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Trecho do Livro: A Lógica do Consumo | Martin Lindstrom
Livro A Logica do Consumo
Autor: Martin Lindstrom
Editora: Nova Fronteira
ISBN: 9788520922170

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Era uma noite fria de setembro. Eu não estava preparado para aquela temperatura, usava apenas um suéter de caxemira bege debaixo da minha jaqueta esportiva. Ainda estava com frio por causa da caminhada do hotel até o píer quando embarquei no navio lotado no qual me encontraria com Martin Lindstrom pela primeira vez. Ele dera uma palestra em uma conferência sobre serviços alimentícios realizada pelo Instituto Gottlieb Duttweiler, o venerável grupo de pesquisa e consultoria suíço, e David Bosshart, o organizador da conferência, estava ansioso para que nos conhecêssemos. Eu nunca ouvira falar de Martin. Circulávamos em esferas diferentes. No entanto, eu havia visto BRANDchild, seu livro mais recente, na livraria do aeroporto JFK antes de partir para Zurique.

Qualquer pessoa que visse Martin a uma distância de cinco metros poderia confundi-lo com um garoto de 14 anos, sendo arrastado relutantemente de uma reunião para outra pelos sócios gordos e grisalhos de seu pai. A segunda impressão é a de que, de alguma maneira, aquela pequena criatura loura acabara de se colocar sob a luz dos holofotes; você espera que a luz se apague lentamente, mas isso não acontece. Como em uma pintura pré-rafaelita, há um brilho que emana de Martin como se ele estivesse destinado a ocupar o palco. Não, não como um ídolo dos cinemas, mas como uma espécie de deus mirim. O homem exala virtude. De perto, ele é ainda mais espantoso. Nunca conheci uma pessoa com olhos tão sábios em um rosto tão jovial. O toque grisalho nos cabelos e os dentes ligeiramente irregulares imprimem-lhe uma marca visual única. Se ele não fosse um guru de negócios e de branding, você poderia pedir-lhe uma foto autografada ou oferecer-lhe um suéter.

Acho que não trocamos mais do que dez palavras naquela noite, sete anos atrás. Mas foi o início de uma amizade pessoal e profissional que se estendeu por cinco continentes. De Sidney a Copenhague, de Tóquio a Nova York, conspiramos para fazer com que nossos caminhos se cruzassem. Risos, discussões, conselhos mútuos… tudo isso tem sido um prazer singular. Martin passa trezentas noites por ano fora de casa. Minha situação não é tão ruim assim, mas, a certa altura, você para de contar os travesseiros desconfortáveis e os cupons de voo usados e simplesmente se entrega à camaradagem dos guerreiros da estrada.

Martin observa, escuta e processa. A biografia em seu site diz que ele iniciou sua carreira na publicidade aos 12 anos de idade. Acho isso menos interessante do que o fato de seus pais, mais ou menos nessa mesma época, o terem tirado da escola, pegado um veleiro e viajado mundo afora. Sei que, aos 12 anos, eu não conseguiria viver em um barco de dez metros, durante dois anos, com meus pais. Martin diz que ainda fica mareado e prefere viver em Sidney, o mais longe possível da sua Dinamarca natal.

No mundo das conversas eruditas, o mais divertido é se ver compartilhando opiniões com pessoas cuja trajetória até aquele ponto de vista foi diferente da sua. Trata-se ao mesmo tempo de uma forma de legitimação e de verificação da realidade. Na minha carreira de antropólogo do consumo, nem sempre concordei com anunciantes e profissionais de marketing. Pessoalmente, tenho uma desconfiança fundamental em relação à fascinação do século XX pelo branding; não possuo camisas com estampas de jacarés nem de jogadores de polo e arranco as etiquetas da parte externa dos meus jeans. Na verdade, acho que as empresas deveriam me pagar pelo privilégio de colocar sua logomarca no meu peito, e não o contrário. Então, é meio estranho me ver no mesmo púlpito com alguém que é apaixonado por branding e que acredita que a publicidade é, na verdade, um empreendimento virtuoso, e não apenas um mal necessário. Concordamos na crença de que as ferramentas para entender por que fazemos o que fazemos, seja em lojas, hotéis, aeroportos ou on-line, precisam ser reinventadas.

Durante o final do século XX, os comerciantes e profissionais de marketing tinham duas maneiras de examinar a eficácia de seus esforços. A primeira era monitorar as vendas. O que as pessoas estão comprando e o que podemos deduzir a partir desses padrões de compra? Chamo isso de perspectiva da caixa registradora. O problema é que esse método confirma suas vitórias e derrotas sem realmente explicar por que elas estão acontecendo. E daí que as pessoas compraram manteiga de amendoim da Jif mesmo com a da marca Skippy em promoção?

A segunda ferramenta era a tradicional pesquisa de mercado através de perguntas. Podemos parar as pessoas enquanto caminham pelo corredor do shopping, telefonar para elas, convidá-las para discussões de grupo ou pedir para que participem de um painel pela internet. Minha longa experiência me diz que o que as pessoas dizem que fazem e o que elas realmente fazem são duas coisas diferentes. Não significa que essas duas ferramentas não funcionam; significa apenas que são limitadas. Assim como a publicidade e o branding ainda funcionam, mas não mais como antigamente.

O problema é que sempre tivemos mais habilidade para coletar dados do que para fazer algo com eles. Nos anos 1990, os escritórios de muitos pesquisadores de mercado estavam cheios de documentos impressos sobre a audiência da televisão, dados de pesquisas sobre vendas obtidos pela leitura de códigos de barras, ou resultados de milhares de entrevistas telefônicas. Aprendemos que uma em cada duas típicas mães norte-americanas, entre 28 e 32 anos, que têm os últimos modelos de carros de passeio e vivem em cidades pequenas preferem Jif a Skippy. O que fazemos com essa informação? Como um amigo cínico sugeriu, estamos trabalhando para superar esse desafio.

A ciência e o marketing possuem historicamente uma relação de amor e ódio. Nos anos 1950, os acadêmicos saíram de suas torres de marfim e começaram a colaborar com as agências de publicidade. A Nova Técnica de Convencer, livro seminal de Vance Packard, descreve aquela era de ouro que durou menos de uma década. Fazer com que as mães se sentissem bem por alimentar seus filhos com gelatina, ou desconstruir o motivo pelo qual um carro esportivo atraente na frente da concessionária da Ford fazia com que sedãs sem graça fossem vendidos; isso era, em grande parte, simples e lógico. A sua aplicação era fácil, numa sociedade com três grandes canais de televisão e cerca de uma dúzia de revistas populares. Essa relação começou a ser elucidada quando as coisas simplesmente deram errado. Nos anos 1950, mesmo contando com os melhores cérebros e um orçamento de marketing muito polpudo, o Edsel fracassou. Trinta anos mais tarde, a New Coke encalhou rapidamente.

Nas últimas três décadas, a ciência nas pesquisas de mercado tinha mais a ver com matemática avançada do que com psicologia. Relevância estatística, tamanho de amostragem, desvio padrão, testes Z, testes T e assim por diante. Os absolutos matemáticos são de certa forma mais seguros. Gosto de pensar que a tarefa do pesquisador de mercado moderno é transformar seus clientes em apostadores melhores, tentando reduzir as probabilidades de erro. Pense nele como uma mistura de cientista e vidente de bolas de cristal: uma pessoa rápida o bastante para acertar em cheio e com dom ou lábia suficientes para contar uma história que tenha credibilidade.

Neste livro, Martin, que passou os últimos dez anos desenvolvendo novas ferramentas de pesquisa, entra no campo do neuromarketing. Esta obra fala da nova confluência entre conhecimento médico, tecnologia e marketing, à qual adicionamos a capacidade de rastrear o cérebro para entender os estímulos cerebrais. Que parte do cérebro reage à logomarca da Coca-Cola? Como podemos entender que parte do s_xo vende?

Garanto a você que se trata de uma viagem agradável e informativa. De aldeias de pescadores no Japão até salas de reuniões a portas fechadas de empresas em Paris, passando por um laboratório médico em Oxford, Inglaterra, Martin possui um baú cheio de revelações fascinantes para compartilhar e de histórias para contar. E seja qual for a sua opinião sobre marcas e branding — se é que você tem alguma opinião a esse respeito —, ele vai fazer com que você queira saber mais.

Será que seremos capazes de ver estímulos s_xuais migrarem para diferentes partes do cérebro à medida que procriação e prazer se distanciam cada vez mais? Afaste-se, Michael Crichton: isto não é ficção científica com máquinas do tempo ou nanotecnologia fora de controle. É Martin Lindstrom, e ele escreveu outro grande livro. (Paco Underhill)

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Sejamos sinceros, todos nós somos consumidores. Quer estejamos comprando um celular, um creme antirrugas suíço ou uma Coca-Cola, comprar constitui uma parte enorme de nossas vidas quotidianas. E é por isso que, todo dia, somos bombardeados por dúzias, se não centenas, de mensagens de publicitários e anunciantes. Comerciais de tevê. Outdoors. Banners na internet. Vitrines de centros comerciais. Marcas, e informações sobre marcas, chegam até nós constantemente, em alta velocidade e de todas as direções. Como é possível esperar que nos lembremos de alguma parte do volume infinito de publicidade a que somos expostos diariamente? O que determina qual informação chega até a nossa consciência, e o que vai parar no depósito de lixo industrial do nosso cérebro, cheio de anúncios de fraldas esquecidos na mesma hora e de outras situações de consumo igualmente pouco memoráveis?

A esta altura, não posso deixar de me lembrar de uma das minhas numerosas estadias em hotéis. Ao entrar num quarto de hotel em uma cidade estranha, jogo imediatamente a chave ou o cartão do meu quarto em algum lugar e, um milésimo de segundo depois, já esqueci onde o coloquei. Esse dado simplesmente desaparece do disco rígido do meu cérebro. Por quê? Porque, eu estando consciente desse fato ou não, meu cérebro está processando simultaneamente vários outros tipos de informação — em que cidade e fuso horário estou, quanto tempo tenho até o próximo compromisso, quando comi algo pela última vez — e, com a capacidade limitada da nossa memória de curto prazo, a localização da chave do meu quarto simplesmente não é um dos dados selecionados.

A questão é que o nosso cérebro está constantemente ocupado coletando e filtrando informações. Algumas partículas de informação chegarão até o armazenamento de longo prazo — em outras palavras, a memória —, mas a maior parte se tornará entulho irrelevante, relegado ao esquecimento. Esse processo é inconsciente e instantâneo, mas acontece a cada segundo de cada minuto de cada dia.

Esta é uma pergunta que já me fizeram várias vezes: por que me dei o trabalho de escrever um livro sobre neuromarketing? Afinal, comando várias empresas, viajo o tempo todo pelo mundo aconselhando altos executivos — no fim das contas, só passo sessenta dias do ano em casa! Então, por que tirei tempo da minha agenda tão apertada para lançar o mais abrangente estudo já realizado nessa área? Porque, no meu trabalho de consultoria a empresas sobre como construir marcas melhores e duradouras, descobri que a maioria das marcas que existem hoje equivale a chaves de quartos de hotel. Parafraseando canhestramente meu conterrâneo Hamlet, percebi que havia algo de podre no reino da publicidade. Produtos demais estavam tropeçando, patinando ou mal saindo da linha de partida. Os métodos de pesquisa tradicionais não estavam funcionando. Como consultor de branding, isso me incomodava a ponto de se tornar uma obsessão. Eu queria descobrir por que os consumidores eram atraídos por uma certa marca de roupas, um dado modelo de carro, um tipo específico de creme de barbear, xampu ou chocolate. Percebi que a resposta está em alguma parte do cérebro. E eu acreditava que, se conseguisse desvendá-lo, esse enigma poderia não apenas ajudar a moldar o futuro da publicidade, mas também revolucionaria a maneira como todos nós pensamos e nos comportamos como consumidores.

No entanto, eis a ironia: como consumidores, não podemos fazer essas perguntas a nós mesmos porque, na maioria das vezes, não sabemos as respostas. Se você me perguntasse se deixei a chave do meu quarto em cima da cama, na cômoda, no banheiro ou embaixo do controle remoto da televisão, eu não teria a menor ideia, pelo menos não conscientemente. O mesmo se aplica à razão pela qual comprei aquele iPod Nano, um relógio Casio, um chá com leite no Starbucks ou um jeans Diesel. Não faço ideia. Simplesmente comprei.

Mas se os profissionais de marketing conseguissem descobrir o que está acontecendo em nossos cérebros para nos fazer escolher uma marca e não outra — que informações passam ou não pelo filtro do nosso cérebro —, basicamente essa seria a chave para construir as marcas do futuro. E é por isso que embarquei no que se revelaria uma jornada de três anos de duração, com um custo de milhões de dólares, pelo mundo dos consumidores, das marcas e da ciência.

Como você vai ler, logo percebi que o neuromarketing, um intrigante casamento do marketing com a ciência, era a janela para a mente humana que esperávamos havia tanto tempo. O neuromarketing é a chave para abrir o que chamo de nossa “lógica de consumo” — os pensamentos, sentimentos e desejos subconscientes que impulsionam as decisões de compra que tomamos em todos os dias de nossas vidas.

