Percy Jackson e Os Olimpianos

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Trecho do Livro: A Batalha do Labirinto (Percy Jackson 4)
A Batalha do Labirinto
Autor: Rick Riordan
Editora: Intrínseca
ISBN: 9788598078700

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Obs: A Batalha do Labirinto é o quarto volume da premiada série “Percy Jackson e Os Olimpianos” criada pelo escritor norte-americano Rick Riordan. Os livros anteriores são: O Ladrão de Raios, O Mar de Monstros e A Maldição do Titã.

Notícia aos fãs: A série Percy Jackson e Os Olimpianos termina no quinto livro da saga “O Último Olimpiano“, mas haverá uma nova série, talvez a partir de 2010, sobre o Acampamento Meio-Sangue.

Notícia aos fãs: O filme O Mar de Monstros tem previsão de estreia para o ano de 2012.

—–

A última coisa que queria fazer nas férias de verão era destruir outra escola. Mas lá estava eu naquela manhã de segunda-feira, primeira semana de junho, sentado no carro da minha mãe diante da Goode High School, na rua 81 Leste.

A Goode ficava em um prédio grande de arenito com vista para o Rio East. Um monte de BMWs e Lincoln Towns estava estacionado diante dela. Olhando os elegantes arcos de pedra, eu me perguntei quanto tempo levaria até ser expulso daquele lugar.

— Relaxe. — A voz de minha mãe não parecia nada relaxada. — É só uma visita de orientação. E lembre, querido: esta é a escola de Paul. Portanto, tente não… você sabe.

— Destruí-la?

— É.

Paul Blofis, namorado da minha mãe, estava de pé no portão da escola, recebendo os futuros alunos do primeiro ano do ensino médio à medida que subiam os degraus. Com seus cabelos grisalhos, roupa de brim e casaco de couro, parecia um ator de tevê, mas ele era só um professor de inglês. Paul conseguira convencer a Goode High School a me aceitar no primeiro ano, apesar de eu ter sido expulso de todas as escolas que frequentei. Tentei avisá-lo de que aquela não era uma boa ideia, mas ele não me deu ouvidos.

Olhei para minha mãe.

— Você não contou a ele a verdade sobre mim, contou?

Ela tamborilava os dedos nervosamente no volante. Estava vestida para uma entrevista de emprego — seu melhor vestido azul e sapatos de salto alto.

— Pensei que seria melhor esperarmos — ela admitiu.

— Para não o espantarmos.

— Tenho certeza de que vai dar tudo certo na visita de orientação, Percy. É só uma manhã.

— Ótimo — murmurei. — Posso ser expulso antes mesmo de começar o ano letivo.

— Pense positivo. Amanhã você vai para o acampamento! Depois da orientação, você tem o encontro…

— Não é um encontro! — protestei. — É só a Annabeth, mãe. Poxa!

— Ela está vindo do acampamento até aqui para ver você.

— É, eu sei.

— Vocês vão ao cinema.

— Sim.

— Só os dois.

— Mãe!

Ela ergueu as mãos em sinal de rendição, mas eu podia ver que estava fazendo força para não rir.

— É melhor entrar, querido. Até a noite.

Eu estava prestes a sair do carro quando olhei para a escadaria da escola. Paul Blofis cumprimentava uma garota de cabelos ruivos frisados. Ela vestia uma camiseta marrom e um jeans surrado customizado com desenhos feitos com caneta hidrográfica. Quando se virou, vi seu rosto de relance, e os pelos do meu braço se eriçaram.

— Percy? — chamou minha mãe. — O que foi?

— N-nada — gaguejei. — A escola tem uma entrada lateral?

— Descendo a rua, à direita. Por quê?

— Até mais tarde.

Mamãe começou a dizer algo, mas saltei do carro e corri, torcendo para que a garota ruiva não me visse.

O que ela estava fazendo ali? Nem mesmo a minha sorte poderia ser assim tão ruim.

Pois, sim. Eu estava prestes a descobrir que minha sorte poderia ser muito pior.

Entrar sorrateiramente na escola não deu muito certo. Duas líderes de torcida de uniforme roxo e branco estavam na entrada lateral, esperando para emboscar os calouros.

— Oi! — Elas sorriram, e eu deduzi que aquela era a primeira e a última vez que uma líder de torcida seria tão simpática comigo. Uma delas era loura, com gélidos olhos azuis. A outra era afro-americana, com cabelos escuros e enroscados como o da Medusa (e, pode acreditar, eu sei do que estou falando). Ambas tinham o nome bordado em letras cursivas no uniforme, mas, com a minha dislexia, as palavras pareciam espaguete, sem nenhum sentido.

— Bem-vindo à Goode — disse a loura. — Você vai amar muito isso aqui.

Mas, enquanto me olhava de cima a baixo, sua expressão parecia dizer algo como: Argh, quem é este perdedor?

A outra garota se aproximou tanto que me senti desconfortável. Examinei o bordado em seu uniforme e consegui decifrar Kelli. Ela cheirava a rosas e a algo que reconheci das aulas de equitação no acampamento — o cheiro de cavalos recém-lavados. Era um perfume estranho para uma líder de torcida. Talvez tivesse um cavalo, ou algo assim. De qualquer modo, ela estava tão perto de mim que tive a sensação de que ia tentar me empurrar escada abaixo.

— Qual o seu nome, calo?

— Calo?

— Calouro.

— Hã, Percy.

As garotas trocaram olhares.

— Ah, Percy Jackson — disse a loura. — Estávamos à sua espera.

Isso fez um intenso arrepio de Ah, não! percorrer minha espinha. Elas estavam bloqueando a entrada, sorrindo de uma forma nada amistosa. Minha mão instintivamente se dirigiu ao bolso onde eu guardava minha caneta esferográfica letal, Contracorrente.

Então outra voz veio do interior do prédio:

— Percy? — Era Paul Blofis, de algum ponto adiante no corredor.

Eu nunca me sentira tão feliz por ouvir a voz dele.

As líderes de torcida recuaram. Eu estava tão ansioso em passar por elas que acidentalmente esbarrei o joelho na coxa de Kelli.

Clang.

Sua perna emitiu um ruído metálico e oco, como se eu tivesse acabado de atingir o mastro de uma bandeira.

— Ai — murmurou ela. — Preste atenção, calo.

Olhei para baixo, mas aquela parecia uma perna comum. Eu estava apavorado demais para fazer perguntas. Avancei apressadamente para o corredor, as duas garotas rindo atrás de mim.

— Aí está você! — exclamou Paul. — Bem-vindo à Goode!

— Ei, Paul… hã, sr. Blofis. — Olhei para trás, mas as líderes de torcida esquisitas haviam desaparecido.

— Percy, você está com cara de quem viu fantasma.

— É, hã…

— Ouça, eu sei que está nervoso, mas não se preocupe. — Paul me deu um tapinha nas costas. — Temos uma porção de garotos aqui com dislexia, transtorno de déficit de atenção e hiperatividade. Os professores sabem como ajudar.

