A Bola de Neve – Warren Buffett e o Negócio da Vida

Autora: Alice Schroeder
Editora: Sextante
ISBN-13: 9788575424407
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A versão menos lisonjeira (Omaha, Junho de 2003): Warren Buffett se balança para trás, na cadeira, com suas longas pernas cruzadas, atrás da mesa simples de madeira de seu pai, Howard. O caro paletó Zegna se avoluma em seus ombros, como se não tivesse sido feito sob medida. Ele usa terno o dia inteiro, todos os dias da semana, mesmo quando os outros 15 funcionários da Berkshire Hathaway se vestem de forma casual. Sua camisa, previsivelmente branca, vai até o alto do pescoço, com o colarinho justo demais se projetando sobre a gravata. Parece um resquício dos seus tempos de jovem executivo – como se ele tivesse passado 40 anos sem se lembrar de conferir o tamanho do próprio pescoço.
Suas mãos estão entrelaçadas atrás da cabeça, entre os fios grisalhos de seu cabelo. Uma mecha especialmente grande e rebelde, penteada com os dedos, salta do couro cabeludo como uma pista de esqui, fazendo uma curva para cima, na altura de sua orelha direita. A sobrancelha esquerda, desgrenhada, serpenteia por sobre os óculos de aro de tartaruga, conferindo ao seu rosto uma expressão que pode ser cética, astuta ou sedutora. Nesse instante ele mostra um sorriso sutil, o que empresta à sobrancelha rebelde um ar cativante. Mas seus olhos, azul-claros, estão concentrados e atentos.
Ele está cercado por 50 anos de recordações. No corredor do lado de fora do seu escritório estão fotografias do time de futebol americano Nebraska Cornhuskers; o contracheque por sua participação numa telenovela; a carta de oferta (jamais aceita) de compra do fundo hedge Long Term Capital Management; e suvenires da Coca-Cola. Na mesa de centro do escritório, uma garrafa clássica do refrigerante e uma luva de beisebol, num suporte de acrílico. Em cima do sofá, um diploma do curso de oratória de Dale Carnegie, concedido em janeiro de 1952. A réplica de uma diligência da Wells Fargo, rumo ao Oeste, está em cima de uma estante, ao lado de um Prêmio Pulitzer, conquistado, em 1973, pelos jornais do grupo Sun, de Omaha, então pertencente à sua sociedade de investimentos. Livros e jornais estão espalhados por todo o escritório. Fotografias da sua família e de amigos cobrem o aparador, uma mesinha e o espaço inferior de um suporte para computador, ao lado de sua mesa. Um grande retrato do pai de Buffett paira sobre a sua cabeça na parede atrás da mesa. Ele encara todo e qualquer visitante que entre no escritório.
Embora uma manhã de fim de primavera se insinue atrás das janelas, as persianas de madeira marrom estão fechadas, bloqueando a vista. A televisão, voltada na direção da mesa, está ligada na CNBC. Está sem som, mas a faixa horizontal, na parte inferior da tela, o abastece de notícias o dia inteiro. Ao longo dos anos, para sua satisfação, elas foram muitas vezes sobre ele mesmo.
Mas poucas pessoas o conhecem bem. Eu fiz meu primeiro contato com ele há seis anos, como analista financeira das ações da Berkshire Hathaway. Com o tempo, nós nos tornamos amigos, e agora tenho a chance de conhecê-lo melhor. Estamos no escritório de Warren porque ele não vai escrever um livro. As sobrancelhas indomáveis sublinham as suas palavras quando ele diz, repetidas vezes: “Você fará um trabalho muito melhor do que eu, Alice. Que bom que é você quem está escrevendo este livro, e não eu.”
O motivo dessas palavras ficará claro mais adiante. Por ora, começamos com o assunto de que ele mais gosta.
“Qual é a explicação, Warren? De onde saiu toda essa vontade de ganhar dinheiro?”
O olhar dele fica distante por alguns segundos, e seus pensamentos se voltam para dentro, como que folheando os arquivos da sua memória. Então Warren começa a contar sua história: “Balzac disse que, por trás de toda grande fortuna, há um crime. Isso não se aplica à Berkshire.”
Ele se levanta da cadeira para desenvolver essa idéia, atravessando o escritório com algumas passadas. Então se senta novamente, numa poltrona com brocado dourado, e se inclina para a frente, parecendo mais um adolescente que se gaba de sua primeira namorada do que um investidor de 72 anos. O livro agora é problema meu: como interpretar a sua história, quem entrevistar, o que escrever. Ele discorre longamente sobre a natureza humana e a fragilidade da memória. Então diz: “Sempre que a versão de outra pessoa for diferente da minha, use a menos lisonjeira.”
São muitas as lições que ele tem para ensinar, e algumas das melhores vêm do simples fato de observá-lo. Eis a primeira: a humildade desarma.
No fim das contas, não houve muitos motivos para escolher a versão menos lisonjeira. Porém, quando o fiz, a culpa foi geralmente da natureza humana, e não da fragilidade da memória. Um desses fatos aconteceu no Sun Valley, em 1999.
Sun Valley (Idaho, Julho de 1999): Warren Buffett saiu do carro e tirou sua bagagem do porta-malas. Ele atravessou o portão magnético e foi até à pista de decolagem do aeroporto, onde um jato Gulfstream IV – branco e reluzente, do tamanho de um avião de passageiros de porte médio e a maior aeronave particular do mundo em 1999 – aguardava o investidor e sua família. Um dos pilotos apanhou sua mala para guardá-la no bagageiro. Sempre que voavam com Buffett pela primeira vez, os pilotos ficavam surpresos ao vê-lo carregando a sua própria bagagem ou saindo de um carro sem chofer. Enquanto subia a escada de embarque, ele cumprimentou a aeromoça – que era nova ali – e escolheu um lugar junto à janela, pela qual não olharia em momento algum durante o vôo. Ele estava animado: havia meses esperava por aquela viagem.