Admito que a ideia de uma ciência que pode espiar dentro da mente humana deixa muita gente com calafrios. Quando ouvimos as palavras “rastreamento cerebral”, nossa imaginação desliza para a paranoia. Parece o cúmulo da intrusão, um gigantesco e sinistro voyeur, um par de óculos de raios X espionando nossos pensamentos e sentimentos mais íntimos.

Uma organização conhecida como Commercial Alert, que apresentou um pedido ao Congresso para pôr um fim ao neuromarketing, afirma que o rastreamento cerebral existe para “subjugar a mente e usá-la para obter ganhos comerciais”. Em uma carta a James Wagner, presidente da Universidade Emory (o departamento de neurociência da Emory foi apelidado de “epicentro do mundo do neuromarketing”), a organização perguntava o que aconteceria se um neurocientista especialista em dependência usasse o seu conhecimento para “induzir desejos incontroláveis, mediante esquemas relacionados a determinados produtos”. A organização indaga, em uma petição enviada ao Senado dos EUA, se seria possível usar esse conhecimento na propaganda política, “potencialmente gerando novos regimes totalitários, lutas civis, guerras, genocídio e incontáveis mortes”.

Embora eu tenha enorme respeito pela Commercial Alert e suas opiniões, acredito piamente que elas são injustificadas. É claro, como no caso de qualquer nova tecnologia, o neuromarketing traz consigo o potencial para o abuso, e, com isso, uma responsabilidade ética. Levo essa responsabilidade muito a sério porque, afinal, também sou um consumidor e a última coisa que quero fazer é ajudar as empresas a nos manipular ou a controlar nossas mentes.

Mas não acredito que o neuromarketing seja um instrumento insidioso de governos corruptos ou anunciantes desonestos. Acredito que seja simplesmente uma ferramenta, como um martelo. Sim: nas mãos erradas, um martelo pode ser usado para arrebentar a cabeça de alguém, mas esse não é o seu propósito, e isso não significa que os martelos devem ser banidos, confiscados ou proibidos. O mesmo vale para o neuromarketing. Trata-se simplesmente de um instrumento usado para nos ajudar a decodificar o que nós, consumidores, já estamos pensando ao sermos confrontados por um produto ou marca, e que às vezes até nos ajuda a desvendar métodos desleais usados por publicitários para nos seduzir e trair sem que nem tenhamos conhecimento. Não é minha intenção ajudar as empresas a usar o rastreamento cerebral para controlar a mente dos consumidores ou para nos transformar em robôs. Em algum momento, num futuro distante, talvez haja pessoas que usem essa ferramenta da maneira errada. Mas tenho esperança de que a grande maioria das pessoas irá manejar esse mesmo instrumento para o bem: para entender melhor a nós mesmos — nossos desejos, impulsos e motivações — e usar esse conhecimento para propósitos benéficos e práticos. (E, se você me perguntar, seriam tolos se não o fizessem.)

No que acredito? Acredito que, entendendo melhor o nosso comportamento aparentemente irracional — seja o motivo para comprar uma camisa de grife ou o modo como avaliamos um candidato a um emprego —, podemos realmente obter mais controle, e não menos. Porque quanto mais soubermos dos motivos que nos tornam presas dos truques e táticas dos anunciantes, maior será a nossa chance de nos defender deles. E quanto mais as empresas souberem a respeito das nossas necessidades e desejos subconscientes, mais produtos úteis e significativos elas introduzirão no mercado. Afinal, não é do interesse dos publicitários fornecer produtos pelos quais nos apaixonemos? Coisas que nos envolvam emocionalmente e melhorem nossas vidas? Visto sob esse prisma, o rastreamento cerebral, usado de forma ética, acabará beneficiando a todos nós. Imagine mais produtos que geram mais dinheiro e, ao mesmo tempo, satisfazem os consumidores. Essa é uma boa combinação.

Até hoje, a única maneira para que as empresas pudessem entender o que os consumidores queriam era observando-os ou perguntando a eles diretamente. Não é mais assim que acontece. Pense no neuromarketing como um dos três círculos sobrepostos de um diagrama de Venn. Esse diagrama foi criado em 1881 por John Venn, um lógico e filósofo inglês de uma família evangélica bastante prática. Usado geralmente em um ramo da matemática conhecido como teoria dos conjuntos, o diagrama de Venn mostra todas as relações possíveis entre vários conjuntos diferentes de elementos abstratos. Em outras palavras, se um dos círculos representasse, digamos, homens, enquanto o outro representasse cabelos escuros e o terceiro, bigodes, a interseção no centro representaria homens de cabelos escuros e bigode.

Mas, se você pensar em dois círculos em um diagrama de Venn representando dois ramos da pesquisa tradicional em marketing — quantitativa e qualitativa —, está na hora de abrir espaço para um novato: o neuromarketing. E na interseção desses três círculos reside o futuro do marketing: a chave para entender verdadeira e completamente os pensamentos, sentimentos, motivações, necessidades e desejos dos consumidores, de todos nós.

É claro, o neuromarketing não é a resposta para tudo. Por ser uma ciência recente, está limitado por nossa compreensão ainda restrita do cérebro humano. Mas a boa notícia é que o entendimento de como a mente inconsciente impulsiona o nosso comportamento está aumentando; hoje, alguns dos principais pesquisadores em todo o mundo estão fazendo importantes incursões nessa fascinante ciência. No fim das contas, vejo este livro — baseado no maior estudo de neuromarketing do seu gênero — como minha própria contribuição para esse crescente conjunto de conhecimento. (Algumas das minhas descobertas podem ser questionadas, e dou as boas-vindas ao que, acredito, resultará em um importante diálogo.) Embora nada na ciência possa ser considerado a palavra final, acredito que A Lógica do Consumo é o início de uma investigação radical e intrigante sobre por que compramos. Uma contribuição que, se eu tiver atingido meu objetivo, derrubará muitos dos mitos, pressupostos e crenças que todos temos há muito tempo sobre o que aguça nosso interesse por um produto e o que nos afasta dele. Portanto, espero que você goste do livro, aprenda com ele e chegue ao seu final entendendo melhor a nossa “lógica de consumo” — a miríade de forças subconscientes que nos motivam a comprar.

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Um afluxo de sangue para a cabeça: o maior estudo de neuromarketing já realizado.

Não era de surpreender que os fu_mantes estivessem tensos, irrequietos, sem saber ao certo o que esperar. Mal notando a chuva e o céu encoberto, eles se aglomeravam fora do edifício que abriga, em Londres, Inglaterra, o Centro de Ciências de Neuroimagem. Alguns descreviam a si mesmos como fu_mantes sociais — um ci_garro pela manhã, um segundo durante a hora do almoço, talvez mais uma meia dúzia caso saíssem para farrear com os amigos à noite. Outros confessavam ser dependentes havia muito tempo, fumando dois maços por dia. Todos eles juravam fidelidade a uma única marca, fosse ela Marlboro ou Camel. Seguindo as regras do estudo, eles sabiam que não poderiam fu_mar nas próximas quatro horas, então estavam ocupados armazenando o máximo possível de alcatrão e nicotina em seus organismos. Entre um trago e outro, trocavam isqueiros, fósforos, anéis de fumaça, apreensões: “Será que vai doer? George Orwell teria adorado isto. Será que a máquina pode mesmo ler a minha mente?”

Dentro do edifício, o cenário era, como convém a um laboratório médico, asséptico, prático e confortadoramente sem alma — frios corredores brancos e portas em tons de cinza-escuro. À medida que o estudo avançava, tomei meu lugar atrás de uma grande janela de vidro, dentro de uma cabine de controle que lembrava um cockpit de avião, no meio de um monte de escrivaninhas, equipamentos digitais, três computadores enormes e um punhado de pesquisadores de jaleco branco. Eu estava olhando para uma sala dominada por um aparelho de IRMf (Imagem por Ressonância Magnética funcional), uma enorme máquina de quatro milhões de dólares que mais parece uma gigantesca rosca esculpida, acrescida de uma língua muito longa e fixa. Sendo a mais avançada técnica de rastreamento cerebral disponível atualmente, o IRMf mede as propriedades magnéticas da hemoglobina, componente nos glóbulos vermelhos do sangue que transportam oxigênio pelo corpo. Em outras palavras, o IRMf mede a quantidade de sangue oxigenado no cérebro e pode identificar com precisão até uma área de apenas um milímetro. Ao realizar uma tarefa específica, o cérebro requer mais combustível — principalmente oxigênio e glicose. Portanto, quanto mais uma certa região do cérebro estiver trabalhando, maior será o consumo de combustível e o fluxo de sangue oxigenado para aquela região. Portanto, durante o exame no IRMf, quando uma parte do cérebro está sendo usada, aquela região se acende em vermelho-fogo. Ao rastrear essa ativação, os neurocientistas podem determinar que áreas específicas do cérebro estão trabalhando num determinado momento.

Os neurocientistas normalmente usam esse instrumento de 32 toneladas e do tamanho de um carro de passeio para diagnosticar tumores, derrames, lesões nas juntas e outras afecções que frustram o desempenho de raios X e tomógrafos computadorizados. Os neuropsiquiatras perceberam que o IRMf seria útil para esclarecer certas doenças psiquiátricas de tratamento difícil, dentre as quais psicoses, sociopatia e distúrbio bipolar. Mas aqueles fu_mantes tragando, batendo papo e circulando na sala de espera não estavam doentes nem sofriam de distúrbio algum. Junto com uma amostragem semelhante de fu_mantes nos Estados Unidos, eles foram cuidadosamente selecionados para participar de um revolucionário estudo de neuromarketing, e me ajudavam a chegar ao fundo de um mistério que pasmava profissionais de saúde, fabricantes de ci_garros, fu_mantes e não fu_mantes havia décadas.

Durante muito tempo, notei que as advertências posicionadas de forma proeminente nas embalagens de ci_garros pareciam surtir um efeito estranhamente pequeno nos fu_mantes, se é que surtiam algum. Fu_mar causa câncer de pulmão. Fu_mar causa enfisema. Fu_mar durante a gravidez causa malformações no feto. Frases bastante diretas. Difíceis de contradizer. E as advertências norte-americanas são as mais brandas. Os fabricantes de ci_garros europeus colocam suas advertências dentro de molduras espessas e negras como carvão, tornando-as ainda mais difíceis de serem ignoradas. Em Portugal, reduzindo o dromedário dos maços de Camel a um anão, estão escritas palavras que até uma criança pode entender: Fu_mar mata. Mas nada chega perto das advertências nos maços de ci_garro do Canadá, Tailândia, Austrália, Brasil — e, em breve, do Reino Unido. São imagens coloridas assustadoras e minuciosamente realistas de pulmões cancerosos, de pés e artelhos com gangrena, bem como das feridas abertas e dos dentes em decomposição que acompanham os cânceres de boca e garganta.

Você poderia imaginar que essas imagens explícitas deteriam a maioria dos fu_mantes. Então, por que, em 2006, apesar de proibidas as propagandas de ci_garro, das advertências diretas e frequentes por parte da comunidade médica e do investimento maciço dos governos em campanhas antitabagismo, os consumidores ao redor do mundo continuaram a fu_mar astronômicos 5.763 bilhões de ci_garros, uma cifra que não inclui ci_garros isentos de impostos ou o enorme mercado negro internacional? (Uma vez, em uma loja de conveniência australiana, ouvi o atendente perguntar a um fu_mante: “Quer o maço com a foto dos pulmões, do coração ou dos pés?” Indaguei ao atendente quantas vezes aquilo acontecia. “Cinquenta por cento das vezes que os clientes pedem ci_garros”, ele me disse.) Apesar do que sabemos hoje sobre o tabagismo, estima-se que cerca de um terço dos homens adultos em todo o mundo continue a fu_mar. Aproximadamente 15 bilhões de ci_garros são vendidos a cada dia — ou seja, dez milhões de ci_garros vendidos por minuto. Na China, onde milhões de fu_mantes desavisados acreditam que fu_mar pode curar o mal de Parkinson, aliviar sintomas da esquizofrenia, aumentar a eficácia das células cerebrais e melhorar o desempenho no trabalho, mais de trezentos milhões de pessoas, dentre as quais 60% dos médicos do sexo masculino, fumam. Com vendas anuais de 1,8 trilhão de ci_garros, o monopólio chinês é responsável por aproximadamente um terço de todos os ci_garros consumidos na Terra hoje — uma grande porcentagem do 1,4 bilhão de pessoas que fumam, uma cifra que, segundo as projeções do Banco Mundial, deverá aumentar para cerca de 1,6 bilhão até 2025 (embora a China consuma mais ci_garros do que os Estados Unidos, Rússia, Japão e Indonésia juntos).

