso resulta em dez meses completos. Mas Júlio César e o Papa Gregório XIII, os mentores do calendário moderno, estavam pensando em tudo, menos na gestação, quando estabeleceram “30 dias tem setembro, abril, junho e novembro”. (E continua sem dizer que todo o resto tem 31, com exceção de fevereiro.) Se um obstetra tivesse feito o calendário, todo mês teria 28 dias (“nada mais”), abrangendo 13 meses com quatro semanas completas por ano. Na realidade, esse “Ano Obstétrico” seria um pouco mais curto, o verdadeiro ano solar com 13 meses exatos e cerca de um dia e um quarto. (Eu sei que poderia imaginar algo para fazer com esse dia, 5 horas e 49 minutos extras.)

Não é coincidência que todo ciclo menstrual médio dure 28 dias. Esses intervalos foram chamados de meses lunares no passado, coincidindo com as fases da lua. A palavra menses, da qual deriva a menstruação, é originária do latim mensis, que significa “mês lunar”. Os ciclos menstruais, que historicamente coincidem com todo mês lunar, nos confirmam quanto estamos sincronizados com o mundo, a rotação da Terra e o seu satélite. Durante os longos períodos de evolução, as relações exatas foram se perdendo, mas faz sentido que a glândula pineal em sua cabeça, vestígio de um terceiro olho, que nos animais inferiores responde à luz, ajuda no ritmo circadiano e está envolvido com mudanças pigmentares afetadas pelo estrógeno e pela progesterona, esteja ligada às fases da lua e à menstruação, misteriosamente relacionada.

Cada vez que o mês no calendário moderno passa de 28 dias, a gestação perfeita de dez meses completos sai de sincronia com ele. Os dois dias a mais aqui e três ali “engolem” o décimo mês completo, de modo que, pelo calendário impresso de hoje, a gravidez dura nove meses. Então, quando exatamente você vai dar à luz? Como eu disse, a data de nascimento é o dia estimado para o confinamento, porque tradicionalmente as mulheres eram confinadas na cama, “de resguardo”, do dia do parto até se convalescerem totalmente. O último ciclo menstrual é o único acontecimento observável, a partir do qual se pode calcular a gravidez sem auxílio da ultra-sonografia. O dia de confinamento (DC) e o último período menstrual (UPM) combinam-se na seguinte fórmula para calcular a data de nascimento:

DC = (UPM – 3 meses) + 7 dias

A data do nascimento geralmente é designada como o dia após 40 semanas contadas a partir do primeiro dia da última menstruação regular, no entanto, essa não é a verdadeira “data”, porque há muito mais variações na população em geral. Visto que a gravidez chega ao termo entre 38 e 42 semanas, na verdade, seria melhor falar do “mês previsto para o nascimento”.

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REGRAS DA GRAVIDEZ PARA MARIDOS: Regra nº 1: Você nunca deve usar o Calendário Esportivo Ilustrado para marcar a idade gestacional de sua esposa.
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O Ser Materno–Fetal

Sua gravidez, que tem como resultado o nascimento de uma vida tão complexa quanto qualquer outro ser humano, exige mudanças extraordinárias em seu corpo para criar uma fisiologia partilhada entre você e seu filho em desenvolvimento. Tendemos a pensar que a futura mãe e o filho em desenvolvimento são dois seres diferentes, mas essa combinação resulta, na verdade, em uma criatura diferente—a entidade mãe–filho. Quem é essa pessoa? É alguém diferente de você e de seu bebê isoladamente. Ter um bebê crescendo dentro de você é como ter um tumor, em vários sentidos. (Ter gêmeos crescendo dentro de você é ainda mais complicado.) Na maior parte, as mudanças que você notará se devem à nova ordem mundial hormonal.Oestrógeno, a progesterona, a gonadotrofina coriônica (hCG), o lactogênio placentário humano (hPL) e a prolactina (hormônio que produz o leite) são importantes hormônios da gravidez. Cada um deles tem um papel na fisiologia materno–fetal em preparação para o nascimento de sua prole. O estrógeno e a progesterona também têm papel importante na preparação de seu corpo para a concepção, aquela conhecida como o ciclo menstrual. Em suma, o estrógeno ajuda a formar o revestimento de seu útero (ventre) e, então, depois da ovulação, a progesterona ajuda a amadurecer esse tecido de modo que uma concepção tenha um leito adequado de tecido onde o ovo vai se implantar.

As mudanças e os ciclos hormonais, por estranho que possa parecer, têm seu esboço iniciado por um elemento chamado colesterol. Muito condenado por suas implicações em doenças cardíacas, na verdade é uma substância necessária. É por isso que, se você remover certo grupo de carbono—voilà!—ele se torna um hormônio precursor chamado pregnenolona. Então, da pregnenolona derivam o estrógeno, a progesterona e a testosterona, entre outros. Se você tivesse de observar as moléculas oscilarem pra lá e pra cá em um tipo de videocassete de bioquímica que fizesse replay instantâneo, veria moléculas agitando-se em volta de uma estrutura química central que não se altera, que é o esqueleto do colesterol.

Assim como um ponto marca o fim de uma sentença, a menstruação é o final de sua preparação para a gravidez, quando o revestimento receptivo de seu útero é expelido. Mas isto põe fim a um ciclo porque, à medida que o tecido que reveste o útero durante o ciclo é eliminado, as seqüências hormonais começam a tentar novamente seu próximo ciclo.

Nesse ponto, quando um óvulo fertilizado se acomoda no revestimento aconchegante de seu útero, no local de implantação, inicia-se uma reação química em cadeia que manterá os níveis hormonais de seu corpo, de modo que uma condição estável seja preservada. Um ciclo mais longo começa agora — que durar 40 semanas, até que seu útero expulse não o revestimento uterino não utilizado, mas um bebê. Como um novo ser materno–fetal, você vai ao consultório de seu médico.

Pré-natal

A não ser que você esteja sendo cuidada por uma obstetriz que a visite em casa, com a gravidez, inicia-se uma série de visitas ao consultório do obstetra. Os tipos e a freqüência das consultas são tão variados quanto os médicos que fazem os partos. A esse respeito, todo o período pré-natal é pontuado por um plano de acompanhamento médico que ele desenvolveu com os anos e que, então, adaptará para a apresentação única de sua gravidez.

Há dois tipos de população pré-natal:

– aquela em que tudo transcorre perfeitamente;

– as outras.

Não existirá gravidez perfeita até usarmos nosso conhecimento do genoma humano para que a Barbie e o Ken entrem no processo e, então, seja feita a clonagem e o pedido por correio (sem contar a entrega). É claro que primeiro teremos de resolver o problema da Barbie e do Ken, que não têm genitália.

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DICA RÁPIDA: Ou você é normal ou não é. Não se apresse em se dizer “normal”, pois até mesmo as menores preocupações garantirão o rótulo melodramático de “alto risco”; é importante observar mais atentamente condições suspeitas.
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Enquanto esperamos pela fusão controvertida da indústria de brinquedos Mattel, a química Dow e a farmacêutica UpJohn, que nos dará a gravidez perfeita, temos de focar nossa atenção para as escalas relativas, e com esse objetivo os obstetras pensam em termos de gravidez normal e de alto risco. Esses dois grupos são a forma mais generalizada de vigilância para um obstetra que esteja acompanhando uma gravidez. “Normal” e “alto risco” — estas são designações humorísticas, no sentido de que, se houver qualquer problema, um médico passará a considerar o paciente e a gravidez de alto risco.

Melodramático? Talvez, mas, se não for assim, haverá coisa demais em jogo. Toda gravidez é de suma importância. Em sua gravidez, qualquer coisa que “aparecer” deve ser considerada seriamente.

Veja também:

seta Leia um trecho do livro Seu Bebê em Perguntas e Respostas

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Trecho do Livro: A Batalha do Labirinto (Percy Jackson 4)
A Batalha do Labirinto
Autor: Rick Riordan
Editora: Intrínseca
ISBN: 9788598078700

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Obs: A Batalha do Labirinto é o quarto volume da premiada série “Percy Jackson e Os Olimpianos” criada pelo escritor norte-americano Rick Riordan. Os livros anteriores são: O Ladrão de Raios, O Mar de Monstros e A Maldição do Titã.

Notícia aos fãs: A série Percy Jackson e Os Olimpianos termina no quinto livro da saga “O Último Olimpiano“, mas haverá uma nova série, talvez a partir de 2010, sobre o Acampamento Meio-Sangue.

Notícia aos fãs: O filme O Mar de Monstros tem previsão de estreia para o ano de 2012.

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A última coisa que queria fazer nas férias de verão era destruir outra escola. Mas lá estava eu naquela manhã de segunda-feira, primeira semana de junho, sentado no carro da minha mãe diante da Goode High School, na rua 81 Leste.

A Goode ficava em um prédio grande de arenito com vista para o Rio East. Um monte de BMWs e Lincoln Towns estava estacionado diante dela. Olhando os elegantes arcos de pedra, eu me perguntei quanto tempo levaria até ser expulso daquele lugar.

— Relaxe. — A voz de minha mãe não parecia nada relaxada. — É só uma visita de orientação. E lembre, querido: esta é a escola de Paul. Portanto, tente não… você sabe.

— Destruí-la?

— É.

Paul Blofis, namorado da minha mãe, estava de pé no portão da escola, recebendo os futuros alunos do primeiro ano do ensino médio à medida que subiam os degraus. Com seus cabelos grisalhos, roupa de brim e casaco de couro, parecia um ator de tevê, mas ele era só um professor de inglês. Paul conseguira convencer a Goode High School a me aceitar no primeiro ano, apesar de eu ter sido expulso de todas as escolas que frequentei. Tentei avisá-lo de que aquela não era uma boa ideia, mas ele não me deu ouvidos.

Olhei para minha mãe.

— Você não contou a ele a verdade sobre mim, contou?

Ela tamborilava os dedos nervosamente no volante. Estava vestida para uma entrevista de emprego — seu melhor vestido azul e sapatos de salto alto.

— Pensei que seria melhor esperarmos — ela admitiu.

— Para não o espantarmos.

— Tenho certeza de que vai dar tudo certo na visita de orientação, Percy. É só uma manhã.

— Ótimo — murmurei. — Posso ser expulso antes mesmo de começar o ano letivo.

— Pense positivo. Amanhã você vai para o acampamento! Depois da orientação, você tem o encontro…

— Não é um encontro! — protestei. — É só a Annabeth, mãe. Poxa!

— Ela está vindo do acampamento até aqui para ver você.

— É, eu sei.

— Vocês vão ao cinema.

— Sim.

— Só os dois.

— Mãe!

Ela ergueu as mãos em sinal de rendição, mas eu podia ver que estava fazendo força para não rir.

— É melhor entrar, querido. Até a noite.

Eu estava prestes a sair do carro quando olhei para a escadaria da escola. Paul Blofis cumprimentava uma garota de cabelos ruivos frisados. Ela vestia uma camiseta marrom e um jeans surrado customizado com desenhos feitos com caneta hidrográfica. Quando se virou, vi seu rosto de relance, e os pelos do meu braço se eriçaram.

— Percy? — chamou minha mãe. — O que foi?

— N-nada — gaguejei. — A escola tem uma entrada lateral?

— Descendo a rua, à direita. Por quê?

— Até mais tarde.

Mamãe começou a dizer algo, mas saltei do carro e corri, torcendo para que a garota ruiva não me visse.

O que ela estava fazendo ali? Nem mesmo a minha sorte poderia ser assim tão ruim.

Pois, sim. Eu estava prestes a descobrir que minha sorte poderia ser muito pior.

Entrar sorrateiramente na escola não deu muito certo. Duas líderes de torcida de uniforme roxo e branco estavam na entrada lateral, esperando para emboscar os calouros.

— Oi! — Elas sorriram, e eu deduzi que aquela era a primeira e a última vez que uma líder de torcida seria tão simpática comigo. Uma delas era loura, com gélidos olhos azuis. A outra era afro-americana, com cabelos escuros e enroscados como o da Medusa (e, pode acreditar, eu sei do que estou falando). Ambas tinham o nome bordado em letras cursivas no uniforme, mas, com a minha dislexia, as palavras pareciam espaguete, sem nenhum sentido.

— Bem-vindo à Goode — disse a loura. — Você vai amar muito isso aqui.

Mas, enquanto me olhava de cima a baixo, sua expressão parecia dizer algo como: Argh, quem é este perdedor?

A outra garota se aproximou tanto que me senti desconfortável. Examinei o bordado em seu uniforme e consegui decifrar Kelli. Ela cheirava a rosas e a algo que reconheci das aulas de equitação no acampamento — o cheiro de cavalos recém-lavados. Era um perfume estranho para uma líder de torcida. Talvez tivesse um cavalo, ou algo assim. De qualquer modo, ela estava tão perto de mim que tive a sensação de que ia tentar me empurrar escada abaixo.

— Qual o seu nome, calo?

— Calo?

— Calouro.

— Hã, Percy.

As garotas trocaram olhares.

— Ah, Percy Jackson — disse a loura. — Estávamos à sua espera.

Isso fez um intenso arrepio de Ah, não! percorrer minha espinha. Elas estavam bloqueando a entrada, sorrindo de uma forma nada amistosa. Minha mão instintivamente se dirigiu ao bolso onde eu guardava minha caneta esferográfica letal, Contracorrente.

Então outra voz veio do interior do prédio:

— Percy? — Era Paul Blofis, de algum ponto adiante no corredor.

Eu nunca me sentira tão feliz por ouvir a voz dele.

As líderes de torcida recuaram. Eu estava tão ansioso em passar por elas que acidentalmente esbarrei o joelho na coxa de Kelli.

Clang.

Sua perna emitiu um ruído metálico e oco, como se eu tivesse acabado de atingir o mastro de uma bandeira.

— Ai — murmurou ela. — Preste atenção, calo.

Olhei para baixo, mas aquela parecia uma perna comum. Eu estava apavorado demais para fazer perguntas. Avancei apressadamente para o corredor, as duas garotas rindo atrás de mim.

— Aí está você! — exclamou Paul. — Bem-vindo à Goode!

— Ei, Paul… hã, sr. Blofis. — Olhei para trás, mas as líderes de torcida esquisitas haviam desaparecido.

— Percy, você está com cara de quem viu fantasma.

— É, hã…

— Ouça, eu sei que está nervoso, mas não se preocupe. — Paul me deu um tapinha nas costas. — Temos uma porção de garotos aqui com dislexia, transtorno de déficit de atenção e hiperatividade. Os professores sabem como ajudar.

Eu quase tive vontade de rir. Como se meus maiores problemas fossem a dislexia, o transtorno de déficit de atenção e a hiperatividade… Bem, eu sabia que Paul estava tentando ajudar, mas, se eu lhe contasse a verdade, ou ele pensaria que eu estava louco ou sairia correndo e gritando. Aquelas líderes de torcida, por exemplo — eu estava com um mau pressentimento em relação a elas…

Então olhei mais adiante no corredor e me lembrei de que havia outro problema. A garota ruiva que eu vira na escadaria da frente estava passando pela entrada principal.

Não me veja, rezei.

Mas ela me viu. Seus olhos se arregalaram.

— Onde é a orientação? — perguntei a Paul.

— No ginásio. Por ali. Mas…

— Tchau.

— Percy? — ele chamou, mas eu já estava correndo.

Pensei que a tivesse despistado.

Um grupo de garotos e garotas estava seguindo para o ginásio, e logo eu era apenas um entre os trezentos adolescentes de 14 anos amontoados nas arquibancadas. Uma banda tocava um grito de guerra da escola, que soava desafinado como se alguém estivesse batendo em um saco de gatos com um taco de beisebol de metal. Garotos mais velhos, provavelmente membros do grêmio estudantil, estavam lá na frente, apresentando o uniforme da Goode, com cara de: Ei, nós somos o máximo. Professores circulavam no local, sorrindo e apertando a mão dos alunos. As paredes do ginásio estavam cobertas por grandes bandeiras roxas e brancas onde se lia: Bem-vindos, futuros alunos do primeiro ano, a Goode é legal, somos todos uma família, e um monte de outros slogans alegres que me davam vontade de vomitar.

Nenhum dos outros futuros alunos tampouco parecia entusiasmado por estar ali; afinal, apresentar-se aos orientadores em junho — enquanto as aulas só começam em setembro — não é nada legal. Mas na Goode “Preparamos para a excelência cedo!”. Pelo menos era o que dizia o folheto.

A banda parou de tocar. Um sujeito de terno de risca de giz dirigiu-se ao microfone e começou a falar, mas o som reverberava pelo ginásio e eu não tinha a menor ideia do que ele estava dizendo. Daria no mesmo se ele estivesse gargarejando.

Alguém agarrou meu ombro.

— O que você está fazendo aqui?

Era ela: meu pesadelo ruivo.

— Rachel Elizabeth Dare — eu disse.

O queixo dela caiu, como se não pudesse acreditar que eu tivera a ousadia de me lembrar de seu nome.

— E você é Percy não sei de quê. Não cheguei a saber seu nome todo dezembro passado, quando você tentou me matar.

— Olhe, eu não estava… eu não queria… O que você está fazendo aqui?

— O mesmo que você, eu acho. Orientação.

— Você mora em Nova York?

— Por quê? Achou que eu morasse na Barragem de Hoover?

Aquilo nunca me ocorrera. Sempre que eu pensava nela (e não estou dizendo que eu pensava; ela só me passava pela cabeça de tempos em tempos, está bem?), imaginava que morasse perto da Barragem de Hoover, já que fora lá que eu a conhecera. Havíamos passado acho que uns dez minutos juntos, e nesse meio-tempo eu acidentalmente a golpeara com uma espada, ela salvara minha vida e eu fugira correndo, perseguido por um bando de máquinas assassinas sobrenaturais. Sabe, um encontro assim… bem comum.

Um garoto atrás de nós murmurou:

— Ei, calem a boca. As líderes da torcida estão falando!

— Oi, pessoal! — disse efusivamente uma garota ao microfone. Era a loura que eu vira na entrada. — Meu nome é Tammi, e esta é, bem, Kelli. — Kelli deu uma estrela.

A meu lado, Rachel gritou como se alguém a tivesse espetado com um alfinete. Alguns garotos olharam na direção dela e soltaram uma risadinha abafada, mas Rachel continuou encarando fixamente as líderes de torcida, aterrorizada. Tammi não pareceu perceber a agitação. Ela começou a falar sobre todas as atividades maravilhosas nas quais poderíamos nos envolver em nosso primeiro ano.

— Corra — disse-me Rachel. — Agora.

— Por quê?

Ela não explicou. Abriu caminho até a lateral da arquibancada, ignorando os professores de testa franzida e os resmungos dos alunos nos quais pisava.

Eu hesitei. Tammi estava explicando que nos dividiríamos em pequenos grupos e faríamos um tour pela escola. O olhar de Kelli encontrou o meu e ela me dirigiu um sorriso divertido, como se estivesse esperando para ver o que eu ia fazer. Ficaria mal se eu saísse naquele momento. Paul Blofis estava lá embaixo com os outros professores. Ele ficaria imaginando qual era o problema.

Então pensei em Rachel Elizabeth Dare, e na habilidade especial que ela demonstrara no último inverno na Barragem de Hoover. Ela conseguira enxergar um grupo de seguranças que não eram guardas de verdade, não eram nem humanos. Com o coração batendo forte, eu me levantei e a segui, saindo do ginásio.

Encontrei Rachel na sala de música. Ela estava escondida atrás de um tambor, na seção de percussão.

— Venha até aqui! — chamou. — Mantenha a cabeça baixa!

Eu me senti bastante bobo escondido atrás de alguns bongôs, mas me agachei ao lado dela.

— Elas seguiram você? — perguntou Rachel.

— Está se referindo às líderes de torcida?

Ela assentiu, nervosa.

— Acho que não — eu disse. — O que elas são? O que foi que você viu?

Seus olhos verdes brilhavam de medo. As sardas salpicadas no rosto me lembravam constelações. Sua camiseta marrom dizia Departamento de Arte de Harvard.

— Você… você não iria acreditar em mim.

— Ah, iria sim — garanti. — Sei que consegue ver através da Névoa.

— Do quê?

— Da Névoa. É… bem, é como um véu que esconde o que as coisas são de verdade. Alguns mortais nascem com a habilidade de enxergar através dela. Como você.

Ela me olhou com atenção.

— Você fez isso na Barragem de Hoover. Disse que eu era mortal. Como se você não fosse.

Tive vontade de dar um soco em um bongô. O que eu estava pensando? Nunca conseguiria explicar. Não deveria nem estar tentando.