Eu quase tive vontade de rir. Como se meus maiores problemas fossem a dislexia, o transtorno de déficit de atenção e a hiperatividade… Bem, eu sabia que Paul estava tentando ajudar, mas, se eu lhe contasse a verdade, ou ele pensaria que eu estava louco ou sairia correndo e gritando. Aquelas líderes de torcida, por exemplo — eu estava com um mau pressentimento em relação a elas…

Então olhei mais adiante no corredor e me lembrei de que havia outro problema. A garota ruiva que eu vira na escadaria da frente estava passando pela entrada principal.

Não me veja, rezei.

Mas ela me viu. Seus olhos se arregalaram.

— Onde é a orientação? — perguntei a Paul.

— No ginásio. Por ali. Mas…

— Tchau.

— Percy? — ele chamou, mas eu já estava correndo.

Pensei que a tivesse despistado.

Um grupo de garotos e garotas estava seguindo para o ginásio, e logo eu era apenas um entre os trezentos adolescentes de 14 anos amontoados nas arquibancadas. Uma banda tocava um grito de guerra da escola, que soava desafinado como se alguém estivesse batendo em um saco de gatos com um taco de beisebol de metal. Garotos mais velhos, provavelmente membros do grêmio estudantil, estavam lá na frente, apresentando o uniforme da Goode, com cara de: Ei, nós somos o máximo. Professores circulavam no local, sorrindo e apertando a mão dos alunos. As paredes do ginásio estavam cobertas por grandes bandeiras roxas e brancas onde se lia: Bem-vindos, futuros alunos do primeiro ano, a Goode é legal, somos todos uma família, e um monte de outros slogans alegres que me davam vontade de vomitar.

Nenhum dos outros futuros alunos tampouco parecia entusiasmado por estar ali; afinal, apresentar-se aos orientadores em junho — enquanto as aulas só começam em setembro — não é nada legal. Mas na Goode “Preparamos para a excelência cedo!”. Pelo menos era o que dizia o folheto.

A banda parou de tocar. Um sujeito de terno de risca de giz dirigiu-se ao microfone e começou a falar, mas o som reverberava pelo ginásio e eu não tinha a menor ideia do que ele estava dizendo. Daria no mesmo se ele estivesse gargarejando.

Alguém agarrou meu ombro.

— O que você está fazendo aqui?

Era ela: meu pesadelo ruivo.

— Rachel Elizabeth Dare — eu disse.

O queixo dela caiu, como se não pudesse acreditar que eu tivera a ousadia de me lembrar de seu nome.

— E você é Percy não sei de quê. Não cheguei a saber seu nome todo dezembro passado, quando você tentou me matar.

— Olhe, eu não estava… eu não queria… O que você está fazendo aqui?

— O mesmo que você, eu acho. Orientação.

— Você mora em Nova York?

— Por quê? Achou que eu morasse na Barragem de Hoover?

Aquilo nunca me ocorrera. Sempre que eu pensava nela (e não estou dizendo que eu pensava; ela só me passava pela cabeça de tempos em tempos, está bem?), imaginava que morasse perto da Barragem de Hoover, já que fora lá que eu a conhecera. Havíamos passado acho que uns dez minutos juntos, e nesse meio-tempo eu acidentalmente a golpeara com uma espada, ela salvara minha vida e eu fugira correndo, perseguido por um bando de máquinas assassinas sobrenaturais. Sabe, um encontro assim… bem comum.

Um garoto atrás de nós murmurou:

— Ei, calem a boca. As líderes da torcida estão falando!

— Oi, pessoal! — disse efusivamente uma garota ao microfone. Era a loura que eu vira na entrada. — Meu nome é Tammi, e esta é, bem, Kelli. — Kelli deu uma estrela.

A meu lado, Rachel gritou como se alguém a tivesse espetado com um alfinete. Alguns garotos olharam na direção dela e soltaram uma risadinha abafada, mas Rachel continuou encarando fixamente as líderes de torcida, aterrorizada. Tammi não pareceu perceber a agitação. Ela começou a falar sobre todas as atividades maravilhosas nas quais poderíamos nos envolver em nosso primeiro ano.

— Corra — disse-me Rachel. — Agora.

— Por quê?

Ela não explicou. Abriu caminho até a lateral da arquibancada, ignorando os professores de testa franzida e os resmungos dos alunos nos quais pisava.

Eu hesitei. Tammi estava explicando que nos dividiríamos em pequenos grupos e faríamos um tour pela escola. O olhar de Kelli encontrou o meu e ela me dirigiu um sorriso divertido, como se estivesse esperando para ver o que eu ia fazer. Ficaria mal se eu saísse naquele momento. Paul Blofis estava lá embaixo com os outros professores. Ele ficaria imaginando qual era o problema.

Então pensei em Rachel Elizabeth Dare, e na habilidade especial que ela demonstrara no último inverno na Barragem de Hoover. Ela conseguira enxergar um grupo de seguranças que não eram guardas de verdade, não eram nem humanos. Com o coração batendo forte, eu me levantei e a segui, saindo do ginásio.

Encontrei Rachel na sala de música. Ela estava escondida atrás de um tambor, na seção de percussão.

— Venha até aqui! — chamou. — Mantenha a cabeça baixa!

Eu me senti bastante bobo escondido atrás de alguns bongôs, mas me agachei ao lado dela.

— Elas seguiram você? — perguntou Rachel.

— Está se referindo às líderes de torcida?

Ela assentiu, nervosa.

— Acho que não — eu disse. — O que elas são? O que foi que você viu?

Seus olhos verdes brilhavam de medo. As sardas salpicadas no rosto me lembravam constelações. Sua camiseta marrom dizia Departamento de Arte de Harvard.

— Você… você não iria acreditar em mim.

— Ah, iria sim — garanti. — Sei que consegue ver através da Névoa.

— Do quê?

— Da Névoa. É… bem, é como um véu que esconde o que as coisas são de verdade. Alguns mortais nascem com a habilidade de enxergar através dela. Como você.

Ela me olhou com atenção.

— Você fez isso na Barragem de Hoover. Disse que eu era mortal. Como se você não fosse.

Tive vontade de dar um soco em um bongô. O que eu estava pensando? Nunca conseguiria explicar. Não deveria nem estar tentando.

— Fale para mim — ela implorou. — Você sabe o que isso quer dizer. Todas essas coisas horríveis que eu vejo?

— Olhe, isso vai soar estranho. Você sabe alguma coisa sobre mitologia grega?

— Como… o Minotauro e a Hidra?

— Sim, mas tente não dizer esses nomes quando eu estiver por perto, o.k.?

— E como as Fúrias — continuou ela, animando-se. — E como as sereias, e…

— O.k.! — Dei uma olhada pela sala de música, certo de que Rachel ia fazer um bando de criaturas asquerosas e sedentas de sangue pular das paredes; mas ainda estávamos sozinhos. Mais à frente, no corredor, ouvi um grupo de garotos saindo do ginásio. Estavam começando o tour. Não tínhamos muito tempo para conversar.

— Todos aqueles monstros — eu disse —, todos os deuses gregos… eles são de verdade!