No mundo ocidental, a dependência de nicotina ainda é uma enorme preocupação. O tabagismo é a maior causa de morte na Espanha atualmente, com cinquenta mil falecimentos relacionados ao fu_mo por ano. No Reino Unido, aproximadamente um terço de todos os adultos com menos de 65 anos fuma, ao passo que cerca de 42% das pessoas abaixo dessa idade estão expostas ao tabagismo em casa. O número de britânicos que morreram por causa do ci_garro é 12 vezes maior do que o número de pessoas dessa nacionalidade mortas na Segunda Guerra Mundial. De acordo com a Associação Americana do Pulmão, doenças relacionadas ao tabagismo afetam cerca de 438 mil vidas por ano nos Estados Unidos, “incluindo aquelas afetadas indiretamente, como bebês nascidos prematuros devido ao tabagismo pré-natal materno e vítimas da exposição passiva aos carcinógenos do tabaco”. Os custos médicos só nos Estados Unidos? Mais de US$167 bilhões ao ano. E mesmo assim os fabricantes de ci_garros continuam criando novas maneiras de nos matar. Por exemplo, a mais recente arma da Philip Morris contra a proibição do fu_mo nos locais de trabalho é o Marlboro Intense, um ci_garro menor, com alto teor de alcatrão — vale por sete tragadas — e que pode ser consumido em escapadelas entre reuniões, telefonemas e apresentações em PowerPoint.

Não faz sentido. Os fu_mantes são seletivamente cegos em relação a imagens de advertência? Será que pensam: “Sim, mas sou a exceção à regra”? Estão fazendo uma enorme bravata contra o mundo? Acreditam secretamente que são imortais? Ou será que conhecem os perigos que o ci_garro traz à saúde e simplesmente não estão nem aí?

Era isso que eu esperava descobrir utilizando a tecnologia do IRMf. Aqueles 32 fu_mantes do estudo estavam entre os 2.081 voluntários vindos dos Estados Unidos, Inglaterra, Alemanha, Japão e China que recrutei para o maior e mais revolucionário experimento de neuromarketing da História.

Aquele estudo era 25 vezes maior do que qualquer outro na área de neuromarketing realizado até então. Usando as ferramentas científicas mais avançadas que estavam à disposição, a experiência revelou as verdades ocultas por trás do modo como as mensagens de branding e marketing funcionam no cérebro humano, como o nosso eu mais verdadeiro reage a estímulos em um nível muito mais profundo que o pensamento consciente e como a mente inconsciente controla o nosso comportamento (geralmente o contrário de como pensamos que nos comportamos). Em outras palavras, iniciei uma jornada para investigar alguns dos maiores enigmas e problemas com os quais se defrontam consumidores, empresas, anunciantes e governos nos dias de hoje.

Por exemplo: o merchandising realmente funciona? (A resposta, descobri, é um retumbante não.) Que força têm as logomarcas? (Aroma e som são mais poderosos do que qualquer logo por si só.) Publicidade subliminar ainda ocorre? (Sim, e ela provavelmente teve influência sobre o que você escolheu na loja de conveniência no outro dia.) O nosso comportamento de consumo é afetado pelas maiores religiões do mundo? (Sem dúvida, e cada vez mais.) Que efeito os avisos e advertências de saúde surtem em nós? (Continue lendo.) Será que o s_xo na publicidade funciona (na verdade, não) e será que poderia se tornar mais explícito do que já é? (Espere para ver.)

Iniciado em 2004, o nosso estudo consumiu, do início ao fim, quase três anos da minha vida, custou aproximadamente sete milhões de dólares (fornecidos por oito empresas multinacionais), abrangeu vários experimentos e envolveu milhares de pessoas vindas do mundo todo para servir de objeto de estudo, bem como duzentos pesquisadores, dez professores universitários e doutores e uma comissão de ética. E lançou mão de dois dos mais sofisticados instrumentos de rastreamento cerebral do mundo: o IRMf e uma versão avançada do eletroencefalograma chamada TEE, abreviatura de topografia de estado estável, que rastreia ondas cerebrais rápidas em tempo real. A equipe de pesquisa foi supervisionada pela dra. Gemma Calvert, catedrática de Neuroimagem Aplicada da Universidade de Warwick, Inglaterra, e fundadora da Neurosense em Oxford, e pelo professor Richard Silberstein, executivo-chefe da Neuro-Insight na Austrália. E quais foram os resultados? Bem, por enquanto direi apenas que eles vão transformar a sua visão de como e por que você compra.

Marlene, uma das fu_mantes no estudo, posicionou-se deitando de costas dentro do IRMf. A máquina emitiu um pequeno tique enquanto a plataforma se erguia e parava na posição certa. Marlene parecia um pouco hesitante — e quem não pareceria? —, mas conseguiu dar um sorriso confiante enquanto um técnico colocava a bobina protetora sobre a maior parte do seu rosto, preparando-se para o primeiro rastreamento cerebral do dia.

Pelo questionário e a entrevista feitos antes do exame, soube que Marlene tinha dois filhos, se divorciara recentemente, morava em Middlesex e que havia começado a fu_mar no internato, 15 anos antes. Ela não se via tanto como uma dependente de nicotina, e sim uma “fu_mante social”, ou seja, fumava apenas alguns “cigarrinhos” durante o dia, e mais oito ou dez à noite.

“Você é afetada pelas advertências nos maços de ci_garro?”, perguntava o questionário.

“Sim”, Marlene havia escrito, girando a caneta entre os dedos como se estivesse prestes a acendê-la.

“Você está fumando menos por causa dessas advertências?”

Outro sim. Mais uma vez a caneta foi girada entre seus dedos. Nunca fui um fu_mante, mas percebi seu sofrimento.

Suas respostas na entrevista foram bastante claras, mas era chegada a hora de entrevistar seu cérebro. Para quem nunca foi submetido a uma ressonância magnética, eu não diria que esse exame é a experiência mais relaxante ou agradável do mundo. A máquina é barulhenta, ficar deitado e imóvel é entediante e, se você tem tendência a ataques de pânico ou de claustrofobia, pode parecer que está sendo enterrado vivo em uma cabine telefônica. Uma vez lá dentro, o melhor é ficar num estado de calma meditativa. Respire. Inspire, expire, inspire de novo. Você pode piscar e engolir, mas é melhor ignorar aquela coceira no tornozelo esquerdo, por pior que seja. Um tique, um espasmo, uma agitação, uma careta, uma torção do corpo — o menor movimento pode comprometer os resultados. Alianças, pulseiras, colares, anéis ou piercings também devem ser retirados previamente. Devido ao forte magneto da máquina, qualquer pedaço de metal seria arrancado tão rapidamente que você nem saberia o que tinha acabado de acertar o seu olho.

Marlene ficou dentro do aparelho por pouco mais de uma hora. Um pequeno aparato refletor, parecido com o espelho retrovisor de um carro, projetava uma série de imagens de advertência sobre ci_garros em vários ângulos sobre uma tela próxima. Quando tinha de indicar a intensidade do seu desejo de fu_mar durante a apresentação dos slides, Marlene apertava uma botoeira — um pequeno console preto semelhante a um acordeão — à medida que as imagens iam sendo exibidas.

Continuamos a realizar rastreamentos do cérebro de outras pessoas durante mais um mês e meio.

Cinco semanas mais tarde, a líder da equipe, a dra. Calvert, me apresentou os resultados. Fiquei aturdido, para não dizer coisa pior. Até a doutora ficou surpresa com as descobertas: as imagens de advertência nas laterais, na frente e no verso dos maços de ci_garros não surtiam efeito algum na supressão do desejo dos fu_mantes. Zero. Em outras palavras, todas aquelas fotografias repulsivas, regulamentações governamentais e bilhões de dólares que 123 países investiram em campanhas antitabagismo se tornaram, no final, um grande desperdício de dinheiro.

“Você tem certeza?”, eu continuava a perguntar.

“Certeza absoluta”, respondia ela, acrescentando que a validade estatística era a mais sólida possível.

Mas isso não representou nem metade da surpresa que a dra. Calvert teve quando analisou os resultados mais a fundo. As advertências sobre ci_garros — seja informando sobre o risco de contrair enfisema, doenças cardíacas ou uma série de outras afecções crônicas — haviam na verdade estimulado uma área do cérebro dos fu_mantes chamada nucleus accumbens, também conhecida como “ponto do desejo”. Essa região é um elo na malha de neurônios especializados que se acendem quando o corpo deseja algo — seja álcool, dr_gas, tabaco, s_xo ou apostas. Quando estimulado, o nucleus accumbens exige doses cada vez mais altas para ser aplacado.

Em suma, os resultados do IRMf mostraram que as imagens de advertência sobre ci_garros não apenas fracassavam em desestimular o fu_mo, mas, ao ativarem o nucleus accumbens, aparentemente encorajavam os fu_mantes a acender um ci_garro. Não pudemos deixar de concluir que aquelas mesmas imagens de advertência sobre ci_garros que visavam limitar o fu_mo, reduzir a incidência de câncer e salvar vidas haviam, pelo contrário, se tornado um assustador instrumento de marketing para a indústria do tabaco.

A maioria dos fu_mantes respondeu que achava que as imagens de advertência funcionavam — talvez porque acreditassem que aquela fosse a resposta certa, fosse o que os pesquisadores queriam ouvir ou então porque se sentiam culpados, pois sabiam o que o ci_garro estava fazendo com sua saúde. No entanto, como a dra. Calvert concluiu mais tarde, os nossos voluntários não se sentiam envergonhados pelo que o ci_garro estava fazendo com seu corpo; sentiam-se culpados porque aquelas imagens estimulavam as áreas de seu cérebro ligadas ao desejo. Sua mente consciente simplesmente não conseguia estabelecer a diferença. Marlene não estava mentindo quando respondeu o questionário. Mas seu cérebro — a área mais honesta de todas — a havia desmentido retumbantemente. Do mesmo modo como o cérebro de cada um de nós faz todo dia.

Os resultados dos estudos suplementares sobre as imagens cerebrais que realizei foram tão provocadores, fascinantes e polêmicos quanto o do projeto de pesquisa sobre ci_garros. Um a um, eles me aproximaram de um objetivo que eu havia me proposto a alcançar: derrubar alguns dos pressupostos, mitos e crenças mais antigos sobre que tipos de publicidade, branding e embalagens realmente estimulam o nosso interesse e nos incentivam a comprar. Se eu conseguisse ajudar a desvendar as forças subconscientes que estimulam os nossos interesses e, em última instância, nos fazem abrir a carteira, o estudo daquelas imagens cerebrais comporia os três anos mais importantes da minha vida.

No que diz respeito à minha profissão, sou um especialista em branding global. Ou seja, durante toda a minha vida, minha missão (e paixão) tem sido descobrir como os consumidores raciocinam, por que compram certos produtos ou não — e o que os profissionais de marketing e anunciantes podem fazer para dar nova vida a produtos que estão com problemas, encalhados, em declínio ou que simplesmente são fracos desde o início.

Se você olhar em volta, é bastante provável que encontre rastros da minha atividade de branding por toda a sua casa ou apartamento, desde os produtos que estão guardados debaixo da pia da cozinha até o chocolate que você guarda na gaveta da escrivaninha, passando pelo telefone ao lado da cama, o creme de barbear no banheiro e o carro que está estacionado na garagem. Talvez eu tenha ajudado a criar a marca do controle remoto da sua tevê. Do café que você engoliu esta manhã. Do hambúrguer e das batatas fritas que você pediu semana passada. Do software de seu computador. Da sua máquina de café expresso. Da sua pasta de dentes. Do seu xampu anticaspa. Do seu protetor labial. Da sua roupa íntima. Ao longo dos anos que tenho feito esse trabalho, já ajudei a criar marcas de desodorantes, produtos de higiene feminina, alto-falantes para iPod, cervejas, motocicletas, perfumes, ovos da Arábia Saudita — e a lista continua. Sendo um especialista em branding e em previsão do futuro das marcas (ou seja, a experiência que acumulei viajando pelo mundo me dá uma visão abrangente das prováveis tendências de consumo e publicidade futuras), eu e meus colaboradores somos considerados pelo mercado uma espécie de ambulância para marcas, uma equipe de intervenções em empresas em crise.

Digamos que a sua cara linha de água mineral vinda de “fontes de cristalinas torrentes montanhosas e poços artesianos ricos em sílica” está em maus lençóis. A empresa quer que os consumidores acreditem que a água é engarrafada por elfos afundados até as canelas em fiordes, e não dentro de uma grande fábrica à beira de uma autoestrada em Nova Jersey, mas, de qualquer forma, a sua participação de mercado está caindo e ninguém na empresa sabe o que fazer. Eu vou começar a cavar. Qual é o segredo do produto? O que o destaca? Existem histórias, rituais ou mistérios que os consumidores associam a ele? Se não, podemos pesquisar e achar algum? Será que o produto pode, de alguma maneira, quebrar a barreira bidimensional da publicidade apelando para outros sentidos nos quais a empresa ainda não pensou? Olfato, tato, audição? O som que a tampa emite ao ser aberta? Um insinuante canudinho rosa? A campanha publicitária é ousada, engraçada e arriscada, ou é tão chata e irrelevante quanto a de todas as outras empresas?

Como viajo muito, posso ver qual é o desempenho das marcas em todo o mundo. Estou dentro de um avião quase trezentos dias por ano, fazendo apresentações, análises e discursos. Se for terça-feira, posso estar em Bombaim. No dia seguinte, São Paulo. Ou Dublin, Tóquio, Edimburgo, San Francisco, Atenas, Lima, Sri Lanka ou Xangai. Mas minha atribulada agenda de viagens é uma vantagem que posso oferecer a equipes que geralmente estão ocupadas demais até mesmo para sair do próprio prédio para almoçar, quanto mais para ir visitar uma loja no Rio de Janeiro, Amsterdã ou Buenos Aires a fim de observar seus produtos em ação.