— Fale para mim — ela implorou. — Você sabe o que isso quer dizer. Todas essas coisas horríveis que eu vejo?

— Olhe, isso vai soar estranho. Você sabe alguma coisa sobre mitologia grega?

— Como… o Minotauro e a Hidra?

— Sim, mas tente não dizer esses nomes quando eu estiver por perto, o.k.?

— E como as Fúrias — continuou ela, animando-se. — E como as sereias, e…

— O.k.! — Dei uma olhada pela sala de música, certo de que Rachel ia fazer um bando de criaturas asquerosas e sedentas de sangue pular das paredes; mas ainda estávamos sozinhos. Mais à frente, no corredor, ouvi um grupo de garotos saindo do ginásio. Estavam começando o tour. Não tínhamos muito tempo para conversar.

— Todos aqueles monstros — eu disse —, todos os deuses gregos… eles são de verdade!

— Eu sabia!

Teria me sentido mais à vontade se ela tivesse me chamado de mentiroso, mas a expressão de Rachel mostrava que eu acabara de confirmar suas piores suspeitas.

— Você não sabe como é difícil — disse ela. — Durante anos pensei que estivesse ficando maluca. Eu não podia contar a ninguém. Não podia… — Seus olhos se estreitaram. — Peraí. Quem é você? Quer dizer, de verdade?

— Eu não sou um monstro.

— Bem, disso eu sei. Eu veria se você fosse. Você parece… você. Mas não é humano, é?

Engoli em seco. Embora tivesse tido três anos para me acostumar a ser quem era, eu nunca havia falado a respeito disso com um mortal comum — isto é, exceto com minha mãe, mas ela já sabia. Não sei por quê, mas resolvi me arriscar.

— Sou um meio-sangue — eu disse. — Sou metade humano.

— E metade o quê?

Nesse momento Tammi e Kelli entraram na sala de música. As portas se fecharam atrás delas com estrondo.

— Aí está você, Percy Jackson — disse Tammi. — Chegou a hora da sua orientação.

— Elas são horríveis! — suspirou Rachel.

Tammi e Kelli ainda usavam o uniforme roxo e branco de líderes de torcida, segurando os pompons da apresentação.

— Qual é a aparência real delas? — perguntei, mas Rachel parecia perplexa demais para responder.

— Ah, deixe ela para lá! — Tammi me lançou um sorriso brilhante e começou a caminhar na minha direção. Kelli permaneceu na porta, bloqueando nossa saída.

Elas nos haviam apanhado em uma armadilha. Eu sabia que teríamos de lutar para escapar, mas o sorriso de Tammi era tão deslumbrante que me distraía. Seus olhos azuis eram lindos, e o modo como os cabelos balançavam nos ombros…

— Percy — advertiu Rachel.

Eu disse algo muito inteligente, do tipo:

— Hein?

Tammi estava se aproximando. Ela estendeu os pompons.

— Percy! — A voz de Rachel parecia vir de um lugar muito distante. — Dê o fora daí!

Precisei usar toda a minha força de vontade, mas consegui pegar a caneta no bolso e destampá-la. Contracorrente então se transformou em uma espada de bronze de noventa centímetros, a lâmina brilhando com uma suave luz dourada. O sorriso de Tammi tornou-se uma expressão de escárnio.

— Ah, pare com isso! — protestou ela. — Você não precisa disso. Que tal um beijo, em vez dessa coisa?

Ela cheirava a rosas e a pelo limpo de animal — um aroma estranho, mas de alguma forma intoxicante.

Rachel beliscou meu braço com força.

— Percy, ela quer morder você! Olhe para ela!

— Ela só está com ciúme. — Tammi olhou na direção de Kelli. — Posso, senhora?

Kelli ainda estava bloqueando a porta, lambendo os lábios, faminta.

— Vá em frente, Tammi. Está indo bem.

Tammi avançou mais um passo, mas apontei a espada contra seu peito.

— Para trás!

Ela rosnou.

— Calouros — disse, com desprezo. — Esta é a nossa escola, meio-sangue. Nós nos alimentamos de quem escolhemos!

Então ela começou a ficar diferente. A cor se esvaiu de seu rosto e de seus braços. A pele se tornou branca como giz, os olhos, completamente vermelhos. Os dentes cresceram e viraram presas.

— Uma vampira! — balbuciei. Então notei suas pernas. Abaixo da saia do uniforme, a perna esquerda era marrom e peluda, com um casco de burro. A direita tinha o formato de uma perna humana, mas era feita de bronze. — Hã, uma vampira com…

— Não fale das pernas! — disse Tammi. — É grosseiro zombar disso!

Ela avançou com suas pernas estranhas, descombinadas. Parecia totalmente bizarra, mais ainda com os pompons, mas eu não conseguia rir — não encarando aqueles olhos vermelhos e as presas afiadas.

— Uma vampira, você disse? — Kelli riu. — Essa lenda boboca foi inspirada em nós, seu tolo. Somos empousai, servas de Hécate.

— Hummm. — Tammi aproximou-se ainda mais. — A magia negra nos criou a partir de um animal, do bronze e de fantasmas! Existimos para nos alimentar do sangue de homens jovens. Agora venha e me dê aquele beijo!

Ela mostrou as presas. Fiquei paralisado, sem conseguir me mover, mas Rachel jogou um tarol na cabeça da empousa.

O demônio sibilou e, com um golpe, desviou o tarol, que foi rolando pelos corredores entre os suportes de partituras, as molas chocalhando de encontro ao couro. Rachel lançou então um xilofone, mas o demônio também o desviou com um tapa.

— Geralmente não mato garotas — grunhiu Tammi. — Mas para você, mortal, vou abrir uma exceção. Você enxerga um pouquinho demais!

Ela investiu contra Rachel.

— Não! — Desferi um golpe com Contracorrente. Tammi tentou esquivar-se à lâmina, mas consegui perfurar seu uniforme de líder de torcida, e com um gemido horrível ela explodiu em uma nuvem de pó sobre Rachel.

Rachel tossiu. Parecia que tinham acabado de jogar um saco de farinha em cima dela.

— Que nojo!

— Isso acontece com os monstros — eu disse. — Desculpe-me.

— Você matou minha estagiária! — gritou Kelli. — Precisa de uma lição sobre espírito esportivo, meio-sangue!

Então ela também começou a se transformar. Os cabelos crespos tornaram-se chamas bruxuleantes. Os olhos ficaram vermelhos. As presas cresceram. Ela veio em nossa direção, o pé de bronze e o casco ressoando descompassados no piso da sala de música.

— Eu sou a empousa sênior — grunhiu. — Nenhum herói me derrota há mil anos.

— Mesmo? — perguntei. — Então já passou da validade!

Kelli era bem mais rápida que Tammi. Esquivou-se ao meu primeiro golpe e rolou para a seção de metais, derrubando uma fileira de trombones com um ruído altíssimo. Rachel saiu do caminho. Coloquei-me entre ela e a empousa. Kelli nos rodeou, os olhos indo de mim para a espada.

— Uma laminazinha tão linda — disse ela. — Que pena que está entre nós dois.

Sua forma tremeluzia — às vezes um demônio, às vezes uma linda líder de torcida. Eu tentava manter a mente focada, mas aquilo era muito perturbador.

— Pobrezinho — riu Kelli. — Você não sabe nem o que está acontecendo, não é? Logo seu lindo acampamentozinho estará em chamas, seus amigos se tornarão escravos do Senhor do Tempo, e não há nada que possa fazer para evitar isso. Seria até misericordioso dar um fim à sua vida agora, antes que tenha tempo de assistir a tudo.

Eu ouvia vozes vindo do fim do corredor. Um grupo fazendo o tour se aproximava. Um homem falava algo sobre combinação de cadeados.

Os olhos da empousa se iluminaram.

— Excelente! Vamos ter companhia!

Ela apanhou uma tuba e a lançou contra mim. Rachel e eu nos abaixamos. A tuba voou sobre nossas cabeças e quebrou a janela.

As vozes no corredor se calaram.

— Percy! — gritou Kelli, fingindo-se assustada. — Por que você atirou aquilo?

Eu estava surpreso demais para responder. Kelli pegou um suporte de partitura e atingiu uma fileira de clarinetas e flautas. Cadeiras e instrumentos musicais desabaram no chão com um estrondo.

— Pare! — eu gritei.

As pessoas agora disparavam pelo corredor, vindo em nossa direção.

— Hora de cumprimentar os nossos visitantes! — Kelli arreganhou as presas e correu para as portas. Fui atrás dela com Contracorrente. Precisava evitar que ela ferisse os mortais.

— Percy, não! — gritou Rachel. Mas eu não percebi o que Kelli pretendia até que fosse tarde demais.

Kelli abriu as portas. Paul Blofis e um grupo de calouros recuaram, em choque. Eu ergui minha espada.

No último segundo, a empousa se virou para mim como uma vítima apavorada.

— Ah, não, por favor! — gritou.

Eu não podia parar a lâmina, que já estava em movimento.

Segundos antes de o bronze celestial atingi-la, Kelli explodiu em chamas como um coquetel molotov. Ondas de fogo lançaram-se sobre tudo. Eu nunca vira um monstro fazer algo assim, mas não tinha tempo para pensar no assunto. Recuei para a sala de música enquanto as chamas engoliam o vão de entrada.

— Percy? — Paul Blofis parecia totalmente atônito, fitando-me através do fogo. — O que você fez?

Adolescentes gritavam e corriam pelo corredor. O alarme de incêndio soava. Os sprinklers no teto silvavam, ganhando vida.

Em meio ao caos, Rachel me puxou pela manga da camisa.

— Você precisa sair daqui!

Ela estava certa. A escola estava em chamas e a culpa seria atribuída a mim. Os mortais não conseguiam ver com perfeição através da Névoa. Para eles, pareceria que eu atacara uma garota indefesa diante de um grupo de testemunhas. Não havia como eu explicar. Dei as costas para Paul e disparei para a janela da sala de música destruída.

Saí da viela na 81 Leste e dei de cara com Annabeth.

— Ei, você saiu cedo! — Ela riu, agarrando meus ombros para evitar que eu me estatelasse no chão. — Olhe para onde está indo, Cabeça de Alga.

Por uma fração de segundo ela estava de bom humor e tudo corria bem. Vestia jeans e a camisa laranja do acampamento, e usava o colar de contas de cerâmica. O cabelo louro estava preso em um rabo de cavalo. Os olhos cinzentos brilhavam. Ela parecia pronta para ir ao cinema e passar uma tarde divertida comigo.

Então Rachel Elizabeth Dare, ainda coberta de poeira de monstro, veio correndo pela viela, gritando:

— Percy, espere!

O sorriso de Annabeth se desfez. Ela olhou para Rachel e, em seguida, para a escola. Foi então que pareceu notar a fumaça negra e o som dos alarmes de incêndio.

Ela me olhou, franzindo a testa.

— O que foi que você fez dessa vez? E quem é essa?

— Ah, Rachel… Annabeth. Annabeth… Rachel. Hã, ela é uma amiga, acho.

Eu não sabia ao certo como chamar Rachel. Quer dizer, eu mal a conhecia, mas, depois de estarmos juntos duas vezes em situações de vida ou morte, eu não podia simplesmente dizer que ela não era ninguém.

— Oi — disse Rachel, e então se virou para mim: — Você está muito encrencado. E ainda me deve uma explicação!

As sirenes da polícia gemiam na FDR Drive.

— Percy — Annabeth falou com frieza. — Precisamos ir.

— Quero saber mais sobre meios-sangues — insistiu Rachel. — E monstros. E essa história dos deuses. — Ela agarrou meu braço, pegou uma caneta permanente e escreveu um número de telefone em minha mão. — Vai me ligar e explicar tudo, o.k.? Você me deve isso. Agora vá.

— Mas…

— Vou inventar uma história — disse Rachel. — Vou dizer a eles que não foi culpa sua. Mas vá!

Ela voltou correndo para a escola, deixando-me na rua com Annabeth.

Annabeth me encarou por um segundo. Então se virou e começou a correr.

— Ei! — Fui atrás dela. — Lá dentro tinha duas empousai — tentei explicar. — Eram líderes de torcida, sabe, e disseram que o acampamento ia pegar fogo, e…

— Você contou a uma garota mortal sobre os meios-sangues?

— Ela pode ver através da Névoa. Viu os monstros antes que eu os notasse.

— Então você contou a ela a verdade.

— Ela me reconheceu da Barragem de Hoover…

— Você a tinha encontrado antes?

— Hã… O inverno passado. Mas, sério, eu mal a conheço.

— Ela é bem bonitinha.

— Eu… eu nunca reparei nisso.

Annabeth continuava andando na direção da avenida York.

— Vou resolver a história da escola — prometi, ansioso para mudar de assunto. — De verdade, vai ficar tudo bem.

Annabeth nem mesmo me olhava.

— Acho que nossa tarde já era. É melhor tirarmos você daqui, agora que a polícia vai sair à sua procura.

Atrás de nós, a fumaça se erguia da Goode High School em ondas. Na coluna escura de cinzas tive a impressão de quase enxergar um rosto — um demônio feminino, de olhos vermelhos, rindo de mim.

Seu lindo acampamentozinho em chamas, dissera Kelli. Seus amigos transformados em escravos do Senhor do Tempo.

— Você tem razão — disse a Annabeth, com o coração apertado. — Precisamos ir para o Acampamento Meio-Sangue. Agora.

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Trecho do Livro: Para Sempre – Os Imortais | Alyson Noel
Livro Para Sempre Os Imortais
Autora: Alyson Noel
Editora: Intrínseca
ISBN: 9788598078625

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As cores da aura e seus significados:

Vermelho: energia, força, raiva, paixão, medo, ego
Laranja: autocontrole, ambição, coragem, poder de reflexão, desânimo, apatia
Amarelo: otimismo, felicidade, intelectualidade, amizade, indecisão, vulnerabilidade à influência alheia
Verde: serenidade, poder de cura, compaixão, farsa, ciúme
Azul: espiritualidade, lealdade, criatividade, sensibilidade, generosidade, humor instável
Violeta: alta espiritualidade, sabedoria, intuição
Índigo: benevolência, intuição apurada, busca existencial
Rosa: amor, sinceridade, amizade
Cinza: depressão, tristeza, cansaço, falta de energia, ceticismo
Marrom: ambição, egoísmo, opiniões fortes
Preto: falta de energia, doença, morte iminente
Branco: equilíbrio perfeito

—–

— Adivinha!

As mãos quentes e úmidas de Haven apertam minhas bochechas, e seu anel, um crânio de prata escurecido, deixa uma marca de sujeira sobre minha pele. E mesmo que meus olhos estejam cobertos e fechados, sei que os cabelos dela, tingidos de preto, estão partidos ao meio; um espartilho de vinil preto se sobrepõe a uma blusa de gola rulê — mantendo-se em conformidade com o código de vestimenta de nossa escola; a saia comprida de cetim preto, apesar de nova, já tem um furo próximo à bainha, de quando ela pisou com o bico das botas Doc Martens; os olhos parecem dourados, mas só porque ela está usando lentes de contato amarelas.

Também sei que o pai dela não está viajando “a trabalho”, como ele mesmo disse; que o personal trainer de sua mãe é muito mais “personal” que “trainer” e que o irmão caçula quebrou um CD dela, do Evanescence, e agora está com medo de contar.

Mas não sei isso tudo porque andei bisbilhotando a vida dela, nem porque alguém me contou. Sei porque tenho poderes sobrenaturais.

— Anda logo, adivinha! Daqui a pouco o sinal vai tocar! — ela diz com a voz rouca.

Enrolo um pouco enquanto penso na última pessoa com quem ela gostaria de ser confundida.

— Hilary Duff?

— Eca! Vai, tenta de novo. — Ela aperta ainda mais forte, nem sequer desconfiando de que não preciso ver para saber.

— Será a sra. Marilyn Manson?

Ela ri e desencosta as mãos, e então lambe o polegar para apagar a tatuagem de sujeira em minha bochecha, mas levanto o braço antes que ela possa me alcançar. Não porque tenha nojo da saliva dela (quer dizer, sei que Haven não tem doença nenhuma), mas porque não quero que encoste em mim novamente. O toque humano é muito revelador, muito cansativo, então procuro evitá-lo a todo o custo.

Com um gesto rápido, ela tira o capuz de minha cabeça e aperta os olhos ao ver meus fones de ouvido.

— O que você está ouvindo?

Levo a mão ao bolsinho para iPod que costurei no capuz de todos os meus moletons (para esconder dos professores os tão conhecidos fiozinhos brancos) e entrego a ela o aparelho.

— Puxa… — ela diz com os olhos arregalados. — Quer dizer, que barulheira é essa? Quem é que está cantando isso?

Haven se curva para que nós duas possamos ouvir Sid Vicious berrando sobre a anarquia no Reino Unido. Na verdade, nem sei se ele é a favor ou contra. Sei apenas que berra o suficiente para dar uma acalmada em meus supersentidos.

— Sex Pistols — respondo, desligando o iPod e guardando-o de volta no esconderijo.

— Nem sei como você pôde me ouvir. — Haven sorri ao mesmo tempo que o sinal toca.

Simplesmente dou de ombros. Não preciso escutar para ouvir. Claro, não é isso que digo a ela. Falo apenas que a gente vai se ver de novo na hora do almoço e vou para minha aula, atravessando o campus da escola e encolhendo-me ao intuir os dois garotos que se aproximam pelas costas de Haven e pisam a bainha da saia dela — por pouco não a fazem cair. Mas quando ela se vira para trás, faz o sinal do Mal (certo, não é o sinal do Mal, mas algo que ela mesma inventou) e os encara com aqueles olhos amarelos, eles imediatamente se afastam e a deixam em paz. Quanto a mim, suspiro aliviada e entro na sala de aula, sabendo que não vai demorar muito até que eu deixe de sentir a energia persistente do toque de Haven.

A caminho de minha carteira, no fundo da sala, desvio-me da bolsa que Stacia Miller deixou de propósito em meu caminho e ignoro a serenata — “Per-de-do-ra!” — que ela diariamente sussurra ao me ver. Em seguida, acomodo-me na carteira, tiro livro, caderno e caneta da mochila, coloco os fones de ouvido, visto o capuz, jogo a mochila na carteira vazia a meu lado e espero pela chegada do sr. Robins.

O sr. Robins está sempre atrasado. Sobretudo porque gosta de tomar uns goles de seu cantil de prata entre uma aula e outra. Mas bebe apenas porque a mulher grita com ele o tempo todo, a filha o considera um fracassado e ele, quase sempre, detesta a própria vida. Descobri tudo isso em meu primeiro dia nesta escola, quando acidentalmente toquei na mão dele ao entregar o formulário de transferência. Agora, portanto, sempre que tenho de lhe entregar algo, deixo na beirada da mesa.

Fecho os olhos e espero, enquanto meus dedos deslizam pelo moletom, a fim de trocar o barulhento Sid Vicious por algo mais leve, mais tranquilo. A gritaria de Sid não é mais necessária agora que estou na sala de aula. Acho que a relação entre professor e alunos ajuda a conter, pelo menos até certo ponto, minha energia mediúnica.

Nem sempre fui essa bizarrice que sou hoje. Já fui uma adolescente normal, do tipo que ia às festinhas da escola, se apaixonava por celebridades e tinha tanto orgulho dos cabelos louros que jamais pensaria em prendê-los num rabo de cavalo ou escondê-los sob um capuz. Eu tinha mãe, pai, uma irmã caçula chamada Riley e uma cadela labrador amarela, fofíssima, de nome Buttercup. Morava numa casa agradável, num bairro bacana de Eugene, no Oregon. Era popular, feliz e mal podia esperar para chegar ao segundo ano, pois tinha acabado de me tornar chefe de torcida da principal equipe da escola. Minha vida era completa, e o céu era o limite. Essa história de céu pode ser um tanto gasta, mas, no meu caso, ironicamente, é também a mais pura verdade.

No entanto, sei tudo isso apenas por ouvir dizer, pois desde o acidente só me lembro claramente de uma coisa: eu morri.

Tive o que as pessoas chamam de “experiência de quase-morte”, ou EQM. Acontece que as pessoas estão erradas. Podem acreditar, não houve nada de “quase” no que me aconteceu. Foi assim: num instante, Riley e eu estávamos no banco de trás do SUV do papai, Buttercup com a cabeça pousada no colo de minha irmã e o rabo batendo suavemente em minha perna, e a próxima lembrança… os airbags inflados, o carro inteiramente destruído, e eu lá, assistindo a tudo do lado de fora.