Seu filho Peter e sua nora Jennifer, sua filha Susan e o namorado, além de dois de seus netos já estavam acomodados nas poltronas de couro café-com-leite, na cabine de quase 14 metros de comprimento. Eles giraram os assentos, afastando-os dos painéis abaulados das paredes para ganhar mais espaço, enquanto a aeromoça vinha da cozinha para servir os tira-gostos e bebidas favoritos da família. Havia uma pilha de revistas no sofá: Vanity Fair, The New Yorker, Fortune, Yachting, Robb Report, Atlantic Monthly, The Economist, Vogue, Yoga Journal. A aeromoça trouxe também os jornais do dia, juntamente com uma cestinha de batatas fritas e uma Cherry Coke, que combinava com o suéter vermelho de Buffett, da Universidade de Nebraska. Ele agradeceu, conversou com ela por alguns minutos, tentando aliviar seu nervosismo por voar pela primeira vez com o chefe, e pediu que avisasse ao co-piloto que eles estavam prontos para decolar. Então enfiou a cabeça num jornal, enquanto o avião deixava a pista e rapidamente alcançava os 12 mil metros de altitude. Ao longo das duas horas seguintes ele ficou cercado pelo burburinho de seis pessoas, que assistiam a filmes, conversavam e falavam pelo telefone, enquanto a aeromoça arrumava toalhas e vasos de orquídeas nas mesas de madeira de lei, antes de voltar à cozinha para preparar o almoço. Buffett não se mexeu em nenhum momento. Ficou sentado lendo, escondido atrás dos seus jornais, como se estivesse sozinho no escritório de casa.
Eles estavam voando num verdadeiro palácio aéreo, de 30 milhões de dólares, conhecido como jato “fracionário”. Cada aeronave podia ser dividida por até oito proprietários, mas, como fazia parte de uma frota, os donos podiam voar ao mesmo tempo, se quisessem. Todos – dos pilotos aos funcionários da manutenção, dos programadores de vôo, que preparavam tudo para o embarque num prazo máximo de seis horas, à aeromoça que servia as refeições – trabalhavam para a NetJets, que pertencia à companhia de Warren Buffett, a Berkshire Hathaway.
Algum tempo depois o G-IV cruzou a planície do Snake River e se aproximou das Sawtooth Mountains, uma formação rochosa do período cretáceo, de granito escuro tostado pelo sol durante milênios. O avião singrou o ar luminoso e límpido até Wood River Valley e desceu até 2.500 metros de altitude, onde enfrentou a turbulência provocada pelo relevo acidentado da região. Buffett continuou lendo, imperturbável, enquanto o avião chacoalhava e sua família se sacudia nas poltronas. Moitas salpicavam as partes mais altas da cordilheira, e fileiras de pinheiros começavam sua escalada serra acima, entre desfiladeiros. A família sorria com expectativa. Enquanto o avião descia pela fenda que se estreitava entre dois picos, o sol do meio-dia projetava a sombra alongada do avião sobre a cidade de Hailey, Idaho, um antigo centro de mineração.
Poucos segundos depois as rodas tocaram a pista do aeroporto Friedman Memorial. Quando os Buffett pisaram o solo, apertando os olhos contra o sol de julho, dois utilitários esportivos já tinham atravessado o portão e estavam parados ao lado do jato, com um homem e uma mulher da Hertz aos volantes. Ambos usavam as camisas douradas e pretas da companhia. Mas, em vez de “Hertz”, a logomarca dizia “Allen & Co.”.
As crianças saltitavam, animadas, à medida que os pilotos levavam a bagagem, as raquetes de tênis e a sacola de golfe de Buffett (vermelha e branca, da Coca-Cola) para os carros. Ele e os outros passageiros apertaram as mãos dos pilotos, se despediram da aeromoça e entraram nos veículos. Contornando o escritório da Sun Valley Aviation – na verdade um pequeno trailer na extremidade sul da pista –, eles manobraram até a estrada que apontava na direção dos picos mais distantes. Cerca de dois minutos haviam passado desde que as rodas do avião tocaram o solo.
Exatamente oito minutos depois, outro avião chegou, encaminhando-se para a sua vaga na pista.
Por toda aquela tarde ensolarada uma série de jatos chegou do Sul e do Leste, ou contornando os picos do Oeste, para descer em Hailey: “paus para toda obra” como os Cessna Citations; Learjets glamourosos das redondezas; Hawkers velozes; Falcons luxuosos; mas, em sua maioria, imponentes G-IV. À medida que a tarde chegava ao fim, dezenas de aeronaves brancas, imensas e reluzentes se enfileiravam na pista, como uma vitrine repleta de brinquedos de magnatas.
Os Buffett seguiram o caminho trilhado por outros carros por alguns quilômetros, do aeroporto até a cidadezinha de Ketchum, ao lado da Sawtooth National Forest, perto da saída para o desfiladeiro de Elkhorn. Alguns quilômetros depois eles contornaram a Dollar Mountain, deparando-se com um verdadeiro oásis verde, como se tivesse sido aninhado no meio das encostas marrons. Ali, entre pinheiros e choupos, fica o Sun Valley, o mais lendário resort das montanhas, onde Ernest Hemingway começou a escrever Por Quem Os Sinos Dobram e muitos esquiadores e patinadores olímpicos encontraram um segundo lar.
Todas as diversas famílias às quais eles se juntariam naquela tarde tinham algum vínculo com o Allen & Co., um pequeno banco de investimentos especializado em empresas de mídia e comunicação. O Allen & Co. realizara algumas das maiores fusões de Hollywood e vinha organizando, havia mais de uma década, uma série anual de debates e seminários entremeados por atividades recreativas ao ar livre, no Sun Valley, para seus clientes e amigos. Herbert Allen, o CEO da empresa, convidava apenas as pessoas de que gostava, ou ao menos aquelas com quem tinha interesse em fazer negócios.
Assim, o encontro estava sempre repleto de rostos famosos e ricos: produtores de Hollywood e estrelas, como Candice Bergen, Tom Hanks, Ron Howard e Sydney Pollack; magnatas do mundo do entretenimento, como Barry Diller, Rupert Murdoch, Robert Iger e Michael Eisner; jornalistas com pedigree social, como Tom Brokaw, Diane Sawyer e Charlie Rose; e titãs da tecnologia, como Bill Gates, Steve Jobs e Andy Grove. Uma multidão de repórteres os aguardava todos os anos em frente ao Chalé Sun Valley.