Já me disseram uma infinidade de vezes que minha aparência é tão pouco convencional quanto minha profissão. Aos 38 anos, tenho cerca de 1,73m e sou abençoado — ou amaldiçoado — por um rosto de aparência extremamente jovial e pueril. A desculpa que criei ao longo dos anos é que cresci na Dinamarca, onde fazia tanto frio o tempo todo que o clima congelou a minha aparência. Minhas feições, meus cabelos louros penteados para trás e o hábito de me vestir inteiramente de preto dão a muitas pessoas a impressão de que sou uma espécie de estranho evangelista mirim, ou talvez um adolescente precoce e ligeiramente tenso que se perdeu a caminho do laboratório de ciências e acabou indo parar, por engano, na sala de reuniões da diretoria de alguma empresa. Já me acostumei com isso ao longo dos anos. Acho que poderia dizer que foi algo que evoluiu e se tornou minha marca.

Então, como é que, de repente, eu me encontrava olhando pela janela de um asséptico laboratório médico, em uma universidade inglesa encharcada pela chuva, enquanto voluntário após voluntário era submetido a um exame de rastreamento cerebral por IRMf?

Em 2003, havia ficado bastante claro para mim que os métodos tradicionais de pesquisa, como pesquisas de mercado e discussões de grupo, não cumpriam mais a tarefa de descobrir o que os consumidores realmente pensam. E isso acontece porque nossa mente irracional, inundada por questões culturais arraigadas em nossa tradição, criação e muitos outros fatores subconscientes, exerce uma influência poderosa, mas oculta, sobre as escolhas que fazemos. Como Marlene e todos os outros fu_mantes que disseram que as advertências sobre ci_garros os desestimulavam a fu_mar, podemos achar que sabemos o motivo pelo qual fazemos o que fazemos, mas uma inspeção mais minuciosa do cérebro nos diz outra coisa.

Pense a respeito. Como seres humanos, gostamos de nos considerar uma espécie racional. Nós nos alimentamos e nos vestimos. Vamos trabalhar. Lembramos de diminuir o termostato à noite. Fazemos downloads de músicas. Vamos à academia de ginástica. Administramos crises — prazos perdidos, uma criança que cai da bicicleta, um amigo que fica doente, a morte de um de nossos pais etc. — de maneira adulta e centrada. Esse, pelo menos, é o nosso objetivo. Se um parceiro ou colega nos acusa de agir irracionalmente, ficamos um pouco ofendidos. Seria como se tivesse nos acusado de insanidade temporária.

Mas, gostando ou não, todos nós nos comportamos de maneiras que não têm nenhuma explicação lógica ou simples. Isso tem acontecido como nunca em nosso mundo cheio de tecnologia e estresse, no qual notícias de ameaças terroristas, atritos políticos, incêndios, terremotos, enchentes, violência e vários outros desastres nos acometem desde o momento em que sintonizamos o jornal da manhã até a hora em que vamos dormir. Quanto maior é o estresse a que somos submetidos, maior é o medo, a insegurança e a dúvida que sentimos — e maior é a probabilidade de nos comportarmos irracionalmente.

Por exemplo, pense em quantas superstições governam nossas vidas. Batemos na madeira para ter sorte. (Já estive em salas de reunião nas quais, caso não houvesse madeira por perto, os executivos procuravam, desamparados, por algum substituto. Uma pasta serve? Um lápis? E quanto ao assoalho?) Não passamos embaixo de escadas. Cruzamos os dedos para ter sorte. Preferimos não voar numa sexta-feira 13 ou passar por uma rua em que vimos um gato preto entre os arbustos na semana anterior. Se quebramos um espelho, pensamos: “Pronto, sete anos de azar.” É claro que, se você perguntar, a maioria das pessoas dirá: “Não, não seja ridículo, não dou o menor crédito a nenhuma dessas superstições fúteis.” Ainda assim, a maioria de nós continua a agir de acordo com elas todos os dias.

Sob estresse (ou mesmo quando está tudo correndo bastante bem), as pessoas tendem a dizer uma coisa enquanto seu comportamento sugere algo totalmente diferente. Nem preciso dizer que isso é um desastre no campo das pesquisas de mercado, o qual depende da precisão e honestidade dos consumidores. Mas, em 85% das vezes, nosso cérebro está ligado no piloto automático. Na verdade, não temos a intenção de mentir — mas o fato é que a mente inconsciente interpreta o nosso comportamento muito melhor do que a mente consciente, incluindo os motivos pelos quais compramos algo.

O conceito de construção de marca existe há aproximadamente um século. Mas os publicitários ainda não sabem muito mais do que John Wanamaker, pioneiro das lojas de departamento, sabia um século atrás, quando fez sua notória declaração: “Metade do meu orçamento de propaganda é desperdiçado. O problema é que não sei que metade é essa.” As empresas muitas vezes não sabem o que fazer para nos cativar de verdade, em vez de meramente atrair nossa atenção. Não estou dizendo que as empresas não são espertas, ao contrário. Algumas, como as de ci_garros, são assustadoramente espertas. Mas a maioria ainda não consegue responder a uma pergunta básica: o que nos impulsiona, como consumidores, a fazer as escolhas que fazemos? O que nos faz escolher uma marca ou um produto em detrimento de outro? O que os consumidores estão realmente pensando? E como ninguém consegue dar uma resposta decente a essas perguntas, as empresas seguem em frente usando as mesmas estratégias e técnicas que sempre usaram. Os profissionais de marketing, por exemplo, ainda estão usando os mesmos métodos de sempre: uma pesquisa quantitativa — que envolve entrevistas com inúmeros voluntários a respeito de uma ideia, conceito, produto ou até mesmo um tipo de embalagem —, seguida de uma pesquisa qualitativa, que se concentra com mais intensidade em discussões com grupos menores, cuidadosamente escolhidos naquela mesma população. Em 2005, as empresas gastaram mais de US$7,3 bilhões em pesquisas de mercado apenas nos Estados Unidos. Em 2007, essa cifra subiu para US$12 bilhões. E aí nem estão incluídas as despesas adicionais referentes à comercialização própria de um produto — embalagens e expositores, comerciais de tevê, propagandas on-line, depoimentos de celebridades e outdoors —, que carregam a marca de US$117 bilhões somente nos Estados Unidos.

Mas se essas estratégias ainda funcionam, por que oito em cada dez novos produtos lançados fracassam nos três primeiros meses? (No Japão, são 9,7 em cada dez produtos lançados.) O que sabemos agora, e o que você vai ler nas páginas a seguir, é que aquilo que as pessoas dizem nas pesquisas e nas discussões de grupos não afeta realmente o comportamento delas, longe disso. Vejamos um exemplo. Uma mãe moderna tem hoje em dia cada vez mais medo de “germes” e se preocupa cada vez mais com “segurança” e “saúde”. Nenhuma mulher em sã consciência quer acidentalmente ingerir a bactéria E. coli ou pegar uma infecção de garganta, assim como também não quer que seus filhos sejam contaminados. Então, o departamento de pesquisa de uma empresa desenvolve uma pequena ampola de algum bactericida — vamos chamá-lo de “Pure-Al” —, que as mulheres podem colocar na bolsa e tirar rapidamente para espalhar nas mãos depois de um dia num escritório sufocante, no apartamento imundo de uma amiga ou em um vagão superlotado do metrô.

Mas será que o Pure-Al pode realmente inibir nossos temores a respeito de “germes” e “segurança”? Como os profissionais de marketing podem saber o que esses termos significam para a maioria de nós? Claro, existe um desejo humano básico de se sentir seguro e protegido, bem como uma aversão natural a corrimãos repletos de germes, academias de ginástica que são uma selva de bactérias e escritórios empoeirados. Mas, como os nossos questionários aplicados aos fu_mantes mostraram, nem sempre expressamos ou reagimos a esses sentimentos conscientemente; existe toda uma área de pensamento e sentimento que permanece fora do nosso alcance. O mesmo acontece com cada uma das emoções que vivenciamos, seja amor, simpatia, ciúme, raiva, repulsa e assim por diante.

Fatores ínfimos, que mal podem ser percebidos, podem causar um deslocamento nas respostas de uma discussão de grupo. Talvez uma mulher achasse que, sendo mãe de quatro filhos e dona de três cães e 17 lagartos, deveria se importar mais com germes, mas não quisesse admitir para as outras mulheres naquela sala que sua casa já é muito bagunçada. Ou talvez o chefe da equipe de pesquisa fizesse uma outra mulher se lembrar de um ex-namorado, que a trocou por sua melhor amiga, e isso denegrisse a imagem do produto (certo, é apenas uma possibilidade).

Talvez todas elas simplesmente odiassem o nariz dele.

A questão é: tente colocar essas microemoções em palavras ou tente escrever a respeito delas em uma sala cheia de estranhos. É impossível. É por isso que é mais provável que as verdadeiras reações e emoções que nós, como consumidores, vivenciamos sejam encontradas no cérebro, no intervalo de um nanossegundo antes que o pensamento seja convertido em palavras. Portanto, se quiserem conhecer a verdade nua e crua — a verdade, sem rodeios e sem censura, a respeito do que nos faz comprar —, os profissionais de marketing terão de entrevistar nossos cérebros.

Tudo isso constitui o motivo pelo qual, em 2003, me convenci de que havia algo muito errado com os métodos usados pelas empresas para tentar estabelecer contato com os consumidores, nós. As empresas simplesmente pareciam não entendê-los. Não conseguiam encontrar e desenvolver marcas que correspondessem às nossas necessidades. E também não tinham certeza de como se comunicar conosco de maneira que seus produtos cativassem nossas mentes e corações. Nenhum anunciante, estivesse ele comercializando cosméticos, medicamentos, fast-food, carros ou picles, ousava se destacar ou tentar algo remotamente novo ou revolucionário. Em termos de compreensão da mente do consumidor comum, eles estavam na mesma situação de Cristóvão Colombo em 1492: consultando um mapa rasgado, traçado à mão, enquanto o vento começava a soprar e seu barco seguia balançando, rumo ao que podia ou não ser terra firme.

Ao desvendar os segredos mais profundos do cérebro, eu não estava interessado em ajudar as empresas a manipular os consumidores — longe disso. Afinal, eu também compro um monte de coisas e, no final das contas, também sou tão suscetível a produtos e marcas quanto qualquer outra pessoa. Também quero dormir bem à noite, sabendo que fiz a coisa certa (ao longo dos anos, recusei projetos que, na minha opinião, ultrapassavam esse limite). Ao tentar lançar luz sobre o comportamento de consumo de mais de dois mil participantes, achei que poderia revelar as motivações mais profundas de nossa mente — e, talvez, fazer avançar a pesquisa cerebral ao mesmo tempo.

Estava na hora de jogar tudo para o alto para ver onde cairia, e depois começar tudo de novo. É aí que o nosso estudo de rastreamento cerebral entra em cena.

Para mim, tudo começou com uma matéria de capa da revista Forbes, “Em busca do botão Comprar”, que li durante um típico voo de um dia inteiro. O artigo descrevia a atividade de um pequeno laboratório em Greenwich, Inglaterra, no qual um pesquisador de mercado se unira a um neurocientista cognitivo para espiar o interior do cérebro de oito mulheres jovens enquanto assistiam a um programa de tevê salpicado por meia dúzia de comerciais sobre produtos que iam desde chocolates Kit Kat à vodca Smirnoff, passando pelo carro Passat, da Volkswagen.

Usando uma técnica conhecida como TEE, que mede a atividade elétrica dentro do cérebro (e parece, como percebi mais tarde, uma touca de banho preta e molenga típica da década de 1920), o cientista e o pesquisador haviam se concentrado em uma sequência de linhas onduladas que avançavam pela tela de um computador, como se fossem duas cobras numa dança de acasalamento. Só que não eram cobras, mas ondas cerebrais, que o aparelho de TEE estava medindo a cada milissegundo, em tempo real, enquanto as voluntárias assistiam aos comerciais. Um pico abrupto no córtex pré-frontal de uma mulher podia indicar aos pesquisadores que ela achava os chocolates Kit Kat atraentes ou apetitosos. Uma queda acentuada mais tarde, e o neurologista podia deduzir que a última coisa que ela queria no mundo era um copo de Smirnoff com gelo.

As ondas cerebrais, na calibragem do aparelho de TEE, são diretas. Não titubeiam, não se contêm, não são ambíguas, não cedem à pressão dos colegas, não escondem sua vaidade nem dizem o que acham que a pessoa do outro lado da mesa quer ouvir. Não; assim como o IRMf, o TEE mostrava a palavra final a respeito da mente humana. Não havia nenhuma outra técnica tão avançada disponível. Em outras palavras, a neuroimagem podia revelar as verdades que, depois de meio século de pesquisas de mercado, discussões de grupo e pesquisas de opinião, continuavam longe de ser descobertas.