Olhando para os destroços — os estilhaços de vidro, as portas amassadas, o para-choque dianteiro agarrado ao tronco de um pinheiro num abraço letal —, fiquei me perguntando o que poderia ter acontecido de errado, esperando e suplicando que todos tivessem conseguido sair dali como eu. De repente, ouvi um latido familiar; virei para trás e vi minha família seguindo por um caminho, guiada por Buttercup, que abanava o rabo.

Fui ao encontro deles. De início, tentei correr e alcançá-los, mas depois fui mais devagar, querendo me demorar e passear por aquele campo vasto e perfumado de árvores e flores vibrantes que tremeluziam, e apertando os olhos diante da névoa deslumbrante que refletia e brilhava intensamente, iluminando tudo.

Prometi a mim mesma que seria rápido, que logo voltaria para encontrar minha família. Mas, quando enfim olhei, só deu tempo de, num relance, eles sorrirem e acenarem para mim ao atravessarem uma ponte, sumindo de vista pouco depois.

Entrei em pânico. Olhando para todas as direções, comecei a correr de um lado para o outro, mas tudo parecia igual: uma névoa sem fim, tépida, branca, brilhante, iluminada, bonita e estúpida. Então, caí no chão e fiquei ali, morrendo de frio, chorando, gritando, xingando, implorando, fazendo promessas que sabia jamais poder cumprir.

Foi então que ouvi alguém dizer:

— Ever? É esse seu nome? Abra os olhos e olhe para mim.

Aos tropeços, voltei para a superfície, onde tudo era dor e sofrimento, e minha testa porejava de tanta dor, uma dor lancinante. Então olhei fixamente para o sujeito que se curvava sobre mim, dentro de seus olhos escuros, e sussurrei:

— Sim, sou Ever. — E desmaiei outra vez.

—–

Segundos antes de o sr. Robins entrar na sala baixei o capuz, desliguei o iPod e fingi ler meu livro, sem me dar o trabalho de levantar a cabeça quando ele disse:

— Pessoal, este é Damen Auguste. Acabou de se mudar do Novo México. Muito bem, Damen, pode se sentar lá atrás, ao lado da Ever. Vai ter de acompanhar com o livro dela até comprar o seu.

Damen é lindo. Sei disso sem precisar espiá-lo nem uma única vez. Mantenho os olhos cravados no livro enquanto ele anda para os fundos da sala, pois já conheço minha turma como a palma de minha mão. No que me diz respeito, um pouquinho de ignorância até que não seria mau.

Mas, segundo os pensamentos mais recônditos de Stacia Miller, sentada apenas duas filas à minha frente, Damen Auguste é um espetáculo!

A melhor amiga dela, Honor, concorda em gênero, número e grau.

Assim como o Craig, namorado da tal Honor, mas isso já é outra história.

— Oi. — Damen se espreme na carteira a meu lado, minha mochila produzindo um baque surdo ao ser jogada no chão.

Retribuo o cumprimento com um aceno de cabeça, recusando-me a olhar além das botas de motoqueiro dele. Lustrosas e pretas, muito mais para revista de moda que para Hells Angels. Bem diferentes da profusão de chinelos coloridos que salpica o carpete verde da sala.

O sr. Robins pede que a gente abra o livro na página 133, e Damen se inclina em minha direção.

— Posso acompanhar com você? — diz.

Apavorada com tanta proximidade, hesito um pouco, mas depois empurro o livro até a beirada de minha carteira, o mais longe que consigo sem derrubá-lo no chão. E quando ele arrasta sua cadeira para perto, ocupando o pouco espaço que havia entre nós, deslizo para a extremidade oposta da minha, o mais longe possível. E novamente me escondo sob o capuz.

Damen ri baixinho. Como ainda não olhei para ele, não faço a menor ideia do que isso possa significar. Foi um risinho discreto e gostoso, mas talvez tivesse um duplo sentido qualquer.

Afundo na carteira ainda mais, a cabeça apoiada em uma das mãos, os olhos fixos no relógio e determinada a ignorar todos os olhares e comentários maldosos desferidos contra mim. Tais como: Coitado do novato bonitão… ter de se sentar ao lado da esquisitona! É mais ou menos isso o que passa pela cabeça de Stacia, Honor, Craig… e de quase todo mundo na sala.

Bem, todo mundo menos o sr. Robins, que, como eu, não vê a hora de chegar o fim da aula.

No almoço, ninguém fala de outro assunto que não seja Damen.

Já viu o aluno novo? Que gato, hem?… É… Ouvi dizer que é do México… Do México, não, da Espanha… Tanto faz, de um outro país qualquer… É claro que vou convidar ele pro Baile de Inverno… Mas você nem conhece o cara ainda!… Fique tranquila, porque vou conhecer…

— E aí, amiga? Já viu o tal de Damen? O que acabou de chegar! — Haven se senta a meu lado e espia através da franja, que de tão comprida chega a roçar os lábios pintados de vermelho.

— Ah!, não, você também, não… — Balanço a cabeça e cravo os dentes em minha maçã.

— Aposto que você não diria isso se tivesse tido o privilégio de ver o cara — ela diz, retirando o cupcake de baunilha da caixa de papelão rosa e lambendo a cobertura de glacê, tal como faz todos os dias, embora ela se vista como alguém que não hesitaria nem mesmo um segundo antes de trocar um cupcake por um bom copo de sangue.

— Vocês estão falando sobre o Damen, é? — sussurra Miles, deslizando no banco e fincando os cotovelos na mesa, os olhos castanhos oscilando entre nosso rosto, um sorriso maroto estampado no rostinho de bebê. — Que gato! Vocês viram as botas? Tão Vogue… Acho que vou perguntar se ele quer ser meu próximo namorado.

Haven aperta os olhos amarelos na direção dele.

— Tarde demais — diz. — Eu vi primeiro.

— Poxa, foi mal. Não sabia que você curtia “não góticos”. — Ele dá um risinho, revira os olhos e desembrulha seu sanduíche.

Haven ri de volta.

— Se forem como ele, curto. Juro que ele é simplesmente um absurdo de tão irresistível, você precisa ver. — E balançando a cabeça, irritada com minha indiferença, vira-se para mim e diz: — Ele é demais!

— Você ainda não viu? — espanta-se Miles, segurando o sanduíche.

Baixo os olhos para a mesa, muito inclinada a contar uma mentira. Diante daquele carnaval todo, não conseguia ver outra saída. Mas não posso mentir, não para eles. Haven e Miles são meus melhores amigos. Os únicos que tenho. Além disso, já guardo segredos demais.

— Ele se sentou ao meu lado na aula de inglês — digo, finalmente. — Fui obrigada a dividir o livro com ele, mas não cheguei a vê-lo direito.

— Obrigada? — Haven move a franja para o lado para ver melhor a maluca que foi capaz de proferir tamanha asneira. — Ah, deve ter sido horrível pra você, um suplício, né? — Ela revira os olhos e suspira. — Eu juro: você não faz ideia da sorte que tem! Devia estar agradecendo de joelhos!

— Que livro vocês leram juntos? — pergunta Miles, como se o título pudesse revelar algo de muito importante.

— O Morro dos Ventos Uivantes — respondo, dando de ombros. Coloco o que restou da maçã sobre um guardanapo e dobro as pontas em torno dela.

— E o capuz? — pergunta Haven. — Com ou sem?

Depois de certo esforço, lembro que botei o capuz enquanto Damen caminhava em minha direção.

— Hmm… com. É, tenho certeza: com.

— Ainda bem — resmunga Haven, aliviada, partindo o cupcake em dois. — A última coisa de que preciso é competir com a deusa dos cabelos dourados.

Eu me encolho e mais uma vez baixo os olhos para a mesa. Fico envergonhada quando as pessoas fazem elogios assim, que no passado costumavam ser muito importantes para mim. Agora, não são mais.

— Mas, e o Miles? — pergunto, desviando a atenção para alguém realmente capaz de apreciá-la. — Você não acha que ele também é um forte candidato?

— Isso mesmo! — Miles passa a mão pelos curtos cabelos castanhos e vira de perfil, oferecendo-nos seu melhor ângulo. — Eu também estou na parada!

— Bobagem — diz Haven, limpando do colo as migalhas brancas. — Damen e Miles não jogam no mesmo time. Pelo menos dessa vez, a beleza estonteante e incomparável de nosso amigo top model não vai contar.

— Como você sabe em que time ele joga? — pergunta Miles, apertando as pálpebras enquanto destampa sua garrafa de isotônico. — Como pode ter tanta certeza assim?

— Meu gaydar não apitou — explica Haven, dando um tapinha na própria testa. — Confie em mim: o cara não aparece nele.

Pois bem, Damen é meu colega não só na aula de inglês do primeiro tempo, como também na de educação artística do sexto (não que ele tenha se sentado ao meu lado, nem que eu tenha procurado, mas os pensamentos que pipocavam pela sala, mesmo os de nossa professora, a sra. Machado, foram suficientes para que eu me desse conta da presença dele). E como se isso não bastasse agora vejo que ele estacionou o carro bem ao lado do meu. Até então eu havia conseguido me conter e não olhar para outra parte além das botas do sujeito, mas agora, eu sabia, minhas possibilidades de escapar chegavam ao fim.

— Ai, meu Deus! É ele! Está vindo bem em nossa direção! — exclama Miles, com os trinados de soprano que reserva apenas para os momentos mais excitantes. — E olha aquele carro! Um BMW preto novinho em folha! E com o insulfilme mais escuro que existe! Um espetáculo! Olhe, o plano é o seguinte: vou abrir a porta e acidentalmente bater na porta dele; então terei uma desculpa pra falar alguma coisa. — Ele se vira para mim em busca de aprovação.

— Não arranhe meu carro. Nem o carro dele. Nem o de qualquer outra pessoa — eu digo, balançando a cabeça e tirando as chaves da mochila.

— Tudo bem — resmunga Miles, fazendo beicinho. — Pode arruinar meus sonhos, não me importo. Mas faça um favor a si mesma e dê uma conferida no cara! Depois quero ouvir você dizer, olhando fundo nos meus olhos, que não pirou nem ficou de perna bamba com o que viu!

Reviro os olhos e me espremo entre meu carro e o Fusca vizinho, tão mal estacionado, que parece querer montar no meu Miata. Já estou com a chave na porta quando, atrás de mim, Miles me surpreende, puxa meu capuz para baixo, arranca meus óculos e corre para o lado do passageiro, onde, com gestos nada sutis da cabeça e do polegar, insiste para que eu olhe para o Damen, que a essa altura já está atrás dele.

Então, obedeço. Bem, não posso continuar evitando o cara pelo restante da vida. Assim, respiro fundo e levanto os olhos.

E o que vejo me deixa incapacitada de falar, piscar ou mover qualquer outra parte do corpo.

Percebendo meu estado, Miles arregala os olhos e começa a abanar as mãos freneticamente, fazendo o que pode para abortar a missão e me trazer de volta ao “quartel-general”, à normalidade. Mas não posso. Quer dizer, bem que eu gostaria, porque sei que estou agindo exatamente como a esquisitona que todos já acham que sou. Mas não dá, é impossível. E não apenas por causa da beleza inquestionável do tal de Damen. Tudo bem, os cabelos são lindos, luminosos e compridos; vão descendo ao longo das maçãs do rosto, salientes e esculpidas a cinzel, até roçar os ombros. Mas quando ele ergue os óculos de sol para me fitar de volta, constato que os olhos dele, estranhamente familiares, são amendoados e escuros, emoldurados em cílios tão longos que quase parecem falsos. Ah, e os lábios! Os lábios são carnudos e convidativos, tão bem desenhados quanto um arco de Cupido. E o corpo que sustenta tudo isso é alto, magro, firme. Vestido de preto de cima a baixo.

— Ei, Ever! Alô-ou! Você pode acordar agora. Por favor! — Miles vira-se para Damen, rindo de nervoso. — Não repare na minha amiga, não. Geralmente ela se esconde debaixo do capuz.

Não é que eu não saiba que tenho de parar, e parar agora. Mas os olhos de Damen, pregados nos meus, vão se tornando de um colorido cada vez mais intenso à medida que os lábios esboçam um sorriso.

Mas, como já disse, não é a beleza estonteante dele que me paralisa dessa forma. Um fato não tem nenhuma relação com o outro. Acontece que toda a área em torno do corpo dele, desde a gloriosa cabeça até a ponta quadrada das botas pretas de motoqueiro, consiste em nada além de um espaço vazio, em branco.

Nenhuma cor. Nenhuma aura. Nenhum espetáculo de luzes pulsantes.

—–

Todo o mundo tem uma aura. Todos os seres vivos têm espirais de cor que emanam do corpo. Um campo energético multicolorido do qual nem se dão conta. Nada perigoso ou assustador, nem ruim, de forma alguma, mas apenas parte de um campo magnético visível — bem, ao menos para mim.

Antes do acidente, eu nem fazia ideia de coisas assim. E, definitivamente, não era capaz de vê-las. Mas desde que acordei no hospital vejo cores por toda parte.

— Tudo bem com você? — perguntou a enfermeira ruiva, preocupada.

— Sim, mas por que você está toda rosa? — respondi, sem entender o porquê daquele brilho rosado que a cercava.

— Por que estou o quê? — ela se esforçou para disfarçar o susto.

— Rosa. Isso que está aí ao seu redor, especialmente da cabeça.

— O.K., meu amor, fique aí descansando, que vou chamar o médico. — Ela me deixou sozinha no quarto e saiu correndo pelo corredor.

Só depois de passar por uma batelada de exames oftalmológicos, ressonâncias cerebrais e avaliações psiquiátricas foi que aprendi a guardar minhas visões para mim mesma. E mais tarde, quando passei a ouvir pensamentos, a captar histórias de vida pelo toque e a conversar com minha irmã morta, já estava escaldada o suficiente para ficar de bico calado.

Acho que já me acostumei a viver assim; nem sequer recordava que existe um jeito diferente. Mas ao ver Damen emoldurado apenas no preto reluzente da carroceria de um carro chiquérrimo e caríssimo, acabei me lembrando de outro tempo da minha vida, mais feliz e mais normal.

— Seu nome é Ever, certo? — ele pergunta, enfim abrindo o sorriso esboçado há pouco e revelando mais uma de suas inúmeras perfeições: dentes incrivelmente brancos.

Eu fico ali, inutilmente tentando desviar o olhar, enquanto Miles começa a pigarrear feito um maluco. Só então me lembro de quanto ele detesta ser ignorado.

— Ah, desculpe. Miles, Damen, Damen, Miles — digo, sem ao menos piscar.

Damen dá uma olhada rápida para o Miles, cumprimenta-o com a cabeça e logo se volta para mim. Sei que vai parecer maluquice minha, mas durante a fração de segundo em que Damen desviou o olhar senti uma fraqueza e um frio muito estranhos.

Mas assim que ele vira seu olhar novamente para mim tudo volta ao normal — tudo fica quente e bem de novo.

— Posso pedir um favor? — E sorri. — Será que você pode me emprestar seu O Morro dos Ventos Uivantes? Preciso colocar a leitura em dia, e hoje não vou ter tempo de passar na livraria.

Abro a mochila, retiro meu exemplar todo amarfanhado e estendo o braço com o livro na palma da mão, parte de mim torcendo para que a ponta de meus dedos toque a ponta dos dedos dele, enquanto outra parte, a mais forte e sábia, aquela com poderes sobrenaturais, treme só de pensar nas revelações que podem brotar do contato com um desconhecido tão lindo.

Ele joga o livro no interior do BMW, baixa os óculos escuros e diz:

— Valeu, a gente se vê amanhã.

Só então percebo que nada aconteceu com aquele breve toque, além de um leve formigamento na ponta dos dedos. E antes que eu possa dizer o que quer que seja ele já está dando a ré para sair da vaga.

— Amiga — diz Miles, balançando a cabeça e se acomodando a meu lado no Miata. — Desculpe, mas quando falei que você iria pirar quando visse o cara eu não estava sugerindo que você pirasse. Não era pra você seguir ao pé da letra. Caramba, Ever, o que foi que deu em você? Que esquisitice foi aquela? Só faltou você dizer: Muito prazer, eu sou a Ever, a psicopata que vai perseguir você pelo restante da vida! Não estou brincando. Achei que a gente teria de ressuscitar você! E olhe, pode acreditar, você deu uma tremenda sorte. Imagine se a Haven, nossa queridíssima amiga, estivesse lá para ver a cena, hã? A senha número 1 é dela, meu amor, já esqueceu?

Miles continua tagarelando sem parar durante todo o caminho. Simplesmente eu o deixo falar enquanto presto atenção no trânsito, roçando o dedo na cicatriz espessa em minha testa — a que escondo debaixo da franja.

Como explicar a ele que, desde o acidente, as únicas pessoas cujos pensamentos não posso ouvir, cujos toques nada revelam e cujas auras não consigo ver são as que já morreram?

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Trecho do Livro: A Senhora do Jogo | Sidney Sheldon
Livro A Senhora do Jogo
Autora: Tilly Bagshawe
(baseado no livro de Sidney Sheldon “O Reverso da Medalha”)
Editora: Record
ISBN: 9788501088512

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Dark Harbor, Maine – 1984.

Através dos galhos, Danny Corretti olhou para as agitadas pessoas embaixo e sentiu uma onda de vertigem.

— Que diabos estamos fazendo aqui?

Fechando os olhos, ele segurou com mais força o galho da antiga árvore, garantindo que ele e sua câmera continuassem escondidos na densa folhagem verde.

— Ganhando dinheiro — sussurrou seu colega, excitado. — Olhe, ela está ali!

— Onde?

Seguindo a linha de visão de seu amigo, Danny Corretti ajustou a lente do zoom em uma figura no meio da multidão de luto. Vestida de preto da cabeça aos pés, com um manto de renda que caía até o chão cobrindo seu terninho Dior de corte impecável, era impossível ver seu rosto. Poderia ser qualquer pessoa. Mas ela não era qualquer pessoa.

— Está brincando comigo? — Danny Corretti franziu a testa. Abaixo dele o cemitério parecia balançar ameaçadoramente, os antigos túmulos subindo e descendo como cavalos em um carrossel desagradável. — Não consigo ver nada. Tem certeza de que é ela? Poderia ser Johnny Carson embaixo de toda aquela renda.

Seu colega sorriu.

— Tenho certeza de que é ela.

Da árvore à sua esquerda, Danny Corretti escutou os cliques da câmera de seu rival. Focalizou mais uma vez seu zoom e começou a fotografar.

Vamos, doçura. Dê um sorrisinho para o papai.

Uma boa foto do rosto de Eve Blackwell poderia valer uns cem mil para o fotógrafo que a conseguisse primeiro. Qualquer um que fosse capaz de capturar a barriga proeminente poderia esperar ganhar o dobro disso.

Duzentas mil pratas!

Talvez não fosse muito dinheiro para os Blackwell, herdeiros da multibilionária Kruger Brent Ltda. — império de diamantes que se transformara em um conglomerado, e que tornara a família a mais rica dos Estados Unidos -, mas era uma fortuna para Danny Corretti. Foram os Blackwell que trouxeram Danny e outros paparazzi ao cemitério de St. Stephen nesta manhã gelada de fevereiro. Eles vieram enterrar a matriarca da família, Kate Blackwell, que morrera na avançada idade de 92 anos.

Olhe para eles. Parecem moscas-varejeiras voando em volta do corpo da velha senhora. Repugnante.

Danny Corretti sentiu-se nauseado de novo, mas tentou não dar atenção a isso — nem à intensa dor nas costas depois de passar seis horas direto em cima de uma árvore. Sua vontade era se esticar, mas não ousava mexer um músculo sequer, para não arriscar ser visto pelos seguranças da Kruger Brent. Observando as silhuetas taciturnas dos ex-fuzileiros navais vestidos de preto que andavam por todo o perímetro do cemitério, com suas armas grudadas ao peito como objetos de estimação, Danny Corretti sentiu uma pontada de medo. Duvidava que Kate Blackwell tivesse contratado algum deles por causa do senso de humor.

Você vai ficar bem. Só precisa conseguir a foto e dar o fora daqui. Vamos Eve, doçura. Olha o passarinho.

Danny Corretti realmente não fora feito para esse tipo de trabalho. Um homem alto e magro, com pernas sobrenaturalmente compridas e cabelos muito louros, quase brancos, por cima de sua pele italiana azeitonada; não havia muitos lugares no cemitério de Maine capazes de esconder seu corpo de 1m90. A velha árvore fora a melhor opção, mas ele tivera de chegar absurdamente cedo para superar seus rivais e conseguir um lugar estratégico e tão cobiçado. Agarrado aos galhos mais altos agora, cada tendão de seu corpo parecia em chamas, apesar do dia extremamente frio. Rangeu os dentes, amaldiçoando suas longas pernas.