Os jornalistas tinham chegado na véspera, do aeroporto de Newark ou de Nova Jersey ou de algum ponto de embarque parecido, onde apanharam um vôo comercial até Salt Lake City. Eles percorreram o saguão e ficaram sentados no meio de uma multidão que estava à espera de vôos para lugares como Casper, no Wyoming, e Sioux City, em Iowa, até à hora de se espremerem num teco-teco para a penosa viagem até Sun Valley. Ao pousar, o avião dos jornalistas foi conduzido ao lado oposto do aeroporto, próximo a um terminal do tamanho de uma quadra de tênis. Ali eles puderam ver um grupo de jovens funcionários bronzeados do Allen & Co. – vestidos com camisas pólo em tons pastel e shorts brancos – dar as boas-vindas aos convidados da empresa que chegaram mais cedo, em vôos comerciais. Estes se destacavam imediatamente dos demais passageiros: homens de botas de vaqueiro, camisas Paul Stuart e calças jeans; mulheres usando jaquetas de couro de cabra acamurçado e colares de contas de turquesa do tamanho de bolas de gude. Os funcionários do Allen já haviam memorizado os rostos dos recém-chegados por meio de fotografias fornecidas com antecedência. Eles abraçavam pessoas que tinham acabado de conhecer como se fossem velhos amigos e logo se apressavam a apanhar toda a bagagem dos convidados e a levavam até os utilitários esportivos, alinhados a alguns passos de distância, no estacionamento.
Já os repórteres iam até o guichê de aluguel de carros e tinham que dirigir até o Chalé – já bastante conscientes, naquela altura, de que tinham um status inferior. Ao longo dos dias seguintes, diversas áreas do Sun Valley passariam a ser “restritas”, isoladas dos olhares de curiosos por portas fechadas, pelos onipresentes seguranças, por cestos de flores suspensos e grandes vasos de plantas que encobriam a visão. Excluídos dos acontecimentos lá dentro, os repórteres espreitavam pelas beiradas, com os narizes colados nos arbustos. Desde que Michael Eisner, da Disney, e Tom Murphy, da Capital Cities/ABC, haviam fechado um acordo para a fusão de suas companhias no Sun Valley ’95 (o encontro acabou sendo chamado assim, como se englobasse todo o resort, o que, de certa maneira, era verdade), a cobertura da imprensa crescera até o evento assumir a atmosfera artificialmente eufórica de um Festival de Cannes do mundo dos negócios. As fusões que surgiam no Sun Valley eram, no entanto, apenas ilhotas de gelo que se desprendiam do iceberg. O Sun Valley não era somente um lugar onde se fechavam negócios, embora estes tivessem a maior parte da publicidade. Todos os anos multiplicavam-se os boatos de que esta ou aquela companhia estava envolvida em alguma grande negociação naquele misterioso conclave nas montanhas de Idaho. Assim, enquanto os utilitários esportivos entravam, em fila, pela porte-cochère, os repórteres espreitavam pelos vidros, tentando enxergar quem estava lá dentro. Quando algum colunável chegava, eles perseguiam a presa até o chalé, brandindo câmeras e microfones.
A imprensa logo reconheceu Warren Buffett quando ele saiu do carro. “Ele está entranhado no DNA do encontro”, disse seu amigo Don Keough, presidente do Allen & Co. A maioria dos jornalistas gostava de Buffett, que se esforçava para não ser malquisto por ninguém. Mas ele também os intrigava. Sua imagem pública era a de um homem simples – e ela parecia corresponder à realidade. Sua vida, porém, era bastante complicada. Ele tinha cinco casas, embora só morasse em duas. De alguma maneira, e para todos os efeitos, ele acabara tendo duas mulheres. Falava usando aforismos de fácil compreensão com um brilho delicado no olhar e possuía um círculo de amizades extremamente leal, embora tivesse conquistado, ao longo de sua vida, uma reputação de negociador durão e até mesmo hostil. Ele parecia querer evitar a publicidade a qualquer preço, mas conseguira se tornar mais famoso, praticamente, que qualquer outro homem de negócios na face da Terra. Percorria o país em um jato G-IV, comparecia com freqüência a eventos de celebridades e convivia com várias pessoas famosas, embora dissesse que preferia Omaha, hambúrgueres e um estilo de vida modesto. Ele afirmava que seu sucesso se baseava em algumas idéias simples sobre investimentos – e na prática de sapateado, que lhe dava energia para trabalhar com entusiasmo todos os dias. Mas, se fosse assim, por que ninguém mais tinha sido capaz de fazer o mesmo?
Buffett, como sempre, acenou com cortesia para os fotógrafos, abrindo o sorriso acolhedor de um avô bondoso, enquanto passava. Depois que o fotografaram passaram a espreitar o carro seguinte.
Os Buffett seguiram até o chalé da família, decorado à francesa, que fazia parte do cobiçado conjunto Wildflower, próximo da piscina e das quadras de tênis, onde Herbert Allen instalava os convidados VIPs. Lá dentro, os tesouros de sempre os esperavam: uma pilha de paletós do Allen & Co., bonés de beisebol, agasalhos, camisas pólo – cada ano numa cor diferente – e uma agenda com zíper. Apesar da sua fortuna de mais de 30 bilhões de dólares – dinheiro suficiente para comprar mil daqueles G-IV parados no aeroporto –, pouca coisa deixava Buffett mais feliz do que ganhar uma camisa de golfe de um amigo, de forma que ele passara um bom tempo analisando com atenção aqueles brindes preciosos. Mais interessante ainda, no entanto, era o bilhete personalizado que Herbert Allen enviara a cada convidado e a organizadíssima agenda do encontro, que explicava o que o Sun Valley reservava para eles naquele ano.
Com todos os segundos contados, organizada nos mínimos detalhes e tão impecável quanto o punho da camisa de Herbert Allen, a agenda de Buffett estava detalhada em cada hora de cada dia. Ela apresentava os palestrantes e seus respectivos temas – o que, até aquele momento, era um segredo guardado a sete chaves – e os almoços e jantares aos quais ele deveria comparecer. Diferentemente dos demais convidados, Buffett já sabia de boa parte de tudo aquilo, mas ainda assim gostava de conferir a sua agenda.