— Eu sabia!

Teria me sentido mais à vontade se ela tivesse me chamado de mentiroso, mas a expressão de Rachel mostrava que eu acabara de confirmar suas piores suspeitas.

— Você não sabe como é difícil — disse ela. — Durante anos pensei que estivesse ficando maluca. Eu não podia contar a ninguém. Não podia… — Seus olhos se estreitaram. — Peraí. Quem é você? Quer dizer, de verdade?

— Eu não sou um monstro.

— Bem, disso eu sei. Eu veria se você fosse. Você parece… você. Mas não é humano, é?

Engoli em seco. Embora tivesse tido três anos para me acostumar a ser quem era, eu nunca havia falado a respeito disso com um mortal comum — isto é, exceto com minha mãe, mas ela já sabia. Não sei por quê, mas resolvi me arriscar.

— Sou um meio-sangue — eu disse. — Sou metade humano.

— E metade o quê?

Nesse momento Tammi e Kelli entraram na sala de música. As portas se fecharam atrás delas com estrondo.

— Aí está você, Percy Jackson — disse Tammi. — Chegou a hora da sua orientação.

— Elas são horríveis! — suspirou Rachel.

Tammi e Kelli ainda usavam o uniforme roxo e branco de líderes de torcida, segurando os pompons da apresentação.

— Qual é a aparência real delas? — perguntei, mas Rachel parecia perplexa demais para responder.

— Ah, deixe ela para lá! — Tammi me lançou um sorriso brilhante e começou a caminhar na minha direção. Kelli permaneceu na porta, bloqueando nossa saída.

Elas nos haviam apanhado em uma armadilha. Eu sabia que teríamos de lutar para escapar, mas o sorriso de Tammi era tão deslumbrante que me distraía. Seus olhos azuis eram lindos, e o modo como os cabelos balançavam nos ombros…

— Percy — advertiu Rachel.

Eu disse algo muito inteligente, do tipo:

— Hein?

Tammi estava se aproximando. Ela estendeu os pompons.

— Percy! — A voz de Rachel parecia vir de um lugar muito distante. — Dê o fora daí!

Precisei usar toda a minha força de vontade, mas consegui pegar a caneta no bolso e destampá-la. Contracorrente então se transformou em uma espada de bronze de noventa centímetros, a lâmina brilhando com uma suave luz dourada. O sorriso de Tammi tornou-se uma expressão de escárnio.

— Ah, pare com isso! — protestou ela. — Você não precisa disso. Que tal um beijo, em vez dessa coisa?

Ela cheirava a rosas e a pelo limpo de animal — um aroma estranho, mas de alguma forma intoxicante.

Rachel beliscou meu braço com força.

— Percy, ela quer morder você! Olhe para ela!

— Ela só está com ciúme. — Tammi olhou na direção de Kelli. — Posso, senhora?

Kelli ainda estava bloqueando a porta, lambendo os lábios, faminta.

— Vá em frente, Tammi. Está indo bem.

Tammi avançou mais um passo, mas apontei a espada contra seu peito.

— Para trás!

Ela rosnou.

— Calouros — disse, com desprezo. — Esta é a nossa escola, meio-sangue. Nós nos alimentamos de quem escolhemos!

Então ela começou a ficar diferente. A cor se esvaiu de seu rosto e de seus braços. A pele se tornou branca como giz, os olhos, completamente vermelhos. Os dentes cresceram e viraram presas.

— Uma vampira! — balbuciei. Então notei suas pernas. Abaixo da saia do uniforme, a perna esquerda era marrom e peluda, com um casco de burro. A direita tinha o formato de uma perna humana, mas era feita de bronze. — Hã, uma vampira com…

— Não fale das pernas! — disse Tammi. — É grosseiro zombar disso!

Ela avançou com suas pernas estranhas, descombinadas. Parecia totalmente bizarra, mais ainda com os pompons, mas eu não conseguia rir — não encarando aqueles olhos vermelhos e as presas afiadas.

— Uma vampira, você disse? — Kelli riu. — Essa lenda boboca foi inspirada em nós, seu tolo. Somos empousai, servas de Hécate.

— Hummm. — Tammi aproximou-se ainda mais. — A magia negra nos criou a partir de um animal, do bronze e de fantasmas! Existimos para nos alimentar do sangue de homens jovens. Agora venha e me dê aquele beijo!

Ela mostrou as presas. Fiquei paralisado, sem conseguir me mover, mas Rachel jogou um tarol na cabeça da empousa.

O demônio sibilou e, com um golpe, desviou o tarol, que foi rolando pelos corredores entre os suportes de partituras, as molas chocalhando de encontro ao couro. Rachel lançou então um xilofone, mas o demônio também o desviou com um tapa.

— Geralmente não mato garotas — grunhiu Tammi. — Mas para você, mortal, vou abrir uma exceção. Você enxerga um pouquinho demais!

Ela investiu contra Rachel.

— Não! — Desferi um golpe com Contracorrente. Tammi tentou esquivar-se à lâmina, mas consegui perfurar seu uniforme de líder de torcida, e com um gemido horrível ela explodiu em uma nuvem de pó sobre Rachel.

Rachel tossiu. Parecia que tinham acabado de jogar um saco de farinha em cima dela.

— Que nojo!

— Isso acontece com os monstros — eu disse. — Desculpe-me.

— Você matou minha estagiária! — gritou Kelli. — Precisa de uma lição sobre espírito esportivo, meio-sangue!

Então ela também começou a se transformar. Os cabelos crespos tornaram-se chamas bruxuleantes. Os olhos ficaram vermelhos. As presas cresceram. Ela veio em nossa direção, o pé de bronze e o casco ressoando descompassados no piso da sala de música.

— Eu sou a empousa sênior — grunhiu. — Nenhum herói me derrota há mil anos.

— Mesmo? — perguntei. — Então já passou da validade!

Kelli era bem mais rápida que Tammi. Esquivou-se ao meu primeiro golpe e rolou para a seção de metais, derrubando uma fileira de trombones com um ruído altíssimo. Rachel saiu do caminho. Coloquei-me entre ela e a empousa. Kelli nos rodeou, os olhos indo de mim para a espada.

— Uma laminazinha tão linda — disse ela. — Que pena que está entre nós dois.

Sua forma tremeluzia — às vezes um demônio, às vezes uma linda líder de torcida. Eu tentava manter a mente focada, mas aquilo era muito perturbador.

— Pobrezinho — riu Kelli. — Você não sabe nem o que está acontecendo, não é? Logo seu lindo acampamentozinho estará em chamas, seus amigos se tornarão escravos do Senhor do Tempo, e não há nada que possa fazer para evitar isso. Seria até misericordioso dar um fim à sua vida agora, antes que tenha tempo de assistir a tudo.

Eu ouvia vozes vindo do fim do corredor. Um grupo fazendo o tour se aproximava. Um homem falava algo sobre combinação de cadeados.

Os olhos da empousa se iluminaram.

— Excelente! Vamos ter companhia!