Pense no dinheiro.

Ironicamente, se não fosse por causa de suas pernas compridas, Danny nem estaria nesta profissão maluca.

Se não fossem suas pernas compridas, o marido de sua amante nunca teria visto seus pés tamanho 44 por baixo da cama de casal.

Ah, Carla. Deus, ela era linda! Nenhum homem conseguia resistir a ela. Se aquele brutamontes com quem ela se casou não tivesse saído mais cedo do trabalho…

Foram as pernas compridas de Danny que fizeram com que levasse uma surra de quebrar ossos e fosse parar no hospital público (sem plano de saúde). Graças às suas pernas compridas, sua esposa Loretta descobrira seu caso, se divorciara dele e ficara com a casa. Agora, graças às suas pernas compridas, o advogado com cara de rato de Loretta estava exigindo que Danny pagasse uma pensão de mil dólares por mês.

Mil dólares? Quem eles pensavam que ele era, o maldito Donald Trump?

Sim, toda a culpa por sua difícil situação atual era de suas pernas compridas. Por que outro motivo passaria uma manhã de domingo apertado e congelando em cima de uma árvore de 400 anos em cima de um cemitério, arriscando seu pescoço por uma mísera foto da mulher que os tabloides apelidaram de “A Fera dos Blackwell”?

As pernas compridas de Danny Corretti tinham muito pelo que responder. Ele ia conseguir a foto de Eve Blackwell mesmo que isso acabasse com ele.

—–

A voz do padre ecoava pelo ar gelado de fevereiro, intensa, forte e poderosa.

— Deus misericordioso, o Senhor conhece o tormento dos pesarosos…

Por trás do grosso véu, Eve Blackwell riu com desdém. Pesaroso? Ver aquela bruxa velha morta e enterrada? Por favor. Se eu fosse dez anos mais nova, estaria dando pulos de alegria.

Hoje, Eve estava enterrando uma de suas inimigas. Mas não descansaria até enterrar todos eles. Uma já tinha ido, faltavam três.

— O Senhor escuta as orações dos humildes…

Eve Blackwell olhou em volta para o pequeno grupo de familiares e amigos que tinham vindo se despedir de sua avó Kate, e se perguntou se algum deles poderia ser descrito como humilde.

Sua irmã gêmea idêntica, Alexandra, estava ali. Aos 34 anos, ela ainda era linda, com as maçãs do rosto salientes, cabelo louro e os deslumbrantes olhos cinza que herdara do bisavô, fundador da Kruger Brent, Jamie McGregor.

Eve estreitou os olhos com ódio. O mesmo ódio que sentia pela irmã desde o dia em que nasceram.

Como ousa! Como minha irmã ousa ainda ser linda!

Alexandra chorava copiosamente, segurando com força a mão de seu filho, Robert. O menino louro, delicado e doce de 10 anos era uma cópia de sua mãe. Um pianista talentoso, ele era o preferido de Kate Blackwell e herdeiro da Kruger Brent.

Não por muito tempo, pensou Eve. Vamos ver quanto tempo o garoto vai durar sem Kate por perto para protegê-lo.

Eve Blackwell sentiu um aperto no peito. Como odiava os dois, mãe e filho, e suas lágrimas de crocodilo! Se ao menos fosse o corpo de Alexandra a ser colocado naquele buraco de terra gelada. Então, a felicidade de Eve seria realmente completa.

Ao lado de Alexandra, estava seu marido, o famoso psiquiatra Peter Templeton. Alto, moreno, bonito, com olhos azuis, Peter Templeton parecia mais um atleta do que um psiquiatra. Ele e Alexandra formavam um lindo casal. Peter já fora arrogante o suficiente para achar que compreendia Eve. Acreditava que podia ver através dela, até o âmago do ódio que borbulhava dentro dela. Alexandra, com toda a sua bondade, nunca conseguira ver o quanto sua irmã gêmea a odiava. Mas seu marido via.

Eve sorriu.

Tolo inútil. Ele acha que me conhece, mas não consegue vislumbrar mais que a superfície.

Não, Peter Templeton não era humilde.

E seu próprio marido, o famoso cirurgião plástico Keith Webster? Muitas pessoas o viam como uma pessoa humilde. Eve podia ouvir os gratos pacientes dele: “O querido Dr. Webster, que cirurgião talentoso, mas tão tímido e modesto em relação ao seu dom.” Eve sentiu um arrepio quando Keith envolveu seus ombros com um braço marital e protetor.

Protetor? Ele não é protetor. É possessivo. E psicótico. Me chantageou para casar, depois deliberadamente destruiu meu rosto, mutilando minhas lindas feições e me transformando neste monstro. Tudo para que eu não o deixasse.

Um dia vou fazê-lo pagar pelo que fez.

Eve Blackwell era muitas coisas, mas não era burra. Sabia que as árvores e moitas em volta da igreja St. Stephen estavam cheias de fotógrafos, e sabia o porquê: todos queriam uma foto de seu espantoso rosto desfigurado.

Bem, podiam ir todos para o inferno. Por trás, ainda era possível ver o corpo perfeito e feminino de Eve. Mas a parte da frente estava escondida. Nenhuma lente no mundo conseguiria penetrar o espesso véu de renda tecida a mão. Eve se certificou disso.

Um dia famosa por sua beleza, nos últimos anos Eve Blackwell se transformara em uma prisioneira em sua cobertura em Manhattan, com medo de mostrar ao mundo seu rosto coberto por cicatrizes monstruosas. Na verdade, não era vista em público havia dois anos. A última vez fora na festa de aniversário de 90 anos da avó em Cedar Hill House, a Camelot particular da família, a poucos metros de onde a velha mulher estava sendo enterrada para o repouso eterno.

Kate Blackwell tinha sorte. Fora se juntar aos seus amados fantasmas: Jamie, Margaret, Banda, David, e os espíritos do passado africano longo e violento da Kruger Brent. Mas Eve não teria tal descanso. Com os boatos já circulando sobre sua gravidez — ambas, Eve e Alexandra Blackwell, estavam grávidas, embora a família se recusasse a confirmar para a imprensa —, Eve tinha plena consciência de que o preço de sua cabeça tinha dobrado. Não havia um editor de tabloide dos Estados Unidos que não venderia a alma por uma foto mais ou menos decente da Fera dos Blackwell carregando um filho.

E pensar que eles me chamam de monstro…

— Senhor, escute o Seu povo, que implora em necessidade…

Eve observou silenciosamente o caixão de Kate Blackwell baixar no túmulo recém-aberto. Brad Rogers, o número dois de Kate na Kruger Brent por três décadas, abafou um soluço. Ele mesmo um homem bastante velho agora, com o cabelo tão branco e fino quanto a neve embaixo de seus pés, estava completamente arrasado com a morte de Kate. Ele a amara em segredo durante anos. Mas fora um amor que ela nunca conseguiu corresponder.

Como ela está pequena!, pensou Eve, enquanto a patética caixa de madeira desaparecia nas profundezas da terra. Kate Blackwell, que fora gigante quando viva, respeitada por presidentes e reis, parecia insignificante no final.

Não vai ser um bom banquete para os vermes de sua amada Dark Harbor, vai, vovó?

Durante anos, Kate Blackwell fora a nêmesis de Eve. Fizera tudo ao seu alcance para evitar que sua neta malvada atingisse seu objetivo na vida: assumir o controle da empresa da família, a poderosa Kruger Brent.

Mas agora Kate Blackwell se fora.

— Garanta seu descanso eterno, ó, Pai, e que Sua luz perpétua brilhe sobre ela.

Já vai tarde, sua bruxa velha e vingativa.

— Que ela descanse em paz.

—–

Danny Correti olhou infeliz os negativos na sua frente. Suas costas ainda o estavam matando depois dessa manhã, e agora ele sentia uma enxaqueca se aproximando.

— Conseguiu alguma coisa?

Seu amigo tentou parecer esperançoso. Mas já sabia a resposta.

Nenhum deles conseguira a foto de duzentos mil dólares.

Eve Blackwell fora mais esperta que todos.

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Trecho do Livro: Escolhida | PC Cast e Kristin Cast
Livro Escolhida
Autoras: PC Cast e Kristin Cast
Editora: Novo Século
ISBN: 9788576792857

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Obs: Escolhida é o terceiro volume da série Morada da Noite.

– Pois é, meu aniversário é sempre um “pé no saco” – eu disse à minha gata Nala. (Tá, na verdade eu sou mais a humana dela do que ela é minha gata. Sabe como são os gatos: eles não têm donos, têm empregados. Um fato que a maioria tenta ignorar.)

Enfim, continuei falando com a gata como se ela estivesse ligada em cada palavra que eu dizia. O que nem era o caso. – São dezessete anos de aniversários “pé no saco”, em todo 24 de dezembro. Já estou até acostumada. Nada demais. – Eu sabia que estava dizendo aquelas palavras só para convencer a mim mesma. Nala soltou um miau com aquela sua voz de gata velha resmungona e foi lamber suas partes íntimas, deixando claro que aquele assunto a entediava.

– Já sei o que vou fazer – continuei enquanto terminava de passar um pouquinho de delineador nos olhos. (E estou falando de um pouquinho, nada de ficar com cara de guaxinim, pois com certeza não fica bem para mim. Na verdade, para ninguém.) – Vou receber um monte de presentes bem-intencionados, que não são bem presentes de aniversário – são coisas com temas natalinos, porque as pessoas sempre tentam misturar meu aniversário com o Natal, e isso nunca dá certo.

– Mas vou sorrir e fingir que estou adorando meus presentes bobos de natalversário, já que as pessoas não conseguem entender que não se deve misturar Natal com aniversário. Ao menos não se elas quiserem agradar.

Nala espirrou.

– É exatamente assim que me sinto em relação a isso. Mas sejamos legais, porque quando eu digo alguma coisa, fica tudo pior. Eu acabo ganhando os benditos presentes, as pessoas ficam chateadas e dá tudo errado. – Nala não pareceu convencida, então concentrei minha atenção em minha reflexão. Por um segundo pensei que tivesse exagerado no delineador, mas olhei mais de perto e percebi que o que estava deixando meus olhos tão enormes e escuros não tinha nada a ver com algo tão comum quanto um delineador. Apesar de eu já ter sido Marcada há dois meses, a tatuagem de lua crescente cor de safira entre meus olhos e as elaboradas filigranas de passamanaria, tatuadas ao redor do meu rosto, ainda tinham a capacidade de me surpreender. Passei a ponta do dedo sobre uma das espirais azuis. Depois, quase sem pensar, baixei a gola (que já era grande) do meu suéter para expor o ombro esquerdo. Joguei meus longos cabelos para trás com um movimento rápido de cabeça e exibi os desenhos tatuados que começavam na base do pescoço e se espalhavam por todo o meu ombro, descendo pela coluna até chegar ao fim das costas. Como sempre, a visão das minhas tatuagens me causou um arrepio elétrico, que misturava deslumbre e medo.

– Você é diferente de todo mundo – murmurei para meu reflexo e limpei a garganta. Continuei a falar com uma voz excessivamente pomposa – e não há problema nenhum em ser assim. – A quem eu queria enganar, pensei. – Então tá – olhei para a parte de cima de minha cabeça e fiquei, em parte, surpresa por não estar visível. Tipo, eu com certeza sentia a nuvem negra gigantesca que vinha me acompanhando há um mês. – Caraca, fico até surpresa por não estar chovendo aqui dentro. Não seria uma maravilha para meu cabelo? – eu disse com sarcasmo para meu reflexo. Então suspirei e peguei o envelope que estava na minha mesa. Sobre o endereço do remetente lia-se FAMÍLIA HEFFER, impresso em dourado reluzente. – E por falar em coisas deprimentes… – murmurei.

Nala espirrou de novo.

– Você tem razão. Melhor acabar logo com isto – abri o envelope com relutância e retirei o cartão. – Ah, que inferno. É pior do que eu esperava – havia uma enorme cruz de madeira na parte da frente do cartão, e um papel enrolado à moda antiga no meio da cruz (com um prego sangrento preso a ela). Estava escrito FELIZ NATAL em letras vermelhas (representando o sangue, naturalmente). Logo abaixo vinha escrito com a letra da minha mãe: Espero que você esteja se lembrando de sua família neste momento abençoado do ano. Feliz aniversário, com amor, da mamãe e do papai.

– É a cara dela – eu disse a Nala e senti uma pontada no estômago.

– E ele não é meu pai – rasguei o cartão, joguei no cesto de lixo e fiquei olhando para os pedaços rasgados. – Quando meus pais não me ignoram, eles me insultam. Prefiro ser ignorada.

Dei um pulo ao ouvir a batida na porta.

– Zoey, está todo mundo querendo saber onde você está – foi fácil reconhecer a voz de Damien do outro lado da porta.

– Espere aí, estou quase pronta – gritei, procurando pensar em outra coisa, e então dei uma última olhada para meu reflexo no espelho. Concluí, sentindo um traço totalmente defensivo, que poderia deixar meu ombro exposto. – Minhas Marcas são diferentes de todas as outras. Bem que eu posso dar motivo para as pessoas ficarem me olhando, com cara de bobas, enquanto falam – murmurei.

Então soltei um suspiro. Não costumo ser tão irritadiça. Mas com meu aniversário “pé no saco”, meus pais “pé no saco”… Não. Eu não podia continuar mentindo para mim mesma.

– Queria que Stevie Rae estivesse aqui – sussurrei.

E era isso que estava me afastando dos meus amigos (inclusive dos meus namorados – dos dois) durante o último mês, e, ao mesmo tempo, o que estava me tornando uma nuvem de chuva enorme, pesada e desagradável. Eu sentia falta da minha melhor amiga e colega de quarto, que todos viram morrer no mês passado, mas que eu sabia que havia se transformado em uma criatura noturna morta-viva. Por mais melodramático e trash que isso possa parecer. A verdade era que agora, quando Stevie Rae deveria estar para lá e para cá envolvida com os detalhes desta minha droga de aniversário, ela estava na verdade escondida em algum túnel velho nos subterrâneos de Tulsa, conspirando com outras criaturas mortas-vivas nojentas, maldosas e fedorentas como o diabo.

– Ahn, Z? Está tudo bem aí dentro? – Damien chamou de novo, interrompendo meu blá-blá-blá mental.

Peguei Nala, que não parava de resmungar, dei as costas ao tenebroso cartão de natalversário e corri para abrir a porta, quase trombando com Damien, que estava com cara de superpreocupado.

– Desculpe… desculpe… – murmurei.

Ele seguiu ao meu lado, me olhando de canto de olho de vez em quando.

– Nunca ouvi falar sobre uma pessoa que ficasse tão desanimada com o próprio aniversário quanto você – Damien disse.

Nala estava se contorcendo em meu colo e eu a soltei no chão, dando de ombros, tentando forçar um sorriso indiferente. – Estou só praticando para quando eu for uma velha decrépita, tipo com uns trinta anos, e precisar mentir a idade.

Damien parou para olhar para mim. – Ah, tááááá – ele falou, esticando a palavra. – Todos nós sabemos que vampiros de trinta anos mal aparentam ter vinte e são sempre lindos. Na verdade, vampiros de cento e trinta anos ainda parecem ter vinte e poucos anos e continuam lindos. Esse seu papo de idade é pura besteira. O que está realmente acontecendo com você?

Enquanto eu hesitava, tentando imaginar o que deveria dizer a Damien e o que não deveria, ele levantou uma das sobrancelhas cuidadosamente delineadas e disse, com sua melhor voz de professor de escola:

– Você sabe como somos sensíveis às emoções, então é melhor desistir e me dizer a verdade.

Eu soltei outro suspiro.

– Vocês gays são assustadoramente intuitivos.

– Somos assim: homos – os poucos, os orgulhosos, os hipersensíveis.

– Homo não é um termo depreciativo?

– Não se for usado por um homo. Mas você está tentando me enrolar, não está funcionando – ele chegou a pôr a mão na cintura e bater o pé.

Sorri para ele, mas sabia que a expressão não combinava com meus olhos. Com uma intensidade que me surpreendeu, eu de repente senti uma vontade desesperada de dizer a verdade a Damien.

– Estou com saudade de Stevie Rae – desabafei antes que pudesse segurar a língua.

Ele não hesitou.

– Eu sei – e ficou com os olhos imediatamente molhados.

E foi isto. Parecia que um dique havia se rompido dentro de mim, e as palavras saíram desembestadas.

– Ela tinha de estar aqui! Ela estaria correndo que nem uma louca para fazer a decoração de aniversário e provavelmente fazendo um bolo sozinha.

– Um bolo terrível – Damien disse fungando um pouquinho.

– É, mas seria uma das receitas favoritas da mamãe – eu disse, imitando o carregado sotaque de Oklahoma de Stevie Rae, o que me fez sorrir entre as lágrimas. Pensei em como era esquisito compartilhar com Damien minha insatisfação e poder justificá-la, e então meu sorriso alcançou meus olhos.

– E as gêmeas e eu ficaríamos irritados por ela insistir que todos nós usássemos aqueles chapeuzinhos pontudos de aniversário, com aqueles prendedores de elástico que pinicam sob o queixo – ele teve um arrepio de horror nem tão fingido assim. – Deus do céu, aquilo é tão pouco atraente.

Eu ri e senti um pouco da tensão em meu peito começando a se dissolver.

– Tem algo em Stevie Rae que me faz sentir bem – não percebi que estava usando o tempo presente, até que Damien parou de sorrir.

– É, ela era demais – ele disse com ênfase extra no era enquanto olhava para mim como se estivesse preocupado com minha sanidade mental. Se ao menos ele soubesse da verdade. Se eu pudesse contar. Mas não podia. Se eu fizesse isso, Stevie Rae ou eu, ou ambas, acabaríamos mortas. E, desta vez, para valer.

Então, ao invés de falar, agarrei o braço de meu amigo evidentemente preocupado, e o fiz descer a escada comigo em direção à sala de estar do dormitório das garotas, onde meus amigos me esperavam (com seus presentes “pé no saco”).

– Vamos. Estou sentindo necessidade de abrir presentes – eu menti, cheia de entusiasmo.

– Mal posso esperar para você abrir o meu! – Damien disse efusivamente. – Levei uma eternidade para comprar!

Eu sorri e balancei a cabeça apropriadamente enquanto Damien continuava a falar sem parar sobre sua busca pelo presente perfeito. Pena que aquilo não me ajudava a encarar o que realmente estava me incomodando.

Ainda falando sobre sua busca ao presente, Damien me conduziu ao salão principal do dormitório. Acenei para os montes de garotas agrupadas ao redor das tevês de tela plana, enquanto nos dirigíamos à salinha ao lado, que servia de biblioteca e sala de informática. Damien abriu a porta e meus amigos irromperam em um coro totalmente desafinado de “parabéns pra você”. Ouvi Nala resmungar e, pelo canto do olho, eu a vi saindo pela porta, em direção à entrada. Covarde, eu pensei, apesar de estar com vontade de fugir com ela. Quando a canção acabou (graças a Deus), minha gangue veio toda para cima de mim.

– Parabéns! – as gêmeas disseram juntas. Tá, elas não são gêmeas genéticas. Erin Bates é uma garota muito branca de Tulsa, e Shaunee Cole é uma linda mulata descendente de jamaicanos que cresceu em Connecticut, mas as duas são tão bizarramente parecidas que a cor da pele e a região de onde vieram não faziam a menor diferença. São gêmeas espirituais, o que é bem mais forte que a mera biologia.

– Feliz aniversário, Z. – disse uma voz profunda e muito, muito sexy que eu conhecia tão bem. Saí do abraço de sanduíche das gêmeas e fui para os braços do meu namorado, Erik. Bem, tecnicamente, Erik era um dos meus dois namorados. O outro era Heath, um adolescente humano que namorei antes de ser Marcada, e com o qual eu não devia ter mais nada, não fosse pelo fato de eu ter sugado seu sangue, meio que acidentalmente, e com isso ter provocado uma nova ligação entre nós. Estávamos carimbados, então, ele era meu outro namorado à revelia. É, é confuso. Sim, Erik fica louco com isto. Sim, eu suponho que ele vai me dar o fora qualquer dia desses por causa disso.