Herbert Allen, conhecido como “Senhor do Sun Valley” e discreto organizador do encontro, dava o tom de sofisticação casual que permeava o evento. As pessoas sempre se referiam a ele como um homem de princípios, disposto a dar bons conselhos, generoso e inteligente. “Qualquer um gostaria de morrer sendo respeitado por alguém como Herbert Allen”, derramou-se um hóspede. Por medo de não serem mais convidados para o encontro, aqueles que faziam qualquer tipo de crítica dificilmente iam além de comentários vagos a respeito de Herbert ser “excêntrico” ou indócil ou impaciente ou dono de um ego inflado. Diante da sua figura esbelta mas musculosa, era preciso se esforçar para acompanhar as palavras que ele disparava como uma metralhadora. Allen vociferava perguntas e, em seguida, interrompia seu interlocutor no meio das respostas, para que não desperdiçassem um segundo sequer de seu tempo. Era um especialista em dizer o indizível. “No final das contas, Wall Street será varrida do mapa”, ele declarara certa vez a um repórter, embora ele próprio administrasse um banco em Wall Street. Allen gostava de se referir aos concorrentes como “vendedores de cachorro-quente”.
Allen mantinha a sua empresa deliberadamente pequena, e seus banqueiros investiam dinheiro do próprio bolso em seus empreendimentos. Essa abordagem pouco convencional tornava a empresa uma sócia – e não uma mera servidora – dos seus clientes, entre os quais se incluíam a elite de Hollywood e do mundo da mídia. Assim, quando ele bancava o anfitrião, seus convidados se sentiam privilegiados, e não prisioneiros de olhos vendados sendo observados a cada passo. Todos os anos o Allen & Co. organizava uma agenda social detalhada, que girava em torno da rede de relacionamentos pessoais de cada convidado – que a empresa conhecia bem – e das novas pessoas que os assistentes de Allen achavam que deveriam conhecer. Hierarquias tácitas estabeleciam a distância entre os chalés de cada hóspede e a pousada (onde as reuniões aconteciam), bem como os almoços ou jantares aos quais cada um seria convidado, e com quem se sentariam.
Tom Murphy, amigo de Buffett, se referia àquele evento como um “encontro de elefantes”. “Sempre que um bando de figurões se reúne”, Buffett disse, “é fácil atrair as pessoas, pois elas ficam tranqüilas em saber que, se estão presentes num encontro de elefantes, devem ser elefantes também.”
Sun Valley é sempre um lugar muito tranqüilo, pois, ao contrário da maioria dos encontros de elefantes, não se pode comprar ingresso para ele. O resultado acaba sendo um clima elitista e falsamente democrático. Parte da emoção de estar lá é ver quem foi convidado e, mais emocionante ainda, quem não voltou a sê-lo. Contudo, dentro da sua camada social, as pessoas desenvolvem relacionamentos genuínos. O Allen & Co. estimulava a sociabilidade por meio de diversas atividades de entretenimento. Elas começavam à tardinha, quando os convidados vestiam roupas de caubói, embarcavam em charretes puxadas por cavalos e seguiam vaqueiros de verdade por uma trilha sinuosa que passava por uma torre de pedra natural no caminho para os prados de Trail Creek Cabin. Ali eles eram recebidos por Herbert Allen ou por um dos seus dois filhos, quando o sol começava a se pôr. Junto a uma enorme tenda branca, decorada com arranjos de petúnias vermelhas e sálvias azuis, caubóis faziam truques com cordas, divertindo as crianças. Enquanto isso, a velha-guarda de Sun Valley se reunia e dava as boas-vindas aos novos hóspedes, que faziam fila com seus pratos para se servirem do bufê de carnes e salmão. Os Buffett geralmente terminavam a noite reunidos com amigos em volta de uma fogueira, sentados sob o céu do Oeste salpicado de estrelas.
A diversão continuava na tarde de quarta-feira, com um passeio opcional de bote pelas corredeiras suaves do Salmon River. Ali floresciam algumas amizades, pois o Allen & Co. determinava o lugar que cada um ocuparia no ônibus, no caminho até o local de embarque e nos botes. Os guias, em silêncio, os conduziam pelo vale montanhoso, para não interromperem parcerias que se formavam. Ambulâncias e vigias contratados entre a população local se espalhavam estrategicamente pela rota, para o caso de alguém cair na água gelada. Os convidados recebiam toalhas quentes assim que largavam seus remos e saíam dos botes, para então participar de um delicioso churrasco.
Os que não estavam fazendo rafting poderiam estar pescando, cavalgando, praticando tiro ao alvo, mountain bike, jogando bridge, aprendendo a tricotar, fotografando a natureza, jogando frisbee com os onipresentes convidados caninos do encontro, patinando na pista de gelo coberta, jogando tênis em quadras de saibro perfeitas, relaxando na piscina ou jogando golfe em campos impecáveis, onde andavam em carrinhos em que não faltavam protetores solares, tira-gostos e repelentes. Todas as recreações transcorriam na maior tranqüilidade, sem interrupções. Qualquer coisa que os convidados precisassem aparecia como que por mágica, sem sequer ser pedida, trazida por uma equipe aparentemente incansável – quase invisível, porém sempre presente – de funcionários em camisas pólo.
A arma secreta de Herbert Allen, no entanto, eram as baby-sitters: cento e poucas beldades adolescentes, quase todas louras e superbronzeadas, usando as mesmas camisas pólo e mochilas do Allen & Co., que combinavam com elas. Enquanto os pais e avós se divertiam, as baby-sitters garantiam que cada Joshua e Brittany estivesse com o companheiro certo de brincadeiras, em qualquer atividade que escolhessem, fosse uma partida de tênis ou de futebol, um passeio de bicicleta ou de charrete, uma exposição de cavalos, patinação, corrida de revezamento, pescaria, um projeto artístico, comer pizza ou tomar sorvete. Cada baby-sitter era selecionada pessoalmente, para garantir que toda criança se divertisse tanto que implorasse para voltar no ano seguinte – ao mesmo tempo que deleitava os pais, pois eram jovens muitíssimo atraentes que lhes permitiam se dedicar por dias a fio à companhia de outros adultos, sem culpa.