Eu estava tão empolgado com o que estava lendo que quase apertei o botão de chamada para poder contar à comissária de bordo.

Como mencionei anteriormente, oito em cada dez produtos lançados nos Estados Unidos estão fadados ao fracasso. Em 2005, mais de 156 mil novos produtos chegaram às lojas em todo o mundo, o equivalente a um novo lançamento a cada três minutos. Globalmente, segundo o IXP Marketing Group, cerca de 21 mil novas marcas são lançadas por ano em todo o mundo. No entanto, a história nos diz que quase todas desaparecem das prateleiras um ano depois. Só entre os produtos de consumo, 52% das novas marcas e 75% dos produtos individuais fracassam. São números bastante terríveis. Percebi que a neuroimagem poderia se concentrar nas marcas e produtos que tivessem maior possibilidade de sucesso, identificando os centros de recompensa dos consumidores e revelando quais estratégias de marketing ou publicidade eram mais estimulantes, atraentes ou memoráveis, e quais eram sem graça, repulsivas, aflitivas ou, o pior de tudo, esquecíveis.

A pesquisa de mercado não ia desaparecer, mas estava prestes a se juntar à mesa da neurociência e, enquanto isso, adotar um novo aspecto bem mais cerebral.

Em 1975, o Watergate ainda estava escandalizando os Estados Unidos. Margaret Thatcher foi eleita líder do Partido Conservador na Grã-Bretanha. A tevê em cores estreava na Austrália. Bruce Springsteen lançou Born to Run. E executivos da Pepsi-Cola Company decidiram lançar uma experiência muito divulgada conhecida como “Desafio Pepsi”. Era algo muito simples. Centenas de representantes da Pepsi armavam mesas em shoppings e supermercados de todo o mundo e distribuíam dois copos iguais para cada homem, mulher e criança que parasse para ver o porquê de toda aquela comoção. Um copo continha Pepsi; o outro, Coca-Cola. Perguntava-se qual bebida as pessoas preferiam. Se os resultados fossem os esperados, a Pepsi finalmente poderia dar o primeiro passo para acabar com a longa dominação da Coca-Cola no mercado de refrigerantes norte-americano, estimado em US$68 bilhões.

Quando o departamento de marketing da empresa finalmente contabilizou os resultados, os executivos da Pepsi ficaram satisfeitos, e até um pouco perplexos. Mais de metade dos voluntários afirmara que preferia o sabor da Pepsi ao da Coca-Cola. Aleluia, certo? Então, de acordo com os dados, a Pepsi deveria estar dando uma surra na Coca-Cola em todo o mundo. Mas não estava. Aquilo não fazia sentido.

Em Blink — A decisão num piscar de olhos, seu best-seller lançado em 2005, Malcolm Gladwell apresenta uma interpretação parcial. O Desafio Pepsi era um teste de degustação, ou o que, no setor de refrigerantes, é conhecido como teste em localização central, ou TLC. Ele cita uma ex-executiva de desenvolvimento de novos produtos da Pepsi, Carol Dollard, que explica a diferença entre tomar um gole de um refrigerante e beber toda a lata. Em um teste de degustação, as pessoas tendem a gostar do produto mais doce — nesse caso, a Pepsi —, mas, quando bebem uma lata inteira de refrigerante, sempre há à espreita a possibilidade de hiperglicemia. Esse, segundo Gladwell, é o motivo pelo qual a Pepsi prevaleceu no teste de sabor e a Coca continuou a liderar o mercado.

Mas, em 2003, o dr. Read Montague, diretor do Laboratório de Neuroimagem Humana na Faculdade Baylor de Medicina, em Houston, decidiu sondar os resultados dos testes com mais profundidade. Vinte e oito anos depois do Desafio Pepsi original, ele revisou o estudo, usando dessa vez um aparelho de IRMf para monitorar o cérebro de 67 pessoas. Primeiro, perguntou aos voluntários se eles preferiam Coca-Cola, Pepsi ou se não tinham preferência. Os resultados corresponderam quase exatamente às descobertas da experiência original: mais de metade dos pesquisados relataram uma preferência clara pela Pepsi. O cérebro deles também. Ao tomar um gole de Pepsi, esse conjunto totalmente diferente de voluntários registrou uma rajada de atividade no putâmen ventral, uma região do cérebro que é estimulada quando gostamos de um sabor.

Interessante, mas nada muito dramático — até que uma nova descoberta fascinante apareceu na segunda parte da experiência.

Dessa vez, o dr. Montague decidiu deixar os pesquisados saberem se beberiam Pepsi ou Coca-Cola antes de realmente provarem o refrigerante. O resultado: 75% dos pesquisados disseram que preferiam Coca-Cola. E mais, Montague também observou uma mudança na localização da atividade cerebral. Além do putâmen ventral, houve fluxos sanguíneos registrados no córtex pré-frontal, uma parte do cérebro responsável, entre outras coisas, pelo raciocínio e discernimento mais altos. Tudo isso indicou ao dr. Montague que duas áreas no cérebro estavam participando de um cabo de guerra entre pensamento racional e emocional. E, durante aquele milésimo de segundo de luta e indecisão, as emoções se rebelaram, como soldados amotinados, para subjugar a preferência racional dos pesquisados por Pepsi. E foi nesse momento que a Coca-Cola venceu.

Todas as associações positivas que os pesquisados tinham em relação à Coca-Cola — história, logomarca, cor, design e aroma; suas próprias lembranças de infância que remetiam à Coca-Cola, os anúncios na televisão e na mídia impressa ao longo dos anos, a indiscutível, inexorável, inelutável emoção ligada à marca Coca-Cola — derrotaram sua preferência racional e natural pelo sabor da Pepsi. Por quê? Porque é por meio das emoções que o cérebro codifica as coisas que têm valor, e uma marca que nos cativa emocionalmente — pense em Apple, Harley-Davidson e L’Oréal, só para início de conversa — vencerá todos os testes.

O fato de o estudo do dr. Montague ter se revelado um elo científico conclusivo entre o branding e o cérebro foi uma surpresa para a comunidade científica… E você pode apostar que os anunciantes também começaram a prestar atenção. Uma recente porém intrigante janela para nossos padrões de pensamento e processos de tomada de decisão estava alguns goles mais próxima de se tornar realidade.

Uma experiência de neuromarketing semelhante, mas não menos poderosa, logo se seguiu ao estudo sobre Coca-Cola e Pepsi. Bem longe, ao norte do Texas, quatro psicólogos da Universidade de Princeton estavam ocupados realizando uma outra experiência, cujo objetivo era rastrear o cérebro de voluntários enquanto lhes era apresentada uma escolha a ser feita: gratificação imediata, porém de curta duração, ou recompensas adiadas, porém melhores.

Os psicólogos pediram que um grupo de estudantes selecionados aleatoriamente escolhesse entre dois cupons de compra da loja virtual Amazon. Se escolhessem o primeiro, um vale-presente no valor de US$15, o receberiam imediatamente. Se estivessem dispostos a esperar duas semanas pelo vale-presente de US$20, bem, obviamente estariam recebendo mais por sua paciência. As imagens cerebrais revelaram que as duas opções de vale-presente desencadearam atividade no córtex pré-frontal lateral, a área do cérebro que gera emoção. Mas a possibilidade de ganhar o vale-presente naquele mesmo momento causou uma descarga de estímulo nas áreas límbicas do cérebro da maioria dos estudantes — toda uma série de estruturas cerebrais primariamente responsável por nossa vida emocional, bem como pela formação da memória. Os psicólogos descobriram que, quanto mais os estudantes ficavam emocionalmente animados por causa de alguma coisa, maiores eram as chances de eles optarem pela alternativa imediata, ainda que fosse menos gratificante. É claro, suas mentes racionais sabiam que vinte dólares eram logicamente um negócio mais vantajoso, mas — imagine só — as emoções venceram.

Os economistas também querem entender as decisões subjacentes que estão envolvidas no nosso comportamento. A teoria econômica pode ser razoavelmente sofisticada, mas se deparou com obstáculos semelhantes aos que a publicidade está enfrentando. “A pesquisa financeira e econômica chegou a um impasse”, explica Andrew Lo, que dirige o AlphaSimplex Group, um fundo de hedge de Cambridge, em Massachusetts. “Precisamos entrar no cérebro para entender por que as pessoas tomam decisões.”

Isso porque, assim como a pesquisa de mercado, a modelagem econômica se baseia na premissa de que as pessoas se comportam de maneira previsivelmente racional. Porém, mais uma vez, o que está começando a transparecer no nascente mundo do rastreamento cerebral é a enorme influência que nossas emoções exercem sobre todas as decisões que tomamos. Daí o interesse pela neuroeconomia, o estudo do modo como o cérebro toma decisões financeiras. Graças ao IRMf, essa nova ciência está nos proporcionando revelações sem precedentes a respeito de como as emoções — tais como generosidade, ganância, medo e bem-estar — afetam o processo de tomada de decisões econômicas.

George Loewenstein, um economista comportamental da Universidade Carnegie Mellon, confirmou: “A maior parte do cérebro é dominada por processos automáticos, e não por pensamentos conscientes. Boa parte do que acontece no cérebro é emocional, e não cognitivo.”

Não é de surpreender que, após capturar a atenção do mundo da publicidade, a neuroimagem também tenha aberto caminho por outras disciplinas. De fato, já havia interesse nos campos da política, da legislação, da economia e até mesmo em Hollywood.

Já era possível prever o interesse dos políticos no IRMf. Os comitês chegam a gastar um bilhão de dólares construindo um candidato à presidência que tenha possibilidade de ser eleito — e as eleições estão cada vez mais sendo decididas por uma fração ínfima de pontos percentuais. Imagine como seria ter à sua disposição uma ferramenta capaz de identificar o que está acontecendo no cérebro dos eleitores. Se você estivesse envolvido em uma campanha, gostaria de usá-la, certo? Isso é o que Tom Freedman, estrategista e conselheiro sênior do governo Clinton, deve ter pensado quando fundou uma empresa chamada FKF Applied Research. A FKF se dedica ao estudo dos processos de tomada de decisões e da maneira como o cérebro reage a qualidades de liderança. Em 2003, a empresa usou imagens obtidas por IRMf para analisar as reações do público à propaganda política televisiva durante o período que culminou na campanha presidencial entre os candidatos Bush e Kerry.

Os indivíduos analisados por Freedman assistiam a comerciais selecionados do presidente George W. Bush e do senador de Massachusetts, John Kerry; viam fotografias de cada candidato; imagens dos ataques terroristas de 11 de setembro ao World Trade Center; e o famigerado comercial de Lyndon Johnson, feito em 1964, chamado “Daisy” (“Margarida”), no qual se vê uma menina brincando com uma margarida enquanto uma explosão nuclear é detonada.

O resultado? Não é de surpreender que as imagens dos ataques de 11 de setembro e do comercial “Daisy” tenham desencadeado nos eleitores um aumento perceptível de atividade nas amígdalas cerebelares, uma pequena região cerebral cujo nome é uma referência à palavra grega para “amêndoa” e que governa, dentre outras coisas, o medo, a ansiedade e o terror. No entanto, Freedman descobriu que republicanos e democratas reagiam de maneira diferente aos comerciais que mostravam imagens do 11 de Setembro; as amígdalas dos democratas se acendiam de maneira muito mais perceptível do que as dos republicanos. Marco Iacobini, pesquisador-chefe e professor adjunto do Instituto de Neuropsiquiatria, interpretou essa estranha discrepância no medo dos democratas dizendo que o 11/9 era um ponto delicado, que podia levar à reeleição de George W. Bush em 2004. Tom Freedman acrescentou a teoria de que, em geral, os democratas ficam muito mais perturbados pela ideia de força militar, associada por eles ao 11/9, do que a maioria dos republicanos.

Mas o mais interessante para Freedman foi que seu estudo também mostrou que o rastreamento das amígdalas dos pesquisados podia ser benéfica para a criação de anúncios de campanha política, pois já foi demonstrado várias vezes que a manipulação do medo dos eleitores é um elemento decisivo para garantir a vitória de um candidato. Afinal de contas, o comercial “Daisy” ajudou a garantir a vitória de Lyndon Johnson em 1964, apelando para o medo de uma guerra nuclear. E, como seria demonstrado, a história se repetiu quarenta anos mais tarde, quando os republicanos obtiveram a vitória na eleição de 2004 martelando a ameaça do terrorismo na cabeça dos eleitores. Apesar das afirmações comuns dizerem que a publicidade política enfatiza “otimismo”, “esperança”, “construção ao invés de destruição” e assim por diante, o medo funciona. É o que o nosso cérebro lembra.

Embora o uso da tecnologia de rastreamento cerebral para determinar decisões políticas esteja em um estágio inicial, prevejo que a disputa presidencial nos EUA em 2008 será a última eleição a ser governada por pesquisas tradicionais e que, em 2012, a neurociência começará a dominar todas as previsões eleitorais. “Essas novas ferramentas algum dia podem nos ajudar a depender menos de clichês e adágios não comprovados. Elas nos ajudarão a colocar um pouco mais de ciência na ciência política”, comentou Tom Freedman.