Ela apanhou uma tuba e a lançou contra mim. Rachel e eu nos abaixamos. A tuba voou sobre nossas cabeças e quebrou a janela.

As vozes no corredor se calaram.

— Percy! — gritou Kelli, fingindo-se assustada. — Por que você atirou aquilo?

Eu estava surpreso demais para responder. Kelli pegou um suporte de partitura e atingiu uma fileira de clarinetas e flautas. Cadeiras e instrumentos musicais desabaram no chão com um estrondo.

— Pare! — eu gritei.

As pessoas agora disparavam pelo corredor, vindo em nossa direção.

— Hora de cumprimentar os nossos visitantes! — Kelli arreganhou as presas e correu para as portas. Fui atrás dela com Contracorrente. Precisava evitar que ela ferisse os mortais.

— Percy, não! — gritou Rachel. Mas eu não percebi o que Kelli pretendia até que fosse tarde demais.

Kelli abriu as portas. Paul Blofis e um grupo de calouros recuaram, em choque. Eu ergui minha espada.

No último segundo, a empousa se virou para mim como uma vítima apavorada.

— Ah, não, por favor! — gritou.

Eu não podia parar a lâmina, que já estava em movimento.

Segundos antes de o bronze celestial atingi-la, Kelli explodiu em chamas como um coquetel molotov. Ondas de fogo lançaram-se sobre tudo. Eu nunca vira um monstro fazer algo assim, mas não tinha tempo para pensar no assunto. Recuei para a sala de música enquanto as chamas engoliam o vão de entrada.

— Percy? — Paul Blofis parecia totalmente atônito, fitando-me através do fogo. — O que você fez?

Adolescentes gritavam e corriam pelo corredor. O alarme de incêndio soava. Os sprinklers no teto silvavam, ganhando vida.

Em meio ao caos, Rachel me puxou pela manga da camisa.

— Você precisa sair daqui!

Ela estava certa. A escola estava em chamas e a culpa seria atribuída a mim. Os mortais não conseguiam ver com perfeição através da Névoa. Para eles, pareceria que eu atacara uma garota indefesa diante de um grupo de testemunhas. Não havia como eu explicar. Dei as costas para Paul e disparei para a janela da sala de música destruída.

Saí da viela na 81 Leste e dei de cara com Annabeth.

— Ei, você saiu cedo! — Ela riu, agarrando meus ombros para evitar que eu me estatelasse no chão. — Olhe para onde está indo, Cabeça de Alga.

Por uma fração de segundo ela estava de bom humor e tudo corria bem. Vestia jeans e a camisa laranja do acampamento, e usava o colar de contas de cerâmica. O cabelo louro estava preso em um rabo de cavalo. Os olhos cinzentos brilhavam. Ela parecia pronta para ir ao cinema e passar uma tarde divertida comigo.

Então Rachel Elizabeth Dare, ainda coberta de poeira de monstro, veio correndo pela viela, gritando:

— Percy, espere!

O sorriso de Annabeth se desfez. Ela olhou para Rachel e, em seguida, para a escola. Foi então que pareceu notar a fumaça negra e o som dos alarmes de incêndio.

Ela me olhou, franzindo a testa.

— O que foi que você fez dessa vez? E quem é essa?

— Ah, Rachel… Annabeth. Annabeth… Rachel. Hã, ela é uma amiga, acho.

Eu não sabia ao certo como chamar Rachel. Quer dizer, eu mal a conhecia, mas, depois de estarmos juntos duas vezes em situações de vida ou morte, eu não podia simplesmente dizer que ela não era ninguém.

— Oi — disse Rachel, e então se virou para mim: — Você está muito encrencado. E ainda me deve uma explicação!

As sirenes da polícia gemiam na FDR Drive.

— Percy — Annabeth falou com frieza. — Precisamos ir.

— Quero saber mais sobre meios-sangues — insistiu Rachel. — E monstros. E essa história dos deuses. — Ela agarrou meu braço, pegou uma caneta permanente e escreveu um número de telefone em minha mão. — Vai me ligar e explicar tudo, o.k.? Você me deve isso. Agora vá.

— Mas…

— Vou inventar uma história — disse Rachel. — Vou dizer a eles que não foi culpa sua. Mas vá!

Ela voltou correndo para a escola, deixando-me na rua com Annabeth.

Annabeth me encarou por um segundo. Então se virou e começou a correr.

— Ei! — Fui atrás dela. — Lá dentro tinha duas empousai — tentei explicar. — Eram líderes de torcida, sabe, e disseram que o acampamento ia pegar fogo, e…

— Você contou a uma garota mortal sobre os meios-sangues?

— Ela pode ver através da Névoa. Viu os monstros antes que eu os notasse.

— Então você contou a ela a verdade.

— Ela me reconheceu da Barragem de Hoover…

— Você a tinha encontrado antes?

— Hã… O inverno passado. Mas, sério, eu mal a conheço.

— Ela é bem bonitinha.

— Eu… eu nunca reparei nisso.

Annabeth continuava andando na direção da avenida York.

— Vou resolver a história da escola — prometi, ansioso para mudar de assunto. — De verdade, vai ficar tudo bem.

Annabeth nem mesmo me olhava.

— Acho que nossa tarde já era. É melhor tirarmos você daqui, agora que a polícia vai sair à sua procura.

Atrás de nós, a fumaça se erguia da Goode High School em ondas. Na coluna escura de cinzas tive a impressão de quase enxergar um rosto — um demônio feminino, de olhos vermelhos, rindo de mim.

Seu lindo acampamentozinho em chamas, dissera Kelli. Seus amigos transformados em escravos do Senhor do Tempo.

— Você tem razão — disse a Annabeth, com o coração apertado. — Precisamos ir para o Acampamento Meio-Sangue. Agora.

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Filme O Ladrão de Raios | Trailer 3
Filme O Ladrao de Raios Cartaz 1
País: EUA
Ano: 2010

Terceiro trailer do filme O Ladrão de Raios, baseado no primeiro livro da série Percy Jackson e Os Olimpianos (criada por Rick Riordan), sucesso mundial de vendas e vencedor de diversos prêmios, entre eles o de livro notável do jornal The New York Times.

Filme estrelado por grande elenco, inclusive Logan Lerman, Pierce Brosnan, Uma Thurman, Sean Bean, Rosario Dawson, Alexandra Daddario e Brandon T. Jackson.

O filme O Ladrão de Raios (Percy Jackson 1) chegará aos cinemas do Brasil no dia 12 de Fevereiro de 2010 (previsão).

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Filme: O Ladrão de Raios (Percy Jackson 1) | Trailer 2
Logan Lerman Percy Jackson
Ano: 2010
Produção: 1492 Pictures, Fox 2000 Pictures e Imprint Entertainment

O Ladrão de Raios (2010), filme baseado no primeiro livro da série Percy Jackson e Os Olimpianos, criada pelo escritor Rick Riordan.

Película dirigida pelo norte-americano Chris Columbus, diretor dos dois primeiros filmes da série Harry Potter, Esqueceram de Mim 1 e 2, O Homem Bicentenário, entre outros.