Buffett sempre foi um dos hóspedes mais gratos de Allen. Ele adorava o Sun Valley como local de férias em família, pois, se ficasse por conta própria em um resort nas montanhas com seus netos, não teria a mínima idéia de como agir. Ele não se interessava por nenhuma outra atividade ao ar livre além do golfe. Jamais praticava tiro ao alvo ou mountain bike, considerava a água “uma espécie de prisão” e preferia andar algemado a passear de bote. Em vez disso, ele escapava confortavelmente para o meio da manada de elefantes. Jogava um pouco de golfe e de bridge, incluindo, no primeiro caso, uma partida com Jack Valenti, presidente da Motion Picture Association of America, valendo um dólar, e, no segundo caso, com Meredith Brokaw. De resto, passava o tempo conversando com pessoas como Christie Hefner, CEO da Playboy, e Michael Dell, CEO da empresa de hardware que leva seu sobrenome.
Muitas vezes, no entanto, ele desaparecia por longos períodos em seu chalé com vista para o campo de golfe, onde lia e assistia às notícias do mundo dos negócios na sala de estar, sentado diante de uma grande lareira de pedra. Mal notava a vista coberta de pinheiros da Baldy Mountain, da janela, nem a colina que parecia um tapete persa, coberta de flores e plantas das mais variadas espécies e cores. “Imagino que a paisagem esteja lá”, ele dizia. O principal motivo da sua ida era a atmosfera acolhedora criada por Herbert Allen. Ele gostava de estar com seus amigos mais próximos: Kay Graham e seu filho Don; Bill e Melinda Gates; Mickie e Don Keough; Barry Diller e Diane von Furstenberg; Andy Grove e sua mulher, Eva.
Mas, acima de tudo, para Buffett o Sun Valley significa uma oportunidade de se reunir com a família, um dos raros momentos em que a maior parte dela fica junta. “Ele gosta que todos fiquemos na mesma casa”, disse sua filha, Susie Buffett Jr. Ela morava em Omaha; Howie, seu irmão mais novo, e sua mulher, Devon – que não estavam presentes naquele ano –, moravam em Decatur, Illinois; enquanto o caçula Peter e sua mulher, Jennifer, moravam em Milwaukee.
Susan, mulher de Buffett havia 47 anos, mas que vivia separada dele, tinha pegado um avião de São Francisco, onde morava, para encontrá-los. E Astrid Menks, sua companheira havia mais de 20 anos, ficara na casa deles, em Omaha.
Na sexta-feira à noite, Warren vestiu uma camisa havaiana e acompanhou sua primeira mulher na tradicional festa ao ar livre, junto às quadras de tênis, perto do chalé da família. A maioria dos convidados conhecia Susie e gostava dela. Sempre a estrela da festa, ela interpretou clássicos da canção popular, à luz de tochas tiki, em frente a uma piscina olímpica iluminada.
Naquele ano, à medida que os coquetéis e amenidades corriam soltos, ouvia-se o burburinho de uma nova língua, quase incompreensível – B2B, B2C, largura de banda, banda larga –, completada pelo som do grupo musical de Al Oehrle. Durante a semana inteira uma vaga sensação de desconforto pairou pelos almoços, jantares e coquetéis, como uma névoa silenciosa que se insinuasse entre os apertos de mão, beijos e abraços. Um novo grupo de executivos da área de tecnologia, cheios de uma arrogância incomum, se apresentava a pessoas que, um ano antes, sequer tinham ouvido falar em seus nomes. De certa forma, a autoconfiança que demonstravam não combinava com a atmosfera natural de Sun Valley, onde reinava uma informalidade planejada. Herbert Allen adotava uma espécie de regra tácita contra a ostentação, sob pena de exclusão.
A nuvem de arrogância pesou ainda mais durante as apresentações, que eram o ponto alto do encontro. Diretores de companhias, funcionários do alto escalão do governo e outros convidados ilustres faziam palestras nada convencionais: nenhuma palavra pronunciada ultrapassava, nem mesmo na forma de um cochicho, os cestos de flores pendurados nas portas da Pousada Sun Valley. A entrada de repórteres era proibida; havia na platéia colunistas e barões da mídia, incluindo donos de redes de televisão e jornais, mas todos respeitavam a lei do silêncio. Dessa forma, falando apenas para seus colegas, os palestrantes se sentiam mais livres para dizer coisas importantes, em geral verdadeiras. Coisas que jamais poderiam ser proferidas diante da imprensa, pois eram muito diretas ou muito sutis ou muito alarmantes ou muito fáceis de satirizar ou muito propensas a serem mal interpretadas. Os jornalistas comuns espreitavam do lado de fora, aguardando migalhas que só eram atiradas com muita parcimônia.
Naquele ano, os novos magnatas da internet estavam se pavoneando, exibindo suas expectativas elevadíssimas, alardeando suas últimas fusões e procurando arrancar dinheiro dos gestores de recursos que estavam na platéia. Estes últimos, que cuidavam das aposentadorias e economias de terceiros, controlavam juntos tanta riqueza que ela praticamente fugia à compreensão humana: mais de 1 trilhão de dólares. Em 1999, se você tivesse 1 trilhão de dólares, poderia pagar o imposto de renda de cada cidadão dos Estados Unidos. Poderia dar de presente um Bentley para todos os lares de mais de nove estados americanos. Poderia comprar todos os imóveis de Chicago, Nova York e Los Angeles – juntos. Representantes de algumas empresas precisavam daquele dinheiro – e queriam que ele viesse da platéia.
Naquela mesma semana, uma série de debates no programa de televisão de Tom Brokaw, com o tema “A Internet e Nossas Vidas”, exibira com estardalhaço discursos sobre como a internet remodelaria o setor de comunicações. Jay Walker, da Priceline, fez uma apresentação estonteante da internet, que comparava a supervia da informação ao advento da estrada de ferro, em 1869. Ininterruptamente, executivos expuseram as possibilidades fabulosas que se abriam para as empresas, enchendo o auditório do perfume inebriante de um futuro sem as limitações do espaço, do armazenamento e da geografia. Era algo tão brilhante e visionário que, enquanto alguns se convenciam de que um novo mundo de fato se desdobrava diante dos seus olhos, outros pensavam estar diante de vendedores charlatães. Os donos das empresas de tecnologia se viam como verdadeiros Prometeus, gênios que traziam o fogo aos reles mortais. Outros empreendimentos, que envolviam o trabalho braçal de prover as necessidades maçantes da vida – peças para carros, móveis de jardim –, passavam a ser interessantes apenas em termos de quanta tecnologia eram capazes de comprar. Algumas ações de empresas pontocom eram negociadas a valores infinitamente maiores do que suas inexistentes receitas, ao passo que “companhias de verdade”, que faziam coisas de verdade, estavam sendo desvalorizadas. Enquanto as ações de empresas de tecnologia engoliam a “velha economia”, o índice Dow Jones tinha ultrapassado a marca anteriormente inimaginável de 10.000 pontos apenas quatro meses antes, dobrando de valor em menos de três anos e meio.