– Obrigada – murmurei, levantando os olhos para ele e me deixando aprisionar por aqueles olhos incríveis. Erik é alto e sensual, com cabelos escuros de Super-Homem e olhos incrivelmente azuis. Relaxei em seus braços, um gesto que não me permiti nos últimos meses, e temporariamente me aqueci no seu cheiro bom e na sensação de segurança que me vinha quando estava perto dele. Ele me olhou nos olhos e, como nos filmes, por um segundo todo mundo desapareceu e só havíamos nós dois ali. Ao perceber que eu não saía de seus braços, sorriu lentamente esboçando uma leve surpresa, o que provocou uma dorzinha em meu coração. Eu estava pegando pesado com ele e não sabia direito por quê. Por impulso, fiquei na ponta dos pés e o beijei, para grande alegria dos meus amigos.

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Trecho do Livro: SuperFreakonomics
Livro SuperFreakonomics
Autores: Steven D. Levitt e Stephen J. Dubner
Editora: Campus Elsevier
ISBN: 9788535237283

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A coisa mais elementar sobre soluções baratas e simples é que em geral elas resolvem problemas que parecem insolúveis. No entanto, invariavelmente, um Semmelweis ou uma equipe de Semmelweises despontam no horizonte e salvam a humanidade. A História está apinhada de exemplos. No começo da Era Cristã, cerca de 2.000 anos atrás, havia cerca de 200 milhões de pessoas na Terra. No ano 1.000, esse número aumentara para apenas 300 milhões. Mesmo em 1750, havia nada mais que 800 milhões de pessoas. A fome era preocupação constante e os gurus afirmavam que o planeta provavelmente não suportaria muito mais crescimento. A população da Inglaterra vinha decrescendo – “basicamente porque”, escreveu um historiador, “a agricultura não tinha condições de atender às pressões de alimentar mais gente”.

Entra em cena a Revolução Agrícola. Várias inovações, nenhuma delas muito complexa – plantações de alto rendimento, melhores ferramentas e uso mais eficiente do capital – mudaram a agricultura e, em seguida, a superfície do planeta. Na América do século XVIII, “precisava-se de 19 em 20 trabalhadores para alimentar a população do país e produzir excedentes para exportação”, escreveu o economista Milton Friedman. Duzentos anos depois, apenas 1 em 20 trabalhadores era necessário para alimentar população muito mais numerosa e também fazer dos Estados Unidos “o maior exportador de alimentos do mundo”.

A Revolução Agrícola liberou milhões de trabalhadores que impulsionaram a Revolução Industrial. Em 1850, a população mundial crescera para 1,3 bilhão; em 1900, era de 1,7 bilhão; em 1950, chegara a 2,6 bilhões. E, então, a espécie humana realmente decolou. Nos 50 anos seguintes, a população mais do que dobrou, superando em muito os 6 bilhões. Caso se tivesse de escolher uma única bala de prata responsável por esse surto, seria o nitrato de amônia, fertilizante incrivelmente barato e eficaz. Não haveria exagero em afirmar que o nitrato de amônia alimenta o mundo. Se ele desaparecesse da noite para o dia, diz o economista agrícola Will Masters, “a dieta da maioria das pessoas retrocederia a montes de cereais e leguminosas, com os produtos animais e frutícolas reservados para ocasiões muito especiais e para os ricos”.

Reflita sobre o caso da baleia. Caçada desde a antiguidade, no século XIX ela se tornou o motor econômico que ajudou os Estados Unidos a converter-se em potência. Cada centímetro cúbico do animal poderia ser convertido em algo, razão pela qual a baleia foi para um país em rápido crescimento como que um hipermercado onde se encontrava tudo: matéria-prima para a fabricação de tintas e vernizes, têxteis e couro; de velas e sabões; de roupas e, evidentemente, de alimentos (a língua, em especial, era iguaria supimpa). A baleia era adorada, mormente, pelo s_xo mais sofisticado, renunciando a partes de seu corpo para a fabricação de corpetes, colares, para-sóis, perfumes, escovas para cabelo e tinturas para tecido. (Este último produto, dentre todas as fontes, era extraído do excremento da baleia.) De todos os derivados, o mais valioso era o óleo da baleia, lubrificante para todos os tipos de máquinas e, ainda mais importante, combustível para iluminação. Como declara o autor Eric Jay Dolin, em Leviathan, “o óleo de baleia da América iluminou o mundo”.

De uma frota mundial de 900 navios baleeiros, 735 eram norte-americanos, que caçavam nos quatro oceanos. Entre 1835 e 1872, esses navios retiraram dos mares 300.000 baleias, média superior a 7.700 por ano. Nos bons anos, a receita total oriunda do óleo e do osso excedia a US$10 milhões, equivalente hoje a cerca de US$200 milhões. A pesca da baleia era trabalho perigoso e difícil, mas constituía o quinto maior setor econômico dos Estados Unidos, empregando 70.000 pessoas.

E então, o que parecia recurso inexaurível, de repente e, em retrospectiva, obviamente, estava ameaçado de extinção. Navios demais estavam caçando baleias de menos. Um barco que antes passava um ano no mar para encher seus porões com óleo de baleia agora precisava de quatro anos. Os preços do óleo de baleia, em consequência, dispararam, sacudindo a economia americana. Hoje, indústria como aquela seria considerada “grande demais para falir”, mas o setor baleeiro realmente estava falindo, com sérias repercussões para toda a economia nacional.

Foi quando um ferroviário aposentado, chamado Edwin L. Drake, usando motor a vapor para impulsionar uma sonda a 22 metros de profundidade, através de xisto e rocha, descobriu petróleo em Titusville, Pensilvânia. O futuro borbotou na superfície. Por que arriscar a vida e os membros, caçando leviatãs em todos os mares, precisando arrastá-los e descarná-los, quando tanta energia jazia à espera, nos porões do país, para ser bombeada para fora?

O petróleo foi não só uma solução barata e simples, mas também, como o óleo da baleia, demonstrou extraordinária versatilidade. Podia ser usado como óleo para iluminação e aquecimento, como lubrificante e como combustível para automóveis; era matéria-prima para plásticos e até para meias de náilon. A nova indústria do petróleo também criou muitos empregos para os baleeiros desempregados e, como bônus, ainda exerceu com mais eficácia a função que seria atribuída à legislação de proteção às espécies ameaçadas, salvando as baleias da extinção quase certa.

No começo do século XX, a maioria das doenças infecciosas – varíola, tuberculose, difteria e outras – estavam em vias de erradicação. Mas a pólio recusava-se a capitular.

Seria difícil inventar doença mais devastadora. “Era doença de criança; não havia prevenção; não se conhecia a cura; todas as crianças, em todos os lugares, poderiam contraí-la”; diz David M. Oshinsky, autor de Polio: An American Story, livro ganhador do Prêmio Pulitzer. “E tudo isso significava que os pais estavam absolutamente histéricos.”

A pólio também era um grande mistério, exacerbando-se no verão, por motivos desconhecidos. (Em caso clássico de falsa correlação e causalidade, alguns pesquisadores aventaram a hipótese de o sorvete – consumido em quantidades muito maiores no verão – provocar a pólio.) De início se pensou que o principal alvo fossem filhos de imigrantes pobres, mormente meninos, residentes em favelas, mas logo se constatou que também vitimava meninas, assim como crianças em subúrbios arborizados. Até Franklin Delano Roosevelt, muito longe das comunidades pobres de imigrantes e já bem distante da infância, aos 39 anos, contraiu a doença.

Todos os surtos da doença deflagravam novos acessos de quarentena e pânico. Os pais mantinham os filhos longe de amigos, piscinas, parques e bibliotecas. Em 1916, a mais devastadora epidemia de pólio até então registrada assolou a Cidade de Nova York. De 8.900 casos relatados, 2.400 foram fatais, a maioria crianças com menos de cinco anos. A de 1952 foi ainda mais arrasadora, com 57.000 casos em todo o país, 3.000 fatais e 21.000 resultando em paralisia permanente.

Sobreviver aos piores casos de pólio era pouco melhor que morrer. Algumas vítimas ficavam hemiplégicas da cintura para baixo e sentiam dores constantes. Quem adquiria paralisia respiratória praticamente sobrevivia em “pulmões de aço”, enorme tanque que exercia a função dos músculos do tórax. Com o crescimento da população de vítimas de pólio, o custo da assistência médica atingia proporções espantosas. “Em uma época em que apenas menos de 10% das famílias do país tinham alguma forma de seguro-saúde”, escreve Oshinsky, “as despesas com a internação de uma vítima de pólio (cerca de US$900 por ano) efetivamente eram superiores ao salário anual médio (US$875).”

Os Estados Unidos já eram o país mais poderoso do planeta, vencedor de duas guerras mundiais, potência abençoada, cujo futuro despontava com fulgor ofuscante. Mas pairava sobre o país o receio legítimo de que o flagelo da pólio consumiria parcela tão desmesurada dos orçamentos públicos a ponto de também estropiar a economia nacional.

E, então, desenvolveu-se a vacina – uma série de vacinas, na realidade – e a pólio foi extirpada.

Chamar a vacina de solução “simples” talvez pareça desconsideração com o esforço ingente de todos que ajudaram a combater a praga: os pesquisadores médicos (mormente Jonas Salk e Albert Sabin); os voluntários que levantaram fundos (a Marcha dos Tostões [March of Dimes], descreve Oshinsky, foi “o maior exército filantrópico já visto pelo país”); e até os mártires não humanos (importaram-se milhares de macacos para testar as vacinas experimentais).

Por outro lado, não existe solução médica mais simples que a vacina. Veja as duas principais maneiras de combater doenças. A primeira é inventar procedimentos ou tecnologias que ajudem a resolver o problema já existente (cirurgia de coração aberto, por exemplo); esses consertos tendem a ser muito onerosos. A segunda é desenvolver medicamentos que previnam o problema, ou seja, que impeçam seu surgimento; no longo prazo, essa segunda solução tende a ser extremamente barata. Pesquisadores da área de assistência médica estimam que, não fosse a vacina, os Estados Unidos hoje estariam cuidando de no mínimo 250.000 portadores de paralisia infantil, a um custo anual de ao menos US$30 bilhões. E aí não se inclui “o custo intangível do medo, do sofrimento e da morte”.

A pólio é um exemplo contundente, mas são incontáveis as soluções médicas simples e baratas. Novos medicamentos contra úlcera reduziram a taxa de cirurgia em mais ou menos 60%; nova rodada de medicamentos ainda mais acessíveis economiza cerca de US$800 milhões ao ano para os portadores da doença. Nos 25 anos subsequentes à adoção do lítio no tratamento da depressão maníaca, economizaram-se quase US$150 bilhões em custos de hospitalização. Até a simples adição de flúor aos sistemas de abastecimento de água evitou cerca de US$10 bilhões por ano em despesas com dentistas.

Como já observamos, as mortes por doenças cardíacas caíram substancialmente nas décadas recentes. Mas será que esse progresso é consequência apenas de tratamentos dispendiosos, como transplantes e enxertos, angioplastias e stents?

Na verdade, não. Esses procedimentos são responsáveis por parcela extremamente pequena do aprimoramento. Cerca de metade do declínio decorre da redução de fatores de risco, como colesterol alto e pressão sanguínea elevada, ambos os males tratados com medicamentos relativamente baratos. E boa parte da redução remanescente se explica por tratamentos de custo irrisório, como aspirina, heparina, inibidores ECA e bloqueadores beta.

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Trecho do Livro: O Andar do Bêbado – Como o Acaso Determina Nossas Vidas
Livro O Andar do Bebado
Autor: Leonard Mlodinow
Editora: Jorge Zahar
ISBN: 9788537801550

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Alguns anos atrás, um homem ganhou na loteria nacional espanhola com um bilhete que terminava com o número 48. Orgulhoso por seu “feito”, ele revelou a teoria que o levou à fortuna. “Sonhei com o número 7 por 7 noites consecutivas”, disse, “e 7 vezes 7 é 48.” Quem tiver melhor domínio da tabuada talvez ache graça do erro, mas todos nós criamos um olhar próprio sobre o mundo e o empregamos para filtrar e processar nossas percepções, extraindo significados do oceano de dados que nos inunda diariamente. E cometemos erros que, ainda que menos óbvios, são tão significativos quanto esse.

O fato de que a intuição humana é mal adaptada a situações que envolvem incerteza já era conhecido nos anos 1930, quando alguns pesquisadores notaram que as pessoas não conseguiam nem imaginar uma sequência de números que passasse em testes matemáticos de aleatoriedade nem reconhecer com segurança se uma série dada havia sido gerada aleatoriamente. Nas últimas décadas, surgiu um novo campo acadêmico que estuda o modo como as pessoas fazem julgamentos e tomam decisões quando defrontadas com informações imperfeitas ou incompletas. Suas pesquisas mostraram que, em situações que envolvem o acaso, nossos processos cerebrais costumam ser gravemente deficientes. É um ramo que reúne muitas disciplinas, não só a matemática e as ciências tradicionais, como também a psicologia cognitiva, a economia comportamental e a neurociência moderna. Porém, embora tais estudos tenham sido legitimados por um recente Prêmio Nobel (de Economia), suas lições, em grande parte, ainda não vazaram dos círculos acadêmicos para a psique popular. Este livro é uma tentativa de remediar essa situação. Ele trata dos princípios que governam o acaso, do desenvolvimento dessas ideias e da maneira pela qual elas atuam em política, negócios, medicina, economia, esportes, lazer e outras áreas da atividade humana. Também trata do modo como tomamos decisões e dos processos que nos levam a julgamentos equivocados e decisões ruins quando confrontados com a aleatoriedade ou a incerteza.

A falta de informações frequentemente leva à concorrência entre diferentes interpretações. Esse é o motivo pelo qual foi necessário tanto esforço para confirmarmos o aquecimento global, pelo qual certos medicamentos às vezes são declarados seguros e depois retirados do mercado e, presumivelmente, pelo qual nem todas as pessoas concordam com a minha observação de que o milk-shake de chocolate é um componente indispensável de uma dieta saudável para o coração. Infelizmente, a má interpretação dos dados tem muitas consequências negativas, algumas grandes, outras pequenas. Como veremos, por exemplo, médicos e pacientes muitas vezes interpretam erroneamente as estatísticas ligadas à efetividade de medicamentos e o significado de exames importantes. Pais, professores e alunos se equivocam quanto ao significado de provas como o vestibular, e enólogos cometem os mesmos erros com relação à classificação de vinhos. Investidores chegam a conclusões inválidas ao analisarem o desempenho histórico de fundos de ações.

Nos esportes, criamos uma cultura na qual, com base em sensações intuitivas de correlação, o êxito ou fracasso de um time é atribuído em grande medida à competência do técnico. Por isso, quando um time fracassa, normalmente o técnico é demitido. A análise matemática das demissões em todos os grandes esportes, no entanto, mostrou que, em média, elas não tiveram nenhum efeito no desempenho da equipe. Um fenômeno análogo tem lugar no mundo corporativo, onde se acredita que os diretores-gerais possuem um poder sobre-humano para fazer ou falir uma empresa. Ainda assim, em companhias como Kodak, Lucent, Xerox e outras, esse poder muitas vezes se mostrou ilusório. Nos anos 1990, por exemplo, quando dirigia a GE Capital Services sob o comando de Jack Welch, Gary Wendt era tido como um dos homens de negócios mais perspicazes dos Estados Unidos. Para Wendt, essa reputação se traduziu num bônus de US$45 milhões quando foi contratado para dirigir a companhia Conseco, que passava por dificuldades financeiras. Os investidores aparentemente concordaram com a ideia de que, com Wendt no leme, os problemas da Conseco estariam resolvidos: as ações da empresa triplicaram em um ano. No entanto, dois anos depois, Wendt se demitiu de repente, a Conseco faliu e as ações foram vendidas por centavos. Teria ele se deparado com uma tarefa impossível? Teria dormido no volante? Ou será que sua coroação se baseou em pressupostos questionáveis, como o de que um executivo tem capacidade quase absoluta de afetar o rumo de uma empresa, ou de que um único êxito passado serve como indicador confiável da performance futura de alguém? Em qualquer situação específica, não podemos chegar a respostas seguras sem examinarmos os detalhes do caso em questão. Isso é o que farei por diversas vezes neste livro. Porém, o mais importante é que apresentarei as ferramentas necessárias para identificarmos os indícios do acaso.

Nadar contra a corrente da intuição é uma tarefa difícil. Como veremos, a mente humana foi construída para identificar uma causa definida para cada acontecimento, podendo assim ter bastante dificuldade em aceitar a influência de fatores aleatórios ou não relacionados. Portanto, o primeiro passo é percebermos que o êxito ou o fracasso podem não surgir de uma grande habilidade ou grande incompetência, e sim, como escreveu o economista Armen Alchian, de “circunstâncias fortuitas”. Os processos aleatórios são fundamentais na natureza, e onipresentes em nossa vida cotidiana; ainda assim, a maioria das pessoas não os compreende nem pensa muito a seu respeito.

O título O Andar do Bêbado vem de uma analogia que descreve o movimento aleatório, como os trajetos seguidos por moléculas ao flutuarem pelo espaço, chocando-se incessantemente com suas moléculas irmãs. Isso pode servir como uma metáfora para a nossa vida, nosso caminho da faculdade para a carreira profissional, da vida de solteiro para a familiar, do primeiro ao último buraco de um campo de golfe. A surpresa é que também podemos empregar as ferramentas usadas na compreensão do andar do bêbado para entendermos os acontecimentos da vida diária. O objetivo deste livro é ilustrar o papel do acaso no mundo que nos cerca e mostrar de que modo podemos reconhecer sua atuação nas questões humanas. Espero que depois desta viagem pelo mundo da aleatoriedade, você, leitor, comece a ver a vida por um ângulo diferente, com uma compreensão mais profunda do mundo cotidiano.

1. Olhando pela lente da aleatoriedade

Lembro-me de, quando adolescente, ver as chamas amarelas das velas do sabá dançando aleatoriamente sobre os cilindros brancos de parafina que as alimentavam. Eu era jovem demais para enxergar algum romantismo na luz de velas, mas ainda assim ela me parecia mágica – em virtude das imagens tremulantes criadas pelo fogo. Moviam-se e se transformavam, cresciam e desvaneciam sem nenhuma aparente causa ou propósito. Certamente, eu acreditava, devia haver um motivo razoável para o comportamento da chama, algum padrão que os cientistas pudessem prever e explicar com suas equações matemáticas. “A vida não é assim”, disse meu pai. “Às vezes ocorrem coisas que não podem ser previstas.” Ele me contou de quando, em Buchenwald, o campo de concentração nazista em que ficou preso, já quase morrendo de fome, roubou um pão da padaria. O padeiro fez com que a Gestapo reunisse todos os que poderiam ter cometido o crime e alinhasse os suspeitos. “Quem roubou o pão?”, perguntou o padeiro. Como ninguém respondeu, ele disse aos guardas que fuzilassem os suspeitos um a um, até que estivessem todos mortos ou que alguém confessasse. Meu pai deu um passo à frente para poupar os outros. Ele não tentou se pintar em tons heroicos, disse-me apenas que fez aquilo porque, de qualquer maneira, já esperava ser fuzilado. Em vez de mandar fuzilá-lo, porém, o padeiro deu a ele um bom emprego como seu assistente. “Um lance de sorte”, disse meu pai. “Não teve nada a ver com você, mas se o desfecho fosse diferente, você nunca teria nascido.” Nesse momento me dei conta de que devo agradecer a Hitler pela minha existência, pois os alemães haviam matado a mulher de meu pai e seus dois filhos pequenos, apagando assim sua vida anterior. Dessa forma, se não fosse pela guerra, meu pai nunca teria emigrado para Nova York, nunca teria conhecido minha mãe, também refugiada, e nunca teria gerado a mim e aos meus dois irmãos.

Meu pai raramente falava da guerra. Na época eu não me dava conta, mas anos depois percebi que, sempre que ele partilhava conosco suas terríveis experiências, não o fazia apenas para que eu as conhecesse, e sim porque queria transmitir uma lição maior sobre a vida. A guerra é uma circunstância extrema, mas o papel do acaso em nossas vidas não é exclusividade dos extremos. O desenho de nossas vidas, como a chama da vela, é continuamente conduzido em novas direções por diversos eventos aleatórios que, juntamente com nossas reações a eles, determinam nosso destino. Como resultado, a vida é ao mesmo tempo difícil de prever e difícil de interpretar. Da mesma maneira como, diante de um teste de Rorschach, você poderia ver o rosto da Madonna e eu um ornitorrinco, podemos ler de diversas maneiras os dados que encontramos na economia, no direito, na medicina, nos esportes, na mídia ou no boletim de um filho na terceira série do colégio. Ainda assim, interpretar o papel do acaso num acontecimento não é como interpretar um teste de Rorschach; há maneiras certas e erradas de fazê-lo.