Filme estrelado por Logan Lerman, Pierce Brosnan, Uma Thurman, Sean Bean e grande elenco.

O filme O Ladrão de Raios (Percy Jackson) tem estreia prevista nos cinemas brasileiros para o dia 12 de Fevereiro de 2010.

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Trecho do Livro: A Maldição do Titã (Percy Jackson 3)
Livro A Maldicao do Tita
Autor: Rick Riordan
Editora: Intrínseca
ISBN: 9788598078588

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Na sexta-feira anterior às férias de inverno, minha mãe arrumou para mim uma maleta de viagem e algumas armas mortais e me levou até um novo internato. No caminho, pegamos minhas amigas Annabeth e Thalia.

Era uma viagem de oito horas de Nova York até Bar Harbor, no Maine. Chuva e neve fustigavam a estrada. Annabeth, Thalia e eu não nos víamos fazia meses, mas entre a nevasca e o pensamento voltado para o que estávamos prestes a fazer, estávamos nervosos demais para conversar. Exceto minha mãe. Ela fala mais se fica nervosa. Quando finalmente chegamos a Westover Hall, estava escurecendo, e ela havia contado a Annabeth e a Thalia todas as constrangedoras histórias de bebê que havia para contar a meu respeito.

Thalia limpou a janela embaçada do carro e espiou lá fora.

— É, isso vai ser divertido.

Westover Hall parecia o castelo de um cavaleiro do mal. Era todo de pedras negras, com torres e janelas estreitas, e um grande conjunto de portas duplas de madeira. Erguia-se sobre um penhasco escarpado, coberto de neve, que dava vista para uma grande floresta gelada de um dos lados e para o oceano cinzento e agitado do outro.

— Vocês têm certeza de que não querem que eu espere? — perguntou minha mãe.

— Não, obrigado, mãe — respondi. — Não sei quanto tempo vai levar. Vamos ficar bem.

— Mas como é que vocês vão voltar? Estou preocupada, Percy.

Torci para não ficar vermelho. Já era bastante ruim depender de minha mãe para me levar até minhas batalhas.

— Está tudo bem, sra. Jackson. — Annabeth sorriu, tranquilizadora. Seus cabelos louros estavam enfiados debaixo de um gorro de esqui e os olhos cinzentos tinham a mesma cor do oceano. — Vamos mantê-lo longe de encrencas.

Minha mãe pareceu relaxar um pouco. Ela acha que Annabeth é a semideusa mais equilibrada a chegar à oitava série. E tem certeza de que Annabeth sempre impede que eu seja morto. Ela tem razão, mas isso não quer dizer que eu tenha de gostar desse fato.

— Muito bem, queridos — disse minha mãe. — Vocês têm tudo de que precisam?

— Sim, sra. Jackson — respondeu Thalia. — Obrigada pela carona.

— Suéteres extras? O número do meu celular?

— Mãe…

— Sua ambrosia e seu néctar, Percy? E um dracma de ouro para o caso de precisar entrar em contato com o acampamento?

— Mãe, fala sério! Vamos ficar bem. Andem, meninas.

Ela pareceu um pouco magoada, e eu lamentei por isso, mas estava pronto para saltar daquele carro. Se mamãe contasse mais uma história sobre como eu ficava uma gracinha na banheira quando tinha três anos, eu ia me enterrar na neve e congelar até a morte.

Annabeth e Thalia me seguiram, saindo do carro. O vento soprava, atravessando meu casaco como punhais de gelo.

Assim que o carro da minha mãe estava fora do campo de visão, Thalia disse:

— Sua mãe é tão legal, Percy.

— Ela é legal — admiti. — E você? Tem contato com a sua mãe?

Assim que fiz a pergunta, desejei ter ficado calado. Thalia era ótima em lançar olhares diabólicos, ainda mais com as roupas punk que sempre usava — o casaco militar rasgado, a calça de couro preto e as correntes, o rímel preto e aqueles olhos azuis intensos. Mas o olhar que ela me dirigiu agora era um perfeito “dez” na escala do mal.

— Se isso fosse da sua conta, Percy…

— É melhor entrarmos — interrompeu Annabeth. — Grover deve estar nos esperando.

Thalia olhou para o castelo e estremeceu.

— Tem razão. O que será que ele encontrou aqui que o fez enviar o pedido de socorro?

Ergui os olhos para as torres escuras de Westover Hall.

— Nada de bom — presumi.

As portas de carvalho se abriram rangendo e nós três entramos no saguão em meio a um redemoinho de neve.

— Uau — foi tudo que pude dizer.

O lugar era imenso. As paredes eram revestidas por estandartes de batalha e vitrines com armas: rifles antigos, machados e um monte de outras coisas. Bem, eu sabia que Westover era uma escola militar e tudo o mais, porém a decoração parecia de matar. Literalmente.

Minha mão foi até o bolso, onde eu mantinha minha caneta esferográfica letal, Contracorrente. Eu já podia pressentir algo de errado naquele lugar. Algo perigoso. Thalia esfregava o bracelete de prata, seu item mágico favorito. Eu sabia que estávamos pensando o mesmo. Uma batalha se aproximava.

Annabeth começou a dizer:

— Queria saber onde…

As portas se fecharam violentamente atrás de nós.

— Ooo.k. — murmurei. — Acho que vamos ficar algum tempo por aqui.

Eu podia ouvir uma música ecoando, vinda da outra extremidade do saguão. Parecia dance music.

Escondemos nossas maletas atrás de uma coluna e começamos a caminhar naquela direção. Não havíamos ido muito longe quando ouvi passos no piso de pedra, e um homem e uma mulher saíram das sombras para nos interceptar.

Ambos tinham cabelos grisalhos curtos e uniforme preto com debrum vermelho, no estilo de militar. A mulher tinha um leve bigode e o homem estava perfeitamente barbeado, o que me pareceu meio invertido. Ambos caminhavam rígidos, como se tivessem cabos de vassoura presos às costas com fitas adesivas.

— Então? — perguntou a mulher. — O que estão fazendo aqui?

— Hã… — Percebi que não havia me programado para essa possibilidade. Ficara tão concentrado em chegar até Grover e descobrir o que estava errado que não pensei que alguém poderia estranhar três crianças entrando sorrateiramente numa escola à noite. Não havíamos conversado no carro sobre como entraríamos. — Senhora, estamos apenas… — comecei.

— Ora! — interrompeu o homem, o que me fez pular. — Não é permitida a entrada de visitantes no baile! Vocês serão ecs-pulsos!

Ele tinha sotaque — francês, talvez. Pronunciava o x como em pixel. Era alto e tinha um rosto aquilino. As narinas se abriam e fechavam quando ele falava, o que tornava muito difícil não fitar seu nariz, e seus olhos eram de cores diferentes — um castanho, outro azul —, como os de um gato de rua.

Calculei que ele estivesse prestes a nos atirar na neve, mas, nesse momento, Thalia deu um passo à frente e fez algo muito estranho.