Vários novos ricos se reuniam, nos intervalos entre as palestras, numa varanda coberta de frente para o Duck Pond, onde se via um casal de cisnes criados em cativeiro. Lá, qualquer convidado – mas nenhum repórter – poderia flanar entre os outros usando calças cáqui e suéteres de caxemira e fazer perguntas a Bill Gates ou Andy Grove. Do lado de fora, os jornalistas perseguiam os magnatas da internet quando eles caminhavam entre a pousada e seus chalés – e amplificavam ainda mais a atmosfera de arrogância que dominava o Sun Valley naquele ano.
Alguns dos novos czares da internet passaram a tarde de sexta-feira tentando convencer Herbert Allen a incluí-los no ensaio que a fotógrafa Annie Leibovitz faria no sábado à tarde, com as “Grandes Estrelas da Mídia”, para a revista Vanity Fair. Eles achavam que tinham sido chamados para o Sun Valley porque eram as pessoas “do momento”, e mal podiam acreditar que Leibovitz tivesse escolhido por conta própria quem fotografar. Por que, por exemplo, ela incluiria Buffett? Seu papel na mídia era secundário – limitava-se à participação em conselhos, a uma rede ampla de influência pessoal e a uma história de grandes e pequenos investimentos na área. Além do mais, ele era notícia velha. Era difícil acreditar que seu rosto numa fotografia ainda vendesse revistas.
Estas supostas grandes estrelas se sentiam ofendidas, porque sabiam muito bem que a balança da mídia havia pendido para a internet. Isso era certo, apesar de o próprio Herbert Allen achar que o “novo paradigma” de cotação das ações de empresas de tecnologia e comunicação – baseado em instantâneos, no “olhômetro” e em projeções de crescimento a longo prazo, e não na habilidade de uma empresa de ganhar dinheiro de verdade – era uma furada. “Novo paradigma”, ele falava com desdém, “é igual a novo s_xo. Simplesmente não existe.”
Na manhã seguinte, Buffett, um dos ícones do antigo paradigma, se levantou cedo, pois faria a palestra de encerramento do seminário daquele ano. Ele recusava invariavelmente convites para falar em congressos organizados por outras empresas, mas, quando Herbert Allen pedia que fizesse uma apresentação no Sun Valley, sempre dizia sim. A palestra de encerramento, na manhã de sábado, era o acontecimento que dava o tom do encontro; por isso, em vez de seguirem para o campo de golfe ou pegarem uma vara de pescar, quase todos iam tomar café da manhã na Pousada Sun Valley, procurando em seguida um lugar na platéia. Naquele dia, Buffett iria falar sobre o mercado de ações.
Particularmente, ele sempre fora um crítico do mercado dominado por investimentos impulsivos e baseado em iniciativas de marketing, que vinham fazendo as ações das empresas de tecnologia dispararem para alturas delirantes ao longo daquele ano. As ações da sua própria companhia, a Berkshire Hathaway, estavam no fundo do poço, e o seu princípio rígido de nunca comprar ações de empresas de tecnologia parecia ultrapassado. Mas isso não influenciava a sua maneira de investir e, até então, em público, ele se limitara a afirmar que jamais especulava sobre o mercado. Dessa forma, a sua decisão de subir no palanque do Sun Valley para fazer exatamente isso era algo sem precedentes. Talvez fosse um sinal dos tempos. Buffett tinha uma convicção inabalável – e sentia um desejo irresistível de demonstrá-la.
Ele tinha passado semanas se preparando para aquela palestra. Entendia que o mercado não se limitava a pessoas negociando ações como se estas fossem fichas de um cassino. As fichas representavam empresas. Buffett pensou sobre o valor total das fichas. Quanto elas valiam? Aquela não era a primeira vez que tecnologias novas, capazes de mudar o mundo, tinham chegado para abalar o mercado de ações. A história dos negócios estava repleta de novas tecnologias – as estradas de ferro, o telégrafo, o telefone, o automóvel, o avião: todas essas inovações foram maneiras revolucionárias de interligar as coisas com mais rapidez. No entanto, quantas delas haviam tornado os investidores mais ricos? Era o que ele estava prestes a explicar.
Depois do café da manhã, Clarke Keough subiu ao palanque. Buffett conhecia a família Keough havia muitos anos; tinham sido vizinhos em Omaha. Foi por intermé dio do pai de Clarke, Don, que Buffett fizera os contatos que o levaram até o Sun Valley. Don Keough, então presidente do conselho do Allen & Co. e ex-presidente da Coca-Cola, conhecera Herbert Allen em 1982, quando este comprara a Columbia Pictures para a Coca-Cola. Keough e seu chefe, Roberto Goizueta, o CEO da Coca-Cola, ficaram tão impressionados com a postura de venda de Herbert Allen, que não tinha nada em comum com a dos outros vendedores, que o convenceram a se juntar a seu conselho.
Naquela altura, Keough – filho de um criador de gado de Sioux e ex-coroinha – estava praticamente aposentado na Coca-Cola, mas ainda vivia e respirava na alta roda da empresa, tão poderoso que era considerado por muitos o mais influente ex-executivo da companhia.
Quando os Keough eram seus vizinhos em Omaha, na década de 1950, Warren perguntou a Don como ele faria para pagar a faculdade dos filhos, sugerindo que investisse 10 mil dólares na sua sociedade. Don, no entanto, estava pagando escola para seis filhos, ganhando 200 dólares por semana como vendedor da lanchonete Butter-Nut. “Não tínhamos o dinheiro”, contou seu filho Clarke para a platéia. “Esta é uma parte da história da nossa família que nunca esqueceremos.”