Frequentemente empregamos processos intuitivos ao fazermos avaliações e escolhas em situações de incerteza. Não há dúvida de que tais processos nos deram uma vantagem evolutiva quando tivemos que decidir se um tigre-dentes-de-sabre estava sorrindo por estar gordo e feliz ou porque estava faminto e nos via como sua próxima refeição. Mas o mundo moderno tem um equilíbrio diferente, e hoje tais processos intuitivos têm suas desvantagens. Quando utilizamos nossos modos habituais de pensar ante os tigres de hoje, podemos ser levados a decisões que se afastam do ideal, e que podem até ser incongruentes. Essa conclusão não é surpresa nenhuma para os que estudam o modo como o cérebro processa a incerteza: muitas pesquisas apontam para uma conexão próxima entre as partes do cérebro que avaliam situações envolvendo o acaso e as que lidam com a característica humana muitas vezes considerada a nossa principal fonte de irracionalidade, as emoções. Imagens de ressonância magnética funcional, por exemplo, mostram que risco e recompensa são avaliados por partes do sistema dopaminérgico, um circuito de recompensa cerebral importante para os processos motivacionais e emocionais. Os testes também mostram que as amígdalas cerebelosas – os lóbulos arredondados na superfície anterior do cerebelo –, também ligadas a nosso estado emocional, especialmente ao medo, são ativadas quando tomamos decisões em meio à incerteza.

Os mecanismos pelos quais as pessoas analisam situações que envolvem o acaso são um produto complexo de fatores evolutivos, da estrutura cerebral, das experiências pessoais, do conhecimento e das emoções. De fato, a resposta humana à incerteza é tão complexa que, por vezes, distintas estruturas cerebrais chegam a conclusões diferentes e aparentemente lutam entre si para determinar qual delas dominará as demais. Por exemplo, se o seu rosto inchar até cinco vezes o tamanho normal em 3 de cada 4 vezes que você comer camarão, o lado “lógico” do seu cérebro, o hemisfério esquerdo, tentará encontrar um padrão. Já o hemisfério direito, “intuitivo”, dirá apenas: “Evite camarão.” Ao menos essa foi a descoberta feita por pesquisadores em situações experimentais menos dolorosas. O nome do jogo é suposição de probabilidades. Em vez de brincarem com camarões e histamina, os pesquisadores mostram aos participantes do estudo uma série de cartas ou lâmpadas de duas cores, digamos, verde e vermelho. A experiência é organizada de modo que as cores apareçam com diferentes probabilidades, mas sem nenhuma espécie de padrão. Por exemplo, o vermelho poderia aparecer com frequência duas vezes maior que o verde numa sequência como vermelho-vermelho-verde-vermelho-verde-vermelho-vermelho-verde-verde-vermelho-vermelho-vermelho, e assim por diante. Depois de observar o experimento por algum tempo, a pessoa deve tentar prever se cada novo item da sequência será vermelho ou verde.

O jogo tem duas estratégias básicas. Uma delas é sempre arriscar na cor percebida como a que ocorre com mais frequência. Essa é a estratégia preferida por ratos e outros animais não humanos. Ao empregarmos essa estratégia, garantimos um certo grau de acertos, mas também aceitamos que nosso desempenho não será melhor que isso. Por exemplo, se o verde surgir em 75% das vezes e decidirmos sempre arriscar no verde, acertaremos em 75% das vezes. A outra estratégia é “ajustar” a nossa proporção de tentativas no verde e no vermelho conforme a proporção de verdes e vermelhos que observamos no passado. Se os verdes e vermelhos surgirem segundo um padrão e conseguirmos desvendar esse padrão, essa estratégia nos permitirá acertar em todas as tentativas. Mas se as cores surgirem aleatoriamente, o melhor que podemos fazer é nos atermos à primeira estratégia. No caso em que o verde aparece aleatoriamente em 75% das vezes, a segunda estratégia levará ao acerto em apenas cerca de 6 vezes de cada 10.

Os seres humanos geralmente tentam descobrir qual é o padrão e, nesse processo, acabamos tendo um desempenho pior que o dos ratos. Há pessoas, porém, com certos tipos de sequelas cerebrais pós-cirúrgicas que impedem os hemisférios direito e esquerdo de se comunicarem um com o outro – uma condição conhecida como cérebro dividido. Se o experimento for realizado com esses pacientes de modo que eles só consigam ver a luz ou a carta colorida com o olho esquerdo e só possam utilizar a mão esquerda para sinalizar suas previsões, apenas o lado direito do cérebro é testado. Mas se for realizado de modo a envolver apenas o olho direito e a mão direita, será um experimento para o lado esquerdo do cérebro. Ao realizarem esses testes, os pesquisadores descobriram que – nos mesmos pacientes – o hemisfério direito sempre arriscava na cor mais frequente, e o esquerdo sempre tentava adivinhar o padrão.

A capacidade de tomar decisões e fazer avaliações sábias diante da incerteza é uma habilidade rara. Porém, como qualquer habilidade, pode ser aperfeiçoada com a experiência. Nas páginas que se seguem, examinarei o papel do acaso no mundo que nos cerca, as ideias desenvolvidas ao longo dos séculos para nos ajudar a entender esse papel e os fatores que tantas vezes nos levam pelo caminho errado. O filósofo e matemático britânico Bertrand Russell escreveu:

Todos começamos com o “realismo ingênuo”, isto é, a doutrina de que as coisas são aquilo que parecem ser. Achamos que a grama é verde, que as pedras são duras e que a neve é fria. Mas a física nos assegura que o verdejar da grama, a dureza das pedras e a frieza da neve não são o verdejar da grama, a dureza das pedras e a frieza da neve que conhecemos em nossa experiência própria, e sim algo muito diferente.

A seguir, olharemos o mundo pela lente da aleatoriedade e veremos que, também em nossas vidas, muitos dos acontecimentos não são exatamente o que parecem ser, e sim algo muito diferente.

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Trecho do Livro: O Símbolo Perdido | Dan Brown
Livro O Simbolo Perdido

Obs: O Símbolo Perdido trata da terceira aventura de Robert Langdon. A primeira aventura se passou no livro Anjos e Demônios, e a segunda no livro O Código Da Vinci.

Autor: Dan Brown
Editora: Sextante
ISBN: 9788599296554

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FATOS: Em 1991, um documento foi trancado no cofre do diretor da CIA. O documento continua lá até hoje. Seu texto em código inclui referências a um antigo portal e a uma localização subterrânea desconhecida. O documento também contém a frase: “Está enterrado lá em algum lugar.”

Todas as organizações citadas neste romance existem, incluindo a Francomaçonaria, o Colégio Invisível, o Escritório de Segurança, o Centro de Apoio dos Museus Smithsonian (CAMS) e o Instituto de Ciências Noéticas.

Todos os rituais, informações científicas, obras de arte e monumentos citados neste romance são reais.

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Prólogo: Casa do Templo – 20h33

O segredo é saber como morrer. Desde o início dos tempos, o segredo sempre foi saber como morrer.

O iniciado de 34 anos baixou os olhos para o crânio humano que segurava com as duas mãos. O crânio era oco feito uma tigela e estava cheio de vinho cor de sangue.

Beba, disse ele a si mesmo. Você não tem nada a temer.

Como rezava a tradição, ele havia começado aquela jornada vestido com os trajes ritualísticos de um herege medieval a caminho da forca, com a camisa frouxa deixando entrever o peito pálido, a perna esquerda da calça arregaçada até o joelho e a manga direita enrolada até o cotovelo. De seu pescoço pendia um pesado nó feito de corda – uma “atadura”, como diziam os irmãos. Nessa noite, porém, assim como os companheiros que assistiam à cerimônia, ele estava vestido de mestre.

O grupo que o rodeava estava todo paramentado com aventais de pele de cordeiro, faixas na cintura e luvas brancas. Em volta do pescoço usavam joias cerimoniais que cintilavam à luz mortiça como olhos espectrais. Muitos daqueles homens ocupavam cargos de poder lá fora, mas o iniciado sabia que suas posições mundanas nada significavam entre aquelas paredes. Ali todos eram iguais, irmãos unidos pelo juramento compartilhando um elo místico.

Correndo os olhos pelo impressionante grupo, o iniciado se perguntou quem, no mundo exterior, seria capaz de acreditar que todos aqueles homens pudessem se reunir em um mesmo lugar… principalmente naquele lugar. O recinto parecia um santuário sagrado do mundo antigo. A verdade, porém, era ainda mais estranha.

Estou a poucos quarteirões da Casa Branca.

Aquele edifício colossal, situado no número 1.733 da Rua 16 Noroeste, em Washington, D.C., era a réplica de um templo pré-cristão – o Templo do Rei Mausolo, o primeiro mausoléu… um lugar para onde se era levado após a morte. Diante da entrada principal, duas esfinges de 17 toneladas montavam guarda ao lado das portas de bronze. O interior era um labirinto de câmaras ritualísticas, corredores, alcovas secretas, bibliotecas e até mesmo um compartimento contendo os restos mortais de dois corpos humanos. O iniciado havia aprendido que cada cômodo daquele edifício guardava um segredo, mas sabia que nenhum deles ocultava mistérios mais profundos do que a câmara colossal na qual se encontrava agora, ajoelhado, segurando um crânio nas mãos. A Sala do Templo.

Sua forma era a de um quadrado perfeito. E o ambiente era sombrio e grandioso. O teto altíssimo se erguia a surpreendentes 30 metros, sustentado por colunas monolíticas de granito verde. Ao redor da sala, fileiras de cadeiras russas de nogueira escura, estofadas com couro de porco trabalhado à mão, estavam dispostas em níveis. Um trono de 10 metros de altura dominava a parede oeste, e um órgão escondido ocupava o lado oposto. As paredes eram um caleidoscópio de símbolos antigos… egípcios, hebraicos, astronômicos, alquímicos e outros ainda desconhecidos.

Nessa noite, a Sala do Templo estava iluminada por uma série de velas minuciosamente posicionadas. Seu brilho fraco era complementado apenas por um facho de luar que entrava pela ampla claraboia do teto jogando luz sobre o elemento mais surpreendente da sala – um imenso altar feito de um bloco maciço de mármore belga preto polido, situado bem no meio do recinto quadrado.

O segredo é saber como morrer, lembrou o iniciado a si mesmo.

– Chegou a hora – sussurrou uma voz.

O iniciado deixou seu olhar subir até o rosto do distinto personagem vestido de branco à sua frente. O Venerável Mestre Supremo. O homem, de quase 60 anos, era um ícone norte-americano, estimado, robusto e dono de uma fortuna incalculável. Seus cabelos outrora escuros estavam ficando grisalhos, e o semblante conhecido refletia uma vida inteira de poder e um vigoroso intelecto.

– Preste o juramento – disse o Venerável Mestre, com uma voz suave feito a neve. – Complete sua jornada.

A jornada do iniciado, assim como todas as daquele tipo, havia começado no grau 1. Naquela noite, em um ritual parecido com este de agora, o Venerável Mestre o vendara com uma faixa de veludo e pressionara uma adaga cerimonial contra seu peito, indagando:

– Você declara seriamente, pela sua honra, sem influência de motivações mercenárias ou quaisquer outras considerações indignas, candidatar-se de forma livre e espontânea aos mistérios e privilégios desta irmandade?

– Sim – havia mentido o iniciado.

– Então que isso seja um estímulo à sua consciência – alertara o mestre –, bem como a morte instantânea caso algum dia você venha a trair os segredos que lhe serão revelados.

Na época, o iniciado não sentira medo. Eles jamais saberão meu verdadeiro motivo para estar aqui.

Nessa noite, porém, uma atmosfera de ameaçadora solenidade pairava na Sala do Templo, levando-o a rememorar todos os avisos severos recebidos durante a jornada, ameaças de punições terríveis caso ele algum dia revelasse os antigos segredos que estava prestes a conhecer: garganta cortada de orelha a orelha… língua arrancada pela raiz… entranhas removidas e queimadas… espalhadas aos quatro ventos… coração retirado do peito e jogado aos animais selvagens…

– Irmão – disse o mestre de olhos cinzentos, pousando a mão esquerda no ombro do iniciado. – Preste o juramento final.

Tomando coragem para dar o último passo de sua jornada, o iniciado endireitou o corpo e voltou sua atenção para o crânio que segurava nas mãos. À fraca luz das velas, o vinho cor de carmim parecia quase negro. Um silêncio sepulcral reinava na sala, e ele podia sentir os olhos das testemunhas cravados nele, à espera que prestasse o juramento final e se unisse àquele grupo de elite.

Hoje à noite, pensou ele, entre estas paredes, está acontecendo algo que nunca aconteceu antes na história desta irmandade. Nem sequer uma vez em séculos.

Ele sabia que aquilo seria a faísca… e que lhe daria um poder inimaginável. Cheio de energia, respirou fundo e repetiu as mesmas palavras pronunciadas antes dele por incontáveis homens espalhados por todo o mundo.

– Que este vinho que agora bebo se transforme em veneno mortal para mim… caso algum dia eu descumpra meu juramento de forma consciente ou voluntária.

Suas palavras ecoaram no espaço oco. Então o silêncio foi total.

Firmando as mãos, o iniciado levou o crânio à boca e sentiu os lábios tocarem o osso seco. Fechou os olhos e o inclinou, bebendo o vinho em goles demorados, generosos. Depois de sorver tudo até a última gota, abaixou o crânio.

Por um instante, pensou sentir os pulmões se contraírem, e seu coração começou a bater descompassado. Meu Deus, eles sabem! Então, com a mesma rapidez que havia surgido, a sensação passou.

Um agradável calor começou a percorrer seu corpo. O iniciado soltou o ar, sorrindo consigo mesmo enquanto observava o homem de olhos cinzentos que não desconfiava de nada e que acabara de cometer o erro de deixá-lo entrar para o círculo mais secreto de sua irmandade.

Você logo perderá tudo o que lhe é mais precioso.

—–

O elevador Otis que subia a coluna sul da Torre Eiffel estava lotado de turistas. Em seu interior abarrotado, o austero executivo de terno bem passado baixou os olhos para o menino ao seu lado.

– Você está pálido, filho. Devia ter ficado lá embaixo.

– Estou bem… – respondeu o garoto, esforçando-se para controlar a própria ansiedade. – Vou descer no próximo andar. – Não consigo respirar.

O homem chegou mais perto.

– Pensei que a esta altura você já tivesse superado isso. – Ele acariciou com afeto a bochecha do filho.

O menino estava com vergonha por desapontar o pai, mas mal conseguia escutar qualquer coisa, tamanho o zumbido em seus ouvidos. Não consigo respirar. Preciso sair de dentro desta caixa!

O ascensorista estava dizendo alguma coisa tranquilizadora sobre os pistons articulados e a estrutura de ferro forjado do elevador. Muito abaixo deles, as ruas de Paris se estendiam em todas as direções.

Estamos quase chegando, disse o menino para si mesmo, esticando o pescoço e erguendo os olhos para a plataforma de desembarque. Aguente firme.

À medida que o elevador se aproximava num ângulo acentuado do deque de observação, o poço se estreitava, e seus enormes tirantes se contraíam formando um túnel apertado, vertical.

– Pai, eu acho que não…

De repente, um estalo abrupto ecoou acima dele. O elevador deu um tranco e pendeu para um dos lados, desequilibrado. Cabos esgarçados começaram a chicotear em volta do compartimento, agitando-se feito cobras. O menino estendeu a mão para o pai.

– Pai!

Durante um segundo aterrorizante, seus olhares se cruzaram.

Então o fundo do elevador se soltou.

Robert Langdon teve um sobressalto, despertando assustado daquele sonho diurno semiconsciente. Estava sentado sozinho em sua macia poltrona de couro na imensa cabine de um jatinho corporativo Falcon 2000EX que atravessava aos solavancos uma área de turbulência. Ao fundo, ouvia-se o zumbido constante dos dois motores Pratt & Whitney.

– Sr. Langdon? – O alto-falante chiou acima dele. – Estamos na fase final de aproximação.

Langdon se endireitou no assento e tornou a guardar as notas da palestra dentro da bolsa de viagem de couro. Estava no meio de uma revisão da simbologia maçônica quando havia cochilado. Desconfiava que o sonho sobre o pai já falecido tivesse sido causado pelo inesperado convite, recebido naquela manhã, de seu antigo mentor, Peter Solomon.

O outro homem que nunca vou querer decepcionar.

O filantropo, historiador e cientista de 58 anos havia se tornado o protetor de Langdon quase 30 anos antes, preenchendo sob muitos aspectos o vazio deixado pela morte do pai. Apesar da influente dinastia familiar e da imensa fortuna de Solomon, Langdon encontrou humildade e calor humano em seus suaves olhos cinzentos.

Do lado de fora da janela, o sol havia se posto, mas Langdon ainda podia distinguir a silhueta esguia do maior obelisco do mundo, erguendo-se acima do horizonte como a coluna de um antigo relógio de sol. O obelisco de quase 170 metros de altura revestido de mármore marcava o centro daquela nação. A partir dele, a meticulosa geometria de ruas e monumentos se espalhava por todas as direções. Mesmo vista de cima, Washington exalava um poder quase místico.

Langdon adorava aquela cidade e, quando o jatinho tocou o solo, sentiu uma animação crescente em relação ao que o dia lhe reservava. A aeronave taxiou até um terminal privado em algum lugar em meio à vastidão do Aeroporto Internacional Dulles e parou.

Langdon juntou suas coisas, agradeceu aos pilotos e emergiu do interior luxuoso do jatinho para a escada dobrável. O ar frio de janeiro dava uma sensação de liberdade.

Respire, Robert, pensou ele, apreciando os grandes espaços abertos.

Uma manta de bruma branca cobria a pista de pouso e, ao descer para o asfalto enevoado, Langdon teve a sensação de estar pisando em um pântano.

– Olá! Olá! – chamou uma voz melodiosa com sotaque britânico. – Professor Langdon?

Langdon ergueu os olhos e viu uma mulher de meia-idade, de crachá e com uma prancheta na mão, caminhando apressada em sua direção, acenando alegremente enquanto ele se aproximava. Cabelos louros cacheados despontavam de baixo de um estiloso gorro de lã.

– Bem-vindo a Washington, professor!

Langdon sorriu.

– Obrigado.

– Meu nome é Pam, do serviço de atendimento a passageiros. – A mulher falava com uma exuberância quase perturbadora. – Se quiser me acompanhar, seu carro está aguardando.

Langdon a seguiu pela pista em direção ao terminal exclusivo, cercado por reluzentes jatinhos privados. Um ponto de táxi para os ricos e famosos.

– Sem querer constrangê-lo, professor – disse a mulher, um pouco encabulada –, o senhor é o Robert Landgon que escreve livros sobre símbolos e religião, não é?

Langdon hesitou, mas assentiu com a cabeça.

– Bem que eu achei! – disse ela, radiante. – Meu grupo de leitura leu o seu livro sobre o sagrado feminino e a Igreja! Ele provocou um escândalo delicioso! O senhor gosta mesmo de soltar a raposa no galinheiro!

Langdon sorriu.

– Criar escândalo não foi bem a minha intenção.

A mulher pareceu perceber que Langdon não estava disposto a conversar sobre o próprio trabalho.

– Desculpe. Olhe eu aqui falando. Sei que o senhor provavelmente está cansado de ser reconhecido… mas a culpa é toda sua. – Com ar brincalhão, ela indicou as roupas que ele usava. – O seu uniforme o entregou.

Meu uniforme? Langdon baixou os olhos para examinar as próprias roupas. Estava usando seu suéter grafite de gola rulê, um paletó de tweed Harris, uma calça cáqui e sapatos fechados de couro de cabra… seu traje padrão para aulas, palestras, sessões de fotos e eventos sociais.

A mulher riu.

– Essas golas rulês que o senhor usa são muito fora de moda. O senhor ficaria bem melhor de gravata!

De jeito nenhum, pensou Langdon. Pequenas forcas.

Quando Langdon estudava na Academia Phillips Exeter, o uso da gravata era obrigatório seis dias por semana e, apesar da visão romântica do diretor, segundo a qual a origem da gravata remontava à fascalia de seda usada pelos oradores romanos para aquecer as cordas vocais, Langdon sabia que, do ponto de vista etimológico, gravata na verdade vinha de um bando de cruéis mercenários croatas que amarravam lenços em volta do pescoço antes de partir para a batalha. Até hoje, esse antigo traje de combate é usado por guerreiros corporativos modernos, que esperam intimidar os inimigos nas batalhas diárias das salas de reunião.