Hollywood também está fascinada com a neurociência. Steve Quartz, um neurobiólogo experimental da Universidade de Stanford, estudou o cérebro das pessoas para ver como elas reagem aos trailers de filmes que só serão lançados dali a semanas, ou meses. São memoráveis, cativantes, provocantes? Vão prender nossa atenção? Ao explorarem exatamente o que agrada o centro de recompensa do cérebro, os estúdios podem criar os trailers mais interessantes, ou até mesmo esculpir o final do filme para refletir o que agrada a nós, espectadores. Então, se você acha que os filmes seguem fórmulas agora, prepare-se para Rocky 52.

E quanto à segurança pública? Um empresário da Califórnia criou uma variação neuroimagética do tão difuso teste do polígrafo, ou detector de mentiras, com um produto chamado No Lie MRI. A sua premissa, que qualquer hábil dissimulador pode confirmar, é a de que mentir requer esforço. Em outras palavras, dizer “Não, não traí você, querida” ou “Juro que liguei a seta do carro!” requer uma simulação de cognição — e, portanto, um afluxo de sangue oxigenado para o cérebro. Até mesmo o Pentágono incrementou sua pesquisa a respeito de um programa de detecção de mentiras baseado em ressonância magnética, parcialmente financiada pela Agência de Projetos Avançados de Pesquisa em Defesa, que cria novas e engenhosas ferramentas e técnicas para uso militar.

Mas voltemos ao marketing. Como vimos, essa ciência nascente já fez algumas incursões. Em 2002, por exemplo, o centro de pesquisa da DaimlerChrysler na cidade alemã de Ulm usou IRMfs para estudar o cérebro de consumidores, aos quais eram mostradas imagens de uma série de automóveis, como Mini Coopers e Ferraris. E eles descobriram que, quando as pessoas observavam o slide de um Mini Cooper, uma pequena região na área posterior do cérebro que reage a feições faciais se ativa. O IRMf havia acabado de identificar a essência do encanto do Mini Cooper. Mais do que a sua “configuração larga como um buldogue”, a “carroceria ultrarrígida”, o “motor em liga metálica de 1,6L e 16 válvulas” e os “seis airbags com proteção lateral” (características do carro enaltecidas no site), o Mini Cooper ficava registrado na mente das pessoas como um rosto adorável. Como um pequeno personagem brilhante, um Bambi sobre quatro rodas, ou um Pikachu com cano de descarga. Você sentia vontade de apertar suas bochechinhas metálicas e sair dirigindo.

Não há dúvida de que um rosto de bebê surte um forte efeito no nosso cérebro. Em um estudo da Universidade de Oxford envolvendo uma técnica de produção de imagens conhecida como magnetoencefalografia, o neurocientista Morten L. Kringlebach pediu para que 12 adultos realizassem uma tarefa no computador enquanto rostos de bebês e adultos (com a mesma expressão) eram projetados em uma tela próxima. Segundo a Scientific American, “embora os voluntários em última instância processassem os rostos usando as regiões cerebrais que normalmente realizam uma tarefa desse tipo, todos os participantes mostraram uma reação inicial distinta apenas aos rostos de bebês”. Mais especificamente, “em um sétimo de segundo, acontecia um pico de atividade no córtex orbitofrontal medial, uma área acima da órbita ocular ligada à detecção de estímulos gratificantes”. Em outras palavras, segundo Kringlebach, o cérebro dos voluntários parecia identificar os rostos dos bebês como especiais de alguma forma.

Muitas revelações intrigantes se seguiram. Os pesquisadores da DaimlerChrysler mostraram posteriormente imagens de 66 carros diferentes a uma dúzia de homens, mais uma vez rastreando seus cérebros com um IRMf. Dessa vez, os carros esportivos estimularam a região do cérebro associada a “recompensa e reforço”, de acordo com Henrik Walter, psiquiatra e neurocientista que participou do estudo. E o que na maioria das vezes é a atividade mais recompensadora para os homens? S_xo. Assim como os pavões atraem suas parceiras com a iridescência de suas plumas posteriores, parecia que os homens no estudo tentavam, subconscientemente, atrair o s_xo oposto com o estilo sedutor da carroceria baixa e cromada e do ronco sedutor do motor de um carro esportivo. Walter foi mais além: assim como as fêmeas das aves rejeitam os machos de plumagens mirradas — os quais correspondem àqueles homens que penteiam seus cabelos por sobre a área calva — em favor de outros machos mais vistosos porque o comprimento e o brilho da plumagem do pavão correspondem diretamente ao seu vigor, virilidade e status social, as mulheres também preferem homens com carros esportivos chamativos e provocantes. “Se você é forte e bem-sucedido como um animal, pode se dar ao luxo de gastar energia em algo tão sem propósito”, assinala Walter.

No fundo, a neurociência revelou algo em que sempre acreditei: marcas são muito mais do que produtos reconhecíveis embrulhados em um design vistoso. Porém, na época, todos os testes anteriores de neuroimagem haviam se concentrado em um produto específico. O estudo de rastreamento cerebral que decidi realizar seria a primeira tentativa não apenas de examinar uma marca específica — fosse ela uma cerveja Heineken, um Honda Civic, um barbeador Gillette ou um cotonete Johnson & Johnson —, mas também de explorar o que o conceito de “marca” realmente significa para o cérebro. Se eu pudesse dar uma espiada dentro da cabeça dos consumidores para descobrir por que alguns produtos funcionavam enquanto outros não davam em nada, meu estudo poderia não apenas transformar a maneira como as empresas projetavam, comercializavam e anunciavam seus produtos, mas também ajudar cada um de nós a entender o que realmente está acontecendo em nosso cérebro quando tomamos decisões a respeito do que compramos.

Então, que diabos eu devia fazer a seguir?

O estágio seguinte era obviamente encontrar os melhores cientistas — e os instrumentos mais sofisticados à disposição — para me ajudar a realizar essa experiência. No final, decidi combinar dois métodos, o TEE, a versão avançada do eletroencefalógrafo, e o IRMf. Escolhi esses métodos por uma série de motivos. Nenhum desses instrumentos é invasivo. Nenhum envolve radiação. E ambos são capazes de medir com mais precisão do que qualquer outro instrumento disponível o nível de atração (ou repulsa) emocional que nós, como consumidores, sentimos.

O IRMf, como mencionei anteriormente, é capaz de identificar com precisão no cérebro uma área tão pequena quanto um milímetro. Basicamente, o aparelho faz um minifilme amador do cérebro a cada intervalo de poucos segundos — e em dez minutos pode reunir uma quantidade espetacular de informações. Enquanto isso, o TEE, menos caro, tem a vantagem de medir as reações instantaneamente (ao passo que o IRMf tem alguns segundos de atraso). Isso torna o TEE ideal para registrar a atividade cerebral enquanto as pessoas estão assistindo a comerciais e programas de tevê, ou a qualquer outro tipo de estímulo visual, em tempo real. Melhor ainda, é portátil e pode ser levado em viagens — é uma espécie de laboratório móvel (o que, acredite, foi útil quando conseguimos uma permissão especial inédita do governo chinês para rastrear o cérebro dos consumidores chineses).

Por fim, baseamos nossa pesquisa em 102 rastreamentos por IRMf e 1.979 estudos realizados com TEE. Por que essa disparidade? Um rastreamento cerebral típico realizado por um IRMf envolve planejamento, análise, realização da experiência e interpretação dos resultados, o que pode sair caro. Os estudos realizados com TEE são bem menos dispendiosos. Mesmo assim, os estudos que produzimos com o IRMf foram quase duas vezes mais abrangentes do que quaisquer outros realizados até a presente data.

Até começarmos nossa pesquisa, ninguém havia misturado IRMf e TEE a fim de obter um estudo de neuromarketing em grande escala. Se você pensar no cérebro como uma casa, todas as experiências anteriores se baseavam na visão de uma só janela, mas o estudo abrangente que fizemos prometia olhar por quantas janelas, rachaduras, tábuas de assoalho, claraboias e tocas de ratos pudéssemos encontrar.

Esse estudo não ia sair barato, e eu sabia que, sem o apoio do empresariado, não sairia do papel. Mas quando tenho uma ideia na cabeça que me mantém acordado a noite inteira, sou persistente. Educadamente insistente, pode-se dizer. Aqueles 27 recados na sua secretária eletrônica? São todos meus (desculpe). No entanto, apesar de todos os meus esforços, as empresas rejeitavam meu projeto, uma após a outra. As pessoas a quem eu contatava ficavam ou “intrigadas, mas descrentes”, ou “intrigadas, mas assustadas”. E, é claro, com uma experiência de rastreamento cerebral tão ambiciosa, os financiadores tinham preocupações de ordem ética. “Orwelliano” — essa foi a expressão que mais ouvi quando as pessoas escutavam a palavra neuromarketing. Uma recente história de capa da New York Times Magazine sobre justiça e imagens cerebrais revelou um medo difuso entre os estudiosos de que o rastreamento cerebral seja um “tipo de aparato superpotente de leitura da mente” que ameace a privacidade e a “liberdade mental” dos cidadãos.

Mas, para ser sincero, eu não compartilhava dessas preocupações éticas. Como disse na introdução, neuromarketing não significa implantar ideias no cérebro das pessoas ou forçá-las a comprar o que não querem; significa revelar o que já está dentro da nossa cabeça — a nossa “lógica de consumo”. Nossos voluntários estavam realmente empolgados em participar do nascimento de uma nova ciência. Não houve reclamações. Nem reações adversas, efeitos colaterais ou riscos à saúde. Todos sabiam o que estavam fazendo e foram informados de tudo antes de dar o seu consentimento. E, no final, a comissão de ética de um hospital supervisionou todos os detalhes e aspectos do nosso estudo, garantindo que nada prosseguisse sem que antes tivéssemos recebido permissão para tal.

Por fim, uma empresa disse que estava disposta a dar uma chance ao neuromarketing. Logo depois, outra a acompanhou. E mais outra. Alguns meses mais tarde, consegui todos os recursos de que precisava junto a oito empresas multinacionais. Também entrei com uma parcela do meu próprio capital.

Eu estava então diante da maior dor de cabeça operacional e logística que jamais tivera de enfrentar: encontrar um número enorme de voluntários — 2.081 na contagem final — de diferentes países, em todo o mundo. Por quê? Primeiro, eu não queria que ninguém dissesse que a amostra de população por mim reunida era restrita ou limitada demais. Além disso, a pesquisa tinha de ser global, pois o trabalho que faço é global e porque, no mundo de hoje, as empresas e marcas também são globais.

Então, acabei me concentrando em cinco países. Estados Unidos, porque é lá que estão Madison Avenue e Hollywood; Alemanha, porque é o país mais avançado do mundo no que diz respeito ao estudo do neuromarketing; Inglaterra, porque é onde está a sede da empresa da dra. Calvert; Japão, porque não há lugar mais difícil no mundo para lançar um novo produto; e China, porque é de longe a maior economia emergente do mundo.

Pule para alguns meses mais tarde, quando eu estava em um estúdio de Los Angeles, cercado por centenas de voluntários trajando toucas de TEE, eletrodos, fios e óculos de proteção, todos “grudados” a uma tela de televisão, assistindo a Simon Cowell, Paula Abdul e Randy Jackson empoleirados em suas cadeiras vermelhas como uma comissão disciplinar de uma escola de ensino médio. Simon tomava tranquilamente uma Coca-Cola enquanto, do outro lado do palco, um sujeito de costeletas e camisa havaiana gorjeava uma versão desafinada de “Daydream Believer”, dos Monkees.

Explorando as reações dos espectadores a um dos programas de televisão mais populares dos Estados Unidos, nossa primeira experiência responderia à primeira pergunta que eu propunha: o merchandising realmente funciona ou é, ao contrário do que publicitários e consumidores pensam há muito tempo, um desperdício colossal de dinheiro?

seta2 Conheça o livro BrandSense, de Martin LindstromLivro BrandSense

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Trecho do Livro: Free, Grátis – O Futuro dos Preços | Chris Anderson
Livro Free Gratis
Autor: Chris Anderson
Editora: Campus
ISBN: 9788535230680

» Saiba onde encontrar este livro

Em novembro de 2008, os sobreviventes do grupo Monty Python original, aturdidos com a extensão da pirataria digital de seus vídeos, divulgaram um anúncio relativamente grave no YouTube:

“Durante três anos, vocês, YouTubers, têm nos roubado, pegando dezenas de milhares de nossos vídeos e disponibilizando-os no YouTube. Agora, nós viramos a mesa. É hora de fazermos justiça com nossas próprias mãos.

Sabemos quem são vocês, sabemos onde moram e podemos ir atrás de vocês de formas horríveis demais para dizer. Mas como somos sujeitos extraordinariamente camaradas, descobrimos um jeito melhor de recuperar o que é nosso: lançamos nosso próprio canal do Monty Python no YouTube.

Chega desses vídeos de qualidade lastimável que vocês ficam postando. Estamos dando o que há de melhor: vídeo de alta qualidade diretamente de nossos cofres. Além disso, estamos pegando nossos clipes mais assistidos e fazendo o upload de novas versões de alta qualidade. E como se tudo isso não bastasse, estamos deixando que vocês vejam tudo absolutamente de graça. É isso aí!

Mas tem uma coisa que queremos em troca.