Ela estalou os dedos. O som foi agudo e alto. Talvez fosse apenas a minha imaginação, mas senti uma rajada de vento surgir de sua mão e atravessar a sala como uma onda. A tal lufada passou sobre todos nós, fazendo farfalhar os estandartes nas paredes.

— Ah, mas não somos visitantes, senhor — disse Thalia. — Frequentamos esta escola. O senhor lembra de nós: eu sou Thalia. E estes são Annabeth e Percy. Estamos no oitavo ano.

O professor estreitou os olhos de duas cores. Eu não sabia o que Thalia estava pensando. Agora provavelmente seríamos punidos por mentir e atirados na neve. Mas o homem pareceu hesitar.

Ele olhou para a colega.

— Sra. Tengiz, conhece estes alunos?

Apesar do perigo que corríamos, tive de morder a língua para não rir. Uma professora chamada Tem Giz? Ele só podia estar brincando.

A mulher piscou, como se alguém acabasse de acordá-la de um transe.

— Eu… sim, creio que sim, senhor. — Ela nos olhou, franzindo o cenho. — Annabeth. Thalia. Percy. O que estão fazendo fora do ginásio?

Antes que pudéssemos responder, ouvi mais passos, e Grover chegou correndo, sem fôlego.

— Vocês conseguiram! Vocês…

Ele interrompeu a fala quando viu os professores.

— Ah, sra. Tengiz. Dr. Espinheiro! Eu, hã…

— O que é isso, sr. Underwood? — perguntou o homem. Seu tom deixava claro que ele detestava Grover. — O que quer dizer com eles conseguiram? Estes alunos moram aqui.

Grover engoliu em seco.

— Sim, senhor. Claro, dr. Espinheiro. Eu só quis dizer que estou muito contente por eles terem conseguido… o ponche para o baile! Está delicioso. E foram eles que fizeram!

O dr. Espinheiro nos fuzilou com o olhar. Concluí que um de seus olhos tinha de ser falso. O castanho? O azul? Ele parecia querer nos arremessar da torre mais alta do castelo, mas nesse momento a sra. Tengiz disse, um pouco fora do ar:

— É, o ponche está excelente. Agora vamos, todos. Vocês não podem mais sair do ginásio!

Não esperamos que ela repetisse. Partimos com uma porção de “Sim, senhora” e “Sim, senhor” e algumas continências, só porque parecia a coisa certa a fazer.

Grover nos conduziu apressadamente pelo saguão, na direção da música.

Eu podia sentir os olhos dos professores nas minhas costas, mas caminhava próximo a Thalia e perguntei em voz baixa:

— Como é que você fez aquele negócio de estalar os dedos?

— Refere-se à Névoa? Quíron ainda não mostrou a você como fazer isso?

Um nó desconfortável formou-se em minha garganta. Quíron era nosso principal treinador no acampamento, mas nunca tinha me ensinado nada desse gênero. Por que ele havia ensinado a Thalia e não a mim?

Grover nos impeliu para uma porta onde se lia a palavra ginásio no vidro. Apesar da dislexia, consegui ler.

— Essa foi por pouco! — disse Grover. — Graças aos deuses vocês chegaram aqui!

Annabeth e Thalia abraçaram Grover. Eu o cumprimentei com a mão espalmada.

Era bom vê-lo depois de tantos meses. Ele estava um pouco mais alto e tinha um pouco mais de barba, mas, fora isso, era o mesmo de sempre ao se passar por humano — um boné vermelho sobre os cabelos castanhos encaracolados, a fim de esconder os chifres de bode, jeans largo e tênis com pés falsos para disfarçar as pernas peludas e os cascos. Vestia uma camiseta preta, cujos dizeres levei alguns segundos para ler. Estava escrito: “Westover Hall: Praça”. Eu não tinha muita certeza se isso era… hã… a patente de Grover ou apenas o lema da escola.

— Então, qual é a emergência? — perguntei.

Grover respirou fundo.

— Encontrei dois.

— Dois meios-sangues? — perguntou Thalia, perplexa. — Aqui?

Grover assentiu.

Encontrar um meio-sangue já era bastante raro. Durante o ano, Quíron havia posto os sátiros em plantão de emergência e os mandado aos quatro cantos do país, esquadrinhando as escolas do quinto ano até o ensino médio em busca de possíveis recrutas. Era época de desespero. Estávamos perdendo campistas. Precisávamos de todos os novos combatentes que pudéssemos encontrar. O problema era que não havia muitos semideuses por aí.

— Irmão e irmã — informou ele. — Estão com dez e doze anos. Não sei quem são seus pais, mas são fortes. E nosso tempo está se esgotando. Preciso de ajuda.

— Monstros?

— Um. — Grover parecia nervoso. — Ele está desconfiado. Não creio que já tenha certeza, e hoje é o último dia do período letivo. Estou certo de que não vai deixá-los ir embora sem decifrar o caso. Esta pode ser a nossa última chance! Todas as vezes que tento me aproximar deles, ele está lá, bloqueando a minha passagem. Não sei o que fazer!

Grover olhou para Thalia desesperado. Tentei não ficar aborrecido com isso. Grover costumava olhar para mim em busca de respostas, mas Thalia tinha primazia. Não só porque seu pai era Zeus. Thalia tinha mais experiência do que qualquer um de nós em se defender de monstros no mundo real.

— Certo — disse ela. — Esses meios-sangues estão no baile?

Grover assentiu.

— Então vamos dançar — decidiu ela. — Quem é o monstro?

— Ah — disse Grover, olhando ao redor, nervoso. — Vocês acabam de conhecê-lo. É o vice-diretor, o dr. Espinheiro.

Uma coisa estranha nas escolas militares: as crianças ficam totalmente enlouquecidas quando há um evento especial que lhes permita se livrar do uniforme. Acho que é porque tudo é tão rígido o resto do tempo que elas sentem que, em ocasiões fora da rotina, precisam compensar essa rigidez ao máximo ou coisa parecida.

Havia bolas de gás pretas e vermelhas por todo o chão do ginásio, e os garotos as chutavam na cara uns dos outros, ou tentavam se estrangular com as serpentinas de papel crepom presas às paredes. As garotas andavam de um lado para o outro em grupos, como sempre fazem, usando muita maquiagem e blusinhas de alça fina, calças de cores berrantes e sapatos que pareciam instrumentos de tortura. De vez em quando, cercavam o pobre coitado de um garoto, como um cardume de peixes, dando gritinhos e risadinhas, e, quando elas finalmente o deixavam, o garoto tinha fitas nos cabelos e um monte de riscos de batom pelo rosto. Alguns dos caras mais velhos se pareciam mais comigo — pouco à vontade, nos cantos do ginásio, tentando se esconder, como se a qualquer minuto fossem precisar lutar por suas vidas. Naturalmente, no meu caso, isso era verdade…

— Lá estão eles. — Grover fez um gesto com a cabeça na direção de um casal de crianças discutindo nas arquibancadas. — Bianca e Nico di Angelo.