– Obrigado pelo conselho – disse Langdon com uma risadinha. – Daqui para a frente, vou pensar em usar gravata.

Por sorte, um homem de aspecto profissional vestindo um terno escuro desceu de um Lincoln estacionado junto ao terminal e chamou seu nome.

– Sr. Langdon? Sou Charles, da Beltway Limusines. – Ele abriu a porta traseira. – Boa noite. Bem-vindo a Washington.

Langdon deu uma gorjeta a Pam para lhe agradecer pela hospitalidade e, em seguida, entrou no interior luxuoso do carro. O motorista lhe mostrou os controles da calefação, a água mineral e o cesto de muffins quentinhos. Segundos depois, o Lincoln já seguia por uma rua de acesso exclusivo. Então é assim que vive a outra metade.

Enquanto disparava pela Windsock Drive, o motorista consultou a lista de passageiros e deu um telefonema rápido.

– Aqui é da Beltway Limusines – disse ele, com eficiência profissional. – Recebi instruções para confirmar quando meu passageiro tivesse aterrissado. – Ele fez uma pausa. – Sim, senhor. Seu convidado, Sr. Langdon, já chegou e eu o estou levando para o prédio do Capitólio. Devemos chegar lá antes das sete. De nada, senhor. – E desligou.

Langdon teve de sorrir. Ele pensou em todos os detalhes. A atenção que Peter Solomon dedicava às minúcias era uma de suas maiores qualidades, algo que lhe permitia administrar com aparente facilidade seu considerável poder. Alguns bilhões de dólares no banco também não fazem mal.

O professor se acomodou no confortável assento de couro e fechou os olhos à medida que o ruído do aeroporto ia ficando para trás. A viagem até o Capitólio demoraria meia hora, e ele ficou satisfeito por ter esse tempo sozinho para organizar os próprios pensamentos. Tudo havia acontecido tão depressa naquele dia que só agora Langdon tinha começado a pensar a sério na incrível noite que tinha pela frente.

Chegando sob um véu de mistério, pensou ele, divertindo-se com a ideia.

A pouco mais de 15 quilômetros do Capitólio, uma figura solitária se preparava ansiosamente para a chegada de Robert Langdon.

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Trecho do Livro: O Crash de 2008
Livro O Crash de 2008
Subtítulo: Dinheiro fácil, apostas arriscadas e o colapso global do crédito
Autor: Charles R. Morris
Editora: Aracati
ISBN: 9788562432002

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A MORTE DO LIBERALISMO

Para especialistas em infelicidade, o período de 1972 a 1982 nos Estados Unidos ofereceu um verdadeiro banquete de pontos baixos.

A taxa de crescimento econômico foi uma das menores de todos os períodos comparáveis desde o fim da Segunda Guerra Mundial. O país suportou um dos piores períodos de inflação de sua história, e os investidores estrangeiros fugiam do dólar como se ele fosse o peso mexicano.

Empresas americanas que eram líderes em setores importantes foram humilhadas por suas concorrentes japonesas. Na indústria pesada, generalizaram-se as demissões e reduções de jornada de trabalho. O coração industrial dos Estados Unidos, que antes fervilhava de atividade, se transformou no Cinturão da Ferrugem.

Os países da OPEP (Organização dos Países Exportadores de Petróleo) decuplicaram os preços do petróleo e impuseram-se como acionistas de grandes empresas petrolíferas.

Houve protestos contra a guerra do Vietnã e batalhas nas universidades. Cidades foram assoladas pelo crime e pela desordem. Nova York chegou à beira da falência. Um presidente foi forçado a deixar o cargo, e seu vice já havia renunciado sob acusações de suborno e corrupção.

Helicópteros tiraram às pressas americanos do topo da embaixada dos Estados Unidos em Saigon, fugindo de uma guerra perdida. A União Soviética acelerou visivelmente a corrida armamentista e enviou 100.000 soldados para o Afeganistão. O presidente Jimmy Carter passou os últimos meses de seu mandato negociando o pagamento de resgate por 52 americanos mantidos reféns por radicais iranianos.

Os economistas chegaram até a propor uma medida do horror da situação. Em 1980, o chamado “índice de infelicidade”, a soma da taxa de inflação com a taxa de desemprego, atingiu seu nível mais alto. Uma nova palavra feia, “estagflação”, entrou no vocabulário político.

Acontecimentos tão disseminados e com tantas consequências normalmente são determinados por muitos fatores. Não há uma causa única, e sim muitas causas. Os desastres da década de 1970 tiveram pelo menos três raízes primárias – a perda de visão empresarial, as mudanças demográficas e uma péssima gestão econômica.

AS EMPRESAS ADOTAM A INCOMPETÊNCIA

Considere uma lista das principais empresas americanas por volta de 1910: ela incluiria a U.S. Steel e a Bethlehem Steel; a Standard Oil e a Gulf; a Swift, a Armour e a General Foods; a AT&T, a General Electric e a Westinghouse; a Anaconda Copper e a Alcoa; a Dupont e a American Tobacco. Agora uma lista semelhante relativa à década de 1970. Com exceção de empresas de novos setores industriais, como a General Motors e a RCA, as duas listas são quase idênticas. A despeito de todas as vicissitudes das fusões, mudanças de nome e medidas antitruste, as principais empresas de 1910 mantiveram suas posições ao longo dos setenta anos seguintes.

As empresas vitoriosas do começo da década de 1900 tinham surgido do turbilhão industrial mais selvagemente darwiniano da história norte-americana. Rockefeller, Carnegie e outros de sua espécie chegaram ao topo usando uma combinação de eficiência implacável e execução devastadora. As melhores empresas químicas e siderúrgicas alemãs ou inglesas podiam superar as americanas neste ou naquele nicho, mas, considerando-se o conjunto da indústria, os Estados Unidos possuíam o mais formidável poderio industrial que já se vira.

E ENTÃO OS AMERICANOS RELAXARAM

Praticamente assim que a U.S. Steel foi criada em 1901, a partir de uma sequência de fusões, seu presidente, Elbert Gary, começou a planejar acordos de partilha de mercado e manutenção de preços com seus concorrentes. A U.S. Steel nasceu controlando mais da metade do mercado; Gary argumentava que se seus colegas barões do aço simplesmente adotassem a estrutura de preços altos da U.S. Steel, cada um deles manteria sua participação no mercado e todos poderiam prosperar juntos. Depois da divisão da Standard Oil em 1911, a indústria do petróleo se enquadrou num padrão semelhante, e o mesmo ocorreu em indústrias mais novas, como a de automóveis e a de televisores. Certa vez, um presidente de uma empresa siderúrgica explicou a lógica da manutenção de preços a um comitê antitruste do Senado: “Se baixássemos nossos preços, os concorrentes fariam o mesmo, e isso provocaria a queda de seus lucros, de forma que, em termos relativos, voltaríamos exatamente aos mesmos preços de antes”.

A guerra preservou e ampliou a preguiçosa hegemonia dos americanos. As empresas conseguiram acumular gordura com a venda de armas durante a guerra e com a reconstrução do pós-guerra, ao mesmo tempo em que colaboraram para destruir suas concorrentes no exterior. Um executivo de vendas da indústria siderúrgica da década de 1950 se gabava: “Nossos vendedores não vendem aço; eles apenas o distribuem”. Mas, ao solapar a concorrência, o sistema de “preços administrados” de Gary congelou o avanço tecnológico. O centro da inovação na fabricação de aço se deslocou para a Europa e o Japão.

Os grandes sindicatos de trabalhadores passaram a fazer parte do sistema na década de 1950, com a fórmula adotada pela General Motors para acordos trabalhistas. A empresa que ditava os preços da indústria costumava assumir a liderança nas negociações com os sindicatos. Os contratos em geral cobriam três anos e incluíam bônus salariais de acordo com os aumentos de produtividade previstos. Mais tarde, quando a inflação subiu, os contratos passaram a incluir tanto o aumento de produtividade esperado como ajustes anuais para compensar a inflação. Quando, já na década de 1970, a produtividade parou de crescer e a inflação se acelerou, as empresas se viram diante de um problema de custo que não podiam ignorar.

Mesmo na época as pessoas entendiam que a década de 1950 e o início da década de 1960 tinham sido uma espécie de idade de ouro. Os padrões dos acordos salariais das grandes empresas se disseminaram gradativamente para as menores, suas fornecedoras, e a maioria delas acrescentava benefícios, tais como pensão e assistência médica. Para uma grande parcela da população, o sonho americano da casa com jardim e escola decente para os filhos se tornou realidade. O livro A Sociedade Afluente (1958), de John Kenneth Galbraith, anunciou que o problema da produção tinha sido resolvido, que as necessidades dos consumidores estavam próximas da satisfação plena e que era hora de todos se concentrarem em “expelir a dor, a tensão, o sofrimento e a maldição onipresente da ignorância”.

Nas décadas de 1950 e 1960, floresceram as “escolas trabalhistas” para ativistas sindicais. A maioria delas era administrada por católicos, e muitas funcionavam em instituições de ensino jesuítas. (Era comum que dois terços dos membros dos grandes sindicatos industriais fossem católicos.) As escolas ensinavam técnicas de negociação e organização, legislação trabalhista e economia do trabalho, ao mesmo tempo que enalteciam os acordos “solidaristas” de divisão do poder característicos da Europa católica. Empresários costumavam frequentar os cursos. Líderes sindicais e executivos começaram a se considerar estadistas industriais.

Nas faculdades de administração, o reinado das grandes empresas era considerado parte da ordem natural. Os tópicos mais importantes nas décadas de 1950 e 1960 eram organização e finanças, que tratavam essencialmente de mudar a mobília de lugar dentro das múltiplas unidades das empresas estáveis do moderno “capitalismo gerencial”. Na década de 1960 houve um movimento de fusões, mas ele cheirava a pó de giz acadêmico. A ideia era que se as empresas diversificassem seus negócios, poderiam reduzir as oscilações nos ciclos de ganhos. Contrariando o bom senso, a Exxon ingressou no ramo de equipamentos para escritórios, e a Mobil comprou um circo e uma cadeia de lojas de departamentos.

À medida que a administração de empresas migrou para os cursos de pós-graduação, os executivos se afastaram ainda mais do chão de fábrica. Desde a década de 1970, a mensagem permanente dos manuais de gestão era que, na década de 1920, Ford, General Motors e Dupont tinham escrito os textos sagrados das práticas de produção. Os desenvolvimentos mais importantes do pós-guerra foram as técnicas matemáticas para otimizar a manutenção de máquinas e os estoques. Podiam-se utilizar as fórmulas sem jamais chegar perto de uma fábrica.

Como pássaros incapazes de voar vivendo numa ilha sem predadores, as empresas americanas não dispunham de defesas quando concorrentes famintos do exterior finalmente vieram à caça. Foi uma carnificina. Em 1980, os Estados Unidos praticamente não produziam mais televisores e rádios, os alemães e japoneses controlavam a indústria de máquinas-ferramenta e as indústrias americanas de aço e de produtos têxteis eram uma catástrofe. Mesmo os computadores mainframe da IBM eram fortemente ameaçados pela Amdahl e pela Fujitsu.

As tentativas espasmódicas de reagir à investida estrangeira apenas revelaram o grau de incompetência a que as empresas americanas tinham chegado. Enquanto Detroit se deixava enfeitiçar por automóveis com rabos-de-peixe cromados e teorias sobre “obsolescência planejada”, empresas como Toyota e Volkswagen apresentaram aos americanos as vantagens dos carros pequenos, bem-feitos e com baixo consumo de combustível. Os subcompactos importados conquistaram uma participação no mercado suficiente para levar a Ford e a Chevrolet a reagir e começar a fabricar seus próprios carros pequenos, o P_into e o Vega, ambos lançados em 1970. Em 1973, quando ocorreu o primeiro choque do petróleo e as vendas de automóveis pequenos dispararam, os novatos americanos revelaram-se fracassos vergonhosos – a revista Forbes mais tarde os classificou entre os piores carros de todos tempos.

A incompetência complacente das empresas americanas já era um problema sério. As marés demográficas só fizeram piorar as coisas.

O BABY BOOM

Peça a um economista uma explicação para a redução da produtividade americana na década de 1970, e ele apontará para o declínio do investimento. Os executivos americanos eram sem dúvida preguiçosos e incompetentes, mas a alta da inflação e das taxas de juro tornavam o capital muito caro.

Um demógrafo, no entanto, apontaria para o aumento repentino do número de trabalhadores jovens. Na década de 1970, a geração nascida durante o baby boom chegou à faixa dos vinte anos, e um imenso contingente de trabalhadores sem formação e sem qualificação ingressou no mercado de trabalho, causando redução da produtividade e pressionando os salários para baixo. Quando a mão-de-obra é barata e o capital é caro, reduzir o investimento é uma atitude sensata.

O baby boom ilustra o impacto exercido por mudanças marginais em um grupo populacional. A população com 18 a 22 anos era 4,3% da população total dos Estados Unidos em 1960, e 5,6% em 1970, o que parece ser apenas uma mudança modesta. Mas se considerarmos o número total de pessoas com 18 a 22 anos, o crescimento foi de cerca de 50%, de 7,6 milhões para 11,4 milhões, e isso teve um efeito bastante perturbador.

Richard Easterlin, que escreveu uma das primeiras e melhores análises do fenômeno do baby boom, enfatiza a importância do tamanho de um grupo populacional nascido em determinada época em comparação com o grupo imediatamente anterior. As taxas de natalidade caíram abruptamente nos Estados Unidos durante os anos da depressão econômica, de tal forma que a geração de homens que ingressaram no mercado de trabalho na década de 1950 era excepcionalmente pequena e tinha muitas oportunidades de emprego. A diferença de salário entre trabalhadores jovens e trabalhadores mais velhos tornou-se portanto muito pequena, facilitando o casamento precoce. Todas as medidas de desagregação social, como as taxas de criminalidade, caíram vertiginosamente. O casamento precoce e a maior segurança econômica também tornavam os casais mais dispostos a ter filhos. Na formulação de Easterling, as mudanças nesse grupo populacional se tornaram auto-amplificadoras.

Na metade da década de 1950, no entanto, os mecanismos de amplificação começaram a pender para a ruptura. Quando os filhos do baby boom chegaram à idade escolar, as escolas de ensino básico de todo o país foram obrigadas a adotar dois ou três períodos de aulas; e a situação era ainda pior nos subúrbios de classe média, onde escolas tiveram de ser construídas do zero. Quando essas crianças chegaram à adolescência, a delinquência juvenil passou a ocupar o topo da agenda social. Numa tentativa de lidar com o problema, as forças policiais tornaram-se mais seletivas em relação aos comportamentos que exigiam intervenção, um processo que mais tarde Daniel Patrick Moynihan chamou de “abrandamento da definição de comportamento desviante”.

Na década de 1960, houve um crescimento abrupto do número de jovens em idade de frequentar cursos superiores, multiplicado por um aumento na porcentagem daqueles que cursavam faculdade. Os heróicos estudantes que ocuparam as linhas de frente nos confrontos em torno dos direitos civis no final da década de 1950 e no início da de 1960 estabeleceram em todos os lugares um padrão de revoltas estudantis contra estruturas “opressivas”. Quando a convocação para a Guerra do Vietnã, que se acirrava, provocou violentos protestos nos campi, os confrontos que se seguiram entre a polícia e estudantes radicais assumiram um desagradável caráter de classe – as primeiras escaramuças das guerras culturais que marcariam a política americana nos anos seguintes.

Alarmado pela espiral ascendente de crime e violência em cidades importantes, o presidente Lyndon Johnson conseguiu aprovar sua legislação de Guerra à Pobreza e Cidades-Modelo, uma mescla de planos de melhoramento social da década de 1920, engenharia de sistemas dos tempos de guerra e idéias surgidas dos movimentos sociais da época. Os gastos com bem-estar urbano foram multiplicados por dez, houve tumultos na maioria das grandes cidades, e extensas áreas de bairros mais pobres foram destruídas pelo fogo. As grandes empresas fugiram do centro das cidades, deixando aos prefeitos a tarefa de lidar com a queda violenta da arrecadação de impostos e as demandas cada vez maiores por segurança e serviços.

A década de 1960 terminou em 1971. Os protestos contra a Guerra do Vietnã foram um fator importante na decisão de Johnson de não concorrer a um segundo mandato em 1968. Richard Nixon declarou ter um plano secreto para terminar com a guerra, mas depois de tomar posse se concentrou na “vietnamização” – reduzindo as baixas americanas mas transferindo a parte mais difícil da luta para os vietnamitas aliados. Houve protestos estudantis contra as incursões americanas no Camboja em 1970, mas eles cessaram abruptamente no ano seguinte, quando terminou o recrutamento compulsório. As mortes ocorridas em um concerto de rock na Flórida em 1971 expuseram a vio_lência e as dr_gas que estavam entranhadas na contracultura.

O livro de Kevin Phillips The Emerging Republican Majority [A maioria republicana emergente], de 1969, previu como a aversão à postura dos estudantes e das elites liberais e o cansaço diante do aumento da criminalidade e dos gastos com bem-estar empurrariam para o Partido Republicano os eleitores da classe trabalhadora que tradicionalmente votavam nos democratas. A esmagadora vitória de Nixon na eleição de 1972, depois de ter derrotado Hubert Humphrey por uma pequena margem em 1968, provou que Phillips estava certo.

Quando Nixon tomou posse em 1969, a economia já começava a ir de mal a pior, e ele se dedicou a tornar a crise econômica a pior possível.

A ARTE POLÍTICA DA MÁ ADMINISTRAÇÃO

Nos cinco anos da presidência de Johnson, a taxa anual de crescimento real superou 5%, apesar da inflação alta. Mas em 1970, o segundo ano de Nixon no governo, o crescimento desabou para quase zero, enquanto a inflação beirava 6%. Nixon já planejava sua segunda disputa presidencial, e esses eram números horríveis para lançar uma campanha.

Mas havia pouco espaço para manobra. O déficit federal em 1970 foi tão grande quanto qualquer um do período de Johnson. Uma tentativa de estímulo fiscal provavelmente resultaria em mais inflação. E ainda havia o problema do dólar. O compromisso americano de resgatar dólares à taxa de US$ 35 por onça (31 gramas) de ouro era o sustentáculo da estabilidade monetária mundial. Mas as reservas de ouro americanas estavam em queda, o que levava operadores que faziam negócios com divisas a armar ataques ao dólar para testar a determinação do Tesouro americano. A solução proposta nos manuais de economia era elevar as taxas de juro para que os estrangeiros preferissem manter seus dólares. Mas, com a economia tão frágil, uma elevação das taxas poderia provocar uma forte recessão.

Poucos políticos tinham o dom de Nixon para lances ousados. Em agosto de 1971, ele levou toda a sua equipe econômica de helicóptero para Camp David, para um fim semana que Herbert Stein, membro do Conselho de Assessores Econômicos do presidente, previu que “poderia ser a reunião mais importante na história da economia” desde o New Deal. Na semana seguinte, Nixon anunciou que reduziria os impostos, imporia o controle de salários e preços em toda a economia, aplicaria uma sobretaxa de imposto sobre as importações e rescindiria o compromisso de resgatar dólares em troca de ouro.

Do ponto de vista político, foi uma jogada de mestre. Com a vigência do controle de preços, Nixon e o presidente do Federal Reserve, Arthur Burns, podiam aumentar a oferta de moeda sem se preocupar com inflação de preços – a taxa de crescimento da oferta de moeda em 1971 foi de 10%, a maior registrada até então. O crescimento econômico foi retomado e, no momento da eleição de 1972, era superior a 5%, ou exatamente o que os doutores da política tinham receitado.

Em um único fim de semana, Nixon tinha livrado as grandes empresas das pressões sindicais por aumentos de salário, da elevação de preços por parte de fornecedores e da concorrência estrangeira, enquanto os consumidores se deleitavam com a estabilidade dos preços. O dólar chegou ao fim de 1971 a cerca de US$ 44 por onça de ouro. Ou seja, medida em ouro, os parceiros comerciais dos Estados Unidos tiveram uma perda de 25% em seus ativos. O Japão recebeu o golpe mais forte, porque tinha grandes reservas em dólar.