Chega de baboseiras ou comentários idiotas. Queremos que vocês comprem nossos filmes e programas na televisão e reduzam nossa dor e indignação por termos sido roubados durante todos esses anos.”

Três meses depois, os resultados desse radical experimento foram divulgados. Os DVDs do Monty Python decolaram para o segundo lugar na lista de filmes e programas de televisão mais vendidos na Amazon, e as vendas aumentaram 23.000%.

É isso aí!

O Grátis funcionou, e funcionou de forma brilhante. Mais de dois milhões de pessoas assistiram aos clipes no YouTube à medida que o boca a boca se espalhava e os pais apresentavam os filhos ao Cavaleiro Negro e ao Papagaio Morto. Milhares de expectadores se lembraram do quanto adoravam o Monty Python, quiseram mais e compraram os DVDs. Em resposta, vídeos, mashups e remixes se espalharam e uma nova geração aprendeu o significado de “Coelho Assassino”. E tudo isso não custou basicamente nada ao Monty Python, já que o YouTube pagou por todos os custos de banda larga e armazenamento.

O surpreendente nesse exemplo é o quanto isso não surpreende. Existem inúmeros outros casos exatamente como esse on-line, em que praticamente tudo é oferecido de graça em alguma versão com a esperança de vender alguma coisa – ou, com ainda mais frequência, sem qualquer expectativa de pagamento.

Estou digitando estas palavras em um computador “netbook” de $250, que é a nova categoria de laptop de maior crescimento. O sistema operacional é uma versão do Linux, gratuito, embora isso não faça diferença, já que não rodo programa algum além do Firefox, um navegador da Web gratuito. Não estou usando o Microsoft Word, mas sim o Google Docs, gratuito, que tem a vantagem de disponibilizar meus rascunhos onde quer que eu esteja e não tenho de me preocupar em fazer back-up, já que o Google cuida disso para mim. Todo o resto que faço neste computador é de graça, desde meu e-mail até meu blog no Twitter. Até o acesso sem fio é grátis, graças ao café no qual estou.

No entanto, o Google é uma das empresas mais lucrativas dos Estados Unidos, o “ecossistema Linux” é uma indústria de $30 bilhões e o café parece estar vendendo cappuccinos de $3 mais rapidamente do que consegue prepará-los.

Aqui reside o paradoxo do Grátis: as pessoas estão ganhando muito dinheiro sem cobrar nada. Não nada por tudo, mas nada pelo suficiente para criarmos uma economia tão grande quanto a de um país de tamanho razoável a um preço em torno de $0,00. Como isso aconteceu e para onde nos levará?

Essa é a questão central deste livro.

Para mim, tudo começou com um detalhe não explicado no livro A Cauda Longa: do Mercado de Massa para o Mercado de Nicho. Meu primeiro livro foi sobre a nova forma da demanda do consumidor, quando tudo está disponível e podemos escolher de uma prateleira infinita, em vez de nos limitarmos ao mostruário dos campeões de vendas. O abundante mercado da cauda longa foi possibilitado pelo ilimitado “espaço de prateleira” da Internet, que é o primeiro sistema de distribuição da história tão apropriado para os nichos quanto para as massas, tanto para o obscuro quanto para a tendência dominante. O resultado foi o nascimento de uma nova cultura radicalmente diversificada e uma ameaça às instituições da cultura existente, da mídia de tendência dominante às gravadoras.

Só existe um modo de ter espaço de prateleira ilimitado: se esse espaço não custar nada. Os “custos marginais” praticamente inexistentes da distribuição digital (isto é, o custo adicional de enviar mais uma cópia além dos “custos fixos” do hardware com o qual isso deve ser feito) nos permitem uma utilização indiscriminada – nenhum guardião é necessário para decidir se algo merece alcance global ou não. E dessa competição aberta a todos, surgiu o milagre da Web atual, o maior repositório de conhecimento, experiência e expressão humana que o mundo já viu. Então, esse é o poder do espaço de prateleira gratuito.

Enquanto eu me maravilhava com as consequências, comecei a pensar mais sobre o Grátis e percebi até onde o fenômeno se espalhara. Isso explicava não apenas a explosão de variedade on-line, como também a precificação on-line. Além disso, esse “grátis” não era apenas um artifício de marketing como as amostras grátis e os brindes no varejo tradicional com os quais estamos acostumados. Esse grátis parecia vir sem qualquer restrição: não era apenas uma isca para uma venda futura, mas algo oferecido verdadeiramente de graça. A maioria de nós depende de um ou mais serviços do Google todos os dias, mas isso nunca é cobrado em nossos cartões de crédito. Não existe contador medindo sua utilização do Facebook. O Wikipedia não custa nada.

O Grátis do século XXI é diferente do Grátis do século XX. Em algum ponto na transição de átomos a bits, um fenômeno que achávamos já conhecer se transformou. O “grátis” se transformou no Grátis.

Com certeza, os economistas devem ter algo a dizer a respeito, pensei. Mas não consegui encontrar nada. Nenhuma teoria da gratuidade ou modelos de precificação que chegassem a zero. (Para ser justo, existem alguns estudos, como pesquisas posteriores viriam a revelar. Mas são, em sua maior parte, obscuras discussões acadêmicas de “mercados de dois lados” e, como veremos no capítulo sobre economia, teorias do século XIX praticamente relegadas ao esquecimento.) De alguma forma, uma economia surgiu em torno do Grátis antes que o modelo econômico pudesse descrevê-lo.

Eis a razão deste livro, a exploração de um conceito que está no centro de uma evolução radical. Como eu viria a descobrir, o Grátis é um conceito ao mesmo tempo familiar e profundamente misterioso. Esse conceito é tão poderoso quanto incompreendido. O Grátis que surgiu na última década é diferente do Grátis que veio antes, mas o como e o porquê raramente são explorados. Além disso, o Grátis de hoje está cheio de contradições flagrantes: é possível ganhar dinheiro dando coisas de graça. O almoço grátis não é uma mera abstração. Algumas vezes, você recebe mais do que paga.

Foi divertido escrever este livro. A jornada me levou dos fabricantes de remédios patenteados nos Estados Unidos do final do século XIX aos mercados de produtos pirateados da China. Mergulhei na psicologia dos brindes e na moralidade do desperdício. Nas horas vagas, me dediquei a um projeto de testar novos modelos de negócio com base em eletroeletrônicos de propriedade intelectual gratuita (um modelo conhecido como hardware livre). Fiz um brainstorm com meus editores sobre as várias formas de distribuir este livro de graça na maioria de suas formas, ao mesmo tempo em que pensávamos em uma alternativa para que todas as pessoas que ajudaram a produzi-lo fossem pagas.

Em alguns aspectos, este foi um projeto de pesquisa pública, como o livro A Cauda Longa. Testei a tese em um artigo do Wired e escrevi um blog a respeito, a exemplo do que fiz com A Cauda Longa. Mas o livro tomou um caminho diferente, desenvolvendo-se mais em minha cabeça do que em uma conversa coletiva com os colaboradores on-line. Este livro se baseia mais em histórias e narrativas e é tanto sobre o passado do Grátis como sobre seu futuro. Minhas pesquisas me levaram tanto a arquivos e textos de psicologia do século XVIII como aos mais recentes fenômenos na Web. E então eu me vi praticando uma modalidade mais tradicional de escrita, que envolve estudo e elaboração solitária do texto com fones de ouvido em uma loja da Starbucks, exatamente como Deus planejou.

Quando não estava escrevendo, eu estava viajando, conversando com as pessoas sobre o Grátis. Descobri que a ideia de poder criar uma enorme economia global em torno do preço-base zero era invariavelmente controversa, mas um fator em comum era que praticamente todo mundo tinha suas dúvidas. Correndo o risco de ser acusado de preconceito com base na idade, deparei com dois grupos de céticos: as pessoas com mais de 30 anos e aquelas com menos de 30 anos. Os críticos mais velhos, que cresceram com o Grátis do século XX, tinham motivos para suspeitar: com certeza, o “grátis” não é grátis – nós pagaremos por isso mais cedo ou mais tarde. Isso não só não é novidade alguma, como é o artifício de marketing mais antigo da história. Quando você ouvir a palavra “grátis”, segure sua carteira.

Os críticos mais jovens tiveram uma reação diferente: “E…?” Essa é a Geração do Google e eles cresceram on-line presumindo que tudo que é digital é grátis. Eles internalizaram a dinâmica de mercado sutil da economia do custo marginal quase inexistente, da mesma forma que nós internalizamos a mecânica newtoniana quando aprendemos a pegar uma bola. O fato de estarmos criando uma economia global em torno do preço zero parecia tão óbvio que mal chegava a ser notado.

Diante disso, percebi que seria um tema perfeito para um livro. Qualquer tema capaz de dividir igualmente os críticos em dois campos opostos – “totalmente errado” e “tão óbvio” – precisa ser bom. Espero que as pessoas que lerem este livro, mesmo que comecem em um desses campos, não acabem em qualquer um deles. O Grátis não é novo, mas está mudando. E isso está acontecendo de maneiras que nos forçam a repensar algumas de nossas premissas mais básicas em relação ao comportamento humano e aos incentivos econômicos.

As pessoas que compreenderem o novo Grátis dominarão os mercados de amanhã e abalarão os mercados de hoje – na verdade, elas já estão fazendo isso. Este livro é sobre elas e sobre o que elas estão nos ensinando. É sobre o passado e o futuro de um preço radical.

O NASCIMENTO DO GRÁTIS

Não há como evitar: a gelatina é proveniente de carne e ossos. É aquela substância translúcida e viscosa que sobe à superfície quando você cozinha a carne. Mas se você coletar o suficiente dessa substância e submetê-la a um processo de depuração, ela se transforma em outra coisa: a boa e velha gelatina. Pó em um pacote, muito distante de suas origens, o tecido conjuntivo e a medula óssea vindos direto do matadouro.

Atualmente, não pensamos muito sobre as origens da gelatina, mas, no final do século XIX, se quisesse um regalo gelatinoso à mesa do jantar, você teria muito mais trabalho do que hoje: colocar restos de carne em uma panela e esperar metade de um dia para que o colágeno hidrolisado surgisse da cartilagem.

Em 1895, Pearle Wait, um carpinteiro de LeRoy, Nova York, dedicado nas horas vagas a empacotar remédios patenteados, estava sentado à sua mesa de cozinha cutucando uma tigela de gelatina. Vinha querendo entrar no então novo negócio de alimentos embalados e achava que a gelatina seria um sucesso se ao menos ele conseguisse descobrir como torná-la mais atrativa. Apesar de fabricantes de cola estarem produzindo a gelatina durante décadas como um subproduto do processamento de carne de animais, ela ainda não era popular com os consumidores americanos. Por um bom motivo: era trabalho demais por tão pouco.

Wait se perguntava se não haveria um jeito de popularizar a gelatina. Tentativas anteriores de vender gelatina em pó pré-embalada, inclusive por parte do inventor do processo, Peter Cooper (que criou o Cooper Union), eram vendidas na forma básica e sem sabor, com base no argumento de ser a forma mais flexível; as pessoas poderiam adicionar o sabor que quisessem. Mas Wait achava que as gelatinas com sabor poderiam vender mais, de modo que misturou a ela sucos de fruta além de açúcar e corantes alimentares. A gelatina assumiu a cor e o sabor das frutas – laranja, limão, cereja e morango –, criando algo com aparência, aroma e sabor atrativos. Colorida, transparente e divertida, a gelatina era um deleite capaz de trazer trepidação translúcida e divertida a quase qualquer refeição. Para distanciar ainda mais o produto de suas origens no matadouro, sua esposa, May, o rebatizou de Jell-O. E o produto tinha tudo para ser um sucesso.

Mas não foi. O Jell-O era um alimento estranho demais e uma marca desconhecida demais para os consumidores da virada do século. As tradições da culinária ainda se baseavam em receitas vitorianas, em que cada tipo de comida tem seu lugar. Essa nova gelatina era um ingrediente de salada ou uma sobremesa?

Durante dois anos, Wait continuou tentando instigar o interesse pelo Jell-O, com pouco sucesso. Ele acabou desistindo em 1899 e vendeu a marca registrada – o nome, com hífen e tudo – a Orator Frank Woodward, que morava na mesma cidade. O preço foi de $450.

Woodward era um vendedor nato e morava no lugar certo. A cidade de LeRoy se tornara uma espécie de incubadora de produtos do século XIX, mais conhecida por seus fabricantes de remédios patenteados. Woodward vendia vários remédios milagrosos e também era criativo nas vendas do gesso. Ele comercializava bolas de gesso para serem usadas como alvos por atiradores e inventou um ninho de gesso para galinhas poedeiras feito com pó antipulgas.

Mas até a empresa de Woodward, a Genesee Pure Food Company, teve dificuldades de encontrar um mercado para a gelatina em pó. Era uma nova categoria de produto com um nome de marca desconhecido em uma época na qual quase todos os produtos que dispensavam prescrição médica para a compra eram vendidos em bazares e os clientes tinham de pedi-los pelo nome. O Jell-O era produzido em uma fábrica da região, administrada por Andrew Samuel Nico. As vendas do novo produto eram tão baixas e desanimadoras que, em um dia cinzento, diante de uma enorme pilha de caixas encalhadas de Jell-O, Woodward ofereceu a Nico todo o negócio por $35. Nico recusou.