Buffett se juntou a Clarke no palanque, usando seu suéter vermelho favorito da Universidade de Nebraska por cima de uma camisa xadrez. E terminou de contar a história.
“Os Keough eram vizinhos maravilhosos”, disse. “É verdade que às vezes Don me provocava, dizendo que, diferentemente de mim, ele ao menos tinha um emprego, mas o nosso relacionamento era ótimo. Uma vez, minha mulher, Susie, foi até à casa deles e fez o que se espera de qualquer vizinho no Meio-Oeste: pediu uma xícara de açúcar, e a mulher de Don, Mickie, lhe deu um saco inteiro. Quando fiquei sabendo disso, decidi visitar eu mesmo os Keough naquela noite. Eu disse a Don: ‘Por que você não me dá 25 mil dólares, para a minha empresa investir?’ Foi então que a família Keough ficou um pouco tensa e eu fui rejeitado.
Voltei algum tempo depois e pedi os 10 mil dólares de que Clarke falou, e aconteceu a mesma coisa. Mas eu não era orgulhoso. Então voltei um pouco mais tarde e pedi 5 mil dólares. E fui rejeitado mais uma vez.
Uma noite, no verão de 1962, caminhei até à casa dos Keough. Não sei se teria baixado a oferta para 2.500 dólares ou não, mas quando cheguei à porta deles a casa estava toda escura e silenciosa. Não dava para ver nada. Eu sabia o que estava acontecendo. Sabia que Don e Mickie estavam escondidos no andar de cima. Então continuei ali.
Toquei a campainha. Bati à porta. Nada aconteceu. A casa estava um breu, mas eu sabia que Don e Mickie estavam lá em cima. Estava escuro demais para ler e cedo demais para ir dormir. Eu me lembro daquele dia como se fosse ontem. Era o dia 21 de junho de 1962.
Clarke, quando você nasceu?”
“No dia 21 de março de 1963.”
“É este tipo de coisa que faz a história dar reviravoltas. Já que é assim, talvez você deva agradecer aos seus pais por eles não terem descido para me atender e me dar aquele dinheiro.”
Depois de conquistar a platéia com este pequeno diálogo cômico, Buffett abordou o assunto em pauta.
“Agora vou tentar dar uma de multimídia. Herb me pediu para incluir alguns slides na minha palestra. ‘Mostre que você está por dentro’, ele disse. E, quando Herb fala alguma coisa, é praticamente uma ordem para a família Buffett.” Sem especificar o que exatamente diferenciava a “família Buffett” (pois, para ele, a sua família era igual a qualquer outra), ele começou a contar uma piada sobre Allen: “O secretário do presidente dos Estados Unidos entra correndo no Salão Oval pedindo desculpas por ter marcado duas reuniões para o mesmo horário. O presidente tem que escolher entre receber o Papa ou Herbert Allen.” Buffett fez uma pausa de efeito. “‘Mande o Papa entrar’, o presidente diz. ‘Pelo menos eu só tenho que beijar o anel dele.’”
Hoje eu gostaria de falar para todos vocês, que assim como eu beijam o anel de Herb, sobre a Bolsa de Valores. Vou falar sobre a cotação das ações, mas não sobre como prever o comportamento delas no próximo mês ou ano. Falar sobre cotações não é o mesmo que fazer previsões. A curto prazo, o mercado é como uma urna eletrônica. A longo prazo, é como uma balança. No fim, o que conta é o peso. Mas é o número de votos que conta a curto prazo. E estamos falando de um jeito muito pouco democrático de votação. Infelizmente a pessoa não passa por nenhum teste de alfabetização antes de poder votar, como todos vocês sabem muito bem.”
Buffett apertou um botão, que projetou um slide de Powerpoint numa tela enorme à sua direita. Bill Gates, que estava sentado na platéia, prendeu a respiração por um instante, até Buffett – um notório desastrado – conseguir se entender com o projetor.
ÍNDICE DOW JONES
31 de dezembro de 1964 – 874,12
31 de dezembro de 1981 – 875,00
Ele andou até à tela e começou a explicar.
“No decorrer dos últimos 17 anos, o tamanho da economia quintuplicou. As vendas das empresas citadas na revista Fortune 500 mais do que quintuplicaram. Porém, durante esses 17 anos, o mercado de ações continuou exatamente no mesmo lugar.”
Buffett voltou um ou dois passos.
“O que vocês estão fazendo ao investir é adiar o consumo e aplicar o dinheiro agora, para pegar mais dinheiro de volta no futuro. E só existem duas perguntas. Uma é quanto você vai pegar de volta, e a outra é quando.
Esopo não era nenhum gênio financeiro quando disse algo parecido com ‘mais vale um pássaro na mão do que dois voando’. Só que ele não explicou quando. As taxas de juros – o custo de se pegar dinheiro emprestado, são o preço do ‘quando’. Elas estão para as finanças como a gravidade está para a física. Como as taxas de juros variam, o valor de todos os ativos financeiros – imóveis, ações, títulos – também muda, assim como o preço dos pássaros de Esopo.
E é por isso que nem sempre um pássaro na mão é melhor do que dois voando. Às vezes dois voando são melhores do que um na mão.”
Com seu tom fanhoso, ofegante e monocórdio, e falando tão depressa que às vezes as palavras se atropelavam, Buffett fez uma analogia entre Esopo e a grande euforia do mercado na década de 1990, que ele classificou como “conversa para boi dormir”. Os lucros cresceram muito menos do que no período anterior, mas os pássaros voando eram caros, porque as taxas de juros estavam baixas. Menos pessoas queriam dinheiro – o pássaro na mão –, apesar dos juros baixos. Então os investidores estavam pagando preços sem precedentes por aqueles pássaros no céu. De forma franca, Buffett se referia a isso como o “fator ganância”.