A extensão dos danos econômicos só ficou clara depois de Nixon ter conseguido sua vitória esmagadora. Os aumentos de preço do petróleo da OPEP, que ajudaram a desencadear a grande inflação da década de 1970, foram consequência direta da flutuação do valor do dólar. Em 1973, quando os países da OPEP triplicaram o preço do petróleo, o dólar caíra para cerca de US$ 100 por onça de ouro, ou aproximadamente um terço do valor anterior. Em 1979, quando a OPEP voltou a triplicar os preços, o dólar variou entre US$ 233 e US$ 578 por onça de ouro. Em termos de ouro, portanto, a OPEP ainda estava perdendo terreno. Em 1980, quando o dólar desabou para U$ 850 por onça de ouro, o preço do petróleo em ouro era o mais baixo até então. O verdadeiro problema era que os Estados Unidos tinham degradado sua moeda.

O congelamento de salários e preços “por noventa dias”, como foi originalmente anunciado em 1971, acabou vigorando por três anos. É sempre mais fácil impor controles do que retirá-los. A inflação subjacente se acumula até um ponto em que se torna explosiva, enquanto um denso emaranhado de regras oferece brechas lucrativas para quem tem sorte ou é bem relacionado. Na primavera de 1974, quando Nixon estava enredado no caso Watergate, o Congresso finalmente pôs fim aos controles, com exceção do preço do petróleo produzido nos Estados Unidos. A retirada dos controles provocou uma inflação de dois dígitos e as horríveis recessões de 1974 e 1975. O declínio da competitividade americana continuou acelerado – em 1977, a Chrysler só evitou a falência por força de empréstimos governamentais de última hora.

O conservadorismo social de Nixon e o ódio visceral que ele inspirava nos liberais tradicionais obscurecem o fato de que, segundo as definições da época, ele foi um dos presidentes americanos mais liberais. Com a aproximação do fim da Guerra do Vietnã, Nixon cortou fortemente os gastos militares, conseguiu a aprovação do Congresso para a maior expansão de benefícios da seguridade social desde o início do programa e criou os programas federais de ação afirmativa que se disseminaram rapidamente nas principais empresas e instituições públicas.

Na economia, Nixon foi keynesiano em todos os sentidos, demonstrando uma queda pela intervenção de cima para baixo, típica da Europa. Membros de seu gabinete tidos por conservadores tinham basicamente as mesmas visões, entre eles John Connelly, secretário do Tesouro e ex-advogado de empresas, e George Romney, secretário da Habitação e ex-presidente da American Motors. Romney declarou a certa altura que a economia dos Estados Unidos “deixara de se basear no princípio da livre concorrência empresarial”. Até Burns, um símbolo do conservadorismo, justificou o recurso ao controle de salários e preços declarando ao Congresso que “as regras da economia não estão funcionando exatamente da maneira como funcionavam antes”.

No que diz respeito à energia, em especial, o viés intervencionista se manteve durante o interregno pós-Watergate de Gerald Ford, e se ampliou ainda mais depois da eleição de Jimmy Carter, em 1976. Quando Carter anunciou seu Plano Nacional de Energia, chamou-o de “equivalente moral da guerra”. O colunista Russel Baker imediatamente o apelidou de “MEOW”,* e isso bastou para condenar o plano. Concebido pelo nada brilhante secretário de Energia, James Schlesinger, que também fora secretário da Defesa nos governos Nixon e Ford, o plano era um conjunto extremamente complexo de impostos, incentivos, alocações e esquemas de definição de preços, incluindo tabelas de preços diferentes para petróleo “novo” e petróleo “velho” – isto é, anterior a 1977 –, um “imposto sobre lucros extraordinários”, impostos especiais sobre importações, uma empresa nacional de “combustíveis sintéticos” e muito, muito mais. Também havia planos muito adiantados para introduzir cupons de racionamento de gasolina no estilo dos adotados na Segunda Guerra Mundial. Longas filas e, vez por outra, cenas de violência se tornaram comuns nos postos de gasolina do país.

* As iniciais das palavras usadas por Carter, “Moral Equivalent of War”, formam a palavra meow, que em inglês é o miado de um gato. (N. T.)

Em desespero, Carter tentou criar uma versão voluntária dos controles de salários e preços de Nixon. Na primavera de 1979, quando a inflação trimestral chegou perto de 14%, o New York Times noticiou:

Membros da equipe econômica do governo Carter expressaram mais desespero que esperança, dizendo que pouco se poderia fazer além de dirigir menos, comer carne de porco barata em vez de carne de boi, e não “especular” em novas casas. “Sinto-me como uma folha flutuando em um oceano macroeconômico”, admitiu em entrevista coletiva Alfred E. Kahn, presidente do Conselho de Estabilidade de Salários e Preços.

Não há como exagerar o desdém que os estrangeiros demonstravam pela equipe econômica de Carter. Eis um memorando do departamento de câmbio do Federal Reserve preparado para uma reunião do Federal Open Market Committee (Comitê Federal do Mercado Aberto) em 1979:

Nas duas semanas seguintes a [nossa última] [...] reunião, o dólar sofreu repetidos surtos de pressão vendedora, quando o mercado de câmbio reagiu negativamente, primeiro a um adiamento do discurso do presidente Carter sobre energia, depois ao discurso em si, depois à renúncia de seu gabinete, depois à lista daqueles aos quais se pediu que não permanecessem no governo.* [...] [Isso foi] [...] visto não tanto como uma crise econômica, mas como uma crise de liderança [...], [como incapacidade] de formular uma política econômica coerente e conseguir sua aprovação no Congresso, e como um aparente estado caótico permanente da política de energia.

* Em julho, aparentemente em um esforço para demonstrar capacidade de decisão, Carter pediu a todos os membros de seu gabinete que renunciassem, depois nomeou de novo a maioria deles. As renúncias obrigatórias se estenderam até o nível de vice-secretário assistente e, portanto, envolveram centenas de funcionários, suspendendo por várias semanas atividades relacionadas a políticas importantes.

Os últimos dias do governo Carter foram dominados pela crise dos reféns no Irã. O xá, antigo aliado americano, havia sido deposto por islamitas radicais no começo de 1979, o que provocou grande agitação nos mercados de petróleo. Em julho, com a economia cada vez mais caótica, Carter fez seu criticadíssimo discurso do “mal-estar”, no qual parecia atribuir a culpa por seus problemas ao povo americano. Em novembro, iranianos invadiram a embaixada americana em Teerã e fizeram reféns 66 americanos. Nas semanas e meses seguintes, catorze foram libertados, mas os restantes 52 foram mantidos reféns por 444 dias. Carter retaliou boicotando o petróleo iraniano, o que era risível, pois os fornecedores comercializavam livremente o petróleo entre si. Percebendo a fraqueza americana, os soviéticos invadiram o Afeganistão seis semanas depois, e Carter reagiu cancelando as vendas de trigo americano aos soviéticos e boicotando as Olimpíadas de Moscou, o que enfureceu os agricultores americanos e todos os fãs das olimpíadas. No mês de abril seguinte, uma operação com helicópteros para resgatar os reféns, batizada de Desert I, foi abortada sem nem sequer se aproximar de seu objetivo, e durante a retirada oito homens morreram em um acidente. Carter se isolou no Jardim das Rosas da Casa Branca, e durante o restante de sua administração se concentrou em negociar a libertação dos reféns.

Raras vezes o prestígio e o orgulho americanos chegaram a um nível tão baixo. A política externa caminhava aos trancos e barrancos e a economia era uma bagunça. Em 1980, a inflação chegou a 13,5 % e a produção estava em queda, enquanto o dólar desabava numa espiral rumo ao abismo. Mas é preciso reconhecer pelo menos duas realizações de Carter. Vencendo as objeções do Congresso, ele conseguiu aprovar o fim do controle do preço do petróleo, embora, devido ao dilatado cronograma estabelecido, ele só tenha terminado durante a presidência de Reagan. E Carter nomeou para a presidência do Federal Reserve Paul Volcker, a quem deu total liberdade para combater a inflação. Foi a mais importante nomeação política da época.

O QUE FOI O LIBERALISMO?

Em seu sentido moderno, o liberalismo é uma teoria de governo que posa de ramo da economia. Adam Smith e David Ricardo chamavam sua disciplina de economia política, uma expressão útil. O adjetivo “política” foi abandonado no século 20, quando o casamento da economia com a matemática avançada promoveu a ilusão de que a economia era uma ciência. Mas os fundamentos empíricos da economia pública, os ramos que buscam informar a política do governo, são com frequência tão frágeis que se torna mais adequado entendê-los como ideologias.

A versão keynesiana de economia política que John Kennedy levou com grande alarde para Washington em 1961 era uma expressão de fé no potencial da alta inteligência empregada num governo ativista. Em parte baseada em exageros nostálgicos das realizações do New Deal e da administração da época da guerra, sua premissa central era que uma intelligentsia econômica poderia, de forma confiável, empregar alavancas governamentais para alcançar resultados específicos no mundo real.

Na prática, as políticas econômicas de Kennedy foram cautelosas. A proposta econômica mais importante de sua curta administração – reduzir impostos para gerar recuperação – só foi implementada muito depois que uma recuperação já estava em curso. Ainda assim, essa recuperação reforçou muito a mitologia da administração central, mais tarde levada ao nível da paródia, quando Lyndon Johnson e seus assessores se reuniam todas as noites para escolher os alvos no Vietnã a serem bombardeados no dia seguinte. Para Richard Nixon, o atrativo fundamental do ativismo keynesiano era o sucesso que ele fazia com o público, como o próprio Nixon aprendera, para sua tristeza, na campanha presidencial de 1960. A principal meta da radical centralização dos controles econômicos adotada por Nixon em 1971 não foi senão a de obter uma vitória esmagadora na reeleição.

A fé no poder de um governo manipulador de marionetes era enorme entre os liberais das décadas de 1970 e 1980 – sobretudo os que estavam nas universidades. (Os acadêmicos são incapazes de resistir a argumentos que exaltem as virtudes da inteligência superior.) Uma pesquisa realizada no começo da década 1980 sobre o declínio industrial americano, co-organizada por Laura Tyson, que depois presidiria o Conselho de Assessores Econômicos do presidente Bill Clinton, concluiu que os males da competitividade americana se resumiam à falta de uma política industrial. Fóruns de competitividade realizados no Massachusetts Institute of Technology detalharam as políticas industriais do governo que eram necessárias em uma longa série de indústrias. Um estudo sobre o Japão concluiu:

A única maneira de os Estados Unidos se contraporem ao desafio japonês e retomarem a liderança mundial é o uso abrangente de uma política industrial. Sem um forte Estado central e uma burocracia profissional de alto nível – as duas pré-condições para uma política industrial –, os Estados Unidos estão fadados ao declínio econômico.

Poderes super-humanos eram atribuídos ao Ministério do Comércio e Indústria japonês, o temido MITI, supostamente o centro nervoso da conquista industrial japonesa. Embora o MITI sem dúvida servisse aos interesses dos grandes cartéis japoneses, seu histórico real na tomada de decisões estratégicas é bastante variado. No caso dos computadores mainframe, por exemplo, o MITI impôs um esforço incansável de vinte anos para atingir a paridade com a IBM – só para descobrir, horrorizado, que escolhera o alvo errado. No final da década de 1980, quando a indústria da computação no Japão finalmente alcançou a IBM, os vendedores de mainframes estavam sitiados por fabricantes de computadores que realizavam processamento descentralizado baseados em microprocessadores, área na qual o Japão praticamente não ocupava posição nenhuma.

Mas não foram só os acadêmicos. Até Andrew Grove, presidente da Intel e um dos empresários mais brilhantes e mais bem-sucedidos do mundo, declarou, de forma fulminante e sombria, que os Estados Unidos se tornariam uma “colônia tecnológica” do Japão se não houvesse uma decidida reação americana, semelhante ao MITI. O auge da estupidez talvez tenha sido a pressão para que o governo liderasse o esforço de criação de um televisor de alta definição americano para competir com o da Sony (que se baseava em tecnologia não-digital obsoleta).

Intelectuais são indicadores defasados bastante confiáveis, guias quase infalíveis para se chegar à verdade passada. A obsessão por estratégias semelhantes às do MITI para os Estados Unidos atingiu o ápice mais ou menos na época em que o Japão mergulhava numa estagnação econômica que se arrastaria por quinze dolorosos anos. Os declínios prolongados da Alemanha e da França, quase no mesmo período, embora não tão sérios quanto o do Japão, causaram preocupações generalizadas com uma incurável “euro-esclerose”, provocada pelo excesso de intervenção econômica do governo.

O eclipse do liberalismo keynesiano foi a deixa para que entrasse em cena um paradigma alternativo que esperava pacientemente nos bastidores – o “monetarismo” de Milton Friedman.

O monetarismo era pretensamente uma teoria da moeda. A pesquisa de Friedman em história econômica o convenceu de que a inflação era “sempre e em todos os lugares um fenômeno monetário” – se a oferta de moeda crescer mais depressa que a atividade econômica real, os preços subirão. Além disso, ele estava convencido de que cada economia tinha uma taxa natural de emprego, definida por sua tecnologia e pela capacitação de sua força de trabalho. Tentativas de estímulo fiscal para aumentar o emprego além dessa taxa eram invariavelmente inflacionárias.

Os monetaristas ensinavam que a oferta de moeda era o resultado da multiplicação do estoque de moeda – dinheiro em forma de moedas e cédulas mais os depósitos à vista – por sua velocidade de circulação. A pesquisa histórica de Friedman mostrava que a velocidade era mais ou menos constante, portanto a política do governo só precisava se preocupar com o estoque de moeda. Se o Federal Reserve expandisse o estoque de moeda a uma taxa aproximadamente igual à do crescimento econômico, os preços também permaneceriam quase constantes. E o mais importante: ao estabelecer regras rígidas de gestão monetária, o Fed restringiria os impulsos intervencionistas do governo.

Na prática, do ponto de vista técnico, o monetarismo se revelou bastante difícil de implementar, mas resultados práticos têm pouco a ver com a capacidade de persuasão das ideologias. Enquanto os keynesianos cultuavam o ídolo do tecnocrata quase onisciente, a religião de Friedman cultuava o funcionamento sem entraves do capitalismo de livre mercado. (Friedman se opunha a quase todas as formas de regulação governamental, inclusive o controle para garantir a segurança dos produtos farmacêuticos.)

A eleição de Ronald Reagan, em 1980, foi um sinal de que o liberalismo keynesiano estava morto. De forma vaga e incipiente mas inquestionável, os eleitores tinham indicado sua disposição para uma mudança ideológica. Os teóricos do livre mercado iam ter a chance de mostrar do que eram capazes.

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Trecho do Livro: Voz Sobre IP (VoIP) – Curso Rápido
Livro Voz Sobre IP VoIP
Autor: Steven Shepard
Editora: Ciência Moderna
ISBN: 9788573936278

seta Saiba onde encontrar este livro

“Temos um projeto que queremos discutir com você.” Assim se iniciou uma conversa com meus editores da McGraw-Hill, Jane Brownlow e Steve Chapman. Estávamos sentados em um restaurante em Las Vegas durante a USTA Telecom 2004, e o projeto era este livro. De saída fiquei um pouco relutante porque muitos outros bons livros já tinham saído sobre a telefonia IP, e não fazia sentido para mim escrever mais um. Assim concordamos após muita discussão que eu iria olhar mais de perto os títulos disponíveis antes de tomar uma decisão, e foi isso que eu fiz. O resultado foi uma idéia que começou a germinar, e muito antes de eu ter aceitado a oportunidade e executar furiosamente as entrevistas, a pesquisa de marketing, e criar o manuscrito.

Minhas observações iniciais confirmaram o que eu já sabia – na verdade haviam bons livros no mercado para os leitores que desejassem mergulhar profundamente nos aspectos técnicos do VoIP (Voz sobre IP), e qualquer tentativa de minha parte em escrever mais um seria um mal uso do meu tempo e dos recursos da McGraw-Hill. Olhei os títulos existentes, li muitos deles, e como disse, me ocorreu uma idéia. Todos estes livros tinham a super-tarefa de explicar a complexidade de funcionamento dos protocolos TCP/IP, as diferenças entre o PSTN e a infraestrutura evolvente baseada em IP, os prós e contras do antigo e do novo, e o equipamento que poderia ser encontrado em uma típica rede VoIP. Entretanto, eles gastaram muito mais tempo examinando a evolução do VoIP como estudo de caso. Afinal, esta mudança na infra-estrutura tecnológica representa uma mudança maior na forma que as redes operam e na forma que os serviços são entregues para clientes de empresas e residenciais. Não faria sentido em se olhar para a implementação real do VoIP, desde o conceito inicial até a instalação e ativação? Quanto mais pensava neste modelo, mais eu gostava dele, e também Jane e Steve. Então propus um projeto de livro que ofereceria as mesmas descrições tecnologicamente valiosas encontradas em outros títulos, mas adicionei algo. Eu apresentaria a tecnologia dentro da estrutura de um esforço de conversação VoIP real, mostrando não apenas as vantagens fornecidas pelo momento, mas também os problemas e desafios que compreendam a complexidade e dificuldade na conversação. É claro que, agora, tenho de sair e encontrar uma empresa que tenha se convertido substancialmente para o VoIP, para que possa estudá-la, uma empresa disposta a compartilhar as tentativas e problemas encontrados em tal abordagem.

A sorte me segue. Pelos últimos oito anos tenho tido a honra de servir como um membro do Board of Trustess of Champlain College em Burlington, Vermont, próximo aonde vivo. Cerca de um ano atrás o time de TI da Champlain terminou uma ampla alteração de VoIP no Campus. Essa foi uma decisão de tudo ou nada: se tivessem de fazê-lo, iriam fazê-lo corretamente e em tudo, porque já tinham feito sua lição de cada e sabiam que a infra-estrutura de um campus baseado em IP tem o potencial de fornecer vantagens significativas para a escola de muitas formas diferentes. Como um conselheiro, fiquei ciente da conversão porque tive de votar pelo capital e custos necessários para financiar o novo sistema. Entretanto, a pressão do meu trabalho me impediu de me aprofundar mais do que perifericamente no processo de conversa à medida que este ocorria. Quando finalmente o fiz, enquanto escrevia este livro, estava esmagado pela enormidade do projeto e pelo comprometimento necessário para que o mesmo tivesse sucesso por parte de muitas pessoas. Por outro lado, estava impressionado pelo nível de funcionalidade fornecido às pessoas que vivem e trabalham no campus, e pela diversidade de novas aplicações que se tornaram possíveis.

Assim, este livro é sobre os negócios de se fazer uma conversão para VoIP. Ele oferece detalhadas visões das tecnologias e protocolos subentendidos, os agentes envolvidos no espaço VoIP, o conjunto de aplicações que residem na rede, e os prós e contras de uma convergência IP. Ele também discute o pensamento que ocorre na decisão fazer-não-fazer, o processo de seleção do vendedor, o estudo do conjunto de aplicativos disponíveis, as implicações financeiras do VoIP, os assuntos relacionados aos recursos humanos associados à convergência, e um monte de outros detalhes que são tão importantes quanto a compreensão fundamental da própria tecnologia. Em essência, eu escrevi este livro para que empresas que estão considerando a mudança para a VoIP possam fazê-lo com ambos os olhos abertos e com todas as suas perguntas feitas e respondidas antes de irem longe demais na estrada da convergência. Não há nenhuma dúvida de que a VoIP representa o futuro da telefonia. Entretanto, é importante se compreender que a pergunta não é se deve-se ir para a VoIP, mas sim quando. Como se diz por aí, o momento é tudo.

Este livro é dividido em seis capítulos. O Capítulo 1 mergulha nas razões que existem por trás da decisão de se converter para uma infra-estrutura de VoIP – ou não. O Capítulo 2 examina as entranhas do PSTN e outras tecnologias herdadas. O Capítulo 3 fornece então um caminho de migração das redes IP emergentes, descrevendo as tecnologias básicas e suas similaridades e diferenças relativas ao PSTN. O Capítulo 4 fala sobre a logística: o momento oportuno que deve ser escolhido para a conversão, as interdependências existentes, e a ordem na qual os processos devem ocorrer. O Capítulo 5 descreve as considerações operacionais da conversão, e o Capítulo 6 discute as considerações relativas aos recursos humanos de uma rede VoIP sobrecarregada. Penso que você achará esta abordagem interessante e útil porque ela apresenta o VoIP dentro de um contexto real de aplicação comercial.

Uma última coisa: apesar de este livro ser realmente sobre o negócio de se montar uma rede VoIP e um conjunto de aplicações, existe muita tecnologia aqui. Entretanto, devido a saber que há leitores interessados em ambos, fiz o possível para estruturar o livro de forma que aqueles que não são interessados nos detalhes tecnológicos possam saltá-los sem afetar a legibilidade ou efetividade do livro.

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