A garota usava um gorro verde que caía sobre o rosto, como se estivesse tentando escondê-lo. O garoto era obviamente seu irmão mais novo. Ambos tinham cabelos escuros e sedosos e pele morena, e gesticulavam muito com as mãos enquanto falavam. O garoto embaralhava algum tipo de carta. A irmã parecia repreendê-lo por alguma coisa. Ela ficava olhando à volta o tempo todo, como se pressentisse que algo estava errado.

— Eles já… bem, você já contou a eles? — perguntou Annabeth.

Grover sacudiu a cabeça.

— Você sabe como é. Isso poderia colocá-los ainda mais em perigo. Quando se dão conta de quem são, seu cheiro se torna mais forte.

Ele olhou para mim e eu assenti. Nunca entendi de fato como os meios-sangues “cheiram” para os monstros e os sátiros, mas sabia que esse cheiro pode significar a morte. E quanto mais poderoso você se torna como semideus, mais cheira a almoço de monstro.

— Então vamos pegá-los e dar o fora daqui — disse eu.

Comecei a me adiantar, mas Thalia pousou a mão no meu ombro. O vice-diretor, o dr. Espinheiro, havia saído de uma porta perto da arquibancada e estava parado junto aos irmãos di Angelo. Ele acenou friamente com a cabeça em nossa direção. O olho azul pareceu brilhar.

A julgar por sua expressão, supus que Espinheiro não havia sido enganado pelo truque de Thalia com a Névoa, afinal. Ele desconfiava de quem éramos. Estava só esperando para ver por que estávamos ali.

— Não olhe para as crianças — ordenou Thalia. — Temos de esperar uma oportunidade de pegá-las. Precisamos fingir que não estamos interessados nelas. Despistá-lo.

— Como?

— Somos três meios-sangues poderosos. Nossa presença deve confundi-lo. Misturem-se. Ajam com naturalidade. Dancem um pouco. Mas fiquem de olho naquelas crianças.

— Dançar? — perguntou Annabeth.

Thalia assentiu. Ela virou o ouvido na direção da música e fez uma careta.

— Argh. Quem escolheu Jesse McCartney?

Grover pareceu ofendido.

— Eu.

— Ah, meus deuses, Grover. Isso é tão careta! Você não pode tocar, hum, Green Day ou algo assim?

— Green o quê?

— Deixa pra lá. Vamos dançar.

— Mas eu não consigo dançar.

— Consegue, se eu conduzi-lo — disse Thalia. — Vamos lá, menino bode.

Grover gemeu quando Thalia agarrou sua mão e o levou para a pista de dança.

Annabeth sorriu.

— O que foi? — perguntei.

— Nada. Só que é legal ter Thalia de volta.

Annabeth ficara mais alta do que eu desde o último verão, o que eu achei meio incômodo. Não costumava usar nenhuma joia, exceto pelo colar de contas do Acampamento Meio-Sangue, mas agora usava brinquinhos de prata no formato de corujas — o símbolo de sua mãe, Atena. Ela tirou o gorro de esqui e os longos cabelos louros caíram sobre os ombros. Por alguma razão, isso fez com que parecesse mais velha.

— Então… — Tentei pensar em algo para dizer. Ajam com naturalidade, Thalia nos dissera. Você é um meio-sangue em uma missão perigosa: o que, diabos, é natural? — Hum, tem desenhado algum edifício legal ultimamente?

Os olhos de Annabeth se iluminaram, como sempre acontecia quando falava sobre arquitetura.

— Ah, meus deuses, Percy. Na minha escola nova, faço desenho em perspectiva como matéria eletiva, e tem um programa de computador superlegal…

Ela continuou explicando como havia projetado um enorme monumento que queria construir no Marco Zero, em Manhattan. Falou sobre suportes estruturais e fachadas e coisas desse tipo, e eu tentei prestar atenção. Sabia que ela queria ser uma superarquiteta quando crescesse — ela adorava matemática, edifícios históricos e tudo o mais —, mas eu mal compreendia uma palavra do que estava dizendo.

A verdade é que eu estava meio desapontado por saber que ela gostava tanto assim da nova escola. Era a primeira vez que Annabeth frequentava uma em Nova York. Eu tinha esperanças de vê-la mais vezes. Ela e Thalia estavam matriculadas nesse internato no Brooklyn, que era perto o bastante do Acampamento Meio-Sangue para que Quíron pudesse ajudar no caso de elas se meterem em alguma encrenca. Como era uma escola só para meninas, eu frequentava a MS-54, em Manhattan, e mal as via.

— É, ah, legal — disse eu. — Então você vai ficar lá o resto do ano, é?

A expressão dela ficou sombria.

— Bem, talvez, se eu não…

— Ei! — chamou Thalia. Ela estava dançando uma música lenta com Grover, que tropeçava nos próprios pés e chutava as canelas dela com uma cara de quem queria morrer. Pelo menos os pés dele eram falsos. Diferentemente de mim, ele tinha uma desculpa para ser desajeitado.

— Dancem, vocês também! — mandou Thalia. — Parecem idiotas aí parados sem fazer nada.

Olhei nervosamente para Annabeth e, em seguida, para os grupos de garotas que percorriam o ginásio.

— E então? — perguntou Annabeth.

— Hã, quem eu devo tirar para dançar?

Ela me deu um soco na barriga.

— Eu, Cabeça de Alga.

— Ah. Ah, está bem.

Então fomos para a pista de dança, e eu olhei para ver como Thalia e Grover estavam se arrumando. Coloquei a mão no quadril de Annabeth, e ela agarrou minha outra mão, como se estivesse prestes a me aplicar um golpe de judô.

— Não vou morder você — disse ela. — Francamente, Percy. Vocês garotos não têm bailes na sua escola?

Não respondi. A verdade é que tínhamos. Mas eu nunca, hã, dançava neles. Em geral, era um dos garotos jogando basquete, no canto.

Arrastamos os pés de um lado para o outro por alguns minutos. Tentei me concentrar nos pequenos detalhes, como as serpentinas de papel crepom e a poncheira — em qualquer coisa exceto o fato de Annabeth ser mais alta do que eu e de minhas mãos estarem suadas e provavelmente nojentas, e de eu ficar pisando nos dedos dos pés dela.

— O que você estava dizendo antes? — perguntei. — Está tendo problemas na escola ou algo assim?

Ela apertou os lábios.

— Não é isso. É o meu pai.

— Hum, hum. — Eu sabia que Annabeth tinha um relacionamento difícil com o pai. — Achei que as coisas estivessem melhorando entre vocês. É a sua madrasta de novo?

Annabeth suspirou.

— Ele resolveu mudar. Justamente quando eu estava me acostumando com Nova York, ele aceitou esse emprego estúpido como pesquisador para um livro sobre a Primeira Guerra Mundial. Em São Francisco.

Ela disse isso da mesma forma como diria Campos da Punição ou uniforme de ginástica do Hades.

— Então seu pai quer que você vá para lá com ele? — perguntei.

— Para o outro lado do país — disse ela, infeliz. — E meios-sangues não podem viver em São Francisco. Ele devia saber disso.

— O quê? Por que não?