O maior problema era que os consumidores não entendiam o produto ou não sabiam o que podiam fazer com ele. E sem demanda dos consumidores, os comerciantes se recusavam a tê-lo em estoque. Fabricantes de outros produtos no novo negócio de ingredientes embalados, como o bicarbonato de sócio Arm e Hammer e o fermento Fleischmann, muitas vezes incluíam livros de receitas em suas caixas. Woodward pensou que um livro de receitas poderia ajudar a criar demanda pelo Jell-O também, mas como distribuir os livros? Afinal, ninguém estava comprando as caixas.

Então, em 1902, Woodward e seu diretor de marketing, William E. Humelbaugh, tentaram uma nova abordagem. Para começar, eles elaboraram um anúncio de 7,5cm para o Ladies’ Home Journal, ao custo de $336. Com bastante otimismo, o anúncio proclamava o Jell-O como “A Sobremesa Mais Famosa da América” e explicava as vantagens do produto: essa nova sobremesa “pode ser servida com o simples acréscimo de chantilly ou creme de ovos. Se, contudo, você quiser algo mais sofisticado, pode preparar rapidamente centenas de combinações deliciosas”.

Então, para ilustrar todas essas ricas e variadas combinações, a Genesee imprimiu dezenas de milhares de panfletos com receitas do Jell-O e os entregou a seus vendedores para distribuí-los de graça às donas de casa.

Isso foi uma forma inteligente de contornar o principal problema dos vendedores. Enquanto viajavam pelo país em suas carroças, eles eram proibidos de vender porta a porta na maioria das cidades sem uma dispendiosa licença de vendedor ambulante. Mas os livros de receitas eram diferentes: dar coisas de graça não era vender. Eles podiam bater às portas e dar à dona da casa um livro de receitas grátis, sem compromisso. O papel para imprimir os livros era barato em comparação com a produção do Jell-O. Eles não tinham como dar amostras grátis do produto, de modo que fizeram o que podiam: informações gratuitas que só podiam ser utilizadas se o consumidor comprasse o produto.

Depois de entupir uma cidade com os livretos, os vendedores procuravam os comerciantes locais e diziam que eles estavam prestes a ver uma onda de consumidores pedindo um novo produto chamado Jell-O e os aconselhando a ter o produto em estoque. Finalmente, as caixas de Jell-O nas carroças começaram a ser descarregadas.

Em 1904, a campanha se transformara em um enorme sucesso. Dois anos mais tarde, o Jell-O atingiu a marca de um milhão de dólares em vendas anuais. A empresa lançou a “Jell-O Girl” em seus anúncios e os livretos se transformaram em livros “best-sellers” de receitas do produto. Em alguns anos, a Genesee imprimiu nada menos que 15 milhões dos livros gratuitos e, nos primeiros 25 anos da empresa, imprimiu a estimativa de um quarto de bilhão de livros de receitas gratuitas e os distribuiu porta a porta por todo o país. Artistas famosos como Norman Rockwell, Linn Ball e Angus MacDonald contribuíram com ilustrações coloridas no livro de receitas. O Jell-O se tornou item obrigatório em qualquer cozinha americana e um nome que todo americano conhece.

Assim nasceu uma das ferramentas de marketing mais poderosas do século XX: dar uma coisa para criar demanda por outra. Woodward sabia que “grátis” é uma palavra com grande capacidade de alterar a psicologia do consumidor, criar novos mercados, abalar mercados antigos e tornar qualquer produto mais atrativo. Ele também percebeu que “grátis” não significava “lucro zero”. Grátis só significava que a trajetória do produto à receita era indireta, algo que viria a ser consagrado no manual de estratégia do varejo como o conceito do preço “isca”.

KING GILLETTE

Ao mesmo tempo, o exemplo mais famoso desse novo método de marketing estava sendo maquinado algumas centenas de quilômetros ao norte, em Boston. Aos 40 anos, King Gillette era um inventor frustrado, um anticapitalista amargurado e um vendedor de tampas de garrafa revestidas de cortiça. Apesar de todas as ideias, energia e dos pais ricos, seu trabalho rendia poucos frutos. Ele atribuía a culpa à diabólica concorrência no mercado. Com efeito, em 1894, publicou um livro, The Human Drift, argumentando que toda a indústria deveria ser tomada por uma única corporação de propriedade do público e que milhões de americanos deveriam viver em uma cidade gigantesca chamada Metropolis, com toda a energia proveniente das Cataratas do Niágara. Enquanto isso, o chefe dele na empresa de tampas de garrafa tinha apenas um conselho a dar: invente algo que as pessoas usem e joguem fora.

Um dia, enquanto fazia a barba com uma navalha tão gasta que não podia mais ser afiada, ele teve a ideia. E se a navalha pudesse ser feita com uma fina lâmina de metal? Em vez de perder tempo afiando as lâminas, os homens a descartariam quando elas perdessem o fio. Alguns anos de experimentação metalúrgica mais tarde, nasceu o aparelho de barbear seguro e descartável.

Mas não foi um sucesso imediato. No primeiro ano, 1903, Gillette vendeu um total de 51 aparelhos de barbear e 168 lâminas. Ao longo das duas décadas posteriores, tentou todos os artifícios de marketing em que conseguiu pensar. Colocou o próprio rosto na embalagem, transformando-se em uma personalidade lendária e – algumas pessoas acreditavam – fictícia. Ele vendeu milhões de barbeadores ao Exército com um enorme desconto, esperando que os hábitos desenvolvidos pelos soldados se mantivessem em tempos de paz. Vendeu barbeadores em massa a bancos para serem dados como brindes para novos depósitos (as campanhas “shave and save” – barbeie-se e poupe). Barbeadores eram vendidos com praticamente tudo, desde chicletes da Wrigley a pacotes de café, chá, temperos e marshmallows.

Os brindes ajudavam a vender esses produtos, mas a tática ajudou Gillette ainda mais. Ao vender barato a parceiros que davam os aparelhos de barbear de graça, que, sozinhos, eram inúteis, ele estava criando demanda por lâminas descartáveis. Era exatamente como o Jell-O (cujos livros de receitas eram os “aparelhos de barbear” e a gelatina era a “lâmina”), mas com itens muito mais estreitamente interdependentes. Uma vez que o cliente se acostumava com as lâminas descartáveis, Gillette tinha um cliente diário para a vida inteira.

É interessante notar que a ideia de que a Gillette deu as lâminas de graça é, em grande parte, um mito urbano. Os únicos exemplos documentados foram o lançamento do Trak II na década de 1970, quando a empresa deu de graça uma versão barata do aparelho com uma lâmina que não podia ser substituída. O modelo mais usual da empresa era vender barbeadores com uma baixa margem a parceiros, como bancos, que normalmente os davam de graça em promoções. O verdadeiro lucro da Gillette provinha da alta margem das lâminas.

Alguns bilhões de lâminas mais tarde, esse modelo de negócios passou a fundamentar setores inteiros: dê o telefone celular, venda o plano mensal; faça o console de videogames ser barato e venda jogos caros; instale sem custo máquinas de café sofisticadas em escritórios para vender caros sachês de café.

Surgindo com esses experimentos no início do século XX, o Grátis abasteceu uma revolução do consumidor que definiu os 100 anos subsequentes. A ascensão da indústria publicitária e a chegada do supermercado fizeram da psicologia do consumidor uma ciência e do Grátis, a ferramenta preferida. O rádio e a televisão aberta ou “free to air” (o termo utilizado para sinais enviados pelo ar e que qualquer um pode receber gratuitamente) uniram uma nação e criaram um mercado de massa. “Grátis” era o brado de convocação do marqueteiro moderno, e o consumidor nunca deixava de responder.

O GRÁTIS NO SÉCULO XXI

Agora, no início do século XXI, estamos inventando uma nova forma de Grátis que definirá a próxima era tão profundamente quanto a anterior. A nova forma de Grátis não é uma isca, um truque para transferir dinheiro de um bolso para outro. Ele é impulsionado por uma extraordinária nova capacidade de reduzir os custos dos bens e serviços a quase zero. Embora o Grátis do século passado tenha sido um poderoso método de marketing, o Grátis deste século representa um modelo econômico completamente novo.

Essa nova forma de Grátis se baseia na economia de bits, não de átomos. Uma qualidade singular da era digital é que, uma vez que algo se transforma em um produto digital, inevitavelmente passa a ser grátis – em termos de custo, com certeza, e muitas vezes em termos de preço. (Imagine se o preço do aço caísse para tão perto de zero que King Gillette pudesse dar de graça tanto o aparelho de barbear quanto as lâminas e lucrar com algo totalmente diferente – talvez espuma de barbear?) E isso está criando uma economia de bilhões de dólares – a primeira na história –, em que o preço primário é zero.

Na economia dos átomos – em outras palavras, a maioria das coisas que nos cercam –, tudo tende a ser mais caro com o tempo. Mas na economia dos bits, que é o mundo on-line, as coisas ficam mais baratas. A economia dos átomos é inflacionária, enquanto a economia dos bits é deflacionária.

O século XX representou, em grande parte, uma economia dos átomos. O século XXI será igualmente uma economia dos bits. Qualquer item grátis na economia dos átomos deve ser pago por algum outro item, e é por isso que o Grátis tradicional cheira tanto a uma isca – você está pagando, de uma forma ou de outra. Mas o Grátis na economia dos bits pode ser realmente grátis, excluindo totalmente o dinheiro da equação. As pessoas têm motivos para suspeitar do Grátis na economia dos átomos e para confiar no Grátis na economia dos bits. Intuitivamente, elas percebem a diferença entre as duas economias e entendem por que o Grátis funciona tão bem on-line.

Uma década e meia depois do grande experimento on-line, o grátis se tornou o padrão, e o pagamento se tornou uma rota para a obscuridade. Em 2007, o jornal The New York Times foi disponibilizado gratuitamente on-line, assim como grande parte do conteúdo do Wall Street Journal, usando um inteligente modelo híbrido que disponibilizava as notícias gratuitamente a pessoas que quisessem compartilhá-las on-line, em mensagens postadas em blogs ou outras mídias sociais. Bandas de rock como o Radiohead e o Nine Inch Nails passaram a disponibilizar suas músicas on-line, percebendo que o Grátis lhes permite atingir mais pessoas e criar mais fãs, alguns dos quais vão aos shows e até mesmo (!) pagam por versões premium da música. Os setores de mais rápido crescimento na indústria dos jogos são os “jogos casuais” (videogames ou jogos on-line voltados a um público de massa de “jogadores casuais”, em oposição a jogadores “pesados”) pagos pela propaganda e os jogos on-line de múltiplos jogadores (multiplayer on-line games, jogo on-line capaz de comportar centenas de milhares de jogadores simultaneamente em um mundo virtual) gratuitos.

A ascensão da “freeconomics”, a economia do Grátis, está sendo abastecida pelas tecnologias da era digital. Da mesma forma que a Lei de Moore dita que o preço de uma unidade de capacidade de processamento em um computador cai pela metade a cada dois anos, o preço da largura de banda e da armazenagem está caindo muito mais rapidamente. O que a Internet faz é integrar os três, combinando as quedas de preço dos três elementos tecnológicos: processadores, largura de banda e armazenagem. Em consequência, a taxa de deflação anual líquida do mundo on-line é de quase 50%, o que equivale a dizer que o custo do YouTube para divulgar um vídeo hoje cairá para a metade daqui a um ano. Todas as linhas de tendência que determinam o custo de fazer negócios on-line apontam na mesma direção: para zero. Não é de se surpreender que todos os preços on-line avancem na mesma direção.

George Gilder, cujo livro de 1990, Microcosm, foi o primeiro a investigar a economia dos bits, aborda esse fato em seu contexto histórico:

“Em toda revolução industrial, algum fator essencial de produção é radicalmente reduzido em termos de custo. Em relação ao custo anterior para atingir essa função, o novo fator é praticamente grátis. (Graças ao vapor) a força física na Revolução Industrial se tornou praticamente grátis em comparação a obter a mesma energia da força muscular animal ou humana. De repente, você pode fazer coisas que antes não conseguia fazer. Você pode fazer uma fábrica trabalhar 24 horas por dia fabricando copiosamente produtos de uma forma antes inimaginável.”

Hoje em dia, os modelos de negócios mais interessantes estão descobrindo maneiras de ganhar dinheiro em função do Grátis. Mais cedo ou mais tarde, toda empresa precisará descobrir formas de utilizar o Grátis ou competir com o Grátis, de uma forma ou de outra. Este livro investiga como fazer isso.

Para começar, analisaremos a história do Grátis e por que ele tem tanto poder sobre nossas escolhas. Em seguida, veremos como a economia digital revolucionou o Grátis, transformando-o de um artifício de marketing em uma força econômica, incluindo os novos modelos de negócios que isso possibilita. Por fim, mergulharemos nos princípios fundamentais da economia do Grátis: como funciona, onde atua e por que é tão incompreendida e temida. Mas para começar, o que “grátis” realmente significa?

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