A platéia, cheia de gurus tecnológicos que acreditavam estar mudando o mundo enquanto ficavam ricos, graças à enorme euforia do mercado, ficou calada. Eles estavam empoleirados em cima de portfólios abarrotados de ações que vinham sendo negociadas a valores extravagantes. E adoravam isso. Era um novo paradigma, a aurora da era da internet. Achavam que Buffett não tinha o direito de chamá-los de gananciosos. Logo Warren – que passou anos juntando seu dinheiro e dando muito pouco dele; que era tão pão-duro que na placa do seu carro estava escrito “Thrifty”, ou seja, “Econômico”; que passava boa parte do seu tempo pensando em como ganhar mais dinheiro; que tinha perdido o barco ao detonar o boom tecnológico – estava cuspindo no champanhe deles.
Buffett continuou seu discurso. Havia apenas três formas de o mercado de ações se manter crescendo no ritmo de 10% ou mais ao ano. Uma das maneiras possíveis era se as taxas de juros caíssem e permanecessem abaixo dos níveis históricos. A segunda era se a fatia da economia que ia para os investidores – e não para os trabalhadores, o governo, etc. – crescesse além de seu nível já historicamente elevado. Ou ainda, nas palavras dele, se a economia começasse a crescer mais rapidamente do que o normal. Ele considerava “uma ilusão” se valer de premissas otimistas como aquelas.
Algumas pessoas, ele disse, não achavam que o mercado iria prosperar como um todo. Para elas, era difícil identificar quem sairia ganhando. Balançando os braços como um regente de orquestra, ele mostrou outro slide, enquanto explicava que, embora as inovações tecnológicas pudessem tirar o mundo da pobreza, a História nos dizia que as pessoas que investiam nelas não costumavam ficar felizes depois.
“Esta é apenas uma folha de uma lista de 70 páginas de companhias automobilísticas dos Estados Unidos.” Ele balançou a lista completa no ar. “Existiam duas mil empresas deste tipo: o automóvel foi, provavelmente, a invenção mais importante da primeira metade do século XX. Ele teve um impacto enorme na vida das pessoas. Se, na época dos primeiros carros, vocês soubessem como o desenvolvimento do país estaria atrelado a eles, teriam dito: ‘Preciso entrar nessa.’ Porém, daquelas duas mil companhias originais, segundo dados de poucos anos atrás, apenas três sobreviveram. E, em momentos distintos, todas as três estiveram à venda por menos que o seu valor contábil, isto é, a quantidade de dinheiro que tinha sido aplicada nelas. De modo que os automóveis tiveram um impacto enorme na América, mas, para os investidores, este impacto não foi positivo.”
Ele largou a lista e enfiou a mão no bolso.
“Às vezes é muito mais fácil identificar quem vai sair perdendo. A meu ver, havia uma decisão óbvia a se tomar naquela época. Os investidores deveriam especular com a venda a descoberto de cavalos.” – Clique. Um slide sobre cavalos apareceu na tela.
POPULAÇÃO EQÜESTRE DOS EUA
1900 – 17 milhões
1998 – 5 milhões
“Francamente, fico um pouco desapontado por minha família não ter investido em cavalos ao longo de todo este período. Sempre vai ter gente que sai perdendo.”
Os membros da platéia riram, mas não muito. As empresas deles podiam estar perdendo dinheiro, mas, no íntimo, eles carregavam a convicção de que eram vencedores, supernovas ardendo no auge de uma mudança celeste monumental. Eles não tinham dúvidas de que seus nomes estariam um dia nas páginas dos livros de História.
“Outra grande invenção da primeira metade do século foi o avião. Entre 1919 e 1939 havia cerca de 200 companhias de aviação. Imagine se você pudesse ter visto o futuro da indústria aérea quando os irmãos Wright fizeram o primeiro vôo controlado, lá em Kitty Hawk. Teria vislumbrado um mundo sem precedentes. Imagine que você tivesse uma inspiração e visse todas aquelas pessoas querendo pegar um avião para visitar seus parentes, ou fugir deles, ou qualquer outra coisa que você pode fazer com um avião, e decidisse que precisava entrar nessa.
De acordo com dados de poucos anos atrás, o conjunto de todas as ações investidas na história da indústria da aviação rendeu zero dólares.
Então deixem-me dizer uma coisa a vocês: eu prefiro pensar que, se estivesse lá em Kitty Hawk, eu teria tido a inspiração e o espírito cívico de dar um tiro em Orville Wright. Era o mínimo que eu poderia fazer pelos capitalistas do futuro.”
Mais risadinhas discretas. Alguns estavam começando a se cansar daqueles exemplos antigos. No entanto, por uma questão de respeito, deixaram Buffett prosseguir.
Então ele passou a falar dos negócios deles:
“É maravilhoso promover novas indústrias, pois elas são muito fáceis de se promover. Já promover investimentos em produtos comuns é muito difícil. É muito mais fácil promover um produto exótico, até mesmo um que dê prejuízos, pois não há parâmetro quantitativo.” Isso era um golpe direto na platéia, bem onde doía. “Mas as pessoas vão continuar investindo assim mesmo. Isso me faz lembrar a história do prospector de petróleo que morre e vai para o céu. Daí São Pedro diz: ‘Bem, eu conferi seu dados, e você preenche todos os requisitos. Mas tem um problema. Seguimos leis muito rígidas de divisão territorial aqui e mantemos todos os petroleiros naquele cercado. E, como você pode ver, ele está estourando de cheio. Não temos espaço para você.’
O prospector diz: ‘O senhor se importa se eu disser só quatro palavrinhas?’
Ao que são Pedro responde: ‘Não vejo mal algum.’
Então o prospector faz uma concha com as mãos e berra: ‘Descobriram petróleo no inferno!’
E, obviamente, a tranca do cercado arrebenta e os petroleiros começam a despencar lá para baixo.
São Pedro diz: ‘Ótimo truque. Pode entrar, fique à vontade. Tem todo o espaço do mundo agora.’
O petroleiro reflete por um instante e então fala: ‘Não, acho que vou descer com o resto do pessoal. Pode ser que aquele boato tenha um fundo de verdade.’
Bem, é assim que as pessoas pensam em relação às ações. É muito fácil acreditar que aquele boato pode ter um fundo de verdade.”
Aquilo arrancou meio segundo de risadinhas, que ficaram presas na garganta logo que a platéia entendeu o que Buffett queria dizer: que, assim como os petroleiros da piada, eles talvez fossem insensatos o bastante para seguir os boatos – e procurar petróleo no inferno.
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