Annabeth revirou os olhos. Talvez ela pensasse que eu estava brincando.

— Você sabe. Está bem lá.

— Ah — eu disse. Não tinha a menor ideia do que ela estava falando, mas não queria parecer estúpido. — Então… você vai voltar a morar no acampamento ou o quê?

— É algo mais sério do que isso, Percy. Eu… eu devia lhe contar uma coisa.

De repente ela congelou.

— Eles sumiram.

— O quê?

Segui seu olhar. As arquibancadas. As duas crianças meios-sangues, Bianca e Nico, não estavam mais lá. A porta perto das arquibancadas estava escancarada. O dr. Espinheiro não se encontrava em nenhum lugar à vista.

— Precisamos buscar Thalia e Grover! — Annabeth olhava à sua volta freneticamente. — Ah, para onde eles foram? Venha!

Ela saiu correndo no meio da multidão. Eu estava prestes a segui-la quando uma horda de garotas se interpôs em meu caminho. Dei a volta, desviando-me delas, a fim de evitar o tratamento fita-e-batom, e, quando consegui me livrar, Annabeth também havia desaparecido. Contornei todo o lugar, procurando por ela, Thalia ou Grover. Em vez deles, vi algo que fez o meu sangue gelar.

A cerca de quinze metros, caído no chão do ginásio, estava um gorro verde, exatamente como o que Bianca di Angelo estava usando. Perto dele, viam-se algumas cartas espalhadas. Então vi de relance o dr. Espinheiro. Ele saía apressado por uma porta na extremidade oposta do ginásio, levando as crianças di Angelo pela nuca, como se fossem gatinhos.

Eu ainda não conseguia ver Annabeth, mas sabia que ela seguira para o outro lado, à procura de Thalia e Grover. Eu quase corri atrás dela, mas então pensei: Espere.

Lembrei-me do que Thalia dissera no saguão de entrada, olhando-me surpresa quando perguntei sobre o truque de estalar os dedos: Quíron ainda não mostrou a você como fazer isso? Pensei na maneira como Grover tinha olhado para ela, esperando que ela salvasse a pátria.

Não que eu estivesse ressentido com Thalia. Ela era legal. Não era culpa dela ser filha de Zeus e receber toda a atenção… No entanto, eu não precisava correr atrás dela para resolver todos os problemas. Além disso, não havia tempo. Os di Angelo estavam em perigo. Eles podiam já estar desaparecidos quando eu encontrasse meus amigos. Eu conhecia monstros. Era capaz de lidar com aquilo sozinho.

Tirei Contracorrente do bolso e corri atrás do dr. Espinheiro.

A porta levava a um corredor escuro. Ouvi sons de luta à frente, então um grunhido de dor. Tirei a tampa de Contracorrente.

A caneta cresceu em minhas mãos até eu me ver segurando uma espada grega de bronze, de cerca de noventa centímetros, com cabo de couro. A lâmina brilhou levemente, lançando uma luz dourada nas fileiras de armários.

Disparei pelo corredor, mas, quando cheguei à outra extremidade, não havia ninguém ali. Abri uma porta e estava de volta ao saguão principal de entrada. Eu tinha dado uma volta completa. Não via o dr. Espinheiro em parte alguma, mas lá estavam, no lado oposto da sala, os irmãos di Angelo. Eles estavam paralisados de terror, olhando diretamente para mim.

Avancei devagar, baixando a ponta da espada.

— Está tudo bem. Eu não vou machucar vocês.

Eles não responderam. Seus olhos estavam cheios de pavor.

O que havia de errado com eles? Onde estava o dr. Espinheiro? Talvez ele tivesse pressentido a presença de Contracorrente e batido em retirada. Os monstros detestavam armas celestiais de bronze.

— Meu nome é Percy — disse eu, tentando manter a voz controlada. — Vou tirar vocês daqui, levá-los para um lugar seguro.

Os olhos de Bianca se arregalaram. Os punhos se apertaram. Somente quando era tarde demais percebi o que o olhar dela queria dizer. Ela não estava com medo de mim. Estava tentando me avisar.

Dei meia-volta e alguma coisa fez uiiiish! A dor explodiu em meu ombro. Uma força semelhante à de uma imensa mão me puxou para trás e me atirou contra a parede.

Brandi a espada, mas não havia nada para atingir. Uma risada fria ecoou pelo saguão.

— Sim, Perseu Jackson — disse o dr. Espinheiro. Seu sotaque desfigurou o J no meu sobrenome. — Eu sei quem você é.

Tentei libertar meu ombro. Meu casaco e minha camisa estavam espetados na parede por uma espécie de espinho — um projétil negro, semelhante a um punhal, de cerca de trinta centímetros. Ele havia arranhado a pele do meu ombro ao atravessar a roupa, e o corte queimava. Eu já sentira algo assim antes. Veneno.

Forcei-me a me concentrar. Eu não ia desmaiar.

Uma silhueta negra agora movia-se em nossa direção. O dr. Espinheiro entrou na área iluminada pela luz pálida. Ele ainda parecia humano, mas seu rosto era demoníaco. Tinha dentes brancos perfeitos e seus olhos castanho/azul refletiam a claridade da minha espada.

— Obrigado por sair do ginásio — disse ele. — Odeio esses bailinhos de escola.

Tentei novamente brandir a espada, mas ele estava fora do meu alcance.

Uiiiish! Um segundo projétil surgiu de algum ponto atrás do dr. Espinheiro. Mas ele aparentemente não se movera. Era como se alguém invisível estivesse atrás dele atirando facas.

Perto de mim, Bianca gemeu. O segundo espinho empalou-se na parede de pedra, a um centímetro do rosto dela.

— Vocês três virão comigo — determinou o dr. Espinheiro. — Quietos. Obedientes. Se fizerem um só ruído, se gritarem por socorro ou tentarem lutar, vou lhes mostrar o quanto minha mira pode ser precisa.

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Filme: Percy Jackson – O Ladrão de Raios | Trailer

Filme Percy Jackson O Ladrao de Raios Logan Lerman

Estúdios: 1492, Fox 2000 e Imprint Entertainment
Ano: 2010

Filme baseado no premiado e excelente livro do escritor Rick Riordan “O Ladrão de Raios” (leia o primeiro capítulo), primeiro volume da série Percy Jackson e Os Olimpianos, composta por cinco livros dos quais três já foram lançados no Brasil. Os livros são: “O Ladrão de Raios“, “O Mar de Monstros” (leia o primeiro capítulo), “A Maldição do Titã” (leia o primeiro capítulo), “The Battle of the Labyrinth” e “The Last Olympian”.

Película dirigida por Chris Columbus e estrelada por Logan Lerman (Percy Jackson), Pierce Brosnan, Rosario Dawson, Sean Bean, Uma Thurman, Catherine Keener, Kevin McKidd, Melina Kanakaredes, Alexandra Daddario e Brandon T. Jackson.

O filme “Percy Jackson e Os Olimpianos – O Ladrão de Raios” tem estreia prevista para o dia 12 de fevereiro de 2010 nos cinemas dos Estados Unidos